20 Out, 2017

Guangzhou Evergrande. O interior de uma máquina campeã

Ricardo LestreJaneiro 29, 20179min0

Guangzhou Evergrande. O interior de uma máquina campeã

Ricardo LestreJaneiro 29, 20179min0

Guangzhou Evergrande Taobao é sinónimo de hegemonia. De vitórias. De finais. De conquistas. Construído pela raposa cinzenta, Marcelo Lippi, reforçado internamente por Fabio Cannavaro e desenvolvido por Luiz Felipe Scolari, o núcleo dos hexacampeões chineses adquiriu, rapidamente, um estatuto privilegiado no seio do futebol asiático e carregou consigo, competição atrás de competição, o nome do futebol chinês.

São largos os anos de domínio absoluto do maior conjunto da cidade de Cantão, não só a nível nacional mas também a nível internacional. Contudo, nos dias que correm, a realidade é completamente diferente. O investimento levado a cabo pelos restantes clubes rivais, que apontam um lugar no pódio/o acesso à Liga dos Campeões Asiáticos como principal objectivo, ameaça a hegemonia dos Tigres do Sul no panorama chinês. Em 2015, dois pontos separaram o Shanghai SIPG de Sven-Göran Eriksson do primeiro posto e, no ano transacto, o novo Jiangsu Suning, a contas com alguns sobressaltos, terminou a 7 pontos de distância dos actuais campeões. Agora, no ano desportivo de 2017, a contestação ao trono está mais do que iminente. Mas para um clube vencedor como o Guangzhou Evergrande Taobao esse é apenas mais um obstáculo a contornar.

Assim sendo, quais são os mecanismos que definem uma máquina campeã como o Guangzhou Evergrande?

Primeiramente, é necessário ressalvar o grupo coeso de jogadores chineses no plantel. Desde a entrada de Marcelo Lippi, no ano de 2012, atletas de maior calibre nacional como Gao Lìn, Zhang Linpeng, Zheng Zhi, Feng Xiaoting , Zheng Cheng  ou Huang Bowen foram recrutados pelo técnico italiano e continuam, actualmente, a usufruir de um estatuto bem elevado quer no clube quer na seleção nacional. O efeito Scolari garantiu, por outro lado, um maior endurecimento das qualidades desses mesmos activos.

CONSTRUÇÃO DE JOGO

No momento da saída de bola, Kim Young-gwon destaca-se entre os demais. Recorte técnico refinadíssimo e uma inteligência posicional acima da média para um defesa-central. Apesar de pouco físico – Feng Xiaoting complementa e muito bem essa lacuna – e propenso a lesões, o coreano funciona como constructor de jogo recuado da equipa e executa essa função com tremenda eficácia. Zhang Linpeng e Li Xuepeng – em detrimento da lesão prolongada de Zhou Zheng atuou várias vezes no flanco esquerdo assim como Rong Hao –, os defesas laterais, dão largura e profundidade aos corredores, permitindo um maior adiantamento dos extremos e uma outra liberdade aos médios no centro do terreno. Têm ambos uma óptima propensão ofensiva mas não se deslumbram no momento de transição, o que faz com que a equipa não fique descompensada facilmente.

Por sua vez, Zhang, agora com 27 anos, é uma das maiores figuras do futebol chinês e fora considerado, em tempos, como um das grandes promessas do atual grupo de jogadores internacionais. Fisicamente semelhante a Sérgio Ramos assim como no seu estilo de jogo e, inclusive, na posição, ‘Zhangmos’ iniciou a sua carreira como defesa-central apesar de se ter estabelecido, nos últimos anos, como um excelente defesa-direito. Um pouco à imagem do espanhol, mas no sentido inverso.

Kim Young-gwon (a vermelho) é um elemento muito importante na fase de construção devido à sua inteligência e elevada capacidade de passe

PROCESSO DEFENSIVO

A melhor linha defensiva do Guangzhou Evergrande, embora tenha sofrido com imensas lesões na temporada passada, é, no clímax da sua forma física, tradicionalmente composta por Zhang Linpeng, Feng Xiaoting, Kim Young-gwon e Zou Zheng. Linha defensiva alta, pressionante, posicional, versátil e, sobretudo, bastante completa.

Relativamente à transição defensiva, mais do que o posicionamento zonal dos quatros membros da defesa, o auxílio dos falsos alas adquire uma importância significativa. Dada a facilidade e a liberdade com que os médios se movimentam, o elemento que recua pode variar inúmeras vezes. Desde Huang Bowen, por norma um pouco mais descaído no flanco direito, a Zheng Long, passando por Gao Lin, Ricardo Goulart ou até Alan. Dependendo da posição que estes eventualmente desempenhem dentro de campo, a ajuda defensiva aos flancos está sempre presente, libertando Paulinho e Zheng Zhi para zonas mais interiores. A imagem que se segue ilustra perfeitamente como o ala, neste caso Gao Lin, recua no terreno para auxiliar Li Xuepeng e o pressing em bloco médio, diga-se, que a equipa efectua no momento da perda de bola, reduzindo espaços e limitando as opções do adversário.

