24 Nov, 2017

Uma análise à Época do Tetracampeão

Pedro AfonsoJunho 1, 20178min0

Uma análise à Época do Tetracampeão

Pedro AfonsoJunho 1, 20178min0

Tetracampeões. Uma novidade para as hostes benfiquistas. E que novidade! Os encarnados cimentam a sua posição como clube português mais titulado e colocam o último prego no caixão da hegemonia portuense, que vigorou durante os últimos 30 anos. Mas que época foi esta? Poderemos reduzir todo um ano a um título, mesmo que signifique ser Tetracampeão?

Ainda a época não tinha começado e já as vozes da desconfiança se erguiam: por um lado, um Sporting com contratações sonantes e uma espécie de all-in para a conquista do tão almejado título de campeão nacional; por outro lado, a contratação de NES que viria, em teoria, reacender a mística portista; e ao centro, a falta de soluções credíveis para a saída de Renato e Gaitán. Mas se ainda havia dúvidas acerca do técnico Rui Vitória ser capaz de ser reinventar, a vitória na Supertaça por 3-0 frente ao Braga serviu para dissipar as dúvidas. Foi o arranque perfeito para uma época com 62 jogos, 42 vitórias, 12 empates, 8 derrotas, 136 (!) golos marcados e apenas 48 sofridos.

O “golo” [Fonte: MaisFutebol]

Pontos altos

  • A vitória por 2-1 frente ao Sporting CP. Para além do óbvio simbolismo que se prende com a vitória num derby, este jogo serviu para quebrar o enguiço, foi um afastar de uma vez por todas as superioridade de JJ nos mind-games e demonstrar que o Benfica se tornou, com Rui Vitória, uma equipa madura, cínica, fria e competente.
  • 5-0 ao Vitória SC. Há maneiras e maneiras de se ser campeão. No fundo, é “apenas” confirmar que, matematicamente, será impossível para os adversários ultrapassar a nossa pontuação. E o Benfica, em casa, foi capaz da melhor exibição da época, com “nota artística”, num autêntico banho de futebol que culminaria com a vespa de Eliseu.
  • A conquista da Supertaça. Uma vitória por uns expressivos 3-0 que foi capaz de dissipar dúvidas acerca da capacidade do técnico ribatejano e acerca da valia do plantel encarnado.

Traição e falta de carácter. [Fonte: Goal.com]

Pontos baixos

  • Derrota frente ao Moreirense para a Taça da Liga. Não desvirtuando o mérito do clube minhoto, a displicência e sobranceria com que os jogadores abordaram a 2ª parte custaram a possibilidade de disputar mais uma final e fazer o pleno a nível interno. Um balneário brincalhão virou displicente e, nos jogos seguintes, o nervosismo transpareceu no banco encarnado.
  • A caminhada Europeia. Ao contrário de anos passados, os encarnados não se podem queixar de um grupo difícil. Uma fase de grupos em que se contam 2 vitórias contra o D. Kiev, 2 empates infantis frente aos turcos do Besiktas (o primeiro na última jogada do jogo e o segundo após uma vantagem de 3-0 ao intervalo) e 2 derrotas categóricas frente ao Nápoles, apurou um Benfica com pouco andamento para a Champions. Seguiu-se um Dortmund ao qual é “roubada” a 1ª mão, face à superioridade gritante dos alemães, e que na 2ª mão fez questão de trucidar as hostes encarnadas. É o Dortmund, mas não é o Dortmund de outros tempos.
  • A razia de lesões. É incompreensível como um clube da dimensão do SL Benfica apenas tenha tido o plantel todo à disposição por volta da trigésima jornada. O azar não explica tudo e o caso mais gritante será a gestão de Jonas, com a sua entrada na Madeira, agravando uma lesão e demonstrando um certo amadorismo, imperdoável.

O Maestro. [Fonte: Sapo Desporto]

MVP

  • Pizzi. Pelo que jogou, pelo que fez jogar, pela adaptação a uma posição que não é a sua e por ver caminhos e espaços onde mais ninguém via, quando o coração já só mandava correr desalmadamente, em desespero, e todos precisavam de alguém que os guiasse. Jogador com mais minutos e imprescindível para o jogo encarnado. Um craque.

