17 Ago, 2017

Rijeka e a força da estabilidade

Tomás da CunhaSetembro 21, 20164min0

Rijeka e a força da estabilidade

Tomás da CunhaSetembro 21, 20164min0

Sopram ventos de mudança no campeonato croata. Pelo menos é o que parece. Nunca foi tão realisticamente possível ver o Rijeka destronar o Dínamo Zagreb, a quem não foge o título há 11 anos. O contexto actual é bastante simpático para o terceiro maior clube da Croácia, sobretudo depois da vitória sobre o rival. Além dos 4 pontos de vantagem na classificação, que garantem desde já uma almofada de conforto, a equipa orientada pelo esloveno Matjaz Kek conta neste momento com mais estabilidade e uma superioridade moral que pode aproveitar.

O Dínamo caiu com estrondo em Rijeka. Há muito tempo que não se via o todo-poderoso de Zagreb ser vergado de forma tão clara, podendo até dar-se por satisfeito por “só” ter perdido por 5-2. Os campeões em título fizeram uma exibição para esquecer, com erros constantes do princípio ao fim, mas muitos deles provocados pelo adversário. Pelo momento actual, o Rijeka podia ser considerado favorito à partida e não quis deixar os créditos por mãos alheias. Com uma atitude pressionante desde o início do encontro, conseguiu recuperar inúmeras bolas em zonas adiantadas e explorou as transições de forma exímia, castigando as desconcentrações do Dínamo. Uma equipa organizada e com identidade, tudo o que o emblema de Zagreb não foi.

A estratégia montada por Matjaz Kek teve o resultado pretendido. Aliás, superou por completo as melhores expectativas de jogadores e adeptos do Rijeka. O objectivo era aproveitar a pressão enorme com que o Dínamo chegava a este encontro. Depois de duas derrotas consecutivas, em casa frente ao Osijek e em Lyon, os homens de Kranjcar entravam em campo sobre brasas. E isso notou-se desde cedo. Benkovic e Schildenfeld, os dois centrais, tremeram sempre que a bola lhes chegou aos pés e ofereceram inúmeras possibilidades à equipa da casa. Toda a defesa dos campeões esteve desastrada.

Houve demérito do Dínamo, é certo, mas também houve muita inteligência na abordagem do Rijeka. Com zonas de pressão bem definidas, a equipa da casa montou uma teia muito eficaz e conseguiu bloquear prematuramente todas as iniciativas do emblema de Zagreb. Vesovic e Gorgon, os dois alas, tiveram um papel determinante e recebem ambos o prémio de melhor em campo. Cada um marcou dois golos, o que podia só por si justificar esse rótulo. Foram duas setas apontadas à baliza contrária, assumindo-se como referências nas saídas rápidas para o ataque. Gorgon procurou mais as diagonais para o centro, por se tratar de um destro a actuar na esquerda, enquanto Vesovic jogou mais em largura. Além disso, ambos revelaram uma enorme disponibilidade defensiva, bloqueando os laterais adversários e ajudando a fechar o espaço interior.

Sai Bezjak, assume Gavranovic

Roman Bezjak era o goleador de serviço do NK Rijeka Foto: sportske.jutarnji.hr
Roman Bezjak era o goleador de serviço do NK Rijeka (Foto: sportske.jutarnji.hr)

Poderia pensar-se que a saída de Roman Bezjak, nos últimos dias do mercado, iria trazer problemas ao ataque do Rijeka. Afinal, a transferência do esloveno de 27 anos para o Darmstadt, da Bundesliga, representava a perda de uma das figuras da equipa e do melhor marcador da última época (marcou 13 golos, mais 3 que o albanês Bekim Balaj, que também saiu). Contudo, o suíço Mario Gavranovic, que nunca cumpriu o que chegou a prometer, tem sido um substituto à altura e vai fazendo esquecer Bezjak. Nesta fase, os adeptos do Rijeka só se devem lembrar de que, depois de Kramaric, houve mais um avançado no clube a mostrar valor para outros campeonatos.

A mobilidade do ataque é uma das imagens de marca deste Rijeka, que joga sem uma referência na frente. Gavranovic não é um jogador estático, como Bezjak não era. Movimenta-se para abrir espaços e sabe servir de apoio. O Dínamo nunca conseguiu travar a dinâmica ofensiva da turma de Matjaz Kek, concedendo inúmeras oportunidades de golo. Houve uma ligação bastante estreita entre os dois médios mais ofensivos – Bradaric e Andrijasevic – e os três jogadores mais adiantados, que permitiu à equipa da casa ter o controlo absoluto do encontro.

Com a travessia no deserto que o Hajduk Split vai atravessando, o Rijeka assumiu-se nos últimos anos como a principal ameaça aos títulos sucessivos do Dínamo. O terceiro maior emblema da Croácia, que conta com 4 Taças no palmarés (2 da antiga Jugoslávia), tem cimentado o seu estatuto no futebol nacional e apresenta um projecto destinado a vencer. Gabriele Volpi, o dono do clube, mantém Matjaz Kek no comando da equipa desde 2013, demonstrando que a estabilidade é quase sempre a receita para o sucesso. O Dínamo continua a ter algum favoritismo, pelo historial e pela superior qualidade do plantel, mas o Rijeka está apostado em contrariá-lo.


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