20 Out, 2017

Halilovic e Coric: talentos idênticos, mentalidades opostas

Tomás da CunhaDezembro 5, 20166min0

Halilovic e Coric: talentos idênticos, mentalidades opostas

Tomás da CunhaDezembro 5, 20166min0

Quando se fala na formação de jogadores, há clubes que não podem ser esquecidos. O Dínamo Zagreb é um desses nomes incontornáveis, tendo sido considerado recentemente o terceiro maior produtor de talentos a nível europeu, apenas atrás de Ajax e Partizan. Nas ‘top 5’ do Velho Continente há 55 jogadores fabricados no gigante croata; um deles chama-se Alen Halilovic, “novo Messi” que ainda não cumpriu o que prometeu.

É no mínimo estranho perceber que o menino a quem todos auguravam um futuro brilhante está, neste momento, à procura de uma carreira de sucesso num clube que luta pela manutenção. Aquele craque com um pé esquerdo do outro mundo, que colava a bola no pé e ia ziguezagueando por entre adversários com uma facilidade arrebatadora, encarando os grandes como se não lhes devesse nada, porque o talento não se mede aos palmos.

O menino cresceu e “já” tem 20 anos. Para trás deixou uma passagem infeliz por Barcelona, onde nunca conseguiu lidar com o peso das expectativas. Chegou como futura estrela mundial e saiu sem glória, à procura de um lugar que o traga de novo à ribalta. Foi uma aposta sem retorno para os catalães, que em 2014 se anteciparam a meio mundo na transferência do “Messi da Croácia”, contratando-o por valores bastante razoáveis no panorama actual – em final de contrato com o Dinamo, custou apenas 2,2 milhões de euros.

Não foi, porém, por falta de talento que Halilovic não se afirmou em Camp Nou. Detentor de inúmeros recordes no campeonato croata – o mais novo de sempre a jogar e a marcar – e internacional pelo país desde os 17 anos (estreou-se frente a Portugal), cedo ganhou cotação pela sua qualidade prematura. Ainda assim, numa fase inicial percebia-se que a fama não lhe tinha subido à cabeça. “Admiro o Leo, mas estou muito longe da sua qualidade. Por agora, o meu objectivo é jogar bem e mostrar ao treinador [Ante Čačić] que pode contar comigo”, disse em 2012.

O problema veio depois. Não querendo renovar com o Dinamo, Halilovic terá dado o primeiro passo em falso. De malas feitas para Barcelona, o miúdo deixou o conforto de casa e das caras conhecidas para abraçar um novo desafio. Na teoria, a escolha até parecia oferecer boas probabilidades de sucesso, tendo em conta o passado recente dos blaugrana com jovens promissores. Contudo, Halilovic estagnou no conjunto secundário, perdendo todas as perspectivas de chegar à equipa principal.

O empréstimo ao Sporting Gijón foi bastante produtivo para o croata, que realizou uma época de bom nível. Já sem crédito em Barcelona, acabou por ser vendido ao Hamburgo, onde tem sido – estranhamente – pouco utilizado. Aos 20 anos, Halilovic talvez não seja o adolescente ingénuo e apressado que se deixou iludir, mas ainda sofre com o rumo que deu à sua carreira.

Ante Coric: a maturidade aliada ao talento

Ante Coric é um dos rostos da nova geração croata Foto: Clive Brunskill/Getty Images
Ante Coric é um dos rostos da nova geração croata
Foto: Clive Brunskill/Getty Images

A nova fornada do Dinamo tem, para não variar, um potencial muito elevado. Depois da saída de Marko Pjaca para a Juventus, Ante Coric é a principal esperança do clube, não só pelo que oferece em termos desportivos mas também pela mais valia financeira que pode vir a representar. As comparações com craques anteriores, como Modric ou Halilovic, são inevitáveis, mas o jovem médio, além de um talento enorme, parece ter a cabeça no lugar.

Coric tem muito em comum com o compatriota que se perdeu em Barcelona. A fisionomia de ambos pode ajudar a explicar a forma como se desenvolveram enquanto jogadores. Mais baixos e mais fracos do que quase todos os outros, desde sempre tiveram de inventar soluções criativas para fugir ao confronto físico. Tornaram-se médios ofensivos muito imaginativos, rápidos a pensar e a executar, criando desequilíbrios com tremenda facilidade.

Tal como Halilovic, o “wonderkid” Coric entrou rapidamente na órbita dos colossos do futebol europeu. Numa fase em que os clubes identificam cada vez mais cedo as possíveis estrelas do futuro, a capacidade de antecipação é um atributo negocial indispensável. Mas o jovem de 19 anos não foi no engodo, dando uma prova de maturidade que pode ser decisiva no seu crescimento. Aparentemente, terá recusado propostas do Real Madrid e do Chelsea em Janeiro deste ano, preferindo continuar a evoluir no Dinamo.

Em Zagreb, o médio internacional pela Croácia tem garantias de que o seu talento não será desperdiçado. O início da época não foi famoso para Coric, mas a chegada do treinador Ivaylo Petev devolveu-lhe a confiança e a motivação para mostrar o melhor do seu futebol. Agarrou, finalmente, um lugar cativo na equipa titular, e tem sido um dos principais responsáveis pela recente subida de forma do Dinamo. Além de toda a velocidade que empresta ao ataque dos campeões croatas, seja através de um passe mortífero ou da condução acelerada, marcou golos importantes frente ao Inter Zapresic e ao Osijek. Com liberdade total no terreno de jogo, é difícil travar Coric.

O interesse dos grandes clubes não terá certamente esmorecido, sendo expectável que surjam novos “ataques” no final desta temporada. Os exemplos do passado devem servir para que o talentoso croata não tome decisões precipitadas, que possam comprometer o crescimento natural de um jogador com imensa margem de progressão. Não estando pronto para um Barcelona ou Real Madrid, o mais indicado seria fazer a transição para um clube de uma liga competitiva, mas sem ter a pressão de corresponder no imediato à aposta efectuada. A gestão de expectativas anda de mãos dadas com a gestão de carreira, e Coric parece ser, por enquanto, um melhor gestor do que Halilovic.


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