17 Ago, 2017

Villarreal CF: o submarino amarelo

Bruno DiasFevereiro 2, 201711min0

Villarreal CF: o submarino amarelo

Bruno DiasFevereiro 2, 201711min0

Na pequena cidade de Villarreal, na província de Castellón, mora uma das melhores equipas da La Liga. O Villarreal CF alia um futebol de qualidade aos bons resultados, e passar no “El Madrigal”, o seu mítico estádio, é sempre uma tarefa hercúlea para qualquer equipa. As épocas vão passando, e a presença do “Submarino Amarillo” nos lugares cimeiros da classificação começa a ser uma constante.

Com 20 jornadas decorridas, o Villarreal encontra-se actualmente no 6º lugar, com 34 pontos. Está a apenas dois pontos do Atlético Madrid, que se encontra no 4º lugar, posição que dá acesso à pré-eliminatória da UEFA Champions League. Eliminatória onde, de resto, já estiveram presentes esta época, tendo sido eliminados pelo AS Monaco. Estão também ainda em prova na Liga Europa, onde irão defrontar a AS Roma, nos 16 avos-de-final.

No campeonato, o Villarreal ostenta neste momento a distinção de melhor defesa da liga, com apenas 14 golos sofridos em 20 jornadas. Estes números são fruto, principalmente, de uma excelente capacidade para reagir à perda da bola e pressionar o adversário ainda no seu meio-campo, evitando conceder muitas e boas oportunidades de golo, e ganham ainda mais relevo quando se percebe que a equipa tem vindo a ser assolada por uma terrível vaga de lesões, que no caso específico do sector defensivo, já retirou Mateo Musacchio – o “patrão” da defesa – dos relvados por vários jogos, quebrando assim o ritmo do que vinha a ser um excelente início de época por parte do defesa argentino.

Muito do trabalho visível nesta equipa é ainda mérito de Marcelino Toral, treinador que esteve no Villarreal durante três temporadas e meia e que dotou a equipa de uma organização e dinâmica com e sem bola muito interessantes (quase exemplares, em certos jogos). No entanto, há que reconhecer também o mérito de Fran Escribá, técnico de 51 anos que lhe sucedeu. Pressionado pelo momento da época em que pegou na equipa (com o campeonato praticamente a iniciar-se), e sem muito tempo para impor o seu cunho pessoal no futebol do Villarreal, ou até para construir um plantel que fosse mais do seu agrado, Escribá foi inteligente e procurou manter a estrutura já existente, alterando um ou outro pormenor, sempre de forma progressiva. Embora com um ou outro obstáculo mais complicado de superar pelo caminho, os resultados têm aparecido e a estabilidade tem sido mantida, e isso abre espaço a que, no futuro, Escribá possa talvez montar um Villarreal mais à sua imagem.

Fran Escribá assumiu o comando da equipa no início da época, substituindo Marcelino Toral [Foto: skysports.com]
 

Como joga o Villarreal?

O Villarreal organiza-se habitualmente num 4x4x2 dito “clássico”, mas que tem pouco desse estilo mais antiquado, do futebol dos idos anos de 80 e 90, assente num jogo essencialmente vertical e directo. A equipa de Fran Escribá caracteriza-se pela sua flexibilidade táctica e grande dinâmica, apresentando um futebol muito rotinado, com uma fluidez bastante interessante e com uma organização bem trabalhada e passível de ser identificada na maioria dos momentos do jogo.

Privilegiam uma saída de bola apoiada e a partir da defesa (muitas vezes é o próprio guarda-redes Asenjo que coloca a bola no chão e joga curto para um dos centrais), embora não descurem possíveis lançamentos mais directos, sobretudo quando joga Bakambu na frente, que se destaca pelos seus movimentos de procura da profundidade. Os laterais estão constantemente projectados, e servem como apoio para a circulação de bola no meio-campo adversário, de forma a haver uma presença efectiva de jogadores em todos os corredores.

