17 Ago, 2017

Jardim clorofórmico

Pedro NunesDezembro 10, 20166min0

Jardim clorofórmico

Pedro NunesDezembro 10, 20166min0

O provérbio “não há fome que não acabe em fartura” adapta-se categoricamente à situação vivida no Principado. O Mónaco de Jardim, depois de ser caracterizado como clorofórmico na época passada, é agora a formação mais concretizadora da Europa, dando festival a praticamente todos os adversários que se atravessam no caminho. O clube foi submetido a uma metamorfose e é, neste momento, uma ameaça real à hegemonia parisiense.

Se há coisa em que o futebol português está atrasado em relação ao que se faz lá fora, é no uso de combinações químicas para se caracterizar as táticas das equipas. O desafio está lançado, Sr. Luís Freitas Lobo. Em França já se faz disto há algum tempo. O melhor exemplo chegou-nos na época passada, altura em que alguns comentadores gauleses diziam que Leonardo Jardim tinha inventado uma nova forma de jogar – a tática clorofórmica.

Este conceito veio associado a mudança de política desportiva com menos investimento, por parte da direção do clube, que deixou Jardim de mãos atadas e obrigado a desenrascar-se com o que tinha, fazendo descer bastante o nível exibicional da equipa por consequência da saída de jogadores de classe mundial. Mas este facto nunca foi desculpa para o técnico, que nunca se queixou do que lhe era dado – e tirado. Há dois anos, James saiu para o Real e Falcao foi emprestado. Dmitry Rybolovev, dono do clube, apontava para o recrutamento jovens talentos, mais baratos, que começaram a chegar às fornadas ao Principado. No início da época transacta, houve nova razia no plantel. Martial, Carrasco, Abdennour, Ocampos, Kondogbia e Kurzawa são apenas alguns dos nomes que deixaram o Mónaco rumo a novos destinos e deixaram o português obrigado a remendar a equipa novamente.

Foto: SFHandBook

A solução encontrada foi um estilo de jogo pragmático – algumas vezes bastante apático e soporífero, de facto – em que se revelou por diversas vezes a margem mínima no marcador. Depois do golinho da praxe ser conseguido, os monegáscos juntavam esforços para que o placard não mais se alterasse até final e a estratégia foi funcionando. Apesar de ter perdido a vice-liderança para o Lyon na última jornada, o objectivo Champions ficou cumprido.

Todavia, este ano tudo mudou. Para explicar este o novo paradigma que se vive no Principado, recorremos à explicação de Rudi Garcia, treinador do Marselha, que enfrentou o Mónaco recentemente, e afirma que “aquela equipa até de olhos vendados marcava”. De facto, quem os viu e quem os vê. A passagem de um futebol pragmático para um dos mais entusiasmantes da Europa foi nítida e os números ainda vêm clarificar mais a situação. Com 17 jornadas decorridas, o Mónaco tem 53 golos marcados – a segunda melhor marca da história da competição a esta altura. A química é realmente outra.

A postura no mercado também mudou e os monegáscos foram resgatar alguns nomes que vieram melhorar o exponencialmente o seu futebol. Começando pelo regressado Radamel Falcao, que depois de épocas completamente desastrosas em Inglaterra, está a jogar o seu melhor futebol depois da gravíssima lesão contraída. O avançado colombiano já conta com 10 golos na liga, é capitão, e está aí para as curvas.

Destaque também para as aquisições feitas internamente, como Sidibé e Mendy – dois dos melhores laterais da Ligue 1 -, assim como o regresso do avançado que havia sido emprestado, Germain, e para a compra de Glik, central ex-Torino, que veio dar outra segurança defensiva a uma equipa que sofria golos bastante comprometedores na época transacta.

Tudo isto para somar ao talento já existente, agora um ano mais maduro, que vem demonstrando muitíssima qualidade. Jogadores como Fabinho, Bernardo Silva, Thomas Lemar ou Bakayoko, têm sido nomes de extrema importância para o técnico nascido na Venezuela. O brasileiro já se afigura desde a época passada como um dos melhores jogadores da equipa, oferecendo versatilidade aliada a uma consistência exibicional que leva os grandes da Europa a estarem de olho nele. Bakayoko é a sequência do treinador em campo e nas alas estão os dois grandes playmakers da equipa, Bernardo e Lemar, que fazem a equipa mexer a nível ofensivo. Nota ainda para o aparecimento de Mbappé-Lottin, um jovem de apenas 17 anos, que já conta com exibições e números muito interessantes para tão tenra idade.

Foto: sportmediaset.it

Estamos apenas em dezembro e os monegáscos já marcaram mais golos em casa do que na época anterior toda. O mais impressionante é que não existe um marcador de golos declarado, nem sequer um assistente, que se destaque em termos de números. Já houve 13 marcadores diferentes e 14 assistentes. O melhor marcador da equipa é Falcao, mas os golos aparecem por todos os lados e de todas as formas.

Posto isto, nunca, nos últimos anos, a hegemonia do PSG esteve tão ameaçada. Esta época as equipas do Nice e Mónaco têm sido um osso duro de roer para os parisienses. Os jovens talentos das duas formações do Sul de França têm obrigado os da capital a olhar desde baixo para o topo da tabela, algo que não acontecia há vários anos. Na Champions, a equipa de Jardim também foi uma das únicas que já estava qualificada à quinta jornada, e em primeiro do grupo. Apesar disto tudo, é o adversário que muitos adeptos querem para os seus clubes no sorteio da Champions de segunda-feira. Rezem para que em fevereiro esta forma não continue ou serão apanhados de surpresa.

A equipa foi transformada numa verdadeira máquina de fazer golos, e com o recurso ao rumo dos acontecimentos que mudaram obrigatoriamente o modo de pensar do treinador, percebemos facilmente as causas que levaram àquele estilo de jogo clorofórmico. Jardim simplesmente não jogava como queria, mas sim como podia.

Foto: Foot The Ball


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