21 Out, 2017

FC Porto e a Política de transferências: Desastre ou Estratégia?

Francisco IsaacSetembro 1, 201612min2

FC Porto e a Política de transferências: Desastre ou Estratégia?

Francisco IsaacSetembro 1, 201612min2

Jorge Nuno Pinto da Costa, Antero Henrique e Alexandre Pinto da Costa são os protagonistas de um Mercado de Transferências de pesadelo para o Dragão. Sem contratações sonantes ou reforços para colmatar as claras deficiências do plantel, Nuno Espírito Santo enfrentará a vaga de críticas sozinho e sem apoio. Um Manual de como não dirigir um plantel.

Voltemos, por escassos momentos, ao final de temporada do FC Porto de 2015/2016. Final da Taça perdida para o Braga, 3º lugar longe do 1º e 2º, e um plantel debaixo de um coro de assobios e críticas. E aonde estavam os membros da direcção da SAD e/ou do Clube? Escondidos atrás do púlpito, sem grandes manifestações ou promessas… para além da notícia de que Rafa, Josué e Paciência iriam ser reforços para a nova temporada dos Dragões (curiosamente nenhum dos três ficou às ordens de Nuno Espírito Santo).

Com o término da época, os adeptos e analistas desportivos apressaram-se em indicar que sectores estavam com claras deficiências, apontando, desde logo, a faixa da defesa (três centrais e todos eles de qualidade média-baixa) ou a questão de ser necessário um nº 10 criativo que fizesse o público vibrar. Porém, ao fim de dois meses de Mercado, o FC Porto conseguiu fazer quase o oposto, numa política de transferências caótica, anormal e sem rumo aparente. Nem o apuramento para a Liga dos Campeões valeu de alguma coisa para os Dragões, que tiveram sérias dificuldades em convencer jogadores de gabarito europeu/mundial a aceitar entrar nas contas de Nuno Espírito Santo. A questão do fairplay financeiro também terá preocupado os administradores da SAD que acabaram por voltar a ter um ano horriblis em termos de mercado e de preparação da equipa para a nova época. Observemos por sectores as mudanças (ou não) em termos de chegadas e saídas, para além de perceber se o plantel ficou deficitário.

Na baliza tudo igual, com Iker Casillas a iniciar o seu 2º ano de Dragão ao peito sem a competição de Helton (a saída do lendário guarda-redes brasileiro foi tudo menos agradável) mas com José Sá a ganhar a confiança da equipa técnica. Até que ponto Casillas conseguirá ser mais um protagonista de vitórias do que um arauto da “desgraça”? Para já, e perante o cenário actual, o FC Porto fica bem apetrechado.

Uma Defesa de Betão feita de Madeira

É na defesa que começam os graves problemas e as questões mais críticas: saídas de Maicon, Reyes, Indi, José Angel ou Lichnovsky colmatadas com a vinda de Felipe (ex-Corinthians, muito criticado no Brasil pela falta de capacidade de lidar com a pressão), Willy Boly (um negócio em cima da linha de meta) e Alex Telles (temporada mediana ao serviço do Inter de Milão). Por isso, para a nova temporada o FC Porto vai lutar pelo campeonato com quatro centrais: Felipe (começou com a “cabeça quente”, apontando dois golos), Marcano (um dos responsáveis por algumas das derrotas dos Dragões nas últimas duas temporadas), Boly (transferência de última hora, com as opiniões a divergirem em relação à real qualidade do central) e Chidozie (o nigeriano acabou por ser uma “ilusão” e nem na equipa B tem sido uma escolha consensual).

Por escassos segundos a faixa central iria ficar ainda mais “pobre” do que na temporada transacta, com a contratação de Boly a pacificar – q.b. – a massa adepta. Dificilmente o FC Porto aguentará estar em quatro competições diferentes só com 4 jogadores (se contarmos com Chidozie) para o lugar de defesa-central. Nas faixas, Alex Telles chegou para a esquerda, tendo Layún conseguido a tão desejada renovação. Maxi Pereira ficou “sozinho” na direita, com a invenção de Peseiro a estender-se a Espírito Santo, colocando Silvestre Varela como um lateral direito de recurso. Se Telles é um lateral de origem, com uma qualidade interessante, com picos e quedas (uma crítica geral em todos os clubes por onde passou), já não se ter assegurado mais um lateral direito de raiz poderá ser um problema de maior. Ou seja, nada mudou em 3 anos: o FC Porto continua numa política de invenções no que toca à defesa, um sector que foi sempre tratado como realeza no Reino do Dragão.

O jogo do meinho com os mesmos protagonistas? 

Avancemos para o sector intermediário. Danilo Pereira continuará a lutar com Rúben Neves pelo lugar de trinco (as questões divergem no tipo de médio-defensivo que o Porto precisa), com Héctor Herrera (muito associado ao Nápoles, acabou por voltar a ficar) e André André a enfrentarem a competição de João Carlos Teixeira, Diogo Jota e Óliver Torres (o reforço mais sonante do Porto), com Evandro e Sérgio Oliveira a serem suplentes dos suplentes.

