17 Ago, 2017

O Diário do Atleta – Maria Heitor Episódio IV

Francisco IsaacDezembro 26, 20169min1

O Diário do Atleta – Maria Heitor Episódio IV

Francisco IsaacDezembro 26, 20169min1

Entre ser “campeã de Inverno”, ao conseguir o primeiro ensaio, passando pelo dissabor da primeira derrota e o feliz retorno a Lisboa por uns dias, Maria Heitor deixa aqui mais uma página do seu diário de atleta. O episódio IV de Maria Heitor em Lille

O mês de novembro começou com uma pausa no nosso campeonato, por causa dos jogos teste, de preparação para o campeonato do mundo, da selecção francesa de XV.

Dia 13 de novembro a nossa equipa dirigiu-se aos arredores de Paris para enfrentar a equipa do Bobigny. Como é o clube mais perto de nós fazemos a viagem no próprio dia em autocarro. Encontramo-nos por volta das 8h no clube e seguimos até Paris. Por volta das 11h chegámos e fomos almoçar a um restaurante.

O jogo estava marcado para as 15h da tarde e para as nossas adversárias era o jogo do tudo ou nada. Ao perderem este jogo o Bobigny afastava a oportunidade de sonhar com o apuramento para a final four. Face a isto, encontrámos uma equipa extremamente “agressiva” que tinha como objetivo fazer cair as atuais campeãs nacionais. Na sexta feira antes do jogo, os treinadores anunciam a equipa que ia encarar as parisienses. Titular a pilar… tinha um objetivo pessoal a cumprir: As formações ordenadas… tinha de encontrar a solução para ganhá-las.

Tivemos uma grande reviravolta na primeira linha e os treinadores viram-se obrigados a formar jogadoras para essa posição. Natural que com esta renovação iríamos deparar-nos com alguns problemas nas formações ordenadas.

Maria Heitor pronta para o jogo (Foto: Maria Heitor)

Durante os primeiros 20 minutos dominámos as melles. Infelizmente, aos 20 minutos uma segunda jogadora do Bobigny da 1º linha sai de campo lesionada e as melles passam a ser simuladas (deixam de ter força). Na minha opinião, isto acabou por condicionar o jogo e equilibrar o nível das equipas… a equipa adversária apresentava um 5 de frente muito pesado e penso que se as melles tivessem continuado acabávamos por conseguir impor-nos fisicamente. O que não aconteceu e fez com que o seu 5 da frente estivesse sempre disponível para o jogo.

No final do jogo uma vitória difícil. Estávamos a perder ao intervalo por 10 ponto para depois conseguirmos virar o resultado nos últimos 20 minutos de jogo. Duas penalidades transformadas e o meu primeiro ensaio (convertido) em França. Era um dos meus objetivos pessoais. O ensaio é resultado de um excelente trabalho de todos os avançados após um alinhamento a 10 metros da linha de ensaio, o que nos permitiu passar para a frente do marcador.

Muita coisa a melhorar mas houve um ponto muito positivo: a reviravolta do resultado. Nem todas as equipas têm esta frieza e maturidade de em 15/20 minutos marcar os pontos suficientes que dão a volta ao resultado final.

Acabámos assim a primeira volta do campeonato com o título de campeãs de outono, 7 jogos, 7 vitórias. O objectivo da época estava a ser cumprido… só vitórias, foi o nosso compromisso feito no estágio de pré-época.

Para atacarmos a segunda fase do campeonato recebemos o Romagnat em casa. Um dia fresco mas com o céu limpo, levou bastante público até ao nosso campo. Mais um jogo a pilar titular que, infelizmente, acabou numa pequena lesão muscular na coxa aos 55 minutos de jogo, o que me obrigou a sair do campo por me impossibilitar de correr. Para além disso, passei metade da semana adoentada… esses dias foram complicados.

Na primeira linha (Foto: Eric Photos)

Este jogo era uma boa oportunidade para irmos em busca de um ponto bónus ofensivo. E além do objetivo principal, manter a invencibilidade no campeonato esse era um objetivo obrigatório.

Com muitas dificuldades na melle, defrontando uma das pilares da seleção francesa, conseguimos impor-nos no resto do jogo marcando 8 ensaios e acabando por sofrer um ensaio penalidade por faltas repetidas na melle no final do jogo. Neste jogo voltei a marcar um ensaio o que me deu algum gozo porque nunca tinha tido a oportunidade de marcar desde que comecei a jogar no campeonato francês, tirando nestes últimos dois jogos.

Depois do jogo tivemos, novamente, uma pausa no campeonato porque a seleção francesa de XV teve três jogos de preparação para o campeonato do mundo (a realizar em Agosto de 2017 na Irlanda) contra a seleção dos Estados Unidos da América.

Invadir o Stade Toulousain…

Duas semanas que se previam muito exigentes… o final do semestre na faculdade, o inicio das avaliações práticas, o início dos exames teóricos (em francês) e uma deslocação a Toulouse durante um fim-de-semana inteiro.

E como aproveitar as horas e horas de comboio? Cerca de 17h em dois dias… Com umas explicações de fisiologia do exercício. Quando partimos em deslocações de género, saímos de Lille sábado por volta das 8h e só voltamos domingo por volta da meia-noite e, como segunda-feira de manhã, tinha o exame, precisava mesmo de estudar. Com a ajuda de uma colega de equipa preparei-me para enfrentar o primeiro «grande exame» escrito em francês.

