21 Out, 2017

RB Leipzig: amar, odiar ou temer?

Pedro NunesNovembro 25, 20167min2

RB Leipzig: amar, odiar ou temer?

Pedro NunesNovembro 25, 20167min2

Para uns é a nova coqueluche do futebol alemão, para outros é a némesis. Para todos os outros que têm de olhar para o topo da tabela para os ver – especialmente Bayern e Dortmund – é um sério aviso. O RB Leipzig é um novato nestas lides e chegou este ano à Bundesliga, mas à 11ª jornada já assumiu a liderança isolada e tem feito correr muita tinta.

Tem apenas 7 aninhos de idade mas já é tratado como “o clube mais odiado da Alemanha”. Este clube-bebé vem novamente abrir a duradoura discussão entre os apoiantes do futebol tradicional e os que defendem que não há volta a dar em relação à entrada da marcas nos clubes. Para os mais desatentos, as iniciais RB, que aparecem antes do nome da cidade onde está sediado, constam como Rasen Ballsport no nome registado na liga, mas por uma razão bastante simples. Na Alemanha não é possível ter nomes de marcas no nome da equipa, ou as letrinhas alterar-se-iam para um simples Red Bull.

A marca de bebidas energéticas já conta com um vasto historial em termos de clubes associados, nas mais diversas partes do mundo. O mais vigoroso exemplo chega-nos da Áustria – onde a marca têm a sua naturalidade, aliás -, onde o RB Salzburg domina as competições internas há já vários anos, fazendo uso do poderio financeiro para voar mais alto, tal como diz o slogan da marca.

Aliás, é precisamente este o modelo de praticamente todos clubes adquiridos pela marca. A forma como nascem e crescem é o cerne da questão. Em 2009, os senhores da mala do dinheiro com o símbolo da Red Bull chegaram à quinta divisão alemã e compraram o SSV Markranstädt. Diga-se, como forma de curiosidade, que só este processo de escolha da cidade demorou cerca de 3 anos e meio, já que pelo meio também entravam na equação cidades como Hamburgo, Dusseldorf ou mesmo Munique.

O Este, que estava mal representado na liga, sem nenhum clube num raio de 250km, conta agora com este emblema, nesta cidade que em tempos venceu a primeira edição do campeonato alemão – o VfB Leipzig. Após esta escolha minunciosa, subiu cinco divisões em sete anos, escalando pela pirâmide futebolística alemã até ao topo, praticamente sempre com Ralf Ragnick a liderar o centro de operações do clube. Este diretor-desportivo, que já foi treinador do Schalke, tem muito do seu dedo nestas questões e foi o ‘pai’ desta nova geração de talentos, liderando um processo total de uma aproximação metódica e moderna no futebol deste nível.

Foto: Wallpaperdownload
Foto: Wallpaperdownload

Os milhões que Dietrich Mateschitz, dono da Red Bull, tem investido no clube foram muito bem canalizados. Disto não há qualquer tipo de dúvida. São 35 milhões de euros em infraestruturas com 13000 m2 de área – a maior da Alemanha. A direção do clube procurou desde cedo contratar jovens com margem de progressão e a prova disso é que no plantel de 28 jogadores apenas surgem dois com mais de 30 anos e a média de idades está pouco acima dos 23 anos. Aliás, esta filosofia é transversal a todos os clubes da marca, do Red Bull Salzburgo ao Red Bull Brasil.

Esta autentica escolinha de talentos foi campeã em 2015 em praticamente todos os escalões em que jogaram e chegam a pagar 1000€ mensais a jogadores de 14 anos. Para além disto, a troca de jogadores entre sucursais também é tida como  natural. Bernardo Junior chegou do Brasil, da mesma forma que Ilsanker e Naby Keita já tinham passado pela Áustria antes de chegar à Bundelisga alemã.

Estamos perante um clube extremamente bem organizado que lidera sozinho a Bundesliga, à frente dos colossos Bayern e Dortmund. Querido para a cidade de Leipzig, odiado pelos conservadores e agora temido pelos restantes emblemas da Bundesliga. No futebol em cima da relva – algo que parece ter cada vez menos interesse para parte dos adeptos, que preferem discutir assuntos banais que se passam fora do terreno de jogo -, os Roten Bullen tem sido uma das equipas mais simpáticas de ver actuar na época de 2016/2017. Organização defensiva e velocidade – papéis em que os jovens da formação funcionam como actores perfeitos – são os chavões da equipa de Hasenhuttl e têm sido uma das ‘modas’ mais eficazes das últimas épocas desportivas para se ganharem jogos – funcionou assim com Leicester e Atlético de Madrid, talvez os melhores exemplos. Os processos de jogo simples, verticais e eficazes estão a ser realmente impactantes na Europa do futebol.

