25 Set, 2017

Estará próximo o renascimento do grande Milan?

Pedro CouñagoJulho 4, 201712min0

Estará próximo o renascimento do grande Milan?

Pedro CouñagoJulho 4, 201712min0

Sendo um dos clubes mais titulados e importantes em Itália, bem como em toda a Europa, o Milan parece querer sair da sua travessia no deserto e voltar a ser uma equipa de respeito, que honra tudo aquilo que foi o seu passado. Neste artigo, o FairPlay explora o possível renascimento do adormecido colosso italiano.

A descida de nível do colosso

De uma equipa que tem 18 Scudettos, a segunda com mais campeonatos em Itália, e que tem 7 Ligas dos Campeões, a segunda com mais títulos da principal competição europeia de clubes, seria de esperar uma luta constante pela manutenção e superação da honra a si associada. Seria de esperar mais do Milan nas últimas temporadas.

Sempre foi um clube que teve uma aura de acolher lendas futebolísticas, como Maldini, Baresi, Nesta, Gattuso, Ambrosini, Seedorf, Shevchenko, Kaká, Pirlo, Inzaghi, o nosso querido Rui Costa, entre outros. Todos estes foram elementos que corresponderam à grandeza do clube e tinham uma vontade constante de vencer, sempre foram essenciais para a manutenção da coesão da equipa milanesa ao longo dos anos. Eram autênticos líderes dentro de campo. A verdade é que, a partir de 2013, nenhum destes jogadores sobrou no plantel, todos se haviam reformado, brilhavam por rivais (Pirlo) ou já não eram os mesmos (Kaká).

Perdeu-se a aura de grande equipa, de colosso. O Milan passou a ser um gigante adormecido, tal passou a ser a mediocridade dos desempenhos da equipa, com um oitavo lugar em 2013/2014, um décimo (!) em 2014/2015, um sétimo em 2015/2016 e, de mal o menos, um sexto em 2016/2017. Esta última época permitiu, na próxima época, um ansiado regresso à Europa, ainda que seja à Liga Europa, a segunda liga mais importante, e não à principal competição de clubes, isso terá ainda de esperar. Para lá chegar, o clube ainda tem passos a dar.

A crise geral no clube

A mediocridade instalou-se no clube porque não houve uma capacidade de renovação da equipa, de acompanhar aquilo que são as novas tendências no futebol e de adaptação. Muita da culpa terá de ser colocada em Sílvio Berlusconi e Adriano Galliani, que se decidiram por um tremendo desinvestimento na manutenção de uma equipa base e pela manutenção de ideias que haviam sucedido nos anos noventa e na primeira década deste milénio, ideias essas que são obsoletas no futebol atual. Na verdade, foi um desinvestimento no clube em geral, que o deixou numa grave crise financeira que se manteve ao longo dos últimos anos e pôs até em causa a questão do FairPlay financeiro.

A verdade é que o futebol evoluiu, e ao contrário de um Milan que desinvestiu, surgiu uma panóplia de equipas que acabou por se sobrepor ao conjunto rossoneri. Nos últimos anos, clubes como a Roma e o Nápoles, essencialmente, vêm cimentando a sua posição nos primeiros lugares do campeonato italiano, com uma gestão positiva das suas filosofias e a capacidade de criar plantéis bastante competitivos, sendo que o único ponto menos positivo poderá ser considerado a sua participação nas competições europeias. Quanto à Juventus, a conversa é completamente diferente, com o diferencial para o Milan a ser absolutamente abismal, nem é preciso fazer comparações.

O clube passou a estar à deriva, com plantéis medíocres, com uma constante mudança de treinadores (cinco treinadores entre 2013/2014 e 2015/2016), algo que se traduziu em quatro épocas consecutivas sem pisar grandes palcos europeus, em prestações catastróficas no campeonato italiano, repletas de resultados humilhantes, no desinteresse por parte de jogadores de renome em ingressarem no conjunto milanês e no protesto por parte dos apaixonados tiffosi. Afinal de contas, estes adeptos não esperavam que o clube fosse cair a pique de forma tão resoluta, sem que ninguém tivesse qualquer ideia de como o evitar.