Incansável [Fonte: The Sun]

Revelação

  • Nélson Semedo. A época passada tinha deixado um leve perfume daquilo que seria a “locomotiva” na faixa direita benfiquista. Não tendo acabado a época passada na melhor das posições (sentado), rapidamente ganhou o lugar a André Almeida e assumiu-se como um porto-seguro do ataque dos encarnados. Defensivamente ainda muito permeável, mas a experiência trará, com certeza, essa capacidade e “esperteza” a Nélson.

Desilusão

  • Rafa. Os 16 milhões pesaram no craque português. Jogo após jogo, a qualidade era visível, o transporte de bola, o drible, o virtuosismo a lembrar Hazard. Mas faltou sempre critério no último passe, na hora de rematar, de matar a jogada, algo que não faltou a jogadores claramente mais talentosos que o português, mas mais decisivos para o Benfica. Na próxima época, Rafa terá de ser capaz de superar o seu bloqueio e demonstrar porque razão vale 16M. E aí poderá, até, almejar voos mais altos.

Um dos “Flops” do ano. (Foto: Record)

Casos bizarros

  • O desaparecimento de Horta. De contratação inesperada, a titular, a lesionado, a não-convocado. O percurso de Horta no Benfica desafia toda a lógica e aproxima-se de um romance kafkiano. Apenas poderá ser explicado por jogadas de bastidores que não ficam bem a ninguém. Com isto, perde o André e perde o Benfica.
  • O lugar cativo de Salvio. A dada altura da época, o 11 do Benfica era fácil de adivinhar: era Salvio e mais 10. Não sou fã do argentino, mas reconheço a importância de “Toto” (não consigo pensar numa alcunha melhor) na equipa. Contudo, creio ser inexplicável o estado de graça de Salvio que, exibição pobre atrás de exibição pobre, manteve o lugar, enquanto todos os outros extremos sorteavam quem seria titular.
  • Celis, Danilo e Felipe Augusto. O colombiano surge de pára-quedas no SL Benfica, nunca tendo demonstrado capacidade para estar no plantel do tetracampeão (tri, à altura). Contudo, RV lança o médio várias vezes, por vezes até à frente de Samaris, esperando encontrar algo que justificasse o investimento (?). A gota de água veio com o Besiktas, em casa, e Celis acabou a época no Vitória SC, a suplente. Por outro lado, a gestão de Danilo nunca pareceu clara. O brasileiro, que já há alguns promete muito e demonstra pouco, nunca foi verdadeira aposta, apesar de reunir as condições para suprir a ausência de Renato. Termina a época emprestado ao Standard. Por fim, Felipe Augusto foi contratado para fazer de Danilo, quando o SL Benfica já havia despachado Danilo. Para além disso, Felipe Augusto, altamente propenso a lesões, veio aumentar a conta do hospital de campanha da Luz. Nunca demonstrou valias suficientes para justificar a sua presença no plantel, muito menos a ultrapassagem de Horta e Samaris na corrida ao meio-campo.

O “sacrificado”. (Foto: SAPO Desporto)

Notas soltas

  • A explosão de Gonçalo Guedes. Com mais coração que cabeça, o jovem foi um dos obreiros da excelente primeira volta de campeonato e peça preponderante durante a crise de lesões.
  • O capitão Luisão. Aos 36 anos, Luisão carimbou uma das suas melhores épocas ao serviço do clube da Luz, sendo o central mais constante durante a época e um líder dentro e fora do campo.
  • Tolerância 0 para Carrillo. O peruano tem um estilo de jogo “molengão”, mas já o tinha no SCP e talento e inteligência nunca lhe faltaram. O ano de paragem adormeceu algumas qualidades, principalmente físicas, mas não se compreende a aversão do público benfiquista que se mostrou sempre profissional e que nunca deixou abater pela falta de oportunidades e má gestão da sua utilização.

E, após todas estas pequenas análises, creio que a época encarnada foi francamente positiva e calou inúmeros críticos, grupo no qual me incluo, havendo, no entanto, MUITO espaço para crescer e melhorar.


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