20 Set, 2017

1 campeão, 2 vencedores, 3 desafios

Filipe CoelhoJulho 26, 201713min0

1 campeão, 2 vencedores, 3 desafios

Filipe CoelhoJulho 26, 201713min0

Depois de um 2016/17 muito positivo, a nova época na Holanda traz consigo, por diferentes e diversos motivos, desafios de sobra. A Feyenoord, Ajax e Utrecht de nada valerá gozar os triunfos passados; antes, terão de se readaptar face a novos contextos, para que 2017/18 seja uma época ainda mais saborosa do que aquela que tão boas recordações deixou.

FEYENOORD

Kampioen van Nederland! Finalmente o enguiço foi quebrado, e, dezoito anos depois, o Feyenoord voltou a provar o doce sabor da conquista, coroando-se como o rei do território holandês. O bom arranque da época foi fundamental para o sonho ser alimentado e, enfim, para a concretização de um objectivo há tanto tempo adiado.

A travessia no deserto foi longa e contou com momentos verdadeiramente humilhantes, como seja a hecatombe às mãos do PSV, em 2010/11, numa derrota por 10-0! Os primeiros sinais de ressurgimento haveriam de aparecer na época seguinte – Ronald Koeman assumiu o comando técnico da equipa e foi o responsável por uma certa mudança de mentalidade em Roterdão, conseguindo, por exemplo, um 2º lugar em 2013/14.

Depois de bons indícios em 2015/16 – e da conquista da Taça da Holanda –, 2016/17 foi a época da suprema redenção. Mas não foi, de todo, fácil, tendo em conta que os pupilos de Giovanni van Bronckhorst somaram 3 derrotas nas últimas 10 jornadas, sendo que, aqui, a curiosidade prende-se com o facto de duas dessas derrotas terem sido às mãos dos rivais citadinos – Sparta e Excelsior.

Na corrida para a conquista do título, é fundamental falar em vários nomes que se revelaram decisivos (sobretudo na recta final). Botthegin (central algo inestético no seu jogo mas eficaz), VilhenaEl-Ahmadi (dupla equilibradíssima no miolo) e Jorgensen (trouxe classe e killer instinct, acabando como o maior goleador da prova) fizeram épocas notáveis, sem esquecer nomes como Berghuis (muito forte no drible interior, como que fazendo lembrar Robben), Toornstra (elemento sempre ligado ao jogo e com um pontapé de meia-distância temível) ou o keeper Brad Jones, que assinou, quiçá, o mais importante momento da época quando fez uma defesa monstruosa, no último suspiro do jogo de Eindhoven (vitória do Feyenoord por 1-0, diante do PSV), aumentando assim a vantagem pontual para 5 pontos, face ao então bicampeão em título, à passagem da 6ª jornada. O Feyenoord foi, aliás, o único conjunto a vencer a turma de Eindhoven por duas vezes em 2016/17.

Mesmo permanecendo durante toda a temporada como líder da Eredivisie, o libertar do champagne por parte dos homens do Feyenoord só pôde ser consumado na última jornada. E que bonito congregar de emoções! 3-0 no Heracles Almelo com um hat-trick de Dirk Kuyt, ele que, volvidas algumas horas, anunciava a sua despedida do futebol profissional. O homem que volvera a Roterdão com um objectivo bem definido na sua mente, dava, assim, numa bandeja, a maior alegria aos (seus) adeptos sedentos.

Foto: Goal.com

2017/2018

O desafio para o agora campeão holandês passa pela capacidade de ultrapassar um defeso extremamente movimentado e, sobretudo, pelo regresso à Champions, uma competição que o Feyenoord não frequenta desde 2002/03.

Kongolo (Mónaco), Karsdorp (Roma), Elia (Basaksehir), Berghuis (regresso ao Watford) e Kuyt (fim de carreira) são todos nomes de elementos muito importantes na fantástica campanha de 2016/17. Mas todos eles acabam de abandonar Roterdão. A verdade é que, ainda assim, Giovanni van Bronckhorst pode dar-se por satisfeito. Primeiro, porque os substitutos destes chamam-se Haps (AZ), Diks (empréstimo da Fiorentina), Boetius (Basileia), Amrabat (Utrecht) e St. Juste (Heerenveen) – todos muito jovens (o mais velho é Haps, com 24 anos) mas igualmente com rendimento comprovado e potencial ainda por descobrir.

E na categoria dos reforços podem ainda encaixar-se os nomes de Vermeer (um dos melhores guarda-redes da Eredivisie em 2015/16) e – ainda que não no imediato – Van Beek (central de 22 anos), dois elementos que sofreram graves lesões e que estão há muito arredados da competição. A esta boa noticia ainda se podem juntar as renovações dos contratos de Van der Heijden e Toornstra, dois jogadores bem mais experientes e tão utilizados quanto utilíssimos na época transacta.

