17 Out, 2017

“Gol o Plomo” – O Futebol da Era Escobar Ep.3

Francisco IsaacOutubro 7, 20169min0

“Gol o Plomo” – O Futebol da Era Escobar Ep.3

Francisco IsaacOutubro 7, 20169min0

O fim de uma “carreira” e do reinado; um até já do futebol colombiano; e o início de uma redefinição na forma de viver. O 3º episódio, e último, da saga de Escobar e o Futebol.

Convidamos o leitor a colocar a seguinte banda sonora para acompanhar a leitura: goo.gl/DVvEip

No caso de não ter lido o 1º e 2º episódios, recomendamos que o faça: goo.gl/KtPgZC e goo.gl/ruRpnU

Voltemos a Dezembro de 1993, talvez o mês mais crítico para Medelín. Pablo Escobar escondido no seio da cidade e o DIM a lutar pelo título de Campeón de Colombia. O homem que inspirou documentários e uma série não deveria querer saber de futebol nesse momento, já que a sua vida estava praticamente no fio da navalha e a todo momento poderia ser retalhada. O DIM vivia num misto de emoções, disputando com o Junior o Campeonato Nacional e teria, a 19 de Dezembro, um jogo decisivo frente ao rival, o Atlético Nacional. Irónico que as duas equipas de Medelín tivessem de medir forças, como se ambas representassem partes da personalidade de Escobar: o Atlético com a exuberância e arrogância e o Deportivo com a paixão e loucura, todas características que coexistiam dentro de Pablo Escobar. Uma vitória do Atlético entregava, imediatamente, o título de campeão aos Verdes não sendo necessário esperar pelo jogo entre o Junior-América de Cali. Já o DIM mesmo que derrubasse o Atlético, tinha de aguardar pelo desfecho do outro jogo. Mas … ao bom estilo colombiano, não quis esperar.

Depois daquele fatídico campeonato de 1989, em que estiveram tão perto da glória (o DIM encontrava-se no 2º lugar quando perdeu por 1-0 com o Cali) e que terminou na morte de Álvaro Ortega, o Deportivo Independiente de Medelín esteve três anos à espera deste momento. A equipa do pueblo, como muitos afirmavam – a equipa que trazia todas as emoções e crenças da população que vivia nas piores condições possíveis -, estava à beira de destronar os ricos (mas em queda-livre) do Atlético Nacional, do América de Cali e os puritanos do Junior. O DIM sempre representou este estracto social mais baixo – era um clube que tinha uma forma de viver diferente, mais humilde sem perder pitada da alegria associada ao estilo latino. Era a cara de Pablo Escobar: as suas raízes estavam ali no DIM, nas bancadas, no barulho ensurdecedor que vinha da hinchada do DIM, do movimento que a população, trabalhadora e de mais terra-a-terra efectuava a cada novo jogo no Atanasio Girardot. Era o pulsar de Medelín. Não era o estilo do Atlético Nacional, que vivia dos milhões do Cartel de Medelín, que deveria ter imperado no coração de Escobar. O “filho” de Medelín (nasceu em Rio Negro, a 30 km’s da capital do distrito de Antioquia) correu tanto, driblou por tantas as vezes os seus opositores, abalroou quem tentava chegar perto do seu balón e acabou tropeçando nos seus próprios pés…

A 2 de Dezembro desse ano, Pablo Escobar, com o seu braço-direito e guarda-costas Alvaro Agudelo, foi apanhado pelos dois grupos que há 1 ano sonhavam com esse momento. Desta vez, Don Pablo não conseguiu fintar a morte – saltou de prédio em prédio, só que os disparos das forças policiais puseram fim à Lenda de Medelín. A corrida de Escobar terminara ali, numa manhã que mudaria, para sempre, a Colômbia. No dia 3 de Dezembro não haveria mais Cartel de Medelín, a liderança caiu com Don Pablo, que acabou por tropeçar no seu próprio “drible”: os assassinatos, as conspirações, os esquemas, o regozijo com que falava das suas atrocidades e do nível de vida que tinha atingido tinha sucumbido perante um erro do próprio – a chamada telefónica para o filho fora captada pelas forças do Search Bloc. Um escape muito curto, que iria terminar em tragédia, para uns, e no ressuscitar da Colômbia, para a larga maioria.

Fica ao cargo do leitor (e visualizador, no caso de ter visto a série) escolher se Medelín caiu na penumbra nesse mês de Dezembro ou se retirou de si mesmo aquele “manto” negro com que Escobar havia encoberto a cidade durante largos anos.

