18 Jan, 2018

O que te aconteceu André Villas Boas?

Francisco IsaacNovembro 29, 20178min0

O que te aconteceu André Villas Boas?

Francisco IsaacNovembro 29, 20178min0
Um treinador que iniciou uma revolução que nunca acabou, estará André Villas Boas no fio da "navalha" da sua evolução? Qual é a tua opinião?

28 de Novembro de 2010, após o encontro com o Sporting CP (1-1 em Alvalade), André Villas Boas proferiu as seguintes palavras,

“Como vocês sabem eu estou na minha cadeira de Sonho, continuo a dizer a mesma. Agora vão-me tirar a cadeira de Sonho se deixar de ganhar.”

Palavras muito fortes e delicadas por parte de um treinador que tinha chegado há quatro meses ao FC Porto. Mas o “destino” e a “sorte” têm destas coisas, e Villas Boas não só ficou na Cadeira de Sonho, como conquistou quase tudo num pequeno espaço de tempo.

Os Dragões de Villas Boas foram uma força total em Portugal, “esmagando” o SL Benfica no Dragão (5-0), terminando com uma diferença de 21 pontos para o 2º classificado no Campeonato, somando ainda a Taça de Portugal e a Liga Europa.

Numa equipa onde despontavam Radamel Falcao, Hulk, Silvestre Varela, Helton, Otamendi, entre outros, a época de AVB ao serviço do clube da Invicta ficará para sempre nos almanaques da História do Futebol português e internacional.

Todavia, uma saída abrupta para o Chelsea deixou o FC Porto em “maus-lençóis” em termos de projecto e reestruturação do mesmo (Vítor Pereira foi um treinador que conquistou dois campeonatos sem consentir qualquer derrota, mas a Taça e as competições europeias foram uma ruína).

Uma saída prematura e uma entrada mais prematura em Stamford Bridge.

A carreira de André Villas Boas em terras inglesas durou cerca de dois anos e meio… não conquistou (directamente) nada pelo Chelsea (não deixa de estar na lista dos treinadores vencedores da Champions League) e conseguiu a melhor época do Tottenham na Premier League até à chegada de Mauricio Pochettino.

Uma série de “solavancos”, um futebol que passava do vistoso e altamente virtuoso para um desastre total em que estava à mercê de qualquer contra-ataque, Villas Boas sofreu de todos os “males” possíveis em terras de Sua Majestade.

Sobretudo a questão psicológica e a forma como lidar mentalmente com plantéis “diferentes” dos que encontrava em Portugal, foram alguns dos problemas que marcaram a sua passagem por Inglaterra.

Um treinador altamente efusivo, expressivo e “explosivo”, Villas Boas vibrava (e vibra) com cada remate, jogada, bola perdida, pondo-se sempre em comunicação com quem está dentro das quatro-linhas, sem ser de uma forma exaustiva e cansativa, do estilo de Julen Lopetegui.

Em Inglaterra esse comportamento não encaixou nos jogadores que encontrou tanto no Chelsea como no Tottenham (o facto de não ter a pressão de lutar por títulos e troféus pode explicar os primeiros 10 meses de sucesso nos Spurs), que acabaram por congeminar situações de choque com o treinador luso.

A saída do Tottenham em Dezembro de 2013, levou a que a AVB “fugisse” para a Rússia, onde pegou o Zenit de Petesburgo, uma das super-potências do Leste europeu.

No Zenit foi munido de super-reforços, com a chegada do brasileiro Hulk, o belga Witsel e o venezuelano Rondón. Ou seja, uma equipa forte, competente e “gigante”. O futebol não era o mesmo que em tempos anteriores tinha conseguido impor, seja na belle époque do FC Porto ou os meses de “lua de mel” pelo Tottenham.

Mais “duro”, sem flexibilidade de linhas de corrida, estático e extremamente táctico, Villas Boas apostou em segurança, invés de tentar puxar pela criatividade, “magia” e desequilibro táctico em prol de um ritmo ofensivo de outro capricho.

Em Maio de 2016 abandona o projecto, por falta de resultados obtidos (o Zenit com a super equipa acabou por só conquistar um campeonato nos dois anos de AVB ao “leme”) e começa o período da espera.

Desde os “gémeos” de Milão, passando por Paris, falando-se num retorno absurdo  ao Dragão, AVB parecia ter um (grande) clube à sua espera a todo o momento. Contudo, o tempo passou e nada… nem Milão, nem Inter, nem PSG, Lyon, Valência ou mesmo o “seu” FC Porto.

Falta de fundos monetários para assegurar não só a vinda do treinador luso mas também para contratar os jogadores desejados, podem ser duas das razões de uma lista algo longa de motivos para não se ter dado o “passo seguinte”.

