17 Ago, 2017

Rocky Balboa – Entre a Fantasia do Cinema e a Força da Realidade

Francisco IsaacDezembro 23, 201613min0

Rocky Balboa – Entre a Fantasia do Cinema e a Força da Realidade

Francisco IsaacDezembro 23, 201613min0

1976 marcou a saída de Rocky, um filme icónico do Cinema norte-americano sobre um boxeur chamado Rocky Balboa. Entre um desafio Olímpico, um treinador à antiga e uma forma de viver única, Rocky marcou tanto o Cinema como o mundo do Boxe. Mas como, porquê e qual foi o alcance?

Convidamos o leitor a colocar esta faixa para iniciar a leitura: goo.gl/3UR01c

Em tempo de Natal e de Ano Novo, se forem aos vossos canais de filmes/séries da TV, principalmente o Hollywood, encontrarão na programação, com toda a certeza, um dos filmes do franchise Rocky.

O filme realizado por Robert Chartoff (nunca abandonou Stallone) e Irwin Winkler (sempre envolvido com os filmes de Rocky, foi quem produziu, também, o Lobo de Wall Street de Di Carpio), dirigido por John Avildsen (“pai” dos Karate Kid) e escrito pelo próprio Sylvester Stallone, foi um sucesso imediato atingindo o número de 460 Milhões de Dólares (ajustado à inflação actual) em Box Office.

Rocky teve um custo de 1 Milhão de Dólares, o que prova que o início da Lenda de Rocky Balboa tinha começado com o pé (e braço) direito.

Boxe de Cinema ou Boxe de Dois Mundos?

O que levou a que um simples filme de boxe/boxing que envolve um americano-italiano (Stallone esforçou-se para “fingir” o sotaque), um treinador constantemente entre o “caos” e o “não desistas” e um Campeão Mundial de Pesos-Pesados com nome de Deus do Olimpo causasse tanto impacto?

E como foi promovido aos Clássicos do Cinema Norte-Americano?

E terá sido Rocky um filme que ajudou ou prejudicou o Mundo que representava?

Vamos primeiro à realidade da modalidade na altura dos anos 70.

Estamos na antecâmara dos Jogos Olímpicos de 76, um momento sempre importante para o Desporto Mundial, onde os grandes atletas de várias modalidades se encontram num único espaço, na luta pela glória e memória eterna.

O Boxe foi sempre uma das modalidades olímpicas moderna, já que desde 1904 está entre os vários desportos dos Jogos (só em 1912 é que não se realizou qualquer prova na Suécia, uma vez que o Boxe era ilegal por terras escandinavas).

Curiosamente, só disputavam as várias medalhas do Boxe atletas amadores

Os atletas profissionais estão “ocupados” a lutar pelos títulos da WBA (World Boxing Association), WBC (World Boxing Council), The Ring (título atribuído pela revista com o mesmo nome, a maior no apoio ao Boxe) e os títulos nacionais de Peso-Pesados.

Falamos de atletas como Muhammad Ali, Bob Foste, Jose Napoles, Carlos Zarate, Joe Frazier, Roberto Duran e muitos outros (para mais vejam este artigo do Bleacher Report: goo.gl/fA7gDY).

A competição é dura e todos os anos há uma evolução nos atletas, com Frazier e a sua velocidade, Foreman e aquele soco “seco” que paralisa qualquer um ou a agressividade “selvagem” de Duran.

O Boxe vai muito mais além do que um simples desporto, é já uma indústria com um público viciado em cada bout, em cada round, em cada troca de punhos.

No entanto, em meados dos anos 70 só existia um nome que criava um burburinho total. Quem? Muhammad Ali.

Cassius Clay de nascença, Muhammad Ali na sua conversão ao Islamismo (um nome “forte” no contexto da religião islâmica, uma vez que Muhammad é o nome do profeta e Ali foi um um dos primeiros califas do Islão) e campeão Mundial total (todos os títulos) em 1974, Ali crivou com veemência o seu nome no Boxe Mundial.

É pegando por Ali que chegamos a Robert Balboa, ou melhor, Rocky Balboa. Sylvester Stallone, um aficionado por Boxe, viu o combate entre Chuck Wepner e o Campeão de Todo o Sempre, com Wepner a deixar todos de “boca aberta” quando conseguiu atirar Muhammad Ali ao tapete à passagem do 9º round (ver minuto 2:18).

Ali não perdeu o combate, voltando a pôr-se de pé, ripostando os ataques do contender de Nova Iorque. No final dos 15 rounds, Ali ganhou por pontos e “salvou-se” de cair ante um pretendente que poucos conheciam ou davam hipótese de sequer fazer frente ao The People’s Champion.

Stallone viu o combate e recebeu a “inspiração divina” para escrever o scrpit do que viria a ser o filme Rocky.

