23 Nov, 2017

Opiniões e os Media Desportivos – Marco Silva, Renato Sanches e João Mário

Fair PlayMaio 26, 201710min0

Opiniões e os Media Desportivos – Marco Silva, Renato Sanches e João Mário

Fair PlayMaio 26, 201710min0

A parcialidade da imprensa, aliada à “venda fácil” e ao “manipular” da cultura desportiva tornam-se decisivos para um extremar de opiniões, abrindo uma divisão profunda entre adeptos do mesmo desporto. Tiago Estêvão convida-nos a olhar atentamente para três situações: Marco Silva, Renato Sanches e João Mário.

A influência dos media continua a ser de proporções enormes nos dias de hoje e a secção futebolística não foge à regra. A grande parte dos meios tem algum grau de parcialidade – algo inevitável – mas a sua grande maioria age como se não o fosse – algo evitável. Narrativas são forçadas e reprimidas consoante os interesses e influências.

Do outro lado temos o adepto comum de futebol em Portugal, que mantém ainda duas típicas caraterísticas: a falta de conhecimento e apreciação pelo jogo em si, combinada com uma gritante paixão pelas cores que defendem, na generalidade, sem pensar duas vezes. Esta combinação de fatores leva a duas situações constantes: adeptos a repudiarem qualquer narrativa e publicação de caráter negativo para com o seu clube e vice-versa.

Sabendo que não podemos simplesmente desligar e ligar grande porção da imprensa escrita em Portugal, vou analisar neste artigo três situações que levaram a inúmeras discussões durante a temporada que agora termina. Marco Silva, Renato Sanches e João Mário. Expondo factos, tenho como objetivo apenas a abertura de horizontes do leitor e a contextualização das situações em discussão.

MARCO SILVA

Todos os dias se tem questionado pela Internet a qualidade de Marco Silva como treinador – sendo o grande argumento de quem apoia tal opinião o facto da imprensa estar do lado do ex-treinador do Hull, sobrevalorizando as suas conquistas e reprimindo seus falhanços.

Olhemos para a sua carreira: chegou ao comando do Estoril com a época a decorrer, acabou campeão da Segunda Liga, conseguiu posição europeia na época de chegada à Liga NOS e de novo na seguinte. No panorama do futebol português é impossível fazer melhor – daí a receção apoteótica que teve no seu dia de apresentação em Alvalade.

Com os ‘leões’ conseguiu aquele que é ainda um dos únicos títulos da Era Bruno de Carvalho (só mais uma Supertaça para além deste) – tendo estado a minutos de deitar tudo por perdido na final, é certo, mas venceu. E se não tivesse sido a decisão errada de terceiros em Gelsenkirchen, tinha passado a fase de grupos da Champions com uma dupla de centrais composta por Maurício e Sarr – o primeiro agora quarta escolha do Spartak, enquanto Sarr acabou de descer da segunda para a terceira divisão francesa com o Red Star.

No campeonato acabou em 3º, num ano de pouco investimento (cerca de 10M€ + Nani), competindo com um FC Porto que tinha acabado de investir quatro vezes mais e um Benfica já em andamento. Na Grécia vence a liga com o Olympiakos – claro objetivo do clube –, bate recorde de vitórias consecutivas no campeonato e acaba 3º na Fase de Grupos da Liga dos Campeões, empatado em pontos com o 2º Arsenal.

Em Inglaterra aterrou numa equipa que muitos consideravam sem hipóteses de ficar no campeonato – no último lugar com 13 pontos – e tendo perdido os 2 jogadores mais influentes no balneário. O Hull passou de uma média de 0.65 pontos por jogo para um 1.16 com o treinador português, e passou a haver uma inesperada hipótese de sobrevivência para o clube. Pelo meio valorizou jogadores como Maguire e Clucas, tal como por cá tinha feito.

A verdade é que vacilou nos últimos três jogos, perdendo contra o já relegado Sunderland (que acabou a sua série de 51 jogos sem perder em casa) e Palace, antes acabar a temporada com o péssimo 7-1 frente ao Tottenham – dos 36 golos que sofreu, 13 foram nesses últimos três jogos. Culpar Marco pela descida do clube ao Championship é de loucos, já que a expetativa era zero. Que a equipa vacilou no último mês, talvez. Mas o seu histórico fala por si no que toca à sua qualidade como treinador – faltam-lhe os troféus e provar-se num clube que lhe dê recursos (até agora trabalhou mais com orçamento limitado – para seu bem ou não) para se poder colocar numa classe elevadíssima. Mas que tem qualidade, tem. Afinal, há razão para ter vários clubes da Premier League a tentar desviar a sua ligação ao FC Porto.

No que toca à sua relação com os media, tanto nos dias após pontuar frente a Liverpool ou United como depois de perder frente a Sunderland e Palace, teve o mesmo (pequeno) espaço nas capas de jornais.

A única exceção deu-se depois do 7-1 frente ao Tottenham, onde nenhum dos 3 grandes jornais noticiou o assunto na sua capa. A sua saída do Sporting foi extremamente controversa – nem sou ingénuo ao ponto de acreditar que tenha sido só aquilo que foi passado para fora –, a do Olympiakos também levantou algumas questões na Grécia, mas penso que não há informação suficiente sobre tal para fazeres juízos de valor ao seu caráter como pessoa – tenho sim mais que suficientes para dizer que sim, é bom treinador dentro de um contexto que beneficie as suas caraterísticas.

