23 Ago, 2017

O Atlético de Simeone, tal como (não) o conhecemos

Bruno DiasNovembro 11, 20166min0

O Atlético de Simeone, tal como (não) o conhecemos

Bruno DiasNovembro 11, 20166min0

Quando pensamos no Atlético de Madrid, nos dias que correm, rapidamente nos vem à cabeça uma personalidade: Diego Pablo Simeone. O técnico argentino construiu no clube espanhol uma carreira de enorme sucesso até à data, e desde que assumiu o comando da equipa, em Dezembro de 2011, o Atlético conquistou praticamente tudo.

Uma Liga Europa, uma Supertaça Europeia, uma Copa do Rei e uma Liga Espanhola, sendo que atingiram também duas finais da Liga dos Campeões, ambas perdidas para o seu eterno rival, o Real Madrid. São estes os marcos da carreira de Simeone no Atlético. Mas, para além de todas estas conquistas, Simeone construiu também uma imagem para si próprio no futebol, que leva a que seja, nos dias que correm, um dos treinadores mais prestigiados e cobiçados do mundo. O seu estilo carismático e facilmente identificável, baseado na garra, no “sangue quente” que sempre o caracterizou enquanto jogador, está plenamente reflectido no seu Atlético.

Uma “equipa de autor”, que se dispõe num 4x4x2 clássico, com duas linhas de 4 e dois avançados na frente de ataque, e que alcançou objectivo atrás de objectivo, através de uma organização defensiva de elite. Considerar este Atlético como a melhor equipa do mundo em termos defensivos é algo perfeitamente válido e sustentável, e engane-se quem pensa que é possível atingir este nível apenas com base na garra e na capacidade de sacrifício. Há muito trabalho de Simeone na forma como a equipa se posiciona em termos defensivos, na forma como procuram ao máximo fechar o espaço entre linhas, na forma como conseguem conduzir o adversário para a zona onde estão preparados para pressionar em bloco, de forma a forçar o erro. É claro que a intensidade única deste Atlético aumenta a qualidade de todos os processos defensivos. Mas eles existem, estão lá e são muito bem trabalhados.

A solidez defensiva do Atlético é a sua principal imagem de marca [Foto: www.india.com]
A solidez defensiva do Atlético é a sua principal imagem de marca [Foto: www.india.com]
 

Pelo seu estilo defensivo, agressivo sobre a bola e, muitas vezes, quase à margem das leis (não há porque escondê-lo), e como todas as grandes equipas, o Atlético de Simeone recolhe tantas ou mais críticas que elogios. Uma das principais e mais comuns críticas foca-se na falta de capacidade ofensiva dos “colchoneros”. No facto de, sendo uma equipa de um estilo defensivo e pragmático, não possuírem qualidade nos momentos ofensivos e que envolvem a posse da bola. De facto, Simeone já por várias vezes assumiu em público que se sente mais à vontade quando o Atlético cede a iniciativa de jogo ao seu adversário, tendo assim mais espaço para lançar o contra-ataque quando recuperam a bola.

No entanto, esta época o Atlético parece estar a mudar. A matriz principal continua lá, obviamente, mas nota-se uma preocupação crescente de Simeone com a produção ofensiva da equipa, e com o número de jogadores de cariz ofensivo presentes na equipa. No jogo contra o Sporting de Gijón, na 4ª jornada da La Liga, por exemplo, o Atlético entrou em campo com Koke, Saúl Ñíguez, Gaitán e Ferreira Carrasco no meio-campo, com Gameiro e Griezmann no ataque. 6 jogadores de características ofensivas, na sua essência, e uma vitória por 5-0. A segunda maior da temporada, actualmente, apenas atrás da goleada imposta ao Granada, à 8ª jornada. Vitória por 7-1, com apenas duas alterações em relação ao jogo de Gijón: a troca de Saúl Ñíguez por Gabi, um médio de características mais defensivas, e a troca de Gaitán por Correa, um extremo argentino de maior verticalidade e bastante incisivo nas suas acções. Novamente um 11 com clara qualidade ofensiva, e nova goleada.

Outro dado curioso é a forma como os golos deste Atlético têm sido obtidos. Em épocas passadas, uma parte significativa da produção ofensiva do clube de Madrid era conseguida através das bolas paradas. A capacidade de explorarem livres ou cantos para criar oportunidades de golo foi maximizada ao longo das últimas temporadas. Esta época, no entanto, o Atlético ainda não marcou de bola parada. Todos os seus golos são de bola corrida ou através de grandes penalidades.

Diego Godín é a principal "arma" do Atlético nas bolas paradas [Foto: www.espnfc.com]
Diego Godín é a principal “arma” do Atlético nas bolas paradas [Foto: www.espnfc.com]
 

O Atlético tem vários jogadores de classe mundial, como Oblak, Godín, Filipe Luís ou Griezmann. Ainda assim, um dos destaques individuais deste “novo” Atlético tem sido o belga Yannick Ferreira Carrasco. O extremo, de 23 anos, há muito que demonstrava, em jogos isolados, possuir um enorme talento. Neste início de época, parece finalmente ter “explodido”, e às suas inquestionáveis mais-valias técnicas, acrescentou uma capacidade finalizadora até aqui algo adormecida e uma consistência exibicional muito interessante para um jogador do seu perfil. Está também mais trabalhador quando não tem a bola e melhorou substancialmente a sua qualidade defensiva, fruto certamente do trabalho de muitos meses que já leva com Simeone e que começa a reflectir-se nas suas exibições. Já com 7 golos na presente época, e sendo um jogador com uma tremenda capacidade para desequilibrar e criar oportunidades de golo, é de esperar que ainda venha a fazer jus ao nome várias vezes durante a época, e que seja o Carrasco de muitos dos adversários dos “colchoneros”.

Com 25 golos em 11 jornadas da La Liga, o Atlético apresenta-se como o 3º melhor ataque da prova, e é hoje, claramente, uma equipa algo diferente daquilo a que todos estávamos habituados a ver até aqui. O futuro dirá agora se esta mudança virá para ficar, e se terá consequências a nível defensivo. Mas é certo que a forma como conhecemos o Atlético começa a mudar.


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