Com a saída de cena de Kuyt, há a possibilidade de o Feyenoord deixar um pouco de lado o seu 4231, ensaiando uma aproximação ao 433, com o trio El-Ahmadi, Vilhena e Amrabat no miolo. E (ainda) sem uma alternativa válida a Berghuis do lado direito do ataque, deriva Toornstra para essa zona, ele que sabe vir para espaços interiores, robustecendo o meio-campo – uma opção sobretudo a considerar em jogos de maior dificuldade, como seja os da liga milionária.

De qualquer forma, se há sector a que os homens de Roterdão deverão acudir através de reforços é o sector mais atacante. Só Jorgensen é um elemento claramente acima da média; e, talvez por isso, Van Bronckhorst já tenha assumido que decorrem conversas em forma de sondagem a Robin van Persie. Será um remake do que foi feito com Dirk Kuyt na busca de um desfecho igualmente feliz…?

Foto: MySoccer HQ

AJAX

2016/17 não trouxe títulos para Amesterdão mas o Ajax terá de ser considerado como um vencedor. Primeiro porque voltou a ser extremamente competitivo internamente; depois porque retornou a uma final de uma competição europeia, enquanto culminar de uma campanha grandiosa na Liga Europa; e, sobretudo, porque voltou a ver-se um Ajax fiel a um estilo cruyffiano, com um futebol ofensivo, atractivo, enfim, apaixonante, e que fez a Europa do futebol voltar a olhar para a Holanda como palco a considerar.

O grandioso mérito pertencerá a Peter Bosz, treinador que pegou na turma ajacien e que a retirou de um certo carácter amorfo em que se havia envolvido nas últimas épocas. Bosz mudou e inovou, ainda que isso tenha custado alguns pontos na 1ª volta da última Eredivisie, até que todas as suas ideias ganhassem corporização no relvado. Fiel a um estilo de jogo cativante, vários foram os jogadores que se catapultaram – Onana, Sánchez, De Ligt, Sinkgraven, Schone, Ziyech, Younes, Kluivert ou Dolberg – numa equipa que viu o título fugir-lhe por um ponto e enfrentou um Manchester United minuciosa e estrategicamente montado para anular as suas virtualidades na final da Liga Europa.

Seja como for, o orgulho foi restaurado em Amesterdão, com a equipa a expressar-se num 433 muito ofensivo, assente num trio de meio-campo completamente virado para a frente e com unidades no último sector tecnicamente muito habilitadas. Para além disso, a marca Ajax ficou bem vincada igualmente no aspecto da média de idades – um conjunto tremendamente jovem, mas que, inevitavelmente, em alguns momentos, também revelou ingenuidade.

Se os indícios eram bons e 2016/17 se encarava como uma óptima base para o futuro, rapidamente essa percepção mudou. Bosz foi convidado pelo Borussia Dortmund e esse foi o rastilho suficiente para se perceber que nem tudo ia eram rosas em Amesterdão. Tornaram-se públicos os desentendimentos entre Bosz (e o seu adjunto Kruzen) e a outra facção da equipa técnica, encabeçada por Dennis Bergkamp. O comboio do Borussia passou na hora certa e o competente técnico holandês deixou a (hoje) Arena Johan Cruyff rumo ao Signal Iduna Park.

Foto: NRC.nl

2017/2018

O enorme desafio por que passa hoje o Ajax traduz-se na forma como irá ultrapassar a saída do seu treinador (Bosz), a transferência do seu capitão (Klaassen) e o trauma provocado pelo drama vivido por um dos mais talentosos elementos da sua base (Nouri).

O sucessor de Bosz foi encontrado em casa – trata-se de Marcel Keizer, ex-técnico do Ajax B, para além de ser também sobrinho de Piet Keizer, lendário extremo do Ajax e da selecção holandesa na década de 70. Também calvo como Bosz, Keizer destacou-se pelo trabalho na equipa secundária na época passada, ao terminar a 2ª divisão holandesa no 2º lugar, depois de passagens pelo Telstar, Emmen e Cambuur (este último já na Eredivisie). Não é crível que altere substancialmente a forma como o Ajax se apresentou na última época, até tendo em conta o bom legado deixado por Bosz.

Diferentemente será se o mercado lhe levar os seus diamantes. Dolberg tem sido associado ao Real Madrid, Sánchez ao Barcelona e Younes já teve abordagens da Bundesliga. Até ver, porém, ‘apenas’ Davy Klaassen saiu rumo ao Everton – um ‘apenas’ enganador, que o loiro médio era a voz de comando em campo, para além de ser um elemento preponderante na manobra ofensiva, com grande chegada na área adversária –, e deixando assim a braçadeira de capitão a Joel Veltman (também ele com aproximações de Inglaterra, mais propriamente do Tottenham). De regresso está Huntelaar – e aqui reside um ponto importante, que Kaizer poderá sentir-se tentado a buscar uma compatibilização entre Dolberg e o veterano avançado. Se avançar para isso, terá, necessariamente, de mexer na estrutura e nos comportamentos colectivos da equipa, o que comportará um risco considerável.