Marco Silva e pluralidade de opiniões (Foto: Getty Images)

JOÃO MÁRIO E RENATO SANCHES

As duas grandes revelações do futebol português transferiram-se por grandes quantias no passado verão e, após terem dificuldades nas suas novas realidades, agora servem de peões para discussões entre adeptos sobre quem esteve “menos mal”. Começar por dizer que cada situação é isolada, e só como tal se deveriam analisar.

Renato Sanches foi crucial para a conquista do campeonato pelo Benfica há um ano, com caraterísticas que se adaptavam na perfeição ao jogo dos encarnados. Entrou na equipa e não mais saiu, conseguindo depois também acabar por ajudar na conquista do Euro.

No entanto, ao serviço do Bayern fez apenas 800 minutos – LC + Bundesliga. Podemos começar por mencionar que Renato tem 19 anos e acabou de se mudar para um dos maiores clubes do planeta, e cada atleta tem um tempo de adaptação diferente, o que é compreensível.

Taticamente falando não faltavam opções à sua frente: Thiago foi um dos (para mim “o”) melhores médios da Europa esta época, Vidal tem lugar garantido e Kimmich já tinha sido muito rodado na equipa na época passada (era natural começar um passo à frente). Sem mencionar o Alonso (e até Javi Martinez por vezes) na posição de médio defensivo pois não é esse o papel de Renato, e relembrar ainda que quando revertiam para um 4-2-3-1 com Muller como segundo avançado se perdia mais um lugar no meio-campo.

Acho sinceramente que a saída de Renato se podia ter consumado, mas o Bayern foi uma escolha menos boa. Por muito que Ancelotti tenha dado o seu cunho à equipa, uma equipa pós-Guardiola irá continuar a incutir a sua verticalidade através do passe em oposição a uma verticalidade dada pela progressão com bola como acontecia no Benfica – e como acontece noutras equipas que se falavam interessadas no Renato.

Não é um jogador com capacidade de passe para substituir Xabi Alonso, nem lhe beneficiaria ficar preso a terrenos tão recuados e temo que, se o tentarem moldar demasiado, possa descaracterizar-se daquilo que já faz com qualidade.

Voltando ao assunto dos media: foram inúmeras as capas de jornais e a quantidade de propaganda ao Renato, pintou-se uma imagem desviada da realidade sobre um jogador humilde e com mérito pela época que fez – algo que não beneficiou o jogador que teve de lidar com pressão acrescentada e expetativas que não encaixavam com a realidade. Resultou numa invariável corrida dos colossos europeus cuja prioridade era garantir o “novo bola de ouro” antes que explodisse no campeonato europeu, e não necessariamente verificar até que ponto encaixava na sua equipa.

Pressão, pressão e mais pressão em Renato Sanches (Foto: Der Bild)

A situação de João Mário é algo diferente. Acho que poucos questionam a sua qualidade, mas a sua tomada de decisão ao ingressar no autodestrutivo Inter deverá ser questionada – se, como se reportou na altura, haviam outras equipas dispostas a pagar o mesmo. Mais um ano em que o Inter apresentou um projeto que lhes levaria “de volta aos tempos áureos”, mas no qual em novembro já De Boer tinha sido despedido. Enquanto Renato teve dificuldades em quebrar uma estabilidade constante da equipa do Bayern, no Inter foi a instabilidade constante que não beneficiou João Mário.

Quando finalmente a equipa entrou numa boa sequência já com Pioli – 11 vitórias em 13 na liga entre dezembro e março – o português era normalmente preterido. Num 4-2-3-1 em que Gagliardini e Kondogbia se tornaram âncoras do meio campo, na direita era necessária a largura dada por Candreva – algo que JM não sendo um extremo puro não consegue dar – e pelo meio surgia Banega em forma. Pioli acabou por liderar de novembro a maio, saindo depois dos resultados caírem a pique, mas não ajudou o facto de o treinador que treinou JM durante maior parte da época não ter sido quem decidiu investir 40M€ nele.

Apesar de tudo somou 2000 minutos na Serie A, 22 vezes titular, contribuiu com 3 golos e 5 assistências, e teve uma mão cheia de grandes jogos. Mas se pegarmos em todos os jogos nos quais marcou ou assistiu e ainda adicionarmos o 2-2 frente ao Milan no qual foi tão elogiado, temos 8 jogos. Façamos as contas: são três os grandes jornais desportivos portugueses que saem no dia seguinte. Se só contarmos os tais oito jogos em que João Mário teve direta influência, temos de avaliar 24 capas e, surpresa ou não, João Mário foi incluído em apenas uma, pel’A Bola. Enquanto isso, a Gazzetta Dello Sport se deliciava com a sua qualidade e questionava a Pioli a sua falta de tempo de jogo. Claro que as capas de jornais não significam tudo, mas são um bom indicador do que se passa na comunicação social portuguesa.

No fundo, se querem comentar e debater jogadores, pelo menos vejam jogos primeiro. A imprensa desportiva nacional padece de vários problemas, apesar de ter algumas virtudes… no caso de Renato Sanches, o excesso de “luz” dado ao médio-centro do Bayern acaba por criar uma “ilusão” e pressão desnecessária sobre o antigo jogador do SL Benfica. O crispar de opiniões, a divisão entre adeptos e o extremar de posições é proporcionado pela construção de notícias e capas de jornais que criam uma fantasia positiva ou negativa, não fundamentada ou pouco clara, que só prejudica a cultura desportiva em Portugal.

Artigo da autoria de Tiago Estêvão, analista de futebol português nas plataformas WhoScored e PortuGOAL.net.

Que futuro João Mário? (Foto: Pier Marco Tacca/Getty Images)


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