Nas fases de construção, o principal ponto de referência é o capitão Bruno Soriano (de quem falaremos um pouco mais à frente neste artigo). Os alas procuram explorar os espaços entre linhas, não ficando presos ao corredor lateral, e os avançados procuram constantemente realizar movimentos opostos, de forma a criar várias opções de continuação do ataque e assim, confundir as marcações adversárias. Isto é, quando um dos avançados procura aproximar-se do portador da bola, o outro avançado realiza um movimento de procura da profundidade, tentando aproveitar uma possível desorganização momentânea da defesa adversária, criada por esta dinâmica. Dinâmica essa que, de resto, já resultou em alguns golos nesta temporada. A mobilidade dos avançados é um aspecto fulcral de todo o processo ofensivo do Villarreal.

Passando aos jogadores, na baliza, joga Sergio Asenjo, guardião já internacional A pela selecção espanhola, e que se destaca pela sua agilidade e eficácia no 1×1, para além de ser também bastante evoluído na distribuição com os pés. Ocasionalmente, comete também alguns erros insólitos, indicadores do arrojo que demonstra em campo. Mas no cômputo geral, é um guarda-redes sólido e que apresenta poucos pontos fracos.

Já no que toca ao quarteto defensivo, há uma figura que se destaca: Mario Gaspar. O lateral direito, também internacional A espanhol, é já uma referência da história do clube. Leva mais de 250 jogos pelo Villarreal, único clube que conheceu, de resto, em toda a sua carreira, e destaca-se pela incrível regularidade e consistência exibicional que apresenta. Não sendo um lateral de topo, não é nunca por ali que a equipa espanhola peca em termos qualitativos. Do outro lado, joga Jaume Costa, lateral de cariz bastante ofensivo e que dá grande profundidade ao flanco esquerdo. Já no eixo defensivo, a dupla habitual seria Victor Ruíz e Mateo Musacchio. Digo “seria” pois Musacchio tem tido problemas com lesões, e nos tempos mais recentes, o seu lugar vai sendo ocupado por Álvaro González, jogador contratado esta temporada ao Espanyol. É de notar que, sendo todos estes centrais sólidos do ponto de vista defensivo, nenhum deles possui especiais valências ofensivas.

No meio-campo, para além do capitão Bruno Soriano, outro jogador se assume como titular indiscutível e peça fundamental da equipa: Manu Trigueros. O espanhol, de 25 anos, é talvez um dos maiores “underrateds” da La Liga. Um médio bastante completo, que possui qualidade para causar impacto em todos os momentos do jogo, e que se destaca, acima de tudo, pela incrível inteligência e leitura de jogo que possui. Isto para além de toda a qualidade técnica que tem, e que lhe permite executar várias acções que outros jogadores só conseguem mesmo imaginar, por falta de capacidade para as realizar. É muito graças a este binómio Soriano-Trigueros que o Villarreal apresenta muita qualidade com bola no seu corredor central.

Nas alas, dois jogadores relativamente semelhantes. Na direita, Jonathan Dos Santos é o médio que cria através do drible. O mexicano encontrou em Villarreal a estabilidade que faltava ao seu futebol, e a sua imprevisibilidade confere maior variabilidade de opções ao ataque. Já na esquerda, joga normalmente Roberto Soriano, jogador que chegou esta época, proveniente da Sampdoria, por quase 15M€. Internacional italiano, formado nas escolas do FC Bayern (possui ascendência alemã), apresenta qualidade com ambos os pés, e cria principalmente através da sua grande qualidade de passe, aliada à excelente visão de jogo que possui. Aqui, quem também leva já bastantes minutos esta temporada é Samu Castillejo, um jogador de características diferentes dos habituais titulares. É um desequilibrador “puro”, que nutre especial prazer em levar o jogo para os duelos individuais (1×1, 1×2), e que possui uma eficácia assinalável nesse aspecto. Poderá crescer imenso de rendimento quando conseguir colocar da melhor forma toda a sua qualidade individual ao serviço do colectivo.

