17 Out, 2017

“Gol o Plomo” – O Futebol da Era Escobar Ep.1

Francisco IsaacSetembro 23, 201611min0

“Gol o Plomo” – O Futebol da Era Escobar Ep.1

Francisco IsaacSetembro 23, 201611min0

Pablo Escobar, a série Narcos e o Desporto na Colômbia durante os anos 80-90. Um misto de paixões, o mito de um falso Rei e o Sonho do Futebol no meio de uma convulsão inesquecível para todos. O 1º episódio de uma trilogia do Fair Play.

Convidamos o leitor a colocar a seguinte banda sonora para acompanhar a leitura: goo.gl/TqlQzp

Estamos na recta final da Guerra Fria, o Japão está em “queda livre” na Bolsa, a Sega lança a sua consola Genesis, Indiana Jones parte para a Última Cruzada e os Chicago arrebatam o Mundo com Look Away… Mas na Colômbia nada disto interessava, já que uma das suas maiores lendas, Pablo Escobar, continuava a espalhar charmeterror pelas ruas de Medelín (e não só).

Entre os ritmos do bolero, cultivado com um tango próprio do calor sul-americano, a Colômbia florescia para o Mundo do futebol em todos os sentidos. Desde a conquista do Atlético Nacional na Libertadores, em 1989, até ao regressar da selecção Nacional ao Mundial de 1990, depois de ter falhado o apuramento entre 1966 a 1986, os anos 80 podem ser entendidos como o renascimento da Colômbia para o futebol.

E no meio da algazarra do balón e do grito do gol!, Pablo Escobar ia “governando” a Colômbia sob a sua regra de “Plata o Plomo” (Prata ou Chumbo), somando feitos controversos ao mesmo tempo que ia dando um pouco de si ao seu povo. Escobar teria tanta paixão assim pela sua terra? O Mundo da droga, do crime e da extorsão eram encapotados pelos mimos prestados aos mais carenciados? A herança de Don Pablo impera na memória actual pela excelente série (embora fuja, por vezes, à realidade dos factos) Narcos, que conta parte da história do líder do Cartel de Droga de Medelín e do que foi esse cartel após a morte (para alguns) ou assassinato (para outros) de um dos maiores símbolos da América do Sul do século XX.

Wagner Moura na pele de Escobar (Foto: NARCOS)
Wagner Moura na pele de Escobar (Foto: NARCOS)

Em 1989, os Colombianos do Atlético Nacional sagram-se campeões da Libertadores, a competição máxima de clubes da América do Sul. Nunca antes um clube colombiano tinha atingido este patamar – era um feito de “gigante” e que abria as “portas” da glória ao futebol da Colômbia. Pablo Escobar era o grande financiador da turma de Francisco Maturana (um dos maiores símbolos dos Los Verdolagas), que dirigiu uma formação que estava polvilhada com grandes talentos do futebol sul-americano: René Higuita, Luis Perea, Francisco Cassiani. Didi Valderrama (não confundir com o “El Pibe” Valderrama), Luís Suarez ou Albeiro Usuriaga. E até jogava lá um Escobar, que nada tinha a ver com Don Pablo, tendo deixado a sua própria marca na história do futebol (para mais ,ver documentário Os Dois Escobares da EPSN: goo.gl/qZP8hh).

A vitória do Atlético caiu mal na América do Sul, que, entre injúrias e insultos, se afirmava, convictamente, que Pablo Escobar tinha “comprado” o título pagando não só aos juízes do jogo mas também à organização da competição, neste caso a CONMEBOL, tentando, assim, tirar mérito e protagonismo aos Verdolagas. Porém, um membro da antiga estrutura do Cartel de Medelín confirmou que não houve qualquer suborno pago e que o Atlético Nacional não tinha conquistado o título de forma “suja”. Jhon Jairo Velásquez, Popeye, o chefe dos Sicarios de Pablo Escobar, abriu as portas da sua casa em 2013 e começou a contar vários episódios do dia-a-dia de Pablo Escobar, assim como alguns pormenores que deixaram alguns adeptos em fúria, de que falaremos no episódio 2.