Os Bullen continuam sem perder na Bundesliga – são o primeiro clube recém-chegado que sem qualquer derrota nos onze primeiros jogos – e já encadeiam uma série de seis vitórias consecutivas. A última, frente ao Leverkusen, provou a maturidade de uma formação feita praticamente de embriões a nível de futebol de elite. A capacidade de luta e a verticalidade da equipa conseguiram reverter a situação a seu favor. Pelo meio nesta caminhada, regista-se já também uma vitória frente ao Dortmund de Tuchel.

Os nomes mais sonantes a esta altura são os do sueco Forsberg, que é o criador de golos da equipa – 5 assistências e 5 remates certeiros a esta altura – enquanto que Naby Keita continua a fazer um uso aprimorado da batuta que trouxe da cidade de Mozart, dominando o miolo em termos de preenchimento de espaços e criação de jogo na casa das máquinas.

Foto: Sportschau
Foto: Sportschau

Neste momento perguntamo-nos se esta fase inicial de domínio veio para ficar e se poderemos ter um caso como o do Leicester na Bundesliga. É difícil dizer desde já. No entanto, esta ascenção supersónica está a dar que falar em relação ao modo como está a ser gerida, sendo o RB Leipzig tratado como ‘clube de plástico’ em solo alemão – dizem que é a cara do capitalismo, da mercantilização do jogo e da supremacia do poder financeiro perante a tradição.

Mas vejamos, não será mais um? Não valerá a pena questionar também a grande fatia da Audi e da Adidas no capital do Bayern? Ou da Bayer e SAP no Leverkusen e Hoffenheim, respectivamente? Ou a Volkswagen no Wolfsburgo – de quem se falava estar em maus lençóis depois da fraude da construtora automóvel. Mais fundo ainda, a maioria dos estádios da liga alemã tem o seu naming vendido. Signal Iduna Park não existe para o mais tradicional adepto – chama-lhe Westfallenstadium. No fundo, talvez o nosso clube preferido seja precisamente como o Leipzig. Lutamos contra isto ou assumimos que somos todos hipócritas?

Foto: Marketing de los Deportes
Foto: Marketing de los Deportes


2 comments

  • Filipe Coelho

    Novembro 25, 2016 at 4:17 pm

    Passando à frente a questão da forma como nasceu o Leipzig, devo dizer que fiquei impressionado com a performance da equipa no Bay Arena. Tremenda vitória numa demonstração de grande força futebolística e como verdadeira equipa, na medida em que ao minuto 2 já estavam a perder.

    A forma vertiginosa como atacam, acelerando facilmente quando atingem o meio-campo adversário, e o modo pressionaram sempre o Bayer foi notável! De destacar o Forsberg, sem dúvida, e a pequena sociedade que estabelece com o Werner, com trocas posicionais constantes e que baralham marcações. Depois Keitá é fenomenal no meio-campo: varre tudo e ainda tem qualidade técnica e critério na saída para o ataque. Por fim, a performance da equipa ainda melhorou com a entrada do Burke (aquele escocês por quem pagaram uma pequena fortuna…), que, por comparação com o Poulsen, torna o ataque dos Touros ainda mais móvel e imprevisível.

    A ver vamos onde (e como) vai acabar este impressionante arranque … Bom artigo, Pedro!

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    • Pedro Nunes

      Novembro 26, 2016 at 2:53 pm

      Sem dúvida nenhuma, Filipe.

      Não quis focar este artigo na vertente táctica/técnica mas partilho da tua opinião nesse aspecto.
      A Red Bull não brinca em serviço e este é o melhor exemplo disso. Para além duma capacidade de pescar talento por todo o lado, a equipa conta com uma forma de jogar positiva e vertical, muito boa de seguir. Com jogadores praticamente desconhecidos conseguiram montar uma verdadeira equipa, muito complementar e organizada.

      Muito obrigado pelo comentário e pela apreciação positiva 😉

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