Finalmente, no ataque, muitos são os recursos deste Villarreal. Nos últimos dias chegou ao clube Adrián López, emprestado pelo FC Porto, mas para além dele, há também o jovem Santos Borré, emprestado pelo Atlético Madrid e que possui alguma qualidade técnica e na finalização, bem como uma capacidade de trabalho bastante apreciável e que se demonstra bastante útil nos momentos sem bola. E depois, há duas duplas: a da época passada, e a que tem jogado mais esta temporada. Roberto Soldado e Cédric Bakambu criaram o pânico em várias defesas adversárias na temporada transacta, pela forma harmoniosa como funcionavam em conjunto. O congolês desgasta qualquer defesa com as suas constantes movimentações à procura da profundidade, e o espanhol é exímio a perceber quais os espaços que deve explorar, e que lhe poderão providenciar oportunidades de finalização. Esta época, no entanto, por problemas físicos e, no caso de Bakambu, também pela recente convocatória para a CAN, o impacto de ambos no ataque do Villarreal tem sido bem menor.

Já a dupla desta época, não sendo talvez tão forte na finalização e na procura do espaço, é sem dúvida “outra loiça” no que à criação e à exploração do espaço entre linhas diz respeito. Nicola Sansone, italiano contratado ao Sassuolo, é um avançado em constante movimento e que possui recursos técnicos para jogar em espaços curtos, possuindo também a velocidade necessária para realizar bons movimentos de ataque à última linha defensiva adversária. Já Alexandre Pato (entretanto transferido para o campeonato chinês) tem conseguido, até ao momento, realizar uma temporada sem problemas físicos de maior (questão que sempre colocou em causa o seu rendimento), e a sua qualidade está acima de qualquer suspeita. Muito forte e criativo através da utilização do drible, com uma capacidade de finalização acima da média e com recursos técnicos sem fim definido, Pato é o jogador que, em determinados momentos, catapulta(va) o Villarreal para outros patamares qualitativos. A solução encontrada pela equipa espanhola para o substituir será, certamente, um dos maiores tópicos de curiosidade para o que resta desta temporada.

Alexandre Pato, agora na China, tem sido uma das principais referências do ataque do “Submarino Amarillo” [Foto: dreamteamfc.com]

 

Destaque: Bruno Soriano

No meio-campo do “submarino amarillo”, mora um dos melhores médios da La Liga. Bruno Soriano nunca conheceu outra casa que não o “seu” Villarreal. Estreou-se pelo plantel principal a 15 de Julho de 2006, num jogo frente aos eslovenos do Maribor, a contar para a extinta Taça Intertoto, e daí para cá conta com mais de 400 jogos pelo clube. Vai na sua 11ª temporada a representar o clube, e é com naturalidade que se apresenta como o capitão de equipa.

Para além de ser um líder no balneário, Soriano é também um líder dentro de campo. Lidera por exemplo, com o seu futebol. Um organizador de jogo puro, que faz funcionar todo o jogo do Villarreal, através da forma como faz a bola circular por todos os corredores, como descobre linhas de passe quase imperceptíveis ou como gere o ritmo do jogo a seu bel-prazer. Joga normalmente a partir da posição 6 (embora também possa actuar em terrenos mais adiantados), e juntamente com Manu Trigueros, forma uma das duplas de centro-campistas mais fortes do campeonato.

É internacional A pela selecção espanhola (10 jogos), e esta temporada leva 5 golos e 2 assistências em 27 jogos, distribuídos por todas as competições. Números relativamente modestos para um médio, e que não fazem total justiça à tremenda qualidade do futebol deste jogador.

Numa liga reconhecida pela sua enorme competitividade no que aos lugares europeus diz respeito, o Villarreal CF tem-se afirmado, época após época, como uma das principais equipas espanholas. Esta temporada não parece ser excepção, e tendo em consideração o facto de que as lesões não têm dado descanso, não é de todo descabido afirmar que, sem esse tipo de obstáculo para o que resta da época, este “submarino amarelo” pode mesmo chegar a bom porto.


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