Na ausência de convites do “Velho Continente”, AVB acabou por embarcar numa empresa algo estranha para um treinador do seu gabarito: China! Como em temos de outrora, o português partiu em busca do exótico e como as Naus dos Descobrimentos, chega a terras nunca antes encontradas.

O Shanghai SIPG, um dos vários super-clubes milionários do continente asiático, convidou AVB a aceitar o projecto extremamente ambicioso de terminar com a hegemonia do Guangzhou Evergrande, que à altura era “só” Hexacampeão da Super Liga Chinesa (Chinese Super League, mais conhecida por CSL).

Com os reforços Hulk, Oscar e Odil Akhmedov (ao todo quase 140M€) em transferências, as Águias Vermelhas de Shanghai não foram além de um 2º lugar na liga, meias-finais na Liga dos Campeões da Ásia e falharam na final da Taça da China contra o rival do Shanghai Shenhua.

O futebol não foi de todo mau, já que ficaram a 6 pontos da “turma” de Luis Felipe Scolari, demonstrando um futebol vibrante, de posse e intensidade na Liga dos Campeões da Ásia, onde atingiram um feito histórica para o clube de Xangai.

Mas o que falhou, mais uma vez, no futebol de AVB? Porque é que não conseguiu conquistar troféus de forma mais clara ou consistente?

O crescimento e evolução de AVB foi sempre de forma abrupta, queimando diversas etapas de “crescimento” até chegar ao Dragão. AVB passou de uma Académica para um FC Porto e, surpreendentemente, dominou Portugal e a Liga Europa. O

salto para o Chelsea pode ser quase entendido como uma tentativa de Ícaro chegar ao Sol sem ter as asas adequadas para tal objectivo. Como a personagem mitológica, Villas-Boas rapidamente passou dos “céus” aos “infernos”.

Apesar da “queda” os dados de AVB não são de todo problemáticos (concerne só à fase que esteve entre Académica-Tottenham).

Foto: Manager Stats.co.uk

No meio dos trambolhões, de alguns títulos levantados e de poucas metas atingidas, Villas-Boas passou de um treinador eléctrico, caprichoso e altamente desejado pelas lides do futebol, para alguém que está à deriva e à procura de um rumo na carreira de treinador no mais alto dos palcos.

O treinador português não tem “condições” para ir para clubes de 2º nível, até porque em todos os projectos houve algo que pautou a decisão final do técnico: dinheiro. Seja no Chelsea, Tottenham, Zenit ou SIPG, Villas-Boas aufere sempre um salário elevado e que deixa a maior parte dos seus colegas de profissão com inveja.

Ironicamente, quando AVB chegou ao Dragão não era este o discurso do treinador… já que os seus desejos eram pautados por uma “carreira de muitos anos no FC Porto” e depois porque não ir para a Argentina ou outro país mais exótico e viajar ao mesmo tempo que treinava.

A evolução desmedida e prematura de Villas-Boas acabou por condenar o actual treinador do SIPG a sucessivos fracassos não só de resultados, mas também de assentar bases, de conseguir afirmar o seu discurso, mentalidade e forma de actuar.

Falta aquilo que Pochettino tem tido no Tottenham… estabilidade e controlo sobre a equipa. Villas-Boas, ao contrário do seu homólogo argentino, pode queixar-se das constantes movimentações de mercado, da perda de estrelas e de figuras fundamentais para o plantel. Por outro lado, também tem várias culpas no cartório ao ir buscar reforços que em nada trouxeram para o clube (Lamela é um exemplo gritante) e pela forma como entrou em choque, por diversas vezes, com quem dirigia o clube.

Villas-Boas tem, deste modo, alguma falta de controlo no lidar com certas situações, como o caso de John Terry ou Frank Lampard (conta-se que foram os mais velhos a vetar a continuação do treinador no Chelsea), faltando-lhe ter outra “visão” para controlar e amordaçar os jogadores mais experientes que sentiam algum tremor perante a falta de pulso do treinador.

Não cremos que a situação actual de André Villas-Boas seja a final, pelo contrário, já que ainda tem muito mais anos pela frente como treinador-principal. Contudo, está dependente dos seus objectivos para o Desporto-Rei: Fazer dinheiro e garantir uma estabilidade económica que já possui?

Ou dar uma volta total na forma de estar e realmente partir em direcção a um projecto forte em solo europeu, que não seja vincado por constantes discussões entre direcção, departamento de futebol e equipa?

Um treinador que marcou uma Era no FC Porto e que precisa desesperadamente voltar a sentir o sabor não só do sucesso, mas também do excitamento de ganhar, dominar e de assentar a sua forma de estar no futebol.

Um treinador que apesar de “fogoso” e, por vezes, temparemental dá-se ao trabalho de estudar um clube e liga até ao mais infimo pormenor… a começar pela língua. Ora vejam esta situação no Zenit e a forma como AVB discute em russo com o 4º árbitro.


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