Depois de muito estudo, uma sesta e alguma análise de vídeo (aproveitamos também as horas de comboio para estudarmos um pouco a equipa que vamos enfrentar) chegamos a Toulouse. Instalámo-nos no hotel e fui até ao centro da cidade com duas colegas de equipa para passear um pouco.

Antes do jantar tivemos o briefing com os treinadores para rever os últimos pormenores antes do jogo. Após o jantar, o momento de fisioterapia, de roll out e cama. No domingo acordámos cedo, tomámos o pequeno-almoço no hotel e após algum descanso nos quartos seguimos para o jogo.

O jogo não correu da melhor forma, inicialmente… Numa primeira parte em que não conseguimos impor o nosso jogo, dominaram-nos ao longo do jogo todo nas melles e nas touches. Fomos para o intervalo a perder por 8-0 e sem conseguirmos encontrar as soluções para os nossos problemas. Sem garantirmos a nossa posse de bola, só tínhamos argumentos defensivos para enfrentar a grande equipa do Stade Toulousain, que tem estado em ascensão desde o princípio da época, ocupando nesta fase o segundo lugar do campeonato nacional. Aos 60 minutos de jogo conseguimos pela primeira vez chegar à área de ensaio das nossas adversárias pela nossa ponta, recentemente chamada para o grupo de preparação do campeonato do mundo, que acabava por fazer neste jogo um hat-trick (iria ser a “chave” para a nossa vitória). Em resposta ao nosso ensaio, é atribuído à equipa da casa um ensaio penalidade depois duas faltas na melle a 5 metros da nossa área. o resultado do jogo sorria às Toulousainnes 15-7. E nos 10 minutos finais de jogo conseguimos dar uma excelente reviravolta no resultado, marcando mais dois ensaios, não transformados que nos puseram à frente do marcador 15-17. Uma vitória difícil que mostrava ainda mais as nossas fragilidades e onde teríamos que melhorar para enfrentar os próximos desafios. Mas final feliz, nove jogos nove vitórias. Continuávamos a ser a equipa a abater por mais uma semana.

A Primeira Derrota…

Exames acabados, aulas acabadas, de férias no trabalho, um último jogo antes de voltar a casa e entrar numas boas férias. Mas…

A primeira derrota… o primeiro cartão amarelo…

Posso não escrever sobre este jogo??? Uma derrota pesada e um cartão amarelo (o primeiro em França e o segundo de toda a minha vida).

Mas, como tudo há que aceitar o bom e, neste caso, o mau: Domingo dia 18 recebemos o Montpellier em casa, num jogo transmitido em directo para a Eurosport. Foi no estádio do extinto clube LMR que jogámos. Com 1500 pessoas nas bancadas, muitas câmaras, um pontapé de saída dado por um ex jogador das escolas do clube que teve de parar por causa de um cancro e um jogador de rugby de cadeira de rodas que é o nosso fã nº1 e todos os patrocinadores presentes, era o dia perfeito para terminarmos o ano de 2016 só com vitórias. Infelizmente não foi esse o cenário e acabámos por perder o jogo. O Montpellier impôs-se e não fomos capazes de argumentar ao longo dos 80 minutos.

Os pontos fracos do último jogo (melle e touche) foram superados mas, desta vez, mesmo a garantir as nossas melles e as nossas touches não tivemos argumentos para fazer face à poderosa equipa vice campeã, que viu este momento como uma boa desforra da final do campeonato de 2015/2016.

Ultrapassar a primeira derrota (Foto: Eric Photos)

Desde cedo as Montpelliéraines se impuseram. Uma primeira parte equilibrada mas a tender para a equipa visitante. 5-0 ao intervalo era um resultado equilibrado que permitiria as duas equipas de atingir o objetivo, a vitória. Infelizmente, para nós na segunda parte o Montpellier continuou a dominar o jogo e chegou por mais três vezes à nossa área de ensaio. No último minuto de jogo ainda conseguimos marcar o ensaio de honra, com o resultado final a ficar em 5-24. Uma chapada de luva branca para a nossa equipa que tinha como objetivo manter a invencibilidade ao longo de todo o campeonato.

Com o natal e a passagem de ano à porta resta-nos agora duas semanas de férias para desligar um bocadinho para que em 2017 venhamos mais concentradas e mais fortes ainda para voltarmos ao trabalho.

Mensagem de Natal

Para 2017 desejo a todas as futuras jogadoras que tenham a sorte de disfrutar deste desporto como eu e que aprendam o verdadeiro significado das palavras: espírito de equipa, sacrifício e amizade

Maria Heitor com o fã nº1 do LMRCV (Foto: Eric Photos)


One comment

  • Carlos Carta

    Dezembro 27, 2016 at 8:42 am

    O viver de um sonho, o ser profissional de um desporto que se ama, e que tem o nível de exigência que o rugby tem, e partilhá-lo desta forma despojada, como se se tivesse a beber um café…
    Parabéns Maria, que continues a perseguir o teu sonho, pois também motivas outros e outras a tentar…
    E obrigado ao Francisco Isaac… por nos trazer a história.

    Um bom 2017.

    Reply

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