17 Ago, 2017

Patón Bauza mudou o São Paulo

Victor AbussafiAgosto 2, 20165min0

Patón Bauza mudou o São Paulo

Victor AbussafiAgosto 2, 20165min0

Talvez Edgardo Bauza não tenha sido o maior responsável. Certamente não foi o único. Mas a verdade é que durante sua passagem como treinador, o São Paulo viveu uma revolução silenciosa e será outro daqui para a frente.

Após o terceiro título brasileiro consecutivo, em 2008, o São Paulo se auto-denominou “Soberano”. Foi a pior coisa que poderia ter acontecido para o Tricolor Paulista, recém transformado em maior vencedor da história do Campeonato Brasileiro. Este terceiro título já veio com um time inferior aos anteriores e com a contratação de jogadores de perfil antagônico ao dos que começaram esse período vitorioso.

De lá para cá, o São Paulo tornou-se num time soberbo e vaidoso. E essa postura da diretoria refletiu nos torcedores e nos jogadores. O torcedor do São Paulo passou a ser odiado e conhecido como o mais chato (pelo menos até começar a perder) e os jogadores que frequentaram o CT da Barra Funda se acomodaram. A melhor estrutura do país deveria ser suficiente para manter o caminho das vitórias.

Espiral negativa

O Mito despediu-se sem títulos em 2015 (Foto: Gazeta Press)

De 2009 a 2015, apenas um título – o da Sul-americana em 2012 sob o comando de Lucas. A elogiada estrutura foi ultrapassada e os profissionais responsáveis por levar o clube até a este nível aos poucos foram saindo, fruto da má gestão iniciada no terceiro mandato de Juvenal Juvêncio. Contratações mal feitas, treinadores questionáveis e a postura de Soberano não caía.

Em 2013, a equipe quase foi rebaixada e foi salva pelo eterno Muricy Ramalho. Em 2014, um investimento altíssimo trouxe uma das melhores configurações de time dos últimos anos. No ataque Kaká, Ganso, Alan Kardec, Michel Bastos, Pato e Luis Fabiano levaram a equipe ao vice-campeonato nacional, mas trouxeram um problema para a saúde financeira do clube.

Em 2015, o fundo do poço. Sob a gestão de Aidar, o São Paulo se desfez dos seus jogadores e da sua dignidade. O então presidente do clube foi afastado por suspeitas de corrupção e a crise atingiu a instituição. E, com um plantel que priorizava a técnica, acomodado e com jogadores renomados em decadência, o São Paulo só conseguiu chegar à Libertadores graças a Osorio.

O marco da apatia da equipe. Derrota por 6×1 para os reservas do Corinthians. (Foto: Agência Corinthians)

A revolução silenciosa de 2016

Ao comparar o São Paulo que terminou 2015 e o São Paulo de hoje são claras algumas diferenças fundamentais. Pode ter havido grande perda técnica na qualidade dos jogadores, mas o torcedor prefere esse time ao do ano passado, claramente. Por uma simples razão: Identidade.

Em 2015, o São Paulo vivia sob a liderança de Rogério Ceni, o maior ídolo da história do clube. Um grande jogador e muito respeitado por seus companheiros. Mas, quem conviveu com o jogador, percebia claramente que ele se sentia decepcionado por não conseguir motivar e entender mais o grupo de jogadores com quem dividia os vestiários. A chegada de Diego Lugano, a ascensão de Maicon e a valorização dos novos líderes, sem a sombra do Mito Ceni, é o fator principal para a mudança de postura do time.

O onze inicial contava com Alexandre Pato, Paulo Henrique Ganso, Luis Fabiano e Michel Bastos. Qualidade não faltava, mas nenhum desses jogadores é conhecido pelo seu nível de entrega em campo. Pelo contrário, a letargia deles é sempre criticada e é a ressalva do porque não tiveram carreiras ainda mais vitoriosas. Hoje, apenas Michel Bastos continua no time e, provavelmente, não por muito tempo.

Juan Osório, que seguiu para a seleção do México, era um treinador que valorizava o futebol ofensivo, de posse de bola e fazia seu jogo depender da qualidade dos seus jogadores. Um jogo bonito de ser visto e muitas vezes imprevisível, podendo gerar goleadas para os dois lados. Patón Bauza, que assumirá a Argentina, é a antítese de Osório. O argentino é também um estratega, mas extremamente conservador. Faz seu time ser muito difícil de ser batido e concentra o seu jogo no nível de entrega dos jogadores. Para ganhar de suas equipas, exige que o adversário corra mais que eles e isso é muito difícil.

O novo São Paulo é o time da raça e da força no Morumbi (Foto: Cristiane Matos/AFP)

O São Paulo que fica não é mais aquele do Ganso que não sujava os calções por não dar carrinhos, mas o do Ganso que vibrou, correu, cresceu de produção e chegou à Europa. Não é mais aquele do Luis Fabiano que não aceitava a reserva e jogava mesmo fora de forma, mas sim o do Calleri que se matava isolado no ataque para compensar as deficiências técnicas de seus companheiros. O São Paulo agora é um pouco mais argentino.

Não sou o maior admirador do Patón. Acho que seu São Paulo não iria bem neste Brasileiro e prefiro o jogo ofensivo de Osório. Mas a mudança de postura era necessária e deve ser elogiada. O equilibrio entre os dois estilos é o ideal, por mais difícil que é encontrá-lo. O São Paulo ainda tem grandes dilemas políticos e problemas financeiros por resolver, mas aos olhos do torcedor está diferente.

Mesmo sua diretoria ainda seja questionável e o futuro incerto, o torcedor enxerga em campo uma extensão de si mesmo. Um elenco que não é brilhante e sabe disso, mas que não deixará de lutar. O próximo treinador do São Paulo precisa melhorar a qualidade do jogo praticado e ser mais ofensivo, mas não pode perder a identidade que esse semestre sob o comando de Patón deixou.


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