14 Dez, 2017

Renato Sanches – De Golden Boy a Benched Boy

Gonçalo MeloAbril 16, 20177min0

Renato Sanches – De Golden Boy a Benched Boy

Gonçalo MeloAbril 16, 20177min0

Renato Sanches vive dias atribulados em Munique, provavelmente os mais atribulados da sua ainda curta carreira. Opção de banco na maioria dos encontros (foi apenas titular em 10 ocasiões esta época), o antigo jogador do Sport Lisboa e Benfica estará numa situação problemática? Mas quais as razões para um jovem talento, campeão nacional, campeão europeu e Golden Boy não se conseguir impor num colosso como o Bayern?

Orientado por Carlo Ancelotti, o Bayern tornou-se uma equipa mais incisiva na forma como aborda os jogos, mudando um pouco o chip que existia na era Guardiola, em que a posse de bola era altamente elevada em todos os jogos, passando, agora, para uma forma de jogar mais pragmática e calculista, bem ao jeito italiano.

No entanto, os ensinamentos de Guardiola ainda perduram, notando-se uma preocupação por parte de todos os jogadores em ter muita bola e em produzir jogadas elaboradas em que a mesma passa por grande parte dos elementos.

Com laterais de topo mundial e centrais fortes na saída de bola torna-se mais fácil a implementação de um estilo de jogo que preze a posse de bola, podendo os médios pegar o jogo em zonas mais adiantadas do terreno, não precisando de baixar excessivamente.

Aqui reside um dos principais problemas para o menino da Musgueira. Habituado a enorme liberdade quando jogava no Benfica (aparecia em todas as zonas do campo, quer a atacar quer a defender), no Bayern essa liberdade é reduzida. O jogo de posse de bola constante não permite ao internacional português aqueles raides a que ele habituou às bancadas, sendo por isso obrigado a tornar-se um jogador mais de toque curto, na linha dos restantes médios do Bayern como Thiago Alcântara, Xabi Alonso ou Joshua Kimmich.

Mas deve um jogador, selvagem como Renato Sanches, (que com o seu estilo rebelde e irreverente conquistou um lugar a titular na seleção campeã europeia e conquistou o prémio de Golden Boy) ser obrigado a mudar a sua forma de jogar? Ou a única solução será a equipa moldar-se ao jovem craque? A resposta pode parecer impossível de dar, mas estará algures no meio das duas hipóteses.

Renato Sanches não é um médio altamente eficaz no passe, não o era no Benfica (colocava a equipa em dificuldade muitas vezes com passes errados ou perdas de bola, tendo no entanto grande parte dessas vezes a capacidade física e a velocidade para ir apagar o fogo que o próprio tinha ateado) e continua a ter esse problema em terras Bávaras.

Um dos problemas é que na Bundesliga a exigência é bastante superior em comparação com a da Liga Nos, uma vez que um erro contra o Arouca ou o Tondela não vai causar as mesmas repercussões que um erro ou uma perda de bola contra um Hoffenheim ou um Bayer Leverkusen.

Outra das contrariedades que o campeão europeu enfrenta é a exigência dos adeptos. Quando na Luz tudo lhe era perdoado, fruto de ser a pérola da formação que os adeptos tanto ansiavam ver impor-se na equipa principal, em Munique a paciência e o carinho dos adeptos para com o médio é manifestamente inferior. Cada passe errado ou cada perda de bola é mais uma forma de criticar o jovem português, e mais uma forma de pôr em causa o valor e o preço de Renato Sanches. Cabe ao portento da Musgueira dar a volta à situação.

Foto: TransferNews

O que se segue? Qual a melhor solução? Moldar-se a uma nova forma de jogar ou manter a irreverência e o futebol de rua puro que tantos apaixonou e cativou?

Na opinião de muitos o melhor para Renato é mesmo mudar de ares, pois o colosso bávaro não é a equipa ideal para o crescimento do jovem. Para outros, onde nos incluímos, o problema prende-se no timing da transferência (mais uma época com a camisola encarnada do Tricampeão Nacional teria sido o ideal, onde teria tempo e compreensão para melhorar as suas debilidades continuando a ser uma referencia no 11 e a ter muito tempo de jogo).

Ora, não sendo possível recuar no tempo só resta olhar para o futuro, e Renato tem razões para olhar sorridente para o mesmo. Sendo um jovem, tem tudo para se poder afirmar na segunda época onde já não vai ter os típicos problemas de ambientação, tanto ao estilo de jogo da nova equipa como a toda a realidade envolvente a que é sujeito um jogador de 19 anos quando se muda do seu bairro e cidade de sempre para uma cidade nova, a falar uma língua completamente diferente e a ganhar 5 vezes mais do que ganhava (para muitos a questão monetária é vital para um bom rendimento, e muitas vezes ganhando mais vai levar a um descurar da competitividade e empenho no treino e no jogo).

A juntar a isto, na próxima época Renato tem um novo aliciante. Com a reforma de Xabi Alonso, abre-se uma vaga no trio do meio campo de Ancelotti, juntamente com Arturo Vidal e Thiago Alcântara. E agora? Sanches ou Kimmich? A favor do português tem a sua força e capacidade física, podendo recuar Vidal e entrar Renato para o seu lado.

Porém, Kimmich está mais identificado com o estilo de jogo bávaro, sendo mais evoluído tacticamente e evidenciando uma considerável maior qualidade de passe. No meio destas duas hipóteses está outra que nos parece menos plausível, mas que para os alemães pode ser possível.

E se Renato Sanches assumir o lugar de Xabi Alonso? Poderá um irreverente e selvagem menino assumir um lugar (e mais que um lugar, uma forma de jogar) ocupado por um dos jogadores mais elegantes e inteligentes das últimas duas décadas? Um jogador com uma qualidade de passe tremenda, tanto curto como longo?

Renato Sanches tem várias lacunas, sobretudo ao nível do passe, embora já se note uma clara melhoria neste aspeto, sobretudo no passe longo. Mas daí a assumir o lugar do bicampeão europeu e campeão mundial por Espanha vai uma enorme distância. Para além da enorme melhoria que tinha de evidenciar ao nível do passe e do posicionamento tático, o prodígio teria de abandonar o seu estilo irreverente e de rua para assumir o papel do craque espanhol, algo que poderá tornar Renato num jogador banal.

Será o Benched Boy, que tão criticado tem sido pelo pouco que tem apresentado e pelo que custou, capaz de dar a volta às criticas e de assumir uma posição de destaque no meio campo bávaro, ainda para mais na posição 6? Ou o melhor será manter o seu estilo esperando que o mesmo resulte e que isso o leve a garantir a titularidade? Ou o melhor será mudar de ares para onde possa assumir livremente o seu futebol? Seja qual for a solução, Renato terá na próxima época uma tarefa, decidir que tipo de jogador quer ser.

E a sua decisão irá influenciar para sempre a sua carreira, podendo tornar-se num dos melhores de sempre do nosso país ou tornar-se um jogador banal como aconteceu a várias promessas. Para os adeptos portugueses, é preferível a primeira e acreditamos que o Benched Boy de 2016/17 vai saltar dessa condição para se afirmar como um dos melhores médios da Europa. É que o Bayern não liberta 35 milhões por um jovem de 18 anos recorrentemente, e vai querer provar que os gastou bem.

Foto: L’Equipe


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