18 Nov, 2017

O porquê de nos revermos no futebol germânico

Pedro CouñagoJunho 9, 20178min0

O porquê de nos revermos no futebol germânico

Pedro CouñagoJunho 9, 20178min0

Por essa Europa fora, existem ligas e países com paixão pelo futebol que nos fascinam de sobremaneira. Neste artigo vamos nos focar na Bundesliga e o futebol germânico. Desde o futebol atrativo e os jogadores/treinadores de qualidade, o ambiente nos estádios, a classe dos intervenientes e como ela se reflete nas seleções, passando pelo domínio do Bayern de Munique, esta é uma liga que tem um pouco de tudo.

O futebol atrativo

O futebol alemão é reconhecido por ser um espetáculo garantido em todos os jogos, com a presença de uma mentalidade ofensiva por parte das equipas na maioria dos jogos (ressalve-se, aqui, algumas das equipas pequenas contra o Bayern de Munique). São muitos os golos que tipicamente acontecem nestes jogos. Na nossa opinião, não se trata de desorganização tática, como muitos podem pensar, mas sim de uma abordagem ultra-competitiva de todas as equipas em todos os jogos.

Na Bundesliga, todas as formações acabam por ter jogadores entusiasmantes, como o Bayern com o seu Lewandowski, o Dortmund com o seu Aubameyang, o Schalke com o seu Max Meyer ou Goretzka, o Leverkusen com Brandt ou Bellarabi, o Leipzig com Forsberg ou Werner ou o Hoffenheim com Sule (transferido entretanto para o poderoso Bayern). Não há como não ver esta liga.

As duas estrelas maiores da Bundesliga frente a frente (Foto: GettyImages)

Falando em técnicos, além dos conceituados Ancelotti e Tuchel (veremos qual será o seu próximo destino), há que destacar, de forma bem breve, os trabalhos de Ralph Hasenhüttl no Leipzig, o trabalho do muito jovem Julian Nagelsmann ao serviço do Hoffenheim e ainda Christian Streich, no Friburgo, três equipas que tiveram notáveis prestações no campeonato em 2016/2017. Com três autênticos mestres da tática e da paixão pelo futebol, esperamos que não sejam “one season wonders”.

Raramente existe um jogo de difícil acompanhamento nesta liga. Ninguém desiste de lutar pela bola, não se vêem perdas de tempo, observa-se, sobretudo, a classe e a inteligência dos jogadores. Vêem-se mentalidades ganhadoras e guerreiras, que permitem que os jogos durem, muitas vezes, até ao último segundo, e onde existe uma constante emoção que é um privilégio para quem assiste.

O ambiente nos estádios

Pegando no ponto do espectador, e face a aquilo que descrevemos, não é difícil imaginar a razão pela qual os estádios estão sempre cheios e isto não é apenas na primeira liga. Em grande parte da Alemanha, as bancadas estão sempre com uma lotação acima de 90%. Vejamos a média de assistências da Bundesliga, que rondou os 41 mil espectadores por jogo na passada temporada, a maior da Europa, estando mesmo à frente da Premier League.

Neste campo, destacamos, pois claro, o Borussia de Dortmund, que consegue ter lotação completamente esgotada, acima dos 81 mil espectadores em mais de metade dos jogos. Não é para qualquer clube.

Uma das fantásticas coreografias da apaixonada claque do Borussia de Dortmund (Foto: talkSPORT)

Veja-se que o campeão da 2.Bundesliga, o Estugarda, um clube que, nos últimos anos tem estado em declínio (algo que se traduziu na sua descida em 2015-2016) tem um estádio com capacidade para 60 mil espectadores e a lotação média na época rondou os 95%, algo que demonstra o compromisso dos adeptos deste clube com a equipa, sendo um belo exemplo do que acontece em tantos outros casos.

Escusado será então referir o domínio da liga nos rankings de assistência média em toda a Europa (10 equipas neste ranking em 40), algo que reflete bem o poder da liga a nível europeu. Óbvio que existem determinados fatores que levam a que isto seja possível, tal como o maior poder de compra e os maiores incentivos por parte dos organizadores para que se possa ir ao futebol com regularidade. Não obstante isto não deixa de ser absolutamente notável que isto aconteça, era tão bom que se existisse 1/4 desta paixão em Portugal.