Finalmente, será decisivo perceber como, colectivamente, o conjunto de Amesterdão superará a tragédia que se abateu sobre Nouri. O médio de 20 anos era um dos elementos mais queridos da cúpula ajacien, pelo facto de ter feito toda a sua formação no Ajax e de ter sido eleito o melhor jogador do 2º escalão na temporada passada, revelando-se um dos maiores talentos da nova geração. Por tudo isto, eram-lhe reservadas enormes expectativas para a nova época na equipa principal . Que terão de ser digeridas e ultrapassadas por um balneário que, naturalmente, sentiu (e ainda sente) emocionalmente um episódio desta natureza. Fazer do trauma o combustível é aqui indispensável.

Foto: De Telegraaf

UTRECHT

Tal como em Portugal, na Holanda, há os 3 e “os outros”. E o vencedor dos “outros”, nas últimas duas épocas, foi o Utrecht. Em 2015/16, ficou em 5º na Eredivisie e chegou à final da taça; na época passada, terminou em 4º e caiu nos quartos de final da segunda competição do país. Em qualquer destas épocas chegou ao playoff interno de acesso à Liga Europa (mini-campeonato entre as equipas que ficam no 4º, 5º, 6º e 7º lugares da classificação) – no primeiro ano, perdeu na final diante do Heracles Almelo; agora em 2016/17 ultrapassou na eliminatória decisiva o AZ Alkmaar e chegou, finalmente, à Liga Europa.

O obreiro chama-se Erik ten Hag. Proveniente das camadas jovens do Bayern de Munique – já depois de uma passagem bem sucedida pelo Go Ahead Eagles –, Ten Hag construiu uma equipa de autor, com um modelo muito bem definido, logrando, em 2016/17, a 2ª melhor prestação do Utrecht num período de mais de 20 anos. O que lhe terá valido, inclusivamente, a cogitação para o comando técnico do Ajax e até uma alegada indicação para o assumir do cargo de seleccionador nacional holandês.

Jogando estruturalmente de forma diferente em relação à maioria das equipas da Eredivisie, o Utrecht dispõe-se num 442 losango, com demonstrada aptidão para privilégio de um jogo construído de forma mais pausada, ou variando, em alguns momentos, para um jogo mais directo, surgindo Haller como jogador-alvo, com aproximações imediatas da linha intermédia, para, assim, surgirem ligações e combinações com Kerk ou com o ex-sportinguista Labyad, atacando a baliza do opositor rapidamente.

Com um plantel tendencialmente equilibrado, torna-se indispensável, no entanto, destacar o papel fundamental de elementos como Janssen (capitão e elemento fulcral ao nível da bola parada) Ayoub, Brama, Amrabat, Haller, para além do jovem Troupée (lateral de grande propensão ofensiva) e do entretanto reabilitado Labyad.

Foto: voetbal.com

2017/2018

A nova época é um teste de fogo para os utregs: pelas importantes baixas que o plantel já sofreu e pela oportunidade de voltar a disputar uma competição europeia (com a inerente necessidade de gestão do esforço que esse contexto implica).

Perder o melhor marcador estrangeiro da história do clube não é um bom sintoma; porém, segurar Haller tornou-se uma missão impossível. O francês era muito mais do que um matador, sendo elemento vital nas últimas duas épocas de sucesso, pela forma como jogava e fazia jogar os companheiros que com ele coabitavam. E as saídas de Amrabat (Feyenoord) e Barazite (Malatyaspor) possivelmente também deixarão mossa. Caberá a Ten Hag recuperar a fórmula utilizada há cerca de um ano, quando então partiram Letschert, Ramselaar e Boymans.

Todavia, a abordagem ao mercado aparenta ter sido cirúrgica e com padrões interessantes de qualidade, com o recrutamento de elementos interessantes de plantéis de equipas menores (Twente, NEC, Cambuur ou NAC), para além das oportunidades dadas ao renomado Urby Emanuelson e ao ex-Benfica Bilal Ould-Chikh. Resta saber se Simon Makienok (Palermo) terá capacidade para fazer esquecer Haller. Em termos fisionómicos, dir-se-ia que sim; em termos técnicos, os primeiros apontamentos deixaram muito mais dúvidas do que certezas.

Depois de, na 2ª eliminatória de acesso à Liga Europa, ter ultrapassado o Valletta (Malta), segue-se, de imediato, o medir de forças diante de um adversário bem mais robusto como é o caso do Lech Poznan (Polónia). Muito daquilo que será a época do Utrecht terá uma definição já nas próximas duas semanas, o que apela a que haja uma rápida integração dos elementos que agora chegam. E quão bom seria se chegasse também… Wesley Sneijder? Ten Hag não confirma contactos, mas, na Holanda, garante-se que já houve aproximações na tentativa de persuadir o jogador mais internacional de sempre pela Laranja a jogar pelo clube da terra onde nasceu.

Foto: nrc.nlrd


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