18 Ago, 2017

Está na hora de acordar, Argentina

Daniel FariaAbril 2, 20179min0

Está na hora de acordar, Argentina

Daniel FariaAbril 2, 20179min0

A selecção argentina atravessa um momento delicado no que diz respeito à qualificação para o Mundial que se disputa no próximo ano, em território russo. Com o principal “astro” suspenso por quatro jogos, – Lionel Messi – conseguirá a equipa alviceleste garantir o apuramento, quando faltam precisamente quatro jornadas por disputar?

A Argentina ocupa neste momento o 5º lugar do grupo de qualificação da CONMEBOL. Os quatro primeiros vão ao Mundial, sendo que o 5º classificado disputa um “play-off” de acesso à fase final da maior competição de selecções do mundo. Em 14 jornadas, a equipa argentina tem 22 pontos, fruto de 6 vitórias, 4 empates e 4 derrotas… Nada famoso. É caso para perguntar: o que se passa Argentina?

A equipa mostra limitações, que podem ficar mais visíveis sem a presença do seu “jogador estrela” Lionel Messi, que tem sido o “abono” da sua selecção. Ora vejamos: sem Messi, a Argentina somou apenas 7 pontos em 24 possíveis. Já com o jogador do Barcelona, a equipa conseguiu amealhar 15 pontos em 18 possíveis, perdendo só no reduto do líder, o Brasil. Que diferença. Só este facto comprova o quão limitada e dependente é a Argentina. Arrisca-se a não disputar o Mundial, se não acordar, pois apesar de estar ainda perto da zona de qualificação (a um ponto do Chile, quarto classificado), dependerá sempre de terceiros.

Lionel Messi não joga mais para a fase de qualificação pela Argentina. (Foto: rpp.pe)

Bi-campeão mundial fora da jogada?

De recordar que no Mundial de 2014, a Argentina foi finalista da competição, frente à “todo-poderosa” Alemanha, perdendo o encontro por 1-0. Estamos a falar de uma selecção finalista vencida, ou seja, não é qualquer uma. O mundo do futebol está já habituado a vislumbrar a selecção das “pampas” nos grandes palcos no que a selecções diz respeito. Uma selecção campeã mundial por duas vezes: em 1978 e 1986! Será que assistiremos à ausência de um histórico do futebol mundial? Só o tempo o dirá.

A verdade é que ninguém imagina um Mundial sem a Argentina. Ou melhor… os brasileiros imaginam e daria até um certo “gostinho”, dada a rivalidade entre os dois países. De resto, penso que quem gosta de futebol quer ver as melhores selecções nos grandes palcos. Se bem que o nível de jogo exibido pela Argentina nesta fase de qualificação não faça jus ao histórico da selecção sul americana, que já nos habituou a grandes equipas e a um futebol bonito.

Messi, Aguero, Di Maria, Dybala, Higuain, são alguns nomes que qualquer equipa ou competição gostaria de poder contar… Serão “apagados” da elite mundial para 2018? Seria uma pena.

A seleção Argentina conta com grandes valores individuais. (Foto: cleubercarlos.blogspot.pt)

Depois das vitórias por 3-0 com a Colômbia e 1-0 com o Chile, os argentinos pareciam ter recuperado a confiança, mas foram tramados pela altitude boliviana, perdendo com a selecção local. Desceram assim ao 5º lugar do grupo de qualificação, que não dá qualificação direta para o Mundial.

Instabilidade é cenário dominante

Se olharmos atentamente para o panorama do futebol argentino, deparamo-nos com um cenário de crise. Instabilidade, polémica, escândalos na Associação de Futebol Argentina… O organismo do futebol local vive alguns momentos conturbados, principalmente desde 2014, quando morreu Julio Grondona, presidente da associação desde 1979. Luis Segura assumiu o cargo de forma interina, com eleições marcadas para Dezembro de 2015. O então presidente interino concorria com Marcelo Tinelli, apresentador de televisão no país. Só que o acto eleitoral ficou envolto num grande escândalo, contando com um voto a mais do que o previsto. Na eleição, verificou-se que ambos os candidatos tiveram 38 votos, somando 76 no total quando só estavam habilitadas para votar 75 pessoas… As eleições acabaram por ser anuladas, causando um “reboliço” no país…

Corrupção e ilegalidades financeiras, entre outros problemas, são debatidos, num grande clima de instabilidade.

No entanto, já se conseguiu encontrar um presidente para o organismo: trata-se de Claudio Tapia, que prometeu recuperar a “institucionalidade que merece o nosso querido futebol argentino”, disse o novo presidente depois de ser eleito.
Das questões federativas, passamos novamente aos assuntos futebolísticos. A nação Argentina está faminta por títulos. E a verdade é que a Argentina não os tem conseguido, acabando por afastar um pouco os seus adeptos da selecção e não só… Recorde-se que Messi já abdicou de jogar pela sua selecção, mas depois acabou por voltar.

