23 Ago, 2017

Guia de um futebol diferente

Filipe CoelhoAgosto 21, 20169min0

Guia de um futebol diferente

Filipe CoelhoAgosto 21, 20169min0

Percorrendo a grande Europa do futebol, vislumbra-se a bola com a marca 2016/2017 começando a rolar. Generalizando, nas grandes Ligas, os favoritos à glória sempre se repetem. Todavia, de quem se pode esperar o melhor perfume futebolístico? De quem aguardar que encante (com ideias novas e diferentes) mesmo que possa acabar sem vencer?

Sevilha

Dois vencedores uniram-se na capital da Andaluzia. Por um lado, o próprio clube que vem de 3 vitórias consecutivas na Liga Europa (mas de um banal 7º lugar na Liga Espanhola em 2015/2016); por outro, o romântico Sampaoli, argentino de nascença mas herói no Chile, selecção por quem venceu a Copa América, tornando-a numa das mais respeitadas nações futebolísticas a nível mundial. A mescla destes dois mundos faz brotar água na boca, com o Sevilha a mostrar princípios entusiasmantes desde já, mesmo que as derrotas na Supertaça Europeia (frente a Real Madrid) e Espanhola (diante de Barcelona) tenham deixado marca.

Mas não abalaram uma identidade que ‘Sampa’ pretende instituir desde o 1º dia. A mutabilidade do sistema táctico é uma evidência – ainda mais compreensível pela fase da época que vivemos e pela busca das soluções mais adequadas – mas o propósito da equipa sevilhista é indesmentível. Passa por ter o máximo de tempo de bola possível, sabendo fazer ‘campo grande’ (capacidade para dar largura mas sem deixar de ter apoios frontais e curtos), e, nos momentos sem bola, pauta-se por um pressing a campo inteiro, tentando asfixiar o adversário. A ávida vontade de ter bola passa por uma reacção à perda musculada e por uma constante pressão em relação ao adversário. A louca careca de Sampaoli promete um futebol frenético, entusiasmante e próprio de quem quer ser protagonista.

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Contra o Barcelona …

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… ou diante do Granada, o pressing alto é uma das características do novo Sevilha de Sampaoli

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Jorge Sampaoli (Foto: en.as.com)

 

Napoli

A afinada orquestra de Sarri surpreendeu a Itália e a Europa em 2015/2016. A conquista do Scudetto não se efectivou, que a qualidade individual da Juventus superou a superior valia colectiva da turma comandada por este ex-bancário, figura sui generis do Calcio. Sem Higuain para o novo exercício – perdido, lá está, para a Juventus -, nem por isso deixará de se ver um Napoli com uma identidade bem vincada (tal como Sarri já tinha instituído no Empoli) e assente numa estrutura táctica próxima do 433.

As marcas distintivas desta renascido Napoli passam, sobretudo, pela organização defensiva, com uma última linha bastante subida no terreno e actuando de forma perfeitamente coordenada e harmónica, encurtando espaços e percebendo os timings para o exacto controlo da profundidade – como se todos estivessem ligados por um e mesmo fio condutor. Do ponto de vista ofensivo, a quantidade de apoios e linhas de passe (muitas delas frontais) e a forma como procura jogar de forma apoiada e segura, em combinações curtas, tornam o futebol do Napoli extremamente atractivo e enleante, com soluções várias para fugir à pressão do adversário. Se os princípios colectivos já encantaram – e não obstante a tremenda perda que foi a saída de Pipita Higuain -, as contratações Milik (Ajax), Zielinski (Empoli) e Giaccherini (Sunderland) prometem elevar a qualidade individual para a nova época da equipa que mora no coração de Maradona.

