17 Ago, 2017

Fla x Flu: um clássico muito maior que a final da Taça Guanabara

Rafael RibeiroMarço 9, 201710min0

Fla x Flu: um clássico muito maior que a final da Taça Guanabara

Rafael RibeiroMarço 9, 201710min0

O maior clássico do Brasil e um dos maiores do mundo marcou a final do primeiro turno do Campeonato Carioca. O Fla-Flu deste domingo foi muito mais do que um simples jogo, ilustrou a evolução das equipes em começo de temporada e foi um marco no posicionamento dos clubes na luta por seus interesses. Ah! E ainda foi um jogo cheio de emoções.

O Flamengo, considerado um dos melhores elencos do Brasil, com Diego e Guerrero comandando o ataque, além das contratações de Trauco (que chamou a atenção por boas atuações pelo Universitario e pela seleção Peruana) e Berrió (colombiano com sólida participação pelo Atlético Nacional), disputa este campeonato carioca para consolidar o bom trabalho comandado por Zé Ricardo, um dos treinadores da nova geração brasileira.

O Fluminense, em plena reconstrução, antagonicamente apostando em um treinador já consagrado e conhecido da torcida tricolor, Abel Braga, inicia o ano de 2017 para encontrar a confiança e a estabilidade para a temporada que se inicia, apostando também em jovens promissores, como Gustavo Scarpa, Wellington Silva e Richarlison.

O anti-futebol

O dérbi entre Flamengo e Botafogo, já na semifnal do campeonato que detalharemos, se tornou destaque pelas confusões. Com uma greve envolvendo policiais do Rio de Janeiro, quase não havia policiamento ao redor do estádio momentos antes da partida começar. A FERJ (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro) confirmou a partida, e de última hora, a guarda municipal e policiais deslocados da segurança das praias cariocas chegaram ao estádio Engenhão (chamado atualmente de Nilton Santos), mas não a tempo de conter problemas, como objetos arremessados, briga generalizada e até tiros de armas de fogo. A polícia tentou conter os torcedores com disparos de bala de borracha e gás de pimenta. Resultado: oito pessoas feridas. Uma não resistiu e faleceu no mesmo dia.

Falta de policiamento ao redor do estádio Nilton Santos (Imagem: Raphael Zarko)

“Cada cena que vejo dessa realmente dói no coração porque o futebol não tem nada a ver com isso”, disse o jogador Diego, do Flamengo. Após o jogo, a Justiça determinou em decisão liminar que os clássicos teriam torcida única na cidade do Rio, daquele que fosse o mandante do jogo, assim como já ocorre há um ano em São Paulo. Os presidentes dos clubes logo se posicionaram contrários à medida. Aqui vale o destaque para o alento que o futebol teve: os dirigentes dos clubes se uniram para que os clássicos continuassem a ter torcida mista, e envidaram esforços para tentar revogar esta decisão e colaborar com tentativa de diminuição das brigas.

O TJD (Tribunal de Justiça Desportiva) acatou uma decisão de Flamengo e Fluminense jogarem com portões fechados, como forma de protesto, na futura final. Horas depois, a decisão de liberar a participação das duas torcidas foi tomada, já que a Polícia Militar do Estado se posicionou a favor da decisão. Se esta união se estendesse para várias outras questões, com certeza já teríamos indícios de um futebol melhor no país.

A Taça Guanabara

Apesar de campanhas distintas no ano anterior, o que se viu no começo da Taça Guanabara (primeiro turno do campeonato carioca) foi um domínio claro dos dois clubes perante os adversários de menor expressão. Na fase de grupos, as campanhas foram iguais: cinco jogos e cinco vitórias, 100% de aproveitamento e o passe carimbado para as semifinais. Se serve para apimentar a discussão, a única diferença é que o Fluminense nestes cinco jogos não tomou gols, e teve 14 de saldo, enquanto o Flamengo sofreu dois gols (em um tranquilo 4 a 1 contra o Boavista, e na vitória contra o Botafogo, fora de casa, por 2 a 1) e fez 17.

O Fla

Os jogos até a semifinal traduziram a tranquilidade demonstrada pela equipe ao longo do começo de ano. No primeiro jogo, 4 a 1 contra o Boavista, e um panorama que, como citamos acima, destacou Diego (com um gol) e Guerrero (com dois) comandando o ataque rubro-negro. O segundo jogo foi contra o Macaé, que ao final da fase de grupos teria cinco derrotas em cinco jogos, e o resultado foi um 3 a 0, com Diego marcando novamente, de pênalti. Depois, um 4 a 0 contra o Nova Iguaçu fora de casa, o clássico contra o Botafogo (com vitória por 2 a 1), marcado pelas diversas confusões fora de campo, que abordarmos anteriormente, e o jogo final contra o Madureira (4 a 0).

Guerrero disputa bola no clássico contra o Botafogo (Imagem: Gilvan de Souza/Flamengo)

A semifinal (entre Flamengo e Vasco) ocorreu em Volta Redonda, cidade próxima, para abrigar torcedores de ambos os clubes, já que a liminar de torcida única só seria quebrada para a final. Menos de 7 mil pessoas compareceram, não houve incidentes com as torcidas (campanhas dos clubes pediram paz antes dos jogos) e em campo o Flamengo levou a melhor, e se classificou para a final, 1 a 0 com gol de Diego, sempre ele, de pênalti.