O financiamento ao Atlético Nacional era uma forma de Pablo Escobar “lavar” os seus ganhos e garantir uma força extra ao futebol do Atlético Nacional, que beneficiou, largamente, desse apoio do Cartel de Medelín (as afirmações de um dos Sicarios de Escobar apontam nesse sentido: goo.gl/MTbpl4). Quando Don Pablo perece sobre o barulho das sirenes e a troca de disparos, o Atlético Nacional já estava com problemas financeiros, o que motivou a saída de várias das suas estrelas. Só agora em 2016 os Verdes conseguiram voltar a conquistar uma Libertadores, la primera sin Pablo.

A vitória a 18 de Maio, nas grandes penalidades, marcou o líder de Medelín, também, pelas piores razões possíveis: conspiração e assassinato de Luís Carlos Galán, a 18 de Agosto, candidato às presidenciais da Colômbia. Com isto, Don Pablo começava a “pregar os pregos do seu caixão”, mesmo tendo sido 1989 o melhor ano para ele, com a “máquina” de fazer dinheiro a não parar, investindo em escolas, hospitais, campos de futebol e pavilhões multiusos. Odiado pela elite, amado pelos fracos, Escobar alimentou uma Lenda que ainda hoje perdura, com a série Narcos a relembrar o final de “carreira” do barão da droga de Medelín.

Só que Escobar não estava satisfeito com a onda de assassinatos que lançou em 1989, principalmente a figuras públicas… A 15 de Novembro, Álvaro Ortega, árbitro colombiano, que tinha cometido o erro de aceitar um suposto suborno do Cartel de Cali, acabou morto às mãos dos homens do Cartel de Medelín, a mando do seu próprio líder (sobre a morte de Álvaro Ortega ver: goo.gl/efjrQd). Na América do Sul, em especial na Colômbia, o dia em que Ortega morreu foi apelidado El día que matarón al fútbol – em 1989 o campeonato foi cancelado, não houve campeão e o os cartéis ganharam este round ao desporto.

Sem dúvida que fora um ano de sabores contrastantes, com a Colômbia agitada pela conquista da Libertadores, assim como pelo apuramento para o Mundial de 1990 – algo que não acontecia desde 1962 (Mundial no Chile)-  e a violência que se arrastava desde o ano de 1985, altura em que o Presidente da Colômbia, Belisario Betancur, decidiu cancelar a organização do Mundial na Colômbia. As razões, dizia o Presidente, deviam-se ao facto de a FIFA estar a usar a Colômbia para ganhar grandes proveitos económicos sem colocar os colombianos na “jogada”. Ora, em honra da verdade a situação era outra: a Colômbia enfrentava um clash ardente entre o Estado, legitimamente eleito, e o grupo M-19, supostamente apoiado pelo Cartel de Medelín (haveria ou não uma ligação entre Escobar e os revolucionários?), que “transportava” todo o descontentamento das camadas mais desfavorecidas e pretendia “agitar” a classe política colombiana.

A FIFA (e o seu Mundial) “fugiram” para o México e deixaram a Colômbia cair – não tinham outra escolha – numa onda de violência, caos e “guerra” em plenas ruas de Bogotá, Medelín e várias outras cidades em que a “mão” de Escobar e do M-19 actuava. A decisão de Betancur em cancelar a Copa foi boa? Se o Presidente da altura tivesse cumprido com o prometido, que passava por redireccionar o investimento do Mundial para outras áreas, especialmente na assistência social ou no combate à corrupção, a população teria aceitado de bom grado. Porém, ao fim de 2 anos nada mudou; aliás, piorou, já que os problemas sociais agravaram-se e a insatisfação levou a que a população com menos condições tomasse parte em acções de guerrilha do M-19 ou entrasse nas fileiras dos Cartéis de droga. Para mais, sobre alguns episódios curiosos e algo “desconhecidos” do público em geral, vejam: goo.gl/UFKGTH

