22 Fev, 2018

Parcialidade nos jornais desportivos portugueses. Concorda?

Daniel FariaNovembro 18, 20175min0

Parcialidade nos jornais desportivos portugueses. Concorda?

Daniel FariaNovembro 18, 20175min0
A imparcialidade da imprensa desportiva em Portugal está constantemente a ser posta em causa. As críticas terão fundamento, ou são somente ligadas à paixão pelo futebol que existe no meio lusitano?

Neste artigo, o foco será nos leitores assíduos de jornais desportivos, que tendem em associá-los a clubes, nomeadamente aos três grandes. Pois bem, os três maiores jornais desportivos em Portugal (A Bola, Record e O Jogo), relacionam-se com Benfica, Sporting e Porto, sendo associados aos mesmos. Na mesma proporção – um para cada – as publicações jornalísticas são alvo de críticas e associadas aos clubes.

Diz-se que o jornal A Bola é ligado ao Benfica, o Record ao Sporting e o Jogo ao Porto. Mas porquê? Será por questão territorial – A Bola e o Record têm as redações em Lisboa e o O Jogo no Porto – ou será mesmo pelos conteúdos e destaques desequilibrados?

O dever de um jornalista é ser imparcial. Isso ninguém nega. Mas na hora de analisar a parcialidade ou imparcialidade do mesmo é que “a porca torce o rabo”, como se costuma dizer. Desde a sua origem que os meios de comunicação social influenciam a sociedade. Formam opiniões, geram conceitos e alteram, inclusive, atitudes e comportamentos do público. Por isso, uma notícia engloba várias interpretações, o que pode desde logo formar ideia de que determinado jornal favorece um clube específico.

A imparcialidade é o princípio base na profissão de jornalista (Foto: MF)

A questão da rivalidade é de facto um factor catalisador para a desconfiança da parcialidade do jornalista que escreve sobre FC Porto, SL Benfica ou Sporting CP. O facto de os adeptos imaginarem que os jornalistas – que têm de ser imparciais – têm preferências clubísticas, influencia-os desde logo na forma como vão olhar para a notícia. E a verdade é que, com certeza, a grande maioria dos jornalistas desportivos têm preferências clubísticas e, por vezes, não conseguem separar a vida profissional da vida pessoal, fazendo transparecer as suas preferências no seu trabalho.

A juntar a isso, a linha entre informação e opinião no jornalismo desportivo é muito ténue. Notícias informativas transformam-se facilmente em artigos de opinião, principalmente quando se elabora crónicas de jogos entre outras temáticas.

O futebol é um desporto que move multidões e envolve rivalidades, e a mesma notícia pode ser muito bem vista por uma pessoa e encarada de forma bastante ofensiva e negativa por outra. Em Portugal, os três principais catalisadores da rivalidade, emoção e paixão no seio dos adeptos são FC Porto, SL Benfica e Sporting CP. Tudo o que seja difundido pela imprensa causa impacto. Basta um espaço maior para um e menor para outro para gerar controvérsia.

No sentido de tentar perceber se as desconfianças têm fundamento, o Fair Play fez uma pesquisa rápida, encontrando um estudo/conclusão interessante sobre a temática. Numa tese de mestrado relativa ao curso de Ciências da Comunicação, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, da autoria de Ivo Miguel Costa Neves, o mesmo conclui que existe realmente parcialidade nos três principais jornais desportivos em Portugal.
Com o título de “A (im)parcialidade na imprensa diária desportiva em Portugal: Os casos de FC Porto, SL Benfica e Sporting CP”, a tese analisa as edições dos respetivos jornais no primeiro trimestre de 2016, exibindo as conclusões.

“No jornal A Bola, mais de um terço (cerca de 35,3%) do número de páginas completas analisadas no universo dos três clubes, dizem respeito ao clube desportivo SL Benfica, que tem mais destaques de primeira página, mais colunas, mais fotografias no geral (mais fotografias médias e mais fotografias grandes em particular), mais reportagens, mais entrevistas, mais manchetes positivas, mais do dobro dos títulos positivos do que FC Porto e Sporting CP, e não tem nenhum título negativo, contra os 4 e 5, respetivamente, dos rivais”.

“No jornal O Jogo, mais de um terço (cerca de 37,1%) do número de páginas completas analisadas no universo dos três clubes, dizem respeito ao clube desportivo FC Porto, que tem mais primeiros destaques na primeira página (44 contra 7 dos rivais), mais colunas, mais fotografias no geral (mais fotografias médias e mais fotografias grandes no particular), apareceu esmagadoramente mais vezes como primeira secção do jornal (43 contra 9 e 8 dos rivais), tem mais artigos jornalísticos no geral (mais notícias, mais reportagens, mais breves e mais crónicas em particular) e mais títulos jornalísticos positivos”

“No jornal Record, mais de um terço (cerca de 35,8%) do número de páginas completas analisadas no universo dos três clubes dizem respeito ao clube desportivo Sporting CP, que tem mais primeiros destaques na primeira página (31 contra 23 e 7 dos rivais), mais fotografias no geral (mais fotografias pequenas e mais fotografias médias em particular), apareceu mais vezes como primeira secção do jornal (33 contra 20 e 7 dos rivais), tem mais manchetes positivas, mais artigos jornalísticos no geral (mais breves em particular) e mais do dobro dos títulos jornalísticos positivos do que os rivais (12 contra 5 títulos de ambos os clubes), e não tem nenhum título jornalístico negativo, ao contrário do que acontece com FC Porto e SL Benfica”

São pequenos excertos retirados da tese disponível para consultar, que provam que há parcialidade na imprensa desportiva portuguesa. É invocado apenas um estudo sobre o assunto, mas de uma forma geral, é possível formar a ideia de que a imprensa desportiva portuguesa é de facto parcial em muitas situações. Agora, a questão é: deveriam assumi-lo publicamente? Cabe a cada um pensar e ponderar, sendo certo que essa ação em nada beneficiaria os respetivos jornais, que poderiam ficar simplesmente limitados a um certo segmento de leitores.


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