Em Alvalade, na derrota por 2-1 frente ao Sporting CP, a equipa de Nuno Espírito Santo vacilou neste sector, com Danilo a perder quase todos os confrontos físicos e técnicos, Héctor Herrera a falhar mais de 55% dos passes (especialmente para zonas mais dianteiras, com as tentativas de passes profundos a não surtirem qualquer efeito) e André André a aguentar apenas 45 minutos de jogo (foi a unidade que melhor conseguiu movimentar-se, mas caiu a pique na segunda metade do jogo). Mas o técnico azul-e-branco optou por colocar Adrián López (um regresso que até tinha começado com o pé direito mas as exibições têm vindo a piorar) e Laurent Depoitre (um reforço “mistério” para os lados do Dragão), mantendo intocável o meio-campo até ao minuto 75′, quando retirou André André do campo. Óliver Torres estreou-se, porém sem qualquer papel importante no jogo (natural a falta de entrosamento), não querendo isto dizer que o “mago” espanhol não vá ser fundamental para a manobra ofensiva do FC Porto.

Por isso, as vindas de Jota e Teixeira serão reforços a sério ou apenas recursos de 2ª categoria? Só o tempo dirá se Nuno acredita ou não nestas soluções para o meio-campo. Para já, o FC Porto tem soluções mas parece que só algumas contam, num meio-campo titular muito pálido, estático e confuso.

Juventude ao Cubo no ataque aos golos

Depois no sector mais avançado do terreno, Otávio, Corona e André Silva têm composto o tridente de ataque (se recuarmos 6 anos atrás, a frente de ataque estava dividida por Varela, Hulk e Falcão, um tridente  com mais experiência, qualidade e força), com Adrián López, Óliver Torres e Laurent Depoitre a apresentarem-se como os substitutos.

Há, claro, Yacine Brahimi que ficará mais uma temporada (ou pelo menos até Janeiro) a jogar no Dragão. Todavia, o argelino nunca foi opção para Nuno durante a pré-temporada e terá agora que fazer uma autêntica “revolução” mental para surgir como opção na lista de convocados do treinador português. André Silva tem qualidade e ao jeito que foi com Gomes, Domingos Paciência (o filho poderia ter entrado nas contas para uma 3ª solução para a frente de ataque), Hélder Postiga e Hugo Almeida, o Reino do Dragão volta a confiar a frente do ataque a um jovem português das camadas jovens. Se tem qualidade para fazer 20 golos por época? Dependerá de como as alas e meio-campo forneçam jogo ao bomber luso. Corona é sempre um vertiginoso, com Otávio a assumir um papel preponderante, apesar da tenra idade.

Todavia, até que ponto a juventude em excesso pode comprometer em jogos de maior impacto contra equipas com maior experiência? Adrián López e Laurent Depoitre são os substitutos, com o avançado belga a ser uma “espécie” de Marc Janko ou Edgaras Jankauskas (parece possuir um toque de bola mais apurado) e o extremo espanhol a não reunir a capacidade mental para se afirmar no onze do FC Porto (bom final de temporada pelo Villarreal, com 16 jogos, 4 golos e 3 assistências).

Queda anunciada de um Gigante ou reforma para o longo-prazo?

Por isso, em dois meses de contratações (não dando o mês de Abril e Maio de graça) o clube liderado por Jorge Nuno Pinto da Costa reforçou-se só com 8 jogadores, sendo que apenas 3 entraram para o sector defensivo.

E o que dizer das vendas – ou, melhor, não vendas? O FC Porto que tinha assumido o estatuto de maior exportador até 2014, acabou no último lugar, mesmo atrás de SC Braga ou Vitória SC (Guimarães). Isto demonstra descrédito do FC Porto no seio europeu? Rafa, Paciência, Martins Indi, Josué, Diego Reyes, Alberto Bueno, Moussa Marega, Hernâni, Licá, Andrés Fernandéz, Suk ou Aboubakar renderam cerca de 12M€ (9M€ por Maicon e 3M€ por Aboubakar) aos cofres do FC Porto, uma vez que saíram todos por empréstimo. Curiosamente, alguns destes nomes teriam lugar no plantel do FC Porto como solução para o banco de suplentes (Bueno, Josué ou Reyes), só que não foi essa a ideia do novo treinador dos portistas ou da direcção.

Isto sem falar dos investimentos em vários jogadores que têm corrido da pior forma possível, com a parceria com a Doyen Sports a verificar-se “dolorosa” (o caso Imbula ainda paira na memória). Para além da ideia que os media portugueses foram transmitindo, de que Jorge Mendes iria fornecer jogadores de qualidade acrescida ao plantel do FC Porto como forma de “ajuda” ao seu treinador (Nuno é agenciado por Jorge Mendes) que acabou por se provar uma ideia estapafúrdia e desprovida de qualquer sentido. Não houve os investimentos duvidosos de outrora, o que acaba por ser um ponto positivo – o despesismo com alguns jogadores como Juan Quintero, Yacine Brahimi, Aboubakar, Adrián López, Marega ou Reyes demonstra a perda de qualidades dos departamentos de scouting e desportivo dos dragões –, pondo fim, para já, às constantes “brincadeiras e devaneios” de agentes e administradores do clube da Invicta.