Muita falta faz o Milan e os seus mais fiéis adeptos à Europa do futebol (Foto: Lapresse)

Muitos dos jogos nas últimas épocas tiveram muito poucos adeptos, isto num estádio histórico como o San Siro, com lugar para 80000 espetadores. Foram raros os jogos em que a assistência foi superior a 40000 espetadores. O apoio nunca poderia permanecer igual visto que os desempenhos da equipa não traduzem a grandeza do clube. Destaque-se, ainda assim, que foram muitas vezes as claques a manter o clube vivo e a não descer ainda mais.

A luz ao fundo do túnel

Na última época, no entanto, viu-se uma certa evolução, em comparação com as 3 anteriores. A equipa possui uma base de jogadores italianos que começou a destacar-se e a guiar o clube a resultados mais condizentes com a grandeza do mesmo, promovendo um regresso à Europa em 2017/2018, que se espera traduzir-se numa boa prestação na Liga Europa e num possível regresso à Liga dos Campeões, mas cada passo a seu tempo.

Jogadores como Mattia de Sciglio, Giacomo Bonaventura, Alessio Romagnoli, Davide Calabria e Manuel Locatelli, em conjunto com os mais velhos Montolivo e Bertolacci, podem constituir a base daquilo que será a construção de uma nova mística de clube grande por parte do Milan, traduzindo-se ainda na construção de algumas possíveis lendas do conjunto milanês que se tentem aproximar daquilo que foi a importância dos seus antepassados, algo que não se revelará fácil.

O drama de nome Donnarumma

No entanto, o jogador de quem mais se fala é Gianluigi Donnarumma, devido a toda a sua polémica nas últimas semanas acerca da sua renovação. Tudo parecia perdido para o clube quando o jogador afirmou que não renovaria o seu contrato, com fim em 2018, algo que, se não se traduzisse numa saída neste defeso de Verão, se poderia transformar numa saída a custo zero em 2018, havendo quem especulasse que poderia ser para a Juventus, como possível sucessor de Gianluigi Buffon. A verdade é que Buffon não poderia ter melhor substituto a longo prazo.

O jovem guardião que é já uma jovem estrela (Foto: Getty Images)

Para o Milan, seria uma grande desilusão perder o jovem guarda-redes, talvez a maior promessa a sair das escolas do clube na última década. Durante o último campeonato europeu de Sub-21, foi divulgada uma notícia que garantia a renovação de Donnarumma, mas tudo não passou de um ato de pirataria, como confirmado pelo jogador. Nessa altura, parecia mesmo que não existia volta a dar.

No entanto, surgem agora novas notícias a confirmar a continuidade de Donnarumma no clube, tendo ele direito a um ordenado altíssimo para a sua idade (6 milhões de euros por época), algo que mostra o quanto o futebol mudou nos últimos anos. Será de questionar se a sua decisão teve por base a vontade de continuar no clube por ser aquele que tudo lhe tem dado ou apenas por causa do chorudo salário que lhe espera. Veremos como se desenrola toda esta questão e quando é que a notícia se torna oficial, mas, sem dúvida alguma, que a manutenção do jogador no clube seria uma excelente notícia para os rossoneri (em termos desportivos) e daria a garantia de segurança às redes milanesas.

A importância de Montella

A filosofia incutida por Vincenzo Montella veio criar uma espécie de sentimento de renascença no clube, não só através do lançamento de alguns jovens na equipa principal, como através de uma melhoria nos resultados da equipa. O regresso às competições europeias e a conquista da Supertaça de Itália, o primeiro título em cinco anos, atestam isso mesmo.  Verificou-se uma melhoria das ideias de jogo e uma maior união do grupo em torno dos objetivos do clube, algo que valeu a Montella a manutenção no comando técnico para a próxima temporada, contrariando aquilo que vinha sido a instabilidade nas anteriores épocas.

Ex-estrela da Roma, Vincenzo Montella está a tentar reerguer o Milan (Foto: Italian Football Daily)

A manutenção do técnico oferece-lhe um maior grau de credibilidade junto dos jogadores, demonstra a confiança no trabalho por si realizado por parte da direção e dá-lhe a possibilidade de criar um legado, de dar continuidade ao início do trabalho feito na passada época. As condições oferecidas serão superiores a 2016/2017, pelo que existe esperança para os lados milaneses.