A segunda tragédia de Medelín aconteceu pouco depois, a 19 do mesmo mês. O DIM tinha conquistado a vitória final frente ao Atlético, com um belo golo de Carlos Castro ao minuto 86. A 700 km’s ainda se jogava o outro encontro, onde um 2-2 persistia… Os adeptos do DIM já festejavam o Campeonato Nacional, pensando que mais nada se passaria no jogo entre o Junior e Cali; porém, quis o destino que McKenzie, avançado tapado por Pacheco, recebesse um passe formidável de ‘El Pibe‘ Valderrama para fazer o 3-2 aos 90’ (clique no link para obterem informações sobre a derradeira jornada: goo.gl/fMwNxa)

O que veio de seguida foi a típica explosão de emoções. Mckenzie dirige-se à afición que salta em cima do seu herói, o estádio quase que desaba entre o frenesim do choro e o alucinar da memória, enquanto, em Medelín, a desilusão, com as típicas tonalidades de tristeza e convulsão, atingem da mesma forma que o golo de McKenzie atingiu no golo a Oscar Córdoba (entrevista a Mckenzie: goo.gl/C7EJ1L).

Fruto de uma coincidência gritante, a equipa de Escobar de coração, o DIM, e a equipa de lavagem, Atlético, acabam deitados no chão após uma tentativa de fuga com o título, na mesma altura em que o homem que “inspirou” histórias e fantasias termina o seu reinado. Dezembro de 1993, o momento em que a paixão, loucura, frenesim terminam com um golpe de misericórdia do destino. Aplicando um fastfoward, o Atlético Nacional (para mais situações de organizações criminosas a apoiar equipas no futebol ver: goo.gl/xe8NWd) subiria ao palanque dos campeões na temporada seguinte, numa altura em que a Colômbia está imersa na guerra contra o Cartel de Cali, com as FARC a não deixar de maniatar o poder do governo e com o espectro de Escobar ainda a pairar em Medelín…

As instalações do DIM (Foto: Wikipedia)
As instalações do DIM (Foto: Wikipedia)

Passaram-se largos desde da morte de Pablo Escobar – 23 mais especificamente. O DIM conseguiu ser campeão por 4 vezes nos anos 2000 – Jackson Martínez deixou forte marca na equipa de Medelín -, com o seu eterno rival do Atlético Nacional a somar 8 títulos da Colômbia (mais a tal Taça Libertadores) e a selecção colombiana voltou a ser um equipa competitiva com vários talentos de grande dimensão.

A fantasia que se criou em redor de Escobar “mergulha” o público numa subtil dança de respeito e de estima pelo falecido líder do Cartel de Medelín. Mas ao jeito do que foi a festa desfeita pelo Junior ao DIM em 1993, lembramos que Don Pablo lançou o pânico, a discórdia e a violência um pouco por toda a Colômbia, vivendo sob a regra do “Plato o Plomo“, e acabou por deixar um legado tóxico, que durante anos fora inalado pela sua doce Colômbia.

Como todas as paixões ardentes e envoltas num êxtase hiperbolizado que acabam por terminar de forma abrupta, o futebol colombiano definhou durante largos anos e só em 2004 é que recomeçou o seu processo de regresso à ribalta, com a conquista da Libertadores pelo Once Caldas. Se Medelín e o Deportivo Independiente de Medelín sentem falta do seu hincha mais conhecido? Não o sabemos. Mas ainda hoje há uma luta intensa entre os adeptos do Atlético Nacional e do DIM, com cada facção a afirmar que Escobar es Nuestro Hincha com um fervor e clamor que deixariam Escobar orgulhoso de algum do seu legado.

Gol o Plomo, um sofrimento pela hinchanda, uma forma de viver a alegria do futebol, entre as consequências de uma vida ilegal e de uma vontade de ser o revolucionário de Medelín, Escobar e o seu cartel liquidaram mais de 5000 pessoas, lançaram os cartéis mais maliciosos e violentos da História da América do Sul, destruiram vidas (incluindo a sua), tentaram revirar a política nacional, relançaram o futebol colombiano, deram parte da sua pele ao Atlético Nacional (tenha sido o propósito de “lavar” ou de simplesmente ajudar) e amaram o DIM até ao momento final. Gol o PlomoPlata o Plomo ou entre La Vida e la Muerte

Ao jeito de uma série de referência, abrimos caminho para o que pode vir a ser uma nova trilogia. Agora sem Escobar. Com quem então? Gilberto Rodriguez Orejuela. Quem? Para isso terá de esperar pela 3ª temporada de Narcos e pela 2ª trilogia do Fair Play.

Que segredos esconde o América de Cali (Foto: ESPN)
Que segredos esconde o América de Cali (Foto: ESPN)


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