Passou 1985, 86, 87, 88, vai o tal ano fantástico de 89 que terminou com o apuramento da equipa para o Mundial de 1990 em Itália. O apuramento para a Copa não correu da melhor forma, já que passaram como terceiro melhor 1º classificado (à altura a qualificação sul-americana estava dividida em grupos de 3 e só passavam, directamente, os dois melhores 1ºs e o terceiro melhor 1º tinha de ir a um playoff). A 17 de Setembro a vitória frente ao Paraguai por 2-1 dava meio-bilhete para o playoff, mas tinham de esperar pelo jogo da semana seguinte entre o Equador e Paraguai … Os equatorianos já não podiam ir ao Mundial, seja pela forma directa ou indirecta, e por isso toda a Colômbia estremecia de medo, pelo facto de o Equador poder entregar o jogo ao Paraguai facilmente. Felizmente, para os cafeteros, tudo correu bem, uma vez que o Equador decidiu golear por 3-1 os paraguaios.

Agora siga para o playoff que seria frente à desconhecida selecção de Israel. A 15 de Outubro a 1ª mão, em “casa” no Estadio Metropolitano Roberto Meléndez (do Junior Barranquilla) ficou marcada por um jogo caótico, agressivo e agitado, sendo que a Colômbia foi a única equipa a conseguir agitar as redes, pelo intempestivo Usuriaga (morto em 2004, vítima de vingança de Jefferson Marín, um criminoso das ruas de Cali). Seguia-se uma viagem até Israel, que não seria nada fácil, já que a vantagem magra de 1-0 poderia deixar os israelitas “sonhar” com o seu segundo apuramento para um Mundial (1970 fora a 1ª ocasião). Higuita fez uma exibição brilhante, impediu o golo do equaliser e a Colômbia regressou ao convívio dos mundiais de futebol.

Da equipa colombiana que se apurou para o Mundial, 10 eram jogadores do Atlético Nacional em 89/90. Entre eles: Higuita, Andrés Escobar, Luis Perea, Leonel Álvarez, Luis Fajardo, Usuriaga (ficou de fora dos eleitos para o Mundial devido a problemas com o staff da selecção), Luis Herrera, Gildardo Goméz, José Pérez, Luis Cassiani. Podemos quase arriscar dizer que se não fosse pela graçaboa-vontade de Don Pablo o Atlético Nacional nunca teria conseguido ficar com estas estrelas todas e a selecção da Colômbia, paralelamente, não teria tido um grupo tão forte, consistente e equilibrado que lhes permitiria chegar até aos oitavos de final da competição em 1990. Se em 1986 Escobar não teve o Mundial – que diziam ser um desejo de vida do líder do Cartel de Medelín -, em 1990 pôde ver a Colômbia a brilhar, q.b., em Itália.

No meio da conversa dasobre a bola, aonde estava Escobar? Na “escuridão”, ocultado de tudo e todos, fora do circuito público. 1989 foi um ano de crime, de sangue, de ataque aos EUA com a sua influência e tráfico, atacando todos aqueles que não aceitavam a sua lei de Plata o Plomo, jogando ao jogo da política, escolhendo candidatos, erradicando juízes e oficiais de justiça, prosperando a cada dia que passava. Escobar tinha ido muito longe na sua audácia, exagerando nos seus métodos, passando de uma estratégia inteligente, cuidadosa e surpreendente para o “fogo aberto”, violência barata e um caos assustador, como se saísse de um 3-5-2 à moda germânica (campeões Mundiais em 1990) para um 2-5-3 dos últimos minutos de desespero da albiceleste (no mesmo Mundial de 90′). 1990 foi o início de um fim que chegaria passado pouco tempo…

O Episódio II segue-se dentro de dias… Gol o Plomo!

Los Cafeteros! (Foto: ESPN)


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