21 Ago, 2017

O estranho e breve caso de Pepa em Moreira de Cónegos

Marcelo BritoNovembro 21, 20166min0

O estranho e breve caso de Pepa em Moreira de Cónegos

Marcelo BritoNovembro 21, 20166min0

A caminhada desde o Campeonato Nacional de Seniores à Liga NOS em apenas três temporadas despertou o interesse no desempenho de Pepa que, ao serviço do Moreirense, não durou mais do que dez jornadas.

Com 35 anos, muitos jogadores começam a pensar em pendurar as chuteiras. É aquela idade de questionamento pessoal sobre a capacidade em continuar a jogar ao mais alto nível ou começar a pensar num outro futuro profissional. Pepa têm-nos, mas a sua carreira de futebolista, por muito prometedora que parecesse, terminou cedo. Deu os primeiros passos no CADE; seguiu para o Benfica onde nunca se afirmou, foi emprestado ao Lierse, da Bélgica; ao Varzim; seguiu para o Paços Ferreira e terminou ao serviço do Olhanense. Mas não é deste Pepa promissor cujo nome outrora fez agitar a estrutura madrilena do Real que irei falar.

Pepa, o treinador: Fiel às suas brilhantes ideias de jogo, não as abdica perante nenhuma equipa. É óbvio que os planos de jogo vão-se modificando de partida para partida, consoante o adversário. Se os grandes o fazem, porque não haveriam de fazer os menos grandes? Mas o que fica por explicar é o facto do jovem timoneiro ter conseguido manusear o Moreirense a conquistar apenas oito pontos, repartidos por duas vitórias  e dois empates, somando seis derrotas para a Liga NOS. Se é uma explicação que pretende, eu bem gostaria de a dar na sua exactidão, mas caso não o consiga, espero roçá-la. Na primeira jornada empata a um frente ao Paços Ferreira, mas, uma jornada depois, imagine-se contra quem foi primeira a vitória… sim, ao Feirense! Muitos poderão estar a interrogar-se de qual o espanto de uma equipa consolidada na primeira divisão ir a Santa Maria da Feira ‘espetar três no bucho’ da equipa local e recém-promovida. O engraçado é que Pepa foi o grande obreiro da escalada fogaceira ao patamar máximo do futebol nacional. Pepa ganha 22 dos 46 jogos disputados – incluindo Taça de Portugal e da Liga – com o Castelo ao peito e, a meras jornadas do fim do campeonato, é despedido para dar lugar a José Mota que acabaria o seu trabalho. Pepa já demonstrou ser profissional e ético naquilo que faz, ou pelo menos fá-lo transparecer nas suas intervenções, mas a sua melhor vingança ao ‘despacho’ dos dirigentes feirenses, foi uma vitória exímia e sem contestação… dentro de campo.

Créditos: Zerozero.pt
Créditos: Zerozero.pt

O problema surge depois deste início de campeonato comprometedor. O Moreirense de Pepa perdeu cinco jogos consecutivos. Marítimo (0-1), Sporting (3-0), Estoril (2-0), Vitória Guimarães (1-0) e Boavista (2-0) imperaram-se ao Moreirense de Pepa. No embate a contar para a oitava jornada, empate a uma bola com o Rio Ave. O desfecho de jogo até poderia ter sido outro não falhasse Pedro Rebocho uma grande penalidade já em tempo de compensação.

Desloca-se a Tondela e arranca três pontos (1-2) e de seguida perde na sua fortaleza frente ao Vitória de Setúbal (pelo meio fica a vitória frente ao Estoril a contar para a Taça CTT). Mas afinal, o que é que se passa em Moreira de Cónegos? Tive a oportunidade de ver o Moreirense jogar e é notória a tentativa dos jogadores em protagonizarem as ideias tácticas básicas do seu treinador. Imperar na posse de bola e focar-se transições rápidas. Simples… mas, neste caso, sem sucesso prático.

É óbvio que depois da brilhante prestação do ano transacto, o mau arranque de campeonato do Arouca é ‘caso de estudo’, mas o Moreirense continua, na minha opinião, a ser a grande desilusão do campeonato. A falta de experiência, de matreirice e de ‘ratice’ vá, têm prejudicado os comandados de Pepa que não está a conseguir transparecer na qualidade de jogo da equipa de Moreira de Cónegos as suas qualidades como (bom) treinador, pois ele tem-nas.

Ia elaborando este texto e a pensar qual seria a fórmula para Pepa dar a volta por cima, mas… tarde demais! Hoje, segunda-feira, dia 21, deparo-me com uma notícia a anunciar o despedimento de Pepa. Seria naturalmente difícil para os dirigentes do Moreirense manter a confiança num homem que não conseguiu ultrapassar uma terceira eliminatória da Taça de Portugal frente a um Vizela de um escalão inferior, perdendo pela margem mínima.

O que falhou? Simples. Os resultados. O Moreirense não jogava mal, mas os resultados positivos insistiam em não aparecer. Será o campeonato português curto demais para a estrutura directiva do Moreirense perder tão prontamente a paciência com Pepa? É certo que Pepa treinou a Sanjoanense, fez um belo trabalho e a sua saída acabou por ser controversa, tendo o próprio dado entrevistas a criticar a estrutura sanjoanense. Subiu de escalão e de um Campeonato Nacional de Seniores (CNS) rumou à segunda divisão onde, como dito em cima, teve influência inegável na subida do Feirense e voltou a subir para a Liga NOS onde acabou por ser, uma vez mais, ‘despachado’.

Terá Pepa que dar um passo atrás para dar dois à frente? Será difícil para uma equipa de primeira linha que pretenda resultados a curto prazo voltar a apostar no timoneiro, mas não tenho dúvidas que Pepa tem qualidade para singrar em Portugal. A inexperiência pesará no seu currículo? Sim, e sem querer comparar Pepa com a lenda Alex Ferguson, o escocês não teve sete anos no banco dos Red Devils até alcançar o primeiro troféu? A esse, somou mais 37… Ah! E o escocês não foi despedido do St. Mirren? Foi… Foram pacientes com Sir Alex e estamos a falar de um Manchester United que teve 18 anos sem vencer o campeonato inglês até à chegada do melhor treinador da sua história. Esperaram, deixaram o escocês fazer o cultivo dos seus ideais e métodos de trabalho e é certo e sabido que colheram os frutos… muitos frutos.

Em Portugal tudo funciona de maneira diferente e apressada. Pepa é um exemplo de que os treinadores que são despedidos nem sempre o são devido à falta de qualidade para levar um clube ao seu expoente máximo. Cada caso é um caso, mas as estruturas clubísticas nacionais fervem em pouca água e é sempre mais fácil mudar um treinador do que um plantel…


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