A pressão zonal e em bloco médio-alto é frequentemente exercida pelo Guangzhou Evergrande. Desta feita, Gao Lin (a vermelho) auxiliou Li Xuepeng na missão defensiva

Como já referido anteriormente, Kim Young-gwon é o primeiro elemento a ter em conta na construção de jogo. Ainda assim, os papéis de principais catalisadores recaem em Zheng Zhi e Paulinho, os dois elementos do meio-campo mais recuados. O internacional brasileiro, desde a sua chegada ao Guangzhou Evergrande, revitalizou a sua carreira de tal forma que hoje é considerado um dos melhores box-to-box – se não o melhor – em todo o continente asiático e no restante mundo futebolístico. Peça crucial no esquema de Scolari, Paulinho realizou um total de 4.143 minutos, envolvendo todas as competições, e marcou vários golos de enorme relevância. A sua resistência, força e disponibilidade física nos 4 momentos do jogo fazem com que seja um apoio indispensável para Zheng Zhi.

O veterano chinês, com 36 anos de idade, caminha para a sua 7ª temporada ao serviço dos hexacampeões, mas as suas qualidades técnico-tácticas permanecem intactas. É o cérebro do jogo. Como a sua condição física actual não permite grandes aventuras, Zhi actua numa posição recuada pelo que auxilia, e muito, nas tarefas defensivas. Mas não só. A sua apurada visão de jogo, assim como uma grande técnica de passe, dá um outro embelezamento à construção de todo o futebol da equipa. Zheng Zhi é como que uma ‘aranha’ na forma como pensa e executa o jogo. Apesar de Paulinho o fazer com regularidade, é Zhi quem faz com maior qualidade.

Zheng Zhi (a vermelho) acompanha e vigia a movimentação do seu oponente directo sempre com muita atenção

Paulinho (a vermelho) e Zheng Zhi (a preto) alternam entre si a função de segundo receptor

PROCESSO OFENSIVO

A parte mais fascinante da máquina de Felipão. A frente de ataque do Guangzhou Evergrande, na sua plenitude de forma, é capaz de produzir momentos de futebol absolutamente estonteantes. Alan, após o larguíssimo atraso da sua debut, devido a complicações físicas graves, reacendeu a chama de uma equipa que passara por uma dura crise na época ao ser eliminada da Liga dos Campeões Asiáticos na fase de grupos. O avançado brasileiro mostrou uma superioridade abismal em relação a Jackson Martínez, beneficiando, por outro lado, da lesão do colombiano, e, juntamente com Ricardo Goulart e Gao Lin formou um trio temível. A mobilidade destas três unidades – sem esquecer o papel fundamental de Huang Bowen no esquema táctico – torna o tradicional 4x2x3x1 de Scolari autenticamente camaleónico. Isto porque o entrosamento entre os três roça quase a perfeição. A capacidade de jogar entre linhas, a forma como baralham as marcações contrárias e a agilidade com que se movimentam em campo é, de facto, assinalável.

Fonte: Twitter @HartungLeo

A disposição composta por Gao Lin (à direita), Ricardo Goulart (ao centro) e Alan (à esquerda)

Já é perceptível a troca de posições entre Alan (ao centro) e Ricardo Goulart (à esquerda)

Do três, Ricardo Goulart é o verdadeiro maestro. A habilidade técnica do brasileiro sobressai-se entre a dos demais e é dos seus pés que sai grande parte da magistralidade ofensiva da equipa. Sempre muito activo na procura da bola e com um sentido posicional entre linhas excepcional, Goulart tem, dentro do plantel, um valor incalculável. Por tudo o que acrescenta ao jogo.

Ricardo Goulart explora na perfeição o espaço entre linhas de modo a criar rapidamente uma linha de passe

A imagem seguinte ilustra na perfeição a forma como Gao Lin, Alan e Ricardo Goulart auxiliam o portador da bola Li Xuepeng, procurando criar triangulações rápidas e eficazes.

Alan, Gao Lin e Ricardo Goulart prestam auxílio imediato ao portador do esférico

Em várias ocasiões, o conjunto de Scolari chega ao golo a poucos toques e aplica, regularmente, um ritmo notável.

O Guangzhou Evergrande Taobao é prova viva de que o capital, mesmo investido em quantidades astronómicas, consegue, por si só, criar histórias de sucesso. Desde a entrada da Evergrande Real Estate Group e, mais tarde da Alibaba Group, os Tigres do Sul ascenderam do oito ao oitenta numa mera questão de tempo. Um clube de futebol que desde o seu corpo directivo aos restantes funcionários apresenta um alto grau de profissionalismo. O Guangzhou Evergrande Taobao quebrou, à sua maneira, as barreiras provocadas pelo eurocentrismo. Existe muito (e bom) futebol no continente asiático.

Foto: Xinhua Press


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