17 Ago, 2017

A mulher das nossas vidas

João BastosMarço 8, 201713min0

A mulher das nossas vidas

João BastosMarço 8, 201713min0

No Dia Internacional da Mulher celebramos uma super-mulher. Vai fazer 29 anos que Rosa Mota se sagrou campeã olímpica, um feito que seria sempre histórico num país como Portugal, mas a História da sua vitória vai para além do ouro da sua medalha.

O Dia Internacional da Mulher celebra-se a 8 de Março por todo o mundo ocidental, há exactamente 108 anos, para assinalar as conquistas sociais que as mulheres foram obtendo e relembrar que muitas das batalhas ainda estão por vencer. Mas apesar do dia ser delas, as conquistas são de todos.

E no que ao desporto português diz respeito, há um nome que sobressai no nosso mural da fama. Rosa Maria Correia dos Santos Mota, a portuense que ultrapassou o primeira barreira de uma longa corrida de obstáculos do desporto feminino em Portugal.

Uma maratona de conquistas

Conta-se que foi no ano 500 a.C. que o primeiro ser humano correu a distância da Maratona. O grego Fidípides correu os 42 quilómetros que distavam a cidade de Maratona da capital Atenas para anunciar a vitória dos Atenienses sobre os Persas.

Volvidos 2400 anos, a prova da maratona foi uma das que integrou o calendário de provas dos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, que também decorreram em Atenas, mas no ano de 1896.

Contudo, a distância de 42.195 metros só se fixou em Londres 1908 e a prova só foi corrida de forma oficial, em Jogos Olímpicos, em Paris 1924.

Esta foi, resumidamente, a história da lendária prova…mas no sector masculino. Para as mulheres, o caminho foi mais complicado.

O calendário marcava o dia 19 de Abril de 1967, o dia em que se corria mais uma edição da Maratona de Boston, edição essa que se tornou histórica. A norte-americana Kathrine Switzer alinhou à partida, inscrita como K. Switzer, de forma a ser confundida com um homem.

E correu…teve de correr escoltada e perseguida pelo director da prova, mas correu e cruzou a meta.


No ano de 1967, nos EUA, as mulheres já estudavam há 150 anos, já trabalhavam fora de casa há 130 e já votavam em todo o país há 47 anos. Mas ainda não lhes era permitido correr. (como, inacreditavelmente, ainda não é em diversas latitudes do globo!)

Mais tarde, a própria Associação organizadora da Maratona de Boston admitiu que tinha sido Roberta Gibb a primeira mulher a completar o seu percurso, (em 1966), mas em nenhum dos três anos em que Gibb a correu (entre 1966 e 1968) se inscreveu na prova. Ainda assim, a organização da entendeu fazer-lhe justiça e reconhecê-la como a primeira mulher a completar uma maratona.

E assim fomos chegando ao ano de 1982, ano em que a maratona feminina foi oficialmente instituída, por ocasião dos Campeonatos da Europa de Atletismo, no único sítio admissível para assinalar a efeméride – Atenas – e ganha pela maior maratonista de todos os tempos: Rosa Mota, pois claro…

Rosa ofereceu a Portugal a honra de estar para sempre associado à prova das provas e a uma das maiores proclamações de emancipação cultural no feminino. Rosa provou ali, no Olímpico de Atenas, que não faz sentido que a igualdade de género seja uma causa, quando é um facto inquestionável. Rosa abriu a cabeça dos portugueses ao meio e lá semeou uma nova perspectiva.

Nesse dia de 12 de Setembro de 1982, Rosa Mota terminou uma maratona em primeiro e simultaneamente foi a primeira a começar outra…uma maratona de conquistas, que ainda hoje está longe de ver a meta.

Foto: nofemininonegocios.com

Rosa, Soares e a Europa

Mas como é do domínio público, a carreira de Rosa Mota foi pautada por mais e maiores conquistas, com o pináculo a acontecer na Coreia do Sul com o ouro na maratona olímpica de Seul’88.

Já quatro anos antes, Rosa tinha sido bronze em Los Angeles, nos JO que consagraram Carlos Lopes como o primeiro português a obter um ouro olímpico.


Esta era dourada do atletismo português coincidiu com o período político mais reformista da democracia portuguesa, que levou a profundas transfigurações sócio-culturais no nosso país.

