21 Ago, 2017

Merecimento e o Brasileirão

Victor AbussafiOutubro 22, 20167min0

Merecimento e o Brasileirão

Victor AbussafiOutubro 22, 20167min0

Palavra chave na filosofia de Tite, treinador da Seleção Brasileira. Para ele, vitórias e conquistas devem ser merecidas através do trabalho. Uma boa preparação, muito treinamento, dedicação e seriedade para gerar um bom futebol e dignificar aquele grupo como merecedor de conquistas. O que essa filosofia tem a ver com o desempenho de Palmeiras e Flamengo, que lutam pelo título no Brasil, e dos grandes que lutam para não cair?

Com 4 jogos como treinador do Brasil, Tite levou a equipe da sexta posição para a liderança das eliminatórias. 12 golos marcados e apenas 1 sofrido e um bom futebol que faz a Seleção merecer as vitórias. Mas podemos extrapolar o merecimento para a atuação fora de campo, inclusive. Tite melhorou o ambiente da Seleção, conquistou os jogadores e apresentou um novo modelo de trabalho, mais intenso e moderno. O resultado veio.

Fábio Mahseredjian, Tite e Edu Gaspar durante a convocação dos jogadores que irão atuar nas partidas da Seleção Brasileira contra Argentina e Peru, válidas pelas Eliminatórias da Copa da Rússia 2018 (Foto: Pedro Martins / MoWA Press)
Fábio Mahseredjian, Tite e Edu Gaspar durante a convocação dos jogadores que irão atuar nas partidas da Seleção Brasileira contra Argentina e Peru, válidas pelas Eliminatórias da Copa da Rússia 2018 (Foto: Pedro Martins / MoWA Press)

Nos clubes, a história é a mesma. Não é à toa que Palmeiras e Flamengo brigam pelo título do Campeonato Brasileiro, rodada a rodada.

Depois de duas quedas de divisão em 10 anos, o Palmeiras ressurge como clube de ponta. Com uma gestão polêmica de Paulo Nobre, acionista de um dos maiores bancos do país, o clube reestruturou suas finanças com um empréstimo de cerca de R$ 100 Milhões (€30 Milhões) de seu presidente. Isso permitiu ao clube parar de correr atrás de juros de empréstimos de curto prazo e trabalhar com alguma organização.

Gabriel Jesus é o grande destaque do Palmeiras que caminha para o título brasileiro de 2016. (Foto: José Edgar de Matos/UOL Esporte)
Gabriel Jesus é o grande destaque do Palmeiras que caminha para o título brasileiro de 2016. (Foto: José Edgar de Matos/UOL Esporte)

O novo estádio, o belíssimo Allianz Parque, promoveu um crescimento recorde nas médias de público e nas adesões ao plano de sócios Avanti, que já vai em cerca de 100 mil sócios, impulsionando as receitas do clube. Hoje o Palmeiras tem 32.677 pagantes por partida, a melhor média de público do Brasileirão e superior ao seu melhor índice em todos os tempos no Campeonato Brasileiro.

O Flamengo não precisou de um “sugar daddy” para reformular sua gestão, mas sim da habilidade estratégica de um grupo de empresários e gestores de grandes empresas, liderados por Eduardo Bandeira de Mello, ex-BNDES, e apoiado por um time de executivos de peso como Wallim Vasconcelos, economista; Luiz Eduardo Baptista, presidente da Sky Brasil; Carlos Langoni, ex-Banco Central e Flávio Godinho, executivo do Grupo EBX.

Apesar de ter se dividido para as próximas eleições, foi sob a gestão deste grupo que o Flamengo deu um salto econômico que pode representar o renascimento de uma hegemonia. Um lucro de R$ 130,4 milhões no balanço financeiro do Flamengo foi registrado na última temporada, mais do dobro de 2014 (R$ 64,312 milhões). Em 2015, o clube foi quem mais faturou, considerando a receita sem transferência de atletas, com R$ 344 milhões. Entretanto, até este ano, os resultados em campo não refletiam esse crescimento econômico.

O Flamengo cresceu sob o comando do ex-interino Zé Ricardo e conta com Diego e companhia para lutar pelo título (Foto: Staff Images / Flamengo)
O Flamengo cresceu sob o comando do ex-interino Zé Ricardo e conta com Diego e companhia para lutar pelo título (Foto: Staff Images / Flamengo)

Em 2016, o Flamengo aumentou ainda mais as receitas e aumentou o investimento no futebol (que mesmo assim representa 44% das receitas, quando nos outros clubes a média é de mais 80%). Enquanto paga suas dívidas, o Flamengo se reconstrói e agora briga pelo título do Campeonato Brasileiro, com fôlego para investir no retorno do meia Diego, por exemplo.

Em campo, Palmeiras e Flamengo contrataram bem, contam com uma filosofia de jogo ofensiva, brigam ponto a ponto e parecem construir um futuro promissor. Na outra ponta da tabela, no entanto, a realidade é outra. São Paulo, Cruzeiro e Internacional estão seriamente ameaçados pelo rebaixamento.

Com gestões que pararam no tempo – São Paulo e Inter tem os mesmos dirigentes da época em que disputaram a final da Libertadores e eram modelos de gestão, há mais de 10 anos – e com uma sucessão de más decisões administrativas, seguiram mais ou menos o mesmo roteiro. Montaram times caros, investiram mais do que podiam e os resultados não vieram. Os bastidores políticos agitados não colaboram e não existe um plano esportivo planejado.

O São Paulo, por exemplo, apostou no futebol moderno e ofensivo de Juan Carlos Osório, no pragmatismo de Edgardo Bauza e agora foi buscar um Ricardo Gomes que tinha 35% de aproveitamento no campeonato e não tem estilo parecido com nenhum dos dois. O Cruzeiro, buscou um treinador europeu, Paulo Bento, no meio da competição e deu apenas dois meses para ele treinar o time. Sem resultados, caiu rapidamente.

No Internacional, a crise foi ainda mais evidente. Líder nas primeiras rodadas, com um futebol extremamente pragmático com Argel, acumulou derrotas seguidas que o levaram a última posição. Passaram pelo positivista Falcão e voltaram, um mês depois, para o maior defensor do pragmatismo, Celso Roth. O desespero bateu.

São Paulo e Inter venceram na última rodada, mas a briga contra o rebaixamento continua. (Foto: Ricardo Duarte/Internacional/Divulgação)
São Paulo e Inter venceram na última rodada, mas a briga contra o rebaixamento continua. (Foto: Ricardo Duarte/Internacional/Divulgação)

Hoje, a 8 rodadas do fim, São Paulo tem 4 pontos a mais que o primeiro rebaixado, Cruzeiro tem 3 e Internacional 1. O sofrimento vai ser até o final. Triste para torcedores acostumados a dias melhores.

Isso só prova que Tite está certo. Que apesar do futebol ser um esporte imprevisível durante seus 90 minutos, quando se olha numa imagem distanciada é fácil identificar os padrões e os motivos que fazem a bola entrar. Afinal, como diria Ferran Soriano, a bola não entra por acaso.


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