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A coordenação da linha defensiva e o controlo da profundidade são traços evidentes no Napoli de Sarri

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Variabilidade de linhas de passe com diversos apoios frontais

 

 

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Maurizio Sarri (Foto: espnfc.com)

 

Fiorentina

Não deixa de ser curioso perceber que o Calcio merece honras de destaque num espaço de bom futebol. Para isso contribui também a Fiorentina, do português Paulo Sousa. O emblema viola começou 2015/2016 a grande nível, encantando e chegando mesmo a ocupar o topo da classificação durante alguns momentos. A queda acabou por surgir quando os índices de finalização decaíram (Kalinic teve uma relevante queda no seu rendimento) e a capacidade de surpreender os adversários (também por insuficiências do plantel) diminuiu.

Todavia, o perfume de um interessante futebol perdura ainda em Florença. As melhores fases da Fiorentina aconteceram quando o português enveredou por um original 3421, ainda que as incursões pelo 433 (ou 4231) tenham sido assíduas (e muitas vezes opção em termos de organização defensiva). O conjunto de Sousa valeu sobretudo pelo futebol ofensivo que se dispôs a praticar, com um controlo sobre a bola e sobre o jogo constantes, num futebol ligado e largo (contributo fundamental dos laterais/alas) e com sapiência para enveredar por rápidas desmultiplicações ofensivas quando o jogo assim exigia. Do ponto de vista defensivo, não sendo uma equipa perfeita em organização, procura condicionar o jogo do seu adversário, tentando assíduas superioridades numéricas e rápidos reposicionamentos defensivos (melhor na transição do que em organização). A ausência da perda de elementos-chave é uma boa noticia para Sousa, que, à excepção de Astori (Cagliari) e Carlos Sánchez (Aston Villa), optou por uma politica de recrutamento de jovens valores (Dragowski, Hagi, Diks ou Toledo). A Fiorentina continuará a ser, por certo, um baluarte do bem jogar, mas pode, até, fazer mais e melhor do que na temporada passada.

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O 3421 perfeitamente definido

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A largura oferecida pelos laterais/alas é um aspecto fundamental no modelo de jogo da Fiorentina de Paulo Sousa

A mutabilidade táctica da Fiorentina (Fonte: Outside of the Boot)

Paulo Sousa (Foto: gazettaworld.com)

 

Manchester City

O nome mais óbvio da lista. Aquele que poderá provocar uma revolução no staus quo da Premier League. Pep Guardiola iniciou uma nova era em Barcelona e inovou em Munique, (quase) sempre acompanhado de títulos. Em Manchester – com muito dinheiro envolvido, é certo -, já começa a mostrar ao que vai, sendo expectável que o City suba tremendamente o nível no que à qualidade colectiva diz respeito.

Pelo que já se viu, Guardiola parece disposto a introduzir um 433 – muito mutável, aproximando-se até de um 4141 – em Manchester. Os princípios basilares, porém, manter-se-ão: uma propensão ofensiva constante, com a preocupação de criação de constantes linhas e apoios; colocação de unidades entre linhas e por dentro, procurando cobrir todos os espaços do terreno com possibilidades para jogar; e bloco coeso, subido, com sectores próximos, procurando recuperar tão rápido quanto possível o esférico. Para além disso, as pequenas idiossincrasias de Pep começam a ganhar aplicabilidade: o inicio da construção com 3 homens, com o recuo do #6; mais à frente é comum verificar-se os laterais em terrenos interiores, com os extremos completamente abertos (relação lateral-extremo, com um dentro e outro fora); e a adaptação de jogadores, como é o caso de Kolarov que arrancou a época a jogar no eixo da defesa. Pela inovação, pela promessa de qualidade colectiva e pela superior valia das individualidades (Nolito, Gundogan e Stones são reforços, para além dos promissores Sané, Gabriel Jesus e Zinchenko), este City levanta todas as expectativas.

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No City de Guardiola, muitas vezes os laterais (Zabaleta e Kolarov neste caso) ocupam espaços interiores

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Saída a 3, com os laterais novamente colocados por dentro (aqui Sagna e Clichy). Kolarov actua no eixo central defensivo.

 

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Pep Guardiola (Foto: indianexpress.com)

 

Outras equipas a seguir:

  • Borussia Dortmund
  • Roma
  • Sassuolo
  • Granada
  • Utrecht

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