Os rivais da Luz e Alvalade souberam “capturar” excelentes activos para a nova época, com as chegadas de Markovic, Bas Dost, Castaignos, Campbell ou Meli (perderam o “mágico” João Mário e o “matador” Islam Slimani) no Sporting CP. Já o SL Benfica ganhou a corrida por jovens pérolas como Cervi, Cellis ou Horta, para além dos fortes reforços como Carrillo, Danilo e Rafa (a “novela” do extremo terminou no último dia de mercado), num ano em que ‘apenas’ perderam Renato Sanches e Gaitán. Ou seja, o FC Porto está em clara desvantagem perante os seus rivais de sempre e terá de fazer algo de “milagroso” para “roubar” o título a qualquer um dos clubes de Lisboa.

Alguns números que interessa observar:

2014/2015

Valor gasto em entradas: 40M€
Transferência mais cara: Adrián López (11M€ por 70% do passe)
Pior transferência: Martins Indi (7,7M€)
Transferência para o futuro: Otávio (3M€)
Valor total ganho em saídas: 80M€
Transferência mais rentável: Eliaquim Mangala (35M€);
Pior decisão de transferência: Jorge Fucile (rescisão a custo zero)

2015/2016

Valor gasto em entradas: 38M€
Transferência mais cara: Gianelli Imbula (20M€)
Pior transferência: Gianelli Imbula (20M€) / Moussa Marega (3,5M€)
Transferência para o futuro: José Sá (valor não divulgado)
Valor total ganho em saídas: 100M€
Transferência mais rentável: Jackson Martínez (35M€)
Pior decisão de transferência: Rolando (rescisão a custo zero)

2016/2017

Valor gasto em entradas: 30M€
Transferência mais cara: Felipe (7M€)
Pior transferência: Zé Manuel (valor não divulgado)
Transferência para o futuro: Nenhuma
Valor total ganho em saídas: 12M€
Transferência mais rentável: Maicon (9M€)
Pior decisão de transferência: Diego Reyes (empréstimo)

Em suma, o que dizer do Mercado de Transferências do FC Porto? Um caos total, acompanhado de várias desilusões, um tremer irreconhecível e uma falta de ideias e/ou categoria sem igual. O FC Porto de 2016/2017 relembra o FC Porto de 2001/2002 quando chegaram Quintana, Alessandro, Rafael, Ruben Junior, Paulo Costa, Mário Silva ou Esnáider/Kaviedes às Antas, naquilo que, para além de desastre classificativo e de temporada, viu José Mourinho assumir o lugar de treinador a partir de Janeiro de 2002.

Neste momento ainda há alguns sorrisos e abraços, uma harmonia entre direcção e treinador, muito pelo feito de se ter conquistado a eliminatória da CL frente à Roma. Mas como aconteceu com José Peseiro, Paulo Fonseca e Julen Lopetegui, mal haja uma queda de forma e resultados a ganharem contornos “negros”, a administração do clube e da SAD desaparecerá da “tela”, abandonando Nuno Espírito Santo ao acaso dos assobios, lenços brancos e críticas. O fracasso no Mercado de Transferências deverá ser uma “desculpa” para Nuno Espírito Santo em caso de uma época negativa? Ou o treinador dos azuis-e-brancos terá as soluções necessárias para fazer uma temporada de mudança e de luta pelo título?

A chama findou no Dragão? (Foto: Lusa)
A chama findou no Dragão? (Foto: Lusa)


2 comments

  • Joao Barros

    Setembro 2, 2016 at 10:01 am

    Olá Francisco.
    Podias-me dizer aonde se pode consultar estatisticas como a percentagem de passes certos (como referes sobre o Herrera no último jogo)? Não dúvido do valor mas já procurei esse tipo de dados e nunca encontrei para o campeonato português.
    Cumprimentos

    Reply

    • Francisco Isaac

      Setembro 2, 2016 at 10:34 am

      Olá João,

      Fiz eu as estatísticas desse jogo, especialmente ao Herrera e Layun. Em Dezembro vou lançar um artigo sobre Pormenores e Estatísticas do FC Porto… será para demonstrar a “dupla-face” de alguns jogadores. Se conseguir até faço comparação entre jogos de alta e baixa intensidade, para ver a variável.

      Eu estou habituado a fazer este tipo de trabalho, graças ao rugby… a maioria dos sites que acompanham as ligas principais da modalidade, têm essas informações. Acho que no futebol também podia-se começar a fazer e a mostrar ao público.

      Obrigado pelo interesse,

      Francisco Isaac

      Reply

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