Faixa exibida antes da semi: “Somos rivais, não somos inimigos. #PazNoFutebol”

O Flu

A campanha sólida comandada por Abel Braga de certa forma contrariou céticos e suas más previsões. No primeiro jogo, contra o Vasco, já um clássico para colocar o tricolor carioca à prova. E o destaque foi para Sornoza. O equatoriano estreou pelo campeonato estadual sendo essencial em dois dos três gols do Flu. Vitória por 3 a 0, com gols de Wellington Silva, Marcos Júnior e Henrique Dourado. Depois, 1 a 0 contra o Resende, 3 a 0 contra a Portuguesa-RJ (detalhe para o gol de Léo, lateral que, com 21 anos, fez seu primeiro gol pelo Fluminense, e se emocionou na comemoração), e por fim 4 a 0 contra o Bangu, e 3 a 0 contra o Volta Redonda, este com a maioria do time composto por reservas, e show de Richarlison, dois gols do camisa 70.

Richarlison arrisca de longe contra o Volta Redonda (Imagem: Mailson Santana/Fluminense FC)

A semifinal, contra o Madureira, mostrou aquilo que seria o tom das comparações entre Fla e Flu na final. O empate em 0 a 0, que deu a classificação ao Flu, foi de pouco futebol do time grande. Já o Madureira criou muito, perdeu diversas chances de gol, e ficou com um gostinho de que poderia ir a final. O Flamengo se tornou favorito diante desta situação, principalmente pela boa atuação na semifinal contra o Vasco. Já o Fluminense ainda era visto com olhos de desconfiança, principalmente ao perder Gustavo Scarpa, lesionado neste jogo, mas os torcedores sabiam que, como diz a frase popular, clássico é clássico, e vice-versa.

A decisão

Como citamos anteriormente, a liminar expedida pela Justiça para determinar torcida única foi revogada, e as duas torcidas puderam comparecer ao Nilton Santos. O que eles no estádio e os telespectadores, em suas casas, não sabiam, era que o clássico traria mais tensão do que o esperado. As reviravoltas contaram com muito ataque no primeiro tempo, duas viradas, e um empate quase no final, para determinar o campeão nos penais.

Fluminense x Flamengo pela final do Taca Guanabara 2017, realizado no Estadio Nilton Santos no Rio de Janeiro. (MoWA Press)

Fluminense x Flamengo pela final do Taca Guanabara 2017, realizado no Estadio Nilton Santos no Rio de Janeiro. (MoWA Press)

O começo do jogo foi alucinante. Logo aos quatro minutos, aproveitando falta mal batida pelo Fla, Wellington Silva arrancou em contra-ataque e, cara a cara com Julio César, fez 1 a 0. A alegria durou pouco, e o Flamengo empatou aos oito, com William Arão aproveitando rebote da zaga. Ficamos sabendo, a partir dali, que o jogo deria mais dinâmico e aberto do que o esperado. A apreensão. Aos 23, depois de parada técnica, Everton aproveitou rebote de Julio César em cabeçada de Guerrero, e virou a partida (de ponta cabeça, para os que assistiam). Mas a calma que faltava ao torcedor, apareceu no time tricolor. Sornoza começou a aparecer mais para o jogo, e uma bola alçada na área flamenguista encontrou a mão de Guerrero (ou teria sido a mão de Guerrero que encontrou a bola?). Fato é que o juiz não teve dúvidas, pênalti. Henrique Dourado tratou de empatar a partida. Antes do primeiro tempo acabar, mais emoção. Não é que o Fluminense conseguiu outra virada? Sim. Passe na medida de Wellington Silva para Lucas, que desempata. 3 a 2 e, ufa, fim da primeira etapa.

A segunda etapa começou mais lenta. Pela intensidade do primeiro tempo, era de se esperar. Muitos passes laterais, alguns sem encontrar um companheiro de equipe. Mas se engana quem acha que o resultado não mudaria. Willian Arão (irritado ao sair) deu lugar à Berrió, que levou o Fla um pouco mais ao ataque. Tanto que, aos 39 minutos, Guerrero voltou a dar esperança ao torcedor rubro negro. Bela cobrança de falta, suficiente para paralisar Julio César, 3 a 3 no placar, e decisão nos pênaltis.

Nas cobranças, Réver e Rafael Vaz desperdiçaram para o Flamengo, enquanto o Fluminense não errou, e lavou a alma dos tricolores levantando a Taça Guanabara. Uma “revanche” se considerarmos que em oito decisões anteriores da taça entre Fla x Flu, em seis vezes o Flamengo foi campeão, e em duas o Fluminense levou a melhor. Agora, em três. Mesmo valendo a taça, o primeiro turno valeu para Flamengo e Fluminense aspirarem por bons resultados no futuro. Para o Flu, os jovens estão demonstrando bom futebol, e trabalhar o equilíbrio entre os setores é a tarefa de Abel. Já para o Fla, talentos individuais como Diego e Guerrero fazem a diferença. O desafio de Zé Ricardo será encaixar todos os bons nomes em uma equipe sólida. Por enquanto, ambos têm do que se animar.


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