De entre as políticas reformistas, destacam-se 1) a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia e 2) a reforma do Sistema Nacional de Ensino. Ambas com um denominador comum: Mário Soares.

Com efeito, o primeiro ouro olímpico português conquistado por uma mulher, fez com que um país do futebol acordasse para outra realidade, potenciado pelo dado enunciado  anteriormente no ponto 1: que o desporto em Portugal não era, não podia nem tinha de ser um universo exclusivamente masculino.

Atravessando um período de franca expansão económica, os fundos estruturais da Europa foram chegando a Portugal, que os foi canalizando para as autarquias. Por esta altura, já vários municípios tinham decidido que as prioridades de investimento passavam por recintos desportivos mais polivalentes e que convidassem à prática desportiva de ambos os sexos.

Não que o futebol seja um desporto exclusivamente de homens (disso já falaremos mais à frente), mas no Portugal pós-adesão assistiu-se no interior do país ao aparecimento de infra-estruturas desportivas como ginásios, pavilhões, piscinas, courts de ténis, etc…no fundo, recintos destinados à prática de desportos mais “gender friendly“.

No que diz respeito ao segundo ponto, havia uma barreira que já tinha sido quebrada ainda no Estado Novo. Foi com Leite Pinto, em 1960 que foi decretada a escolaridade obrigatória “para os menores de ambos os sexos que tenham idade compreendida entre os 7 e os 12 anos” e foi cronologicamente ainda mais atrás, no tempo da monarquia, que a Educação Física entrou nos currículos escolares.

A grande revolução introduzida pela reforma do sistema educativo de 1986 foi o aumento da escolaridade mínima obrigatória e universal para 9 anos com a introdução da Educação Física como disciplina não facultativa nos currículos escolares.

Com o maior apetrechamento das unidades de ensino no que respeita às infra-estruturas para a prática desportiva, aliado à imposição do contacto com o desporto até aos 15/16 anos, foram criadas as condições para que mais jovens (de ambos os sexos) praticassem desporto com maior frequência e em maior variedade.

Mas faltava o factor impulsionador desse movimento desportivo. Faltava um símbolo!

Se no Estado Novo, Salazar fez de Amália Rodrigues (muito contra a sua vontade) o símbolo do seu regime, Mário Soares quis fazer de Rosa Mota a parábola perfeita dos valores de Abril: democracia, igualdade e liberdade.

Futre, Rosa Mota, Mário Soares e Rui Barros | Foto: Acácio Franco

Nesse sentido, não foi inocente ter-lhe atribuído duas Ordens de Mérito. A primeira, a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique em 1987, depois de se sagrar campeã mundial, e a segunda a Grã-Cruz da Ordem do Mérito em 1988 – o maior título de mérito atribuído em Portugal e que só foi concedido a dois desportistas: Rosa Mota e Eusébio -, depois de se sagrar campeã olímpica.

As condições estavam criadas, a semente estava lançada e a democratização do desporto pelo país não se fez esperar, como se percebe pela evolução do número de praticantes federados desde 1996 (primeiro ano da recolha de dados do IDP) até à actualidade:

Fonte: IPDJ

Também o desporto feminino ganhou relevância nos últimos 20 anos no panorama nacional, face ao masculino, seguindo a um ritmo de crescimento muito mais acelerado que o desporto masculino, mas ainda longe da equidade:

Representatividade de género no total de atletas federados em Portugal | Fonte: IPDJ

Os indicadores aqui apresentados são reveladores de uma (ténue) mudança de paradigma no desporto português, mas são também reveladores que as políticas de fomento da actividade desportiva e da igualdade de género deveriam ser aceleradas, o que não se verificou no que diz respeito ao investimento autárquico com a rubrica “Jogos e Desportos”.

A anterior afirmação é consubstanciada no seguinte levantamento que é condicionado à disponibilização dos dados dos “Anuários Estatísticos Regionais” e cujos primeiros números sobre as despesas correntes das Câmaras Municipais em Jogos e Desportos datam de 2001.

Despesas correntes das CM’s em “Jogos e Desporto” por NUTII | Fonte: INE

São por demais evidentes os impactos que os anos de “ajustamento” económico causaram no desporto nacional, sendo particularmente crítico o nível de desinvestimento das autarquias da Área Metropolitana de Lisboa.

Estes dados devem levantar grandes preocupações aos dirigentes federativos e associativos do nosso país.