O fator “dinheiro chinês”

Algo que contribuiu muito para este fator foi a compra do clube por parte de Lin Yonghong e do seu grupo de investimentos, em abril, por 740 milhões de euros, que veio trazer um sentimento de esperança cada vez maior aos adeptos rossoneros. Esta compra do clube acabou por introduzir uma nova era no clube e resolveu um dos grandes problemas do clube, em conjunto com a crise desportiva: a dramática crise financeira pela qual o Milan vinha passando, graças ao desinvestimento por parte de Silvio Berlusconi.

Destes 740 milhões de euros, 200 milhões serviram apenas para pagar dívidas a longo prazo que os rossoneri mantinham, o que revela o fundo buraco em que o clube se encontrava a nível financeiro. Com a recapitalização por parte do investidor chinês e do seu grupo, o Milan resolve estes problemas e pode, agora, atacar a época 2017/2018, com outros argumentos e sem o medo de falhar o FairPlay financeiro.

A entrada de Lin Yonghong no clube veio resolver alguns dos problemas do Milan, sobretudo a nível financeiro (Foto: Goal.com)

Cá estaremos para ver aquilo que Lin Yonghong poderá oferecer aos rossoneri, mas a verdade é que os primeiros passos e as primeiras decisões tomadas parecem acertadas. A nível financeiro, os problemas estão certamente resolvidos. 

A nova cara para 2017/2018

O Milan chega à próxima época com ambições redobradas. As ambições tornam-se tangíveis através das contratações feitas, prioritárias, de renome (dependendo dos casos) e que permitem adicionar qualidade à equipa. São os casos de Ricardo Rodríguez, Mateo Musacchio, Franck Kessié, Fabio Borini, Hakan Çalhanoglu, e, essencialmente, o nosso bem português André Silva. Estas contratações não vieram baratas, mas o dinheiro não é agora problema e, como tal, o clube está a reforçar-se, e bem, para que o clube tenha um grupo de jogadores capazes de lutar por títulos.

Veremos se o jovem português corresponde face às altas expetativas criadas sobre si (Foto: MaisFutebol)

Com estes novos jogadores, o Milan consegue um upgrade àquilo que era o passado plantel, consegue jogadores que podem realmente fazer a diferença e que oferecem um maior leque de opções, essencialmente na transição entre defesa e ataque e na hora de fazer o golo. Do plantel da passada época, a saída que se pode realmente lamentar é a de Gerard Deulofeu (regressou ao Barcelona), que poderia ser um elemento importante num Milan mais ambicioso como aquele que teremos na próxima temporada.

Convém, depois, que os reforços não sejam apenas isso, mas que se insiram na cultura do clube e sejam capazes de formar um conjunto forte com o grupo de jogadores italianos acima destacados. Além disso, a manutenção de alguns jogadores como Cristián Zapata, Juraj Kucka, Suso e Carlos Bacca (quanto ao avançado colombiano, depende da tática a ser usada, com um ou dois pontas de lança), entre outros, seria bastante positiva, de forma a manter a qualidade do grupo no seu geral e a possuir alguma cultura de clube.

Além disso, o Milan está ainda bem ativo no mercado, sendo-lhe reconhecido interesse em jogadores como Lucas Biglia, Emil Forsberg ou até James Rodríguez, pelo que, até setembro, muito pode ainda acontecer. Faltará aos rossoneri encontrar jogadores que permitam uma maior segurança a nível defensivo e, provavelmente, um extremo. O eixo do ataque e o meio campo já foram reforçados de forma significativa, de forma bastante satisfatória.

O projeto a ser implementado

A verdade é que se perspetiva uma subida do rendimento desportivo por parte da equipa rossoneri, uma recuperação já começada na época passada. Seria muito positivo, não só para o futebol italiano como também para o futebol europeu e mundial, contar com um Milan de respeito e a impor a sua força face aos seus adversários, algo que parece ser finalmente possível. Ainda assim, espera-se a implementação de um projeto a médio prazo, pois não será fácil a equipa retomar o seu estatuto de colosso de forma imediata.

Este deve ser um projeto construído de forma sustentada, começando por uma tentativa de qualificação para a Liga dos Campeões na próxima época, uma consolidação nos lugares do pódio do campeonato italiano e depois sim, se possível, uma tentativa de luta pelo Scudetto, algo tremendamente difícil face à máquina que é a Juventus, que tem um domínio incontestável nos últimos anos, para o qual também contribuiu o desaparecimento do Milan, entre outros fatores.

Veremos o que 2017/2018 reserva ao Milan. Nada tem a perder o clube, veremos se consegue retomar o hábito de ganhar.


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