20 Set, 2017

Ajax. O carácter inventivo de Bosz

Filipe CoelhoOutubro 13, 20166min0

Ajax. O carácter inventivo de Bosz

Filipe CoelhoOutubro 13, 20166min0

Não foi só mudar; foi mudar e inovar. O arranque de época sinuoso do Ajax obrigou o seu (novo) técnico a deambulações. Mais do que tácticas, as alterações situaram-se no xadrez das peças, com Bosz a fazer de proscritos peças renovadas, úteis e versáteis.

Não sendo unânime, a escolha de Peter Bosz para suceder a Frank de Boer no comando técnico do Ajax foi recebida com o devido entusiasmo. Visto como sendo próximo de Cruyff numa certa visão sobre o jogo, Bosz tinha (sobretudo) como trunfo a impactante campanha realizada com o Vitesse na primeira metade da época transacta, período durante o qual a equipa de Arnhem praticou um futebol vistoso, atraente e de evidente vocação ofensiva – quiçá o melhor conjunto esteticamente falando da 1ª volta em 2015/2016.

O arranque em Amesterdão não foi, de todo, fácil. Em pleno Agosto, e em onze dias, o Ajax sofreu duas derrotas e empatou em mais duas ocasiões, caindo, desde logo, na Liga dos Campeões, diante do Rostov (o empate em casa, num jogo em que o Ajax teve um caudal de jogo ofensivo tremendo condicionou a 2ª mão, onde o descalabro em terreno russo foi total). Mais, o empate em casa diante do Roda e a derrota também em plena Arena de Amesterdão às mãos do Willem II tiveram contornos de humilhação, que estamos a falar, respectivamente, do último e antepenúltimo classificados da Eredivisie neste momento.

Todavia, a conjuntura mudou. Mesmo sem deslumbrar em várias partidas (como na vitória frente ao Vitesse por 1-0 ou no triunfo por 2-0 diante do Heracles), o Ajax parece ter encontrado um determinado fio condutor … na instabilidade, procurando a normalidade aqui mesmo.

Vejamos. Comparando a equipa titular que enfrentou o Sparta de Roterdão na 1ª jornada (vitória por 3-1) com aquela que derrotou o Utrecht por 3-2 na última jornada, só encontramos três repetentes! E dois deles a jogar em posições adaptadas. Nem sequer está aqui em causa a janela de transferências ainda em pleno funcionamento no momento do arranque da Eredivisie, que Milik já havia saído para o Napoli – perda significativa, inquestionavelmente – e apenas Cillessen – péssimo arranque de época, com culpas diversas em vários golos sofridos – haveria de deixar Amesterdão (rumo a Barcelona).

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Daley Sinkgraven (Foto: zimbio.com)

Bosz engendrou a mudança procurando tornar a equipa mais capaz de agredir ofensivamente, dotando-a de soluções de maior criatividade e levando-a a ser mais imprevisível no último terço do terreno. As alterações mais significativas aconteceram por via dos nomes de Sinkgraven e de Schone. Num duplo sentido: primeiro, porque nenhum deles fora considerado de forma relevante por De Boer na última temporada; e depois, porque foram introduzidos na equipa em posições e papeis que nunca haviam experimentado em momento anterior.

Sinkgraven é um médio criativo de 21 anos. Habituado a pisar os terrenos de um ‘8’, destaca-se pelo perfume do seu futebol, pelo toque de bola e pelo tom de criação e invenção que dá a cada movimento no jogo. Já havia sido testado também descaído sobre a faixa esquerda ofensiva do terreno, mas o novo técnico do Ajax quis mais – recuou-o, recuou-o, recuou-o, a ponto de o vermos agora estabelecido como o novo defesa lateral esquerdo do conjunto de Amesterdão. É ainda curto o espaço temporal decorrido para se perceber se tal opção dará frutos; o jovem holandês oferece grande qualidade do ponto de vista técnico à ala esquerda, para além de critério e repentismo, incorporando-se com sabedoria no momento ofensivo. Ademais, tem demonstrado capacidade em termos defensivos no duelo individual mas ao nível posicional as suas carências são óbvias e claras – um aspecto a que Bosz deve atender se vir em ‘Sink’ potencial para ser o defesa esquerdo da sua equipa.

Por sua vez, Schone é um jogador já feito. Aos 30 anos, o internacional dinamarquês passou a sua carreira a deambular entre a posição ‘10’ e a ala direita. Bosz, no entanto, tinha outros planos para ele – o trintão tem ocupado a posição de elemento mais recuado do trio de meio-campo e tem-se revelado uma agradável surpresa. Dotado de capacidade técnica e com qualidade de passe qb, é ainda um elemento muito compenetrado, e tem servido de elo de ligação ao jogo da equipa, com muita intervenção na fase de construção (a última partida perante o Utrecht foi um claro exemplo disso). Não se pode menorizar ainda o aspecto da idade – numa equipa tão jovem quanto o Ajax (a esmagadora maioria dos jogadores tem entre 19 e 24 anos), Schone traz consigo a experiência e a calma necessárias em muitos momentos. E acrescenta ainda no aspecto da bola parada ofensiva, não sendo, no entanto, de menorizar uma certa incapacidade para suster o ímpeto atacante do adversário pela falta de rotinas defensivas – algo que leva a que seja substituído em momentos em que as cautelas defensivas são redobradas.

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A influência de Schone e de Sinkgraven no jogo colectivo do Ajax, diante do Utrecht (Imagem: 11tegen11)

Mantendo o 433 que é quase a pele do Ajax desde há longos anos, Bosz tem mexido sobretudo nas peças utilizadas, com largas alterações em relação à época transacta. Dijks, Riedewald, Gudelj e sobretudo Tete, Bazoer e El-Ghazi têm visto o seu espaço diminuído consideravelmente, também em função da chegada dos reforços Sánchez, Ziyech e Traoré e da afirmação do jovem Dolberg.

Depois de um inicio titubeante, o Ajax estabeleceu-se já na 2ª posição da Eredivisie e poderá afirmar-se como a verdadeira concorrência face ao super Feyenoord (8 vitória em 8 jogos). Para além disso, depois da queda para a Liga Europa, os Ajacieden venceram os dois primeiros jogos da fase de grupos, uma marca que não era atingida desde 1995/96! No mínimo, inspirador. Tal e qual como o carácter inventivo de Peter Bosz. A ver se os frutos colhidos serão os desejados …


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