Este assunto deu direito a uma luta legal, já que Wepner em 2012 chegou a um acordo com Sylvester Stallone e os estúdios da franquia. Esta situação confirmou, em parte, que Wepner tinha sido a inspiração para a criação da ideia, personagem e conteúdo do primeiro filme de Rocky.

Quem era Rocky Balboa?

Porém, a verdade é que Rocky Balboa era mais parecido com outro lutador, que se tinha reformado em 1956… o famoso Rocky Marciano.

O nome é “igual”, com a tal referência a Rocky (o nome próprio de Marciano era Rocco, a alcunha de Balboa), a forma de lutar muito similar (uma autêntica rocha de levar pancada, que aguentava cada chuvada de punhos para depois carregar sobre o adversário, sem que este conseguisse “sobreviver” ao cansaço e intensidade) ou mesmo a imagem (notem as parecenças físicas em ambos) coincide com a de Balboa.

Stallone conseguiu “colidir” o seu Rocky de “fantasia” com o Rocky “real”, transformando a sua personagem num ídolo do cinema contemporâneo. Uma personagem que criou um elo de ligação profundo com o seu púbico e que marcou uma página no Mundo do Cinema.

Contudo, ficará por aí? Ou Rocco conseguiu “partir” a Fourth Wall e atingir o mundo do desporto?

Seja o primeiro filme da franquia, o segundo ou quinto/sexto, as cenas de combate são consideradas das mais bem executadas, realizadas e gravadas da História do Cinema, aproximando-se do que é a realidade de um bout. 2016 marcou os 40 anos do lançamento do filme e o Bleach Report lançou um artigo interessante sobre os Rocky’sgoo.gl/wmwoIN

Aliás, os dois últimos Rocky’s tentaram ser o mais fidedignos possíveis ao que é um combate de boxe, com a inclusão de Antonio Tarver (39 combates, 31 vitórias, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Atlanta) em 2006. O boxeur oriundo de Orlando (Florida), interpretou o papel de Mason Dixon, um lutador da nova era, acusado de não ter paixão pelo boxe e que iria disputar um último combate contra um já envelhecido Balboa.

Em 2015 veio o spinoff de Rocky, apelidado de Creed. Rocky (Stallone) já não combate neste filme, dando lugar ao seu novo protégé, Adonis Johnson (Michael B. Jordan), filho do Deus Apollo Creed.

Os realizadores do filme, com Sylvester Stallone, optaram não por trazer um boxeur profissional, mas três! Tony Bellew (Campeão da Commonwealth em Peso Pluma), André Ward (medalha de Ouro em Atenas e com um registo de 31 combates e 31 vitórias) e Gabriel Rosado (ver este artigo: goo.gl/uTLbcQ).

O que isto significa numa primeira observação? Uma aproximação dos verdadeiros atletas do Mundo do Boxe ao cinema; a aceitação de Rocky/Creed como um filme que representa a modalidade; e a vontade de dar mais realismo às cenas de combate.

The Great Fight (Foto: Google)
The Great Fight (Foto: Google)

Mas então e no passado, em 1976, o que representava o Universo Rocky? O filme tem dois sentidos: o que visualizador “absorve” normalmente; e o que está por detrás da película.

A história é a seguinte: Robert Balboa, um jovem de Filadélfia, “sonha” ser um boxeur . Não é um portento ou uma “estrela em ascensão”, muito pelo contrário, é um lutador que está estagnado.

Trabalha em part-time como segurança de um gangaster e a sua vida passa por sobreviver cada dia, seja da forma como for… não desiste de nada e mantém uma fé inabalável em si, sabendo que é uma pessoa com limitações.

Ao mesmo tempo, a grande estrela mundial do boxe, Apollo Creed, campeão Mundial de Peso-Pesados, procura um novo adversário para um combate a realizar de celebração do bicentenário da Independência americana.

Sendo o combate em Filadélfia, Creed escolhe um boxeur local só por causa do nome e da forma como podem vender o combate: The Italian Stallion, ou seja, Rocky Balboa é chamado para dentro do ringue…

É aqui que dois mundos vão colidir num combate atroz, intenso e que os vai pôr em pé de igualdade.

Num dos cantos estava Rocky, um simples lutador que vivia do que podia, desprezado (até a um certo momento) pelo seu treinador, Mickey e que estava longe de ter uma vida com qualidade. E no outro canto estava Apollo, um campeão mundial em voga, reconhecido e temido por tudo e todos, que vivia numa vida de glamour, charme e classe.

O Combate pela Memória e Eternidade

O combate é um desafio à resistência humana, à capacidade de sofrer e voltar para cima só para sofrer ainda mais, um desafio aos limites mentais de ambos, de uma vontade de provar que o sonho comanda a vida e o corpo.

