17 Ago, 2017

Romário, Cruyff e o Carnaval

Victor AbussafiFevereiro 28, 20174min0

Romário, Cruyff e o Carnaval

Victor AbussafiFevereiro 28, 20174min0

Que jogador brasileiro gosta de Carnaval todo mundo sabe. Mas há uma história, já distorcida em lenda, que envolve dois dos maiores gênios do futebol e a maior festa do mundo, o Carnaval do Rio de Janeiro.

Johann Cruyff, um dos maiores jogadores de todos os tempos e mente por trás do brilhante estilo de jogo do Barcelona, era treinador do clube blaugrana no início dos anos 90. Nesta época, conquistaram quatro Campeonatos Espanhóis consecutivos e a primeira Champions League da história do Barça, num grupo de jogadores que ficou conhecido como “Dream Team” e contava com craques como Laudrup, Stoichkov, Koeman e Guardiola.

Em 1993, o baixinho Romário juntou-se aos campeões europeus, advindo do PSV, da Holanda. Surpreendentemente, o estilo disciplinador de Cruyff casou bem com o despojado brasileiro, mesmo com os constantes conflitos. Romário recebia uma multa de 50 dólares por cada dez minutos de atraso nos treinos, o que acontecia com frequência, e deu a seguinte declaração à revista Veja, no Brasil, antes da Copa de 94: “Não tem problema. Vou ganhar a Copa e com o dinheiro pago essas multas”.

Mauro Silva, ex-jogador do La Coruña e da Seleção Brasileira, conta um desses atritos no livro “Os 11 maiores centroavantes do futebol brasileiro”, de Milton Leite. Segundo o meia, uma vez Cruyff pediu para o seu assistente chamar Romário à sua sala e o jogador respondeu assim: “Fala para ele que quando quiser falar comigo, sabe onde me encontrar”.

Apesar do potencial explosivo dessa relação, Cruyff considerava Romário o melhor jogador que já tinha treinado e admiração era mútua, como prova o post do atacante em suas redes sociais após a morte da lenda holandesa:

A folga para o Carnaval

É justamente dessa compreensão com a saudade de casa que nasce essa famosa história. Cruyff costumava dar dias a mais de descanso para que Romário pudesse viajar ao Brasil. Numa entrevista ao jornal francês L’Equipe, em 2012, o treinador contou uma passagem curiosa: “Uma vez, ele veio me perguntar se poderia faltar a dois dias de treinos para voltar ao Brasil. Deveria ser carnaval no Rio de Janeiro. Eu respondi: ‘se você fizer dois gols amanhã, te dou dois dias a mais de descanso que o restante da equipe’. No dia seguinte, ele marcou seu segundo gol com 20 minutos de jogo e imediatamente fez um gesto para mim pedindo para sair.Ele me disse: ‘Treinador, meu avião sai em menos de uma hora’.”

Apesar de ser uma história possível de acontecer para quem conhece Romário, Johan Cruyff exagerou em sua anedota para torná-la mais caricata. O jornalista Marcelo Bechler pesquisou e não encontrou nenhum jogo com esta característica durante a passagem do jogador por Barcelona.

Romário e Cruyff marcaram época com seu talento

Enquanto esteve com Cruyff na Catalunha, Romário marcou 32 gols em 47 partidas. Foi substituído cinco vezes. Nenhuma no primeiro tempo, quatro durante a segunda etapa e apenas uma vez no intervalo – contra o Sporting Gijon, uma partida que terminou 1-1 e o brasileiro não marcou.

Será essa a verdade?

Outra história similar, que pode estar mais próxima de ser verdade, conta que o pedido aconteceu em Janeiro de 1994, antes de um clássico contra o Real Madrid, um mês antes do Carnaval.

Cruyff teria dito a Romário que daria um dia de folga extra para cada gol marcado no clássico. O Barcelona goleou por 5-0, no Camp Nou, com 3 do Baixinho, que se sagraria artilheiro do Campeonato ganho pelo clube catalão. Os gols desse jogo podem ser vistos aqui, mas o primeiro merece destaque:

O Carnaval venceu

Em 1995, campeão do mundo e recém escolhido melhor jogador do mundo, Romário desistiu do futebol europeu e escolheu voltar ao Brasil, sendo contratado pelo Flamengo para formar o “ataque dos sonhos” com Sávio e Edmundo.

No Brasil, brilhou por Flamengo, Fluminense e Vasco, onde chegou a ser artilheiro do Brasileirão com 39 anos, em 2005. Alcançou seu milésimo gol em 2007 (numa contagem polêmica por envolver gols em amistosos e festivos) e encerrou a carreira como um dos maiores jogadores de todos os tempos, pelo futebol e por sua personalidade.

Lenda ou verdade, Cruyff pode ter exagerado. Mas o Futebol e Carnaval são o que são exatamente pelo exagero. E nós, espectadores, é que decidimos se queremos ou não acreditar na lenda de Romário e do Carnaval.


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