Como a competitividade do futebol alemão se demonstra na seleção

Quando se olha para a seleção alemã, o primeiro sentimento de muitas congéneres europeias será sentir algum medo. São poucas aquelas que conseguem ter o poderio da Maanschaft , em qualquer competição que esteja presente. É assustador a quantidade de talento nela existente, e muito disto deriva do viveiro de jogadores feitos (Neuer, Thomas Muller, Hummels), potenciais grandes jogadores (Max Meyer, Julian Weigl, Timo Werner) e grandes promessas (Brandt, Gnabry) que se encontram constantemente a despontar na Bundesliga.

O melhor guarda redes do mundo (Foto: GettyImages)

Sim, porque são raríssimos os exemplos de jogadores que não jogam na Alemanha, especialmente na última década, como Ozil, Podolski e Schweinsteiger (ambos já abandonaram a seleção). Podemos falar de Emre Can, de Rudiger e de Ter Stegen, mas não são jogadores de uma influência extrema como os atrás mencionados, pelo menos por enquanto. Os jogadores optam por ficar na sua liga nativa, sabem que existe uma competitividade que lhes permite estar sempre a um alto nível.

Não é por acaso que se diz o ditado: “11 para 11 e no fim ganha a Alemanha”, é uma seleção sempre que prepara com excelência cada desafio. Todo este trabalho é feito desde as camadas jovens, passando pelos técnicos que incutem aos jogadores uma mentalidade competitiva e vencedora desde muito cedo.

O monopólio de Munique

O único corrente “senão” na liga alemã tem sido a hegemonia do conjunto de Munique nos últimos anos. Jürgen Klopp, nos seus tempos áureos no Borussia de Dortmund, ainda conseguiu dar uma intensa luta aos bávaros, algo que já não acontece nos últimos cinco anos.

Já vêm sendo recorrentes estes festejos (Foto: Bayern Central)

Nesta temporada, em que o Bayern teve apenas concorrência até ao final da primeira volta por parte do surpreendente RB Leipzig (que acabou, naturalmente, por acusar a pressão e perder gás) que acabou por garantir um notável segundo lugar. As mesmas aspirações com que o Borussia de Dortmund procura entrar, porque fez um campeonato sempre no limiar dos lugares de Champions, garantindo apenas na última jornada. Para o Dortmund há que fazer muito mais na próxima época já sem Tuchel e agora com Bosz. Será fundamental que Leipzig e Dortmund regressem em “força” para pôr fim ao domínio do Bayern.

Ainda assim, não se afigura fácil a tarefa, pois quando se comparam os plantéis, a profundidade dos mesmos e a capacidade de reter estrelas, o Bayern está muitos furos acima da concorrência, algo que deriva do astronómico poderio financeiro que possui. Os principais fatores revelam-se no número de sócios mais elevado a nível mundial, que acaba por se refletir no elevado valor recebido pelas suas transmissões televisivas e, por fim, os patrocínios provenientes da notoriedade que o clube tem a nível mundial.

A diferença financeira é estratosférica, e não será fácil para as equipas germânicas contrariá-la. No entanto, acreditamos nas equipas que mencionámos acima possam fazer algo. A somar elas ainda podem surgir o Bayer Leverkusen ou Schalke 04, que têm equipa e obrigação para fazer muito mais que as medíocres épocas feitas nos últimos anos.

O futebol alemão é, sem dúvida, um fascínio. Poderíamos perder horas, dias, semanas e meses a falar sobre o mesmo que os elogios não se esgotariam. Deixámos aquilo que pensamos ser as principais ideias sobre aquilo que são as virtudes deste país do futebol, que são muito mais que estas apenas. O principal fator a mudar é a hegemonia do Bayern de Munique, mas isto já  dependerá da capacidade de arranjar alternativas ao poderio financeiro dos bávaros. A garra e a massa adepta certamente podem fazer a diferença.


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