Rocky e Apollo acabam no 15º assalto, esgotados, fisicamente destruídos e cada vez mais frustrados, mas ao mesmo tempo apaixonados, pela “dança” que realizaram. Empate técnico, é a decisão final dos três juízes… Rocky Balboa acabava de “abalar” o Mundo do boxe.

Ora, este é o resumo do filme em ponto rebuçado, todavia, há que ir um pouco mais além. O que realmente retrata Rocky I? Numa reflexão ao filme e ao contexto da época, simboliza a luta difícil que um boxeur tinha pela frente todos os dias. Vistos como um “pedaço de carne” que conseguem gerar receitas brutais, um dia serão postos de lado porque o corpo e a cabeça já não conseguem aguentar mais.

Balboa representava o espírito de um cavalo livre, de um homem que só queria provar a todos que não era um simples individuo e que não era limitado fisicamente. Rocky chega a admitir que não é ninguém e que sabe as suas limitações intelectuais, mas isso não lhe tira capacidade para lutar e ir mais além. A cena, em baixo, representa essa vontade de ir mais além:

Para uma lenda, Rocky entrou no bout não a pensar no seu legado, em poder se tornar um símbolo da preserverança ou de sequer tocar no título…. Rocky Balboa só queria ir ao seu limite, provar que era possível ultrapassar os contornos físicos do seu corpo, de tornar o seu espírito imortal naqueles momentos em que era um alvo em andamento.

Em 1976, o boxe, como vários outros desportos, estava longe de apurar os danos físicos que o corpo sofria depois de intensos combates (vale a pena verem Cinderella Man com Russel Crow, uma vez que a certo ponto do filme, fala-se da gravidade que alguns socos podiam ter na cabeça) e de vários anos de combates a fio.

Depressão, Abusos e inutilidade: os Problemas do Profissionalismo

O final do combate entre Apollo Creed e Rocky Balboa ajudou a chegar essa “imagem” ao público que percebeu que existia lealdade e fairplay dentro do ringue (todos os desportos de contacto têm a sua parte de agressividade física, mas fica ou devia ficar por aí), mas também percebeu que o corpo só podia ir até a um certo limite.

A evolução do apoio médico e psicológico aos boxeurs tem vindo a crescer desde os anos 80. Existe, agora, um Healthcare Act que apoia directamente os lutadores que entram na “reforma”, auxiliando-os na adaptação a uma vida normal, na fisioterapia e apoio médico e acompanhamento psiquiátrico.

Rocky foi tão importante para esta modalidade, que em 2011 Sylvester Stallone foi introduzido para o Hall of Fame do Boxe. O discurso (que podem ver abaixo) demonstra exactamente o que Stallone e a sua equipa de filmagem queriam demonstrar ao público… a vida difícil, complicada e de imenso sacrífico por parte dos atletas do Boxe fora do ringue.

É muito complicado para atletas semi-profissionais/profissionais passarem de uma vida de competição para uma vida normal, muitas vezes pela forma como a sociedade os trata.

São várias vezes postos de lado pelos empregadores (não vêem utilidade em ter um antigo desportista, porque acham que não servem para mais nada), são tratados como autêntico empecilhos e que esgotaram o seu “tempo útil no planeta” (convidamos a ler este artigo para o efeito: goo.gl/mkx0lZ).

Durante todo o processo da franquia, Rocky sobe até ao pedestal dos deuses (conquista do título Mundial por duas vezes), enriquecendo a vida com uma vasta fortuna e um carinho importante da sua família, até a uma queda abismal (perda de quase toda a sua fortuna, muito devido aos maus negócios feitos pelo seu “manager”) e um “adeus” forçado aos ringues (os médicos aconselham-no a deixar as luvas de lado, já que corre no risco de sofrer uma lesão traumática no crânio).

É neste progresso todo que Rocky acaba por ser um filme humano com as tonalidades divinas da vontade de cada um de nós: os problemas do dia-a-dia, os pensamentos normais de quem tem medo da “escuridão” e incerteza contrastado com a vitória improvável e a felicidade por ultrapassarmos os nossos limites.

Rocky foi e é sem dúvida um filme que possui uma arte de filmar espectacular, que demonstra os vários “sabores” da carreira de um boxeur e que explica que não existe só um Universo de Preto e Branco, já que a maioria das zonas são polvilhadas por tons de acinzentado.

A modalidade ficou agradecia a Sylvester Stallone pela forma cru, realista e “agressiva” com que apresentou os filmes, não deixando de lado a humanidade das suas “personagens”, o carinho que eles nutriam pela sua família e a vontade de provarem que são algo mais do que meros “objectos” de uma modalidade.

Como final de artigo, deixamos esta cena de Creed, o tal spinoff, que foi gravada num só take. A execução valorosa e de categoria de Michael B. Jordan e o acompanhamento enérgico de Gabriel Rosado (Leo Sporino no filme), um boxeur profissional, provam a excelência dos filmes de Rocky.


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