Talvez o problema com que o desporto português se debate fosse fácil de resolver se houvesse outra Rosa Mota, outro Mário Soares e…outra Europa, que no que ao desporto diz respeito, duas velocidades não chegam. Portugal precisa de meter a quinta e ir às 3000 rotações, sob pena desta bela história ter sido um saudoso episódio!

Legado que deixa rasto

Depois de Rosa Mota ter conquistado a primeira medalha para o desporto feminino português, foi notória uma certa equidade de género nas medalhas olímpicas conquistadas por Portugal.

Depois de 1984, Portugal conquistou 5 medalhas (duas de ouro) no sector feminino e 7 medalhas (uma de ouro) no sector masculino. A sequência de medalhadas portuguesas teve até um simbolismo interessante:

Depois das medalhas de Rosa Mota em Los Angeles’84 e em Seul’88, as mulheres portuguesas voltaram ao pódio olímpico, de novo no atletismo com Fernanda Ribeiro (Atlanta’96) a ser ouro nos 10.000 metros e bronze na mesma prova em Sydney’2000.

Oito anos depois tivemos a nossa primeira medalha no feminino fora do atletismo, com a prata de Vanessa Fernandes na prova de triatlo, numa espécie de transição suave (uma vez que o triatlo tem um segmento de corrida) para outros domínios desportivos.

Já no Rio’2016 registou-se outro momento marcante para o desporto feminino em Portugal. O bronze de Telma Monteiro no judo veio consolidar o que há muito era uma evidência: as mulheres estão perfeitamente integradas nas disciplinas que anteriormente eram assumidas como redutos masculinos, como é exemplo as artes marciais.

Foto: Inácio Rosa/LUSA

Se Carlos Lopes está para o atletismo como Rosa Mota está para o desporto, é justo afirmar que Nuno Delgado está para o judo como Telma Monteiro está para os desportos de combate. Porque os sucessos destas duas mulheres extravasam as fronteiras das modalidades que praticam.

A aculturação feminina em desportos tradicionalmente com maior implantação masculina é uma tendência também consubstanciada no documento do Comité Olímpico de Portugal, intitulado “A Igualdade do Género no Desporto“, no qual o sucesso da piloto Elisabete Jacinto é largamente citado, mas também é utilizado como exemplo dos estigmas sociais que ainda prevalecem face à prática de determinadas modalidades desportivas pelas mulheres.

Com efeito, a conclusão do COP no supracitado documento é que “Também no desporto a igualdade entre mulheres e homens é um objectivo social em si mesmo, essencial a uma vivência plena da cidadania, constituindo um pré-requisito para se alcançar uma sociedade mais moderna, justa e equitativa”.

E aqui está o fulcro do caminho que falta percorrer no sentido da evolução mental colectiva de um povo. Não se trata apenas de preconceito masculino face ao papel da mulher no desporto, mas a própria inibição das mulheres em relação a determinadas modalidades.

Nesse sentido, o que se assistiu no dia 25 de Fevereiro no Estádio de Alvalade foi histórico! 10 000 pessoas assistiram a um jogo de futebol feminino, numa manifestação inequívoca da afirmação  e aceitação transversal do desporto praticado no feminino, mas também como prova de que ainda faltam muitos km’s para chegar ao fim desta maratona de obstáculos.

O triunfo de um povo

Num país que respira futebol, Rosa Mota veio fazer com que se sentisse o pulso das modalidades marginalizadas, praticado por quem também estava à margem do desporto.

Se o atletismo foi a modalidade que se predispôs a percorrer o caminho das pedras, Rosa foi quem se propôs a liderar a jornada.

Mas a sua odisseia não foi apenas um serviço ao atletismo. Se hoje milhares de jovens (ou menos jovens) portugueses de ambos os sexos têm a possibilidade de escolher praticar entre várias modalidades desportivas, em grande medida a ela o devem.

Se a democracia chegou a Portugal em forma de cravo, ao desporto chegou em forma de Rosa.

E é sobre tudo isto, e muito mais, que devemos relevar o dia 8 de Março. Não como forma de comemoração corporativa, mas como agradecimento da parte de quem o desporto moldou a personalidade, de quem se rege por valores e métodos incutidos durante a prática desportiva, de quem ganhou amigos e família a fazer desporto e de quem a quem o desporto preservou a saúde…de todos nós, que não tenhamos dúvidas:

Rosa Mota é a mulher das nossas vidas!

Foto: DR


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