Claudio Tapia quer revitalizar o futebol argentino. (Foto: conmebol.com)

O grupo conta com vários atletas de grande destaque. Nicolás Otamendi é um dos melhores defesas da Premier League, com a camisa do Manchester City; Rojo é titular absoluto no Man. United e mostra bom rendimento. Mascherano dispensa apresentações. Banega é um dos bons jogadores do Inter.

Vemos as figuras da Argentina em destaque no seu clube, mas quando chegam à equipa nacional parece que “apagam”. É diferente sim jogar na selecção, por vezes os sistemas tácticos diferem. Mas um profissional de futebol deve saber adaptar-se às situações e estar preparado para tudo.

A formação da América do Sul entra em todas as competições e é apontada como potencial vencedora. Será a pressão? Pode ser, mas como se disse atrás, um profissional tem que lidar com a pressão e tudo o que envolve ser futebolista, principalmente a este nível. As coisas no futebol são demasiado rápidas. Passam num instante. Ou ganhas, ou perdes. Se ganhas, adoram-te. Se perdes, és odiado, algo que tem acontecido a Messi e companhia. Demasiados desaires que originam uma selecção traumatizada e com medo do futuro… Uma selecção que tem conseguido chegar a finais, mas que não as ganha…

Fome de títulos e demasiado ruído

Parece que o fracasso é uma constante. Em 2014, perderam a final do Mundial com a Alemanha, e em 2015, foram novamente derrotados na final da Copa América. Em 2016, na edição especial de centenário da Copa América, voltaram a cair na final perante o Chile, fazendo Messi alegadamente renunciar à selecção… são demasiados golpes no coração de uma Argentina ferida e sedenta de títulos. Será que vai continuar a “malapata” com o não apuramento para o Mundial, ou os argentinos terão forças para evitar mais um rude golpe nas suas ambições? Pelo menos potencial não falta para evitar esse dissabor, mas outros factores poderão pesar na balança.

A seleção das pampas parece atravessar uma crise emocional. (Foto: Goal.com)

Outro dado com que nos deparamos, é o extremo “burburinho” em torno da selecção e a sua deficiente relação com a comunicação social. Como se sabe, a relação dos jogadores argentinos com a imprensa não tem sido muito pacífica. Recorde-se que em Novembro, os mesmos anunciaram um “blackout” aos jornais locais e isso é uma das piores coisas que se pode fazer. Fechar um clube ou uma nação futebolística à comunicação social só “afunda” mais uma determinada equipa, ainda para mais quando a mesma está em crise. Os adeptos precisam de saber o que se passa no seio da equipa, e o melhor veículo de transmitir isso são os media.

Na “saga” do ruído de fundo relativamente à Argentina, já se ouviu de tudo. Já surgiram acusações de que só os “amigos de Messi” ou de Mascherano eram convocados para a selecção, já se disse que Messi não deveria ter voltado à selecção… A juntar a isto, surge também a figura intrometida do histórico argentino Maradona, que de vez em quando, deita “achas” na fogueira. Numa recente declaração do antigo “astro” argentino, o mesmo afirmou que o “futebol argentino está quebrado”, tendo por isso se tornado embaixador da FIFA na Argentina, com vista a tentar solucionar a crise do futebol do seu país.

Para Maradona, os presidentes dos clubes estão “mais preocupados com o próprio lucro que podem conseguir” num contrato de televisão do que com os “problemas reais do futebol”, por isso pediu que deixem “a soberba em casa” e comecem a “trabalhar”.

Maradona quer ajudar o futebol argentino em articulação com a FIFA. (Foto: The Telegraph)

Também Mauricio Macri, ex-mandatário do Boca Juniors refere-se à situação do futebol argentino como uma «crise terminal».

«O futebol argentino está em uma crise terminal. Talvez, ainda pior do que o país que recebemos. Ao invés de encarar o tema e colocá-lo para discutir, os dirigentes seguem tentando encontrar um atalho, um remendo. Não levam as coisas com seriedade suficiente», garantiu Macri numa entrevista concedida em Janeiro.

Estes pequenos trechos espelham uma nação sem confiança na sua equipa, mostrando-se frustrada no futuro do futebol, que outrora era respeitado e temido e actualmente atravessa uma crise de valores e de identidade.

Por isso, sob um clima de descrença e falta de crédito no panorama futebolístico internacional, a Argentina, orfã da sua estrela, Lionel Messi, procura o apuramento para o Mundial, pretendendo dar um “pontapé na crise” e calar os críticos com a presença na Rússia em 2018. É caso para dizer: está na hora de acordar, Argentina!


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