18 Nov, 2017

O dia do “clássico que não aconteceu”

Victor AbussafiFevereiro 21, 20174min0

O dia do “clássico que não aconteceu”

Victor AbussafiFevereiro 21, 20174min0

Domingo de futebol. Atlético e Coritiba se preparam para entrar em campo para mais uma jornada do Campeonato Paranaense. A torcida canta músicas de apoio aos clubes na bela Arena da Baixa, um dos palcos da Copa 2014. Os clubes sobem a campo e, juntos, saúdam os torcedores, que retribuem. Depois de alguns minutos, os clubes deixam o campo. Vitória dos dois.

A história deste ato de protesto inicia-se antes mesmo do começo do campeonato. Os dois clubes, os maiores do estado, entraram em conflito com a Rede Globo e a Federação Paranaense de Futebol pelas cotas de televisão a receber pelo Campeonato Estadual. A queixa dos clubes é pelo baixo valor ofertado pelos direitos de transmissão dos seus jogos no Campeonato, muito inferior aos valores pagos em outros estados.

Sem acordo com emissora, os clubes decidiram transmitir o jogo deste domingo pelo YouTube. Entretanto, alegando falta de credenciamento adequado para a equipe que transmitiria o jogo, a Federação proibiu. Os clubes, então, uniram-se em protesto e o que já seria um marco para o futebol brasileiro (a primeira transmissão exclusivamente on-line de um jogo de primeira divisão), tornou-se um símbolo dos problemas que enfrenta o futebol do país.

Veja abaixo a transmissão do jogo. No minuto 30, a explicação do dirigente do Atlético-PR sobre o ocorrido:

Os valores por trás da polémica

Os clubes queixam-se de serem desvalorizados perante os demais estaduais e os valores mostram mesmo uma grande diferença. Enquanto para os dois clubes, o valor ofertado foi de cerca de € 600 mil, clubes pequenos de São Paulo e Rio de Janeiro ganham valor superior em seus estaduais:

  • €6 milhões: Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo (Camp. Paulista)
  • €4,6 milhões: Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco (Camp. Carioca)
  • €3,7 milhões: Atlético-MG e Cruzeiro (Camp. Mineiro)
  • €3,4 milhões: Grêmio e Internacional (Camp. Carioca)
  • €1,6 milhão: Ponte Preta (Camp. Paulista)
  • €1,2 milhão: Bangu, Madureira, Volta Redonda e Boavista (Camp. Carioca)
  • €1,1 milhão: demais times do Campeonato Paulista
  • €800 mil: América-MG (Camp. Mineiro)
  • €700 mil: Macaé e Resende (Camp. Carioca)
  • €600 mil: Atlético-PR e Coritiba (Camp. Paranaense)
  • €250 mil: Bahia e Vitória (Camp. Baiano)

Por isso, os clubes não aceitaram a proposta da afiliada local da Rede Globo e seus jogos, como mandante, no estadual não são transmitidos.

Desde que os clubes conseguiram a liberdade de negociar seus direitos individualmente, a Globo tem encontrado mais dificuldade em renovar os contratos e os valores tem crescido. O canal Esporte Interativo conseguiu costurar acordos com alguns dos grandes clubes para os direitos de transmissão dos jogos para Pay-TV, mas a força política e económica da Rede Globo favorece a manutenção do monopólio.

Os pés pelas mãos

Clubes rinais unidos (Foto: Gazeta Esportiva)

Num mercado livre, não há problema em não aceitar a proposta para vender um direito seu, como fizeram os clubes. Assim como não há nada errado em ofertar aquilo que acha justo para comprar um produto, como fez a emissora de televisão. Nas leis de procura e oferta, o preço se ajusta e pode-se não chegar a um acordo.

Se o produto do Campeonato Estadual não é interessante o suficiente para valer mais, esse é tópico para outro artigo. Mas, o grande problema ilustrado por essa situação ridícula de domingo é o crônico problema de gestão das federações brasileiras, amadoras e inoperantes para problemas realmente importantes.

Essa postura, merecedora de aplausos, dos dois clubes precisa ser valorizada e, mais, mantida para outras discussões. É justa a demanda de Atlético e Coritiba, que querem valorizar o seu produto, mas os clubes precisam unir-se para valorizar o produto como um todo. Afinal, as ligas americanas e a Premier League já ensinaram que uma mais justa divisão de recursos melhora o equilíbrio dos campeonatos e, por consequência, o produto que é vendido aos patrocinadores.

O que não se pode é deixar morrer iniciativas como o Bom Senso (movimento dos jogadores) ou aceitar que a Primeira Liga, movimento de clubes que parecia poder significar mudanças, se torne apenas mais um torneio inexplicável no farto calendário brasileiro. O amadorismo e a política impediram que essas boas iniciativas prosperassem. O que vai acontecer depois do “clássico que não aconteceu”?


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