20 Out, 2017

O Diário do Atleta – Maria Heitor Episódio V

Francisco IsaacFevereiro 8, 20177min1

O Diário do Atleta – Maria Heitor Episódio V

Francisco IsaacFevereiro 8, 20177min1

Abrir mais uma “página” do Diário com novos obstáculos, uma mudança de posição e a continuação de novos projectos. O último mês da “aventura” de Maria Heitor em terras gaulesas no Fair Play

O ano mudou, os objetivos mantiveram-se. Não perder mais nenhum jogo do campeonato e passo a passo ir buscar o tão desejado bi-campeonato.

Depois das férias de natal e de duas semanas em Portugal (aproveitar bem a família e a nossa culinária, que saudades! Mas, sem deixar de treinar!) era tempo de voltar ao trabalho de campo e preparar a ida a Rennes para enfrentar o Stade Rennais que vinha numa rampa de vitórias «inesperada».

Inesperada porque até ao ano passado lutavam até à última para se manterem na divisão de elite e este ano, resultado de um bom trabalho ao longo dos últimos anos, uma renovação da sua equipa técnica e duas contratações fijianas que rapidamente integraram o projeto de jogo, podem muito bem alcançar a fase final do campeonato.

Quanto a nós, depois de uma derrota, pesada, em frente aos nossos amigos, público, apoiantes, patrocinadores e da televisão francesa, precisávamos de encontrar a boa resposta para não perdermos o rumo.

Chegada de Portugal com umas temperaturas entre os 10-16, caio no frio do norte de França com duas semanas particularmente geladas… entre os -2 e os -9, alguma neve, os campos do nosso clube que gelam e com os treinos de movimentação coletiva antes do jogo em modo lento porque o campo mais parecia um ringue de patinagem no gelo.

Na semana antes do jogo fomos confrontados com um problema complicado, a falta de 1ªs linhas.

Depois de uma lesão da nossa talonadora principal numa queda de melle que a obriga a para entre 2 a 3 meses, uma pilar a ver-se impedida de jogar por causa de um traumatismo do cóccix e uma gastroenterite a apanhar-nos mais uma pilar.

Isto forçou os treinadores  a ir recrutar à nossa equipa reserva uma pilar e a sua treinadora (antiga da selecção francesa que fez o mundial de rugby de 2014 mas que já tinha arrumado as botas há uns tempos).

Nº2 na Formação ordenada (Foto: Eric Photos)

Sexta-feira antes do treino na pista de gelo, os treinadores anunciam a equipa, ia jogar a pilar nº1 ao lado do mítico pilar do clube e pilar da selecção francesa Helene Ezanno. Uma lenda pelo que dizem mas que nunca tinha tido o prazer de a conhecer dentro de campo.

Mesmo apesar de ter estado uns anos parada, quem sabe nunca esquece e foi uma honra ter a oportunidade de jogar a seu lado.

Sábado, encontrámos-nos na estação de comboios e partimos para uma viagem mais curta do que o habitual (4h30). Ao chegarmos tivemos algum tempo para ir passear um pouco pela cidade antes da reunião de equipa.

Uma reunião curta que serviu para rever o modo como íamos enfrentar este jogo. Seguimos então para o jantar e a equipa parecia calma e bem preparada para ir para a «guerra». Após as sessões habituais de rolo e fisioterapia, o merecido descanso.

8h de domingo a equipa reencontra-se toda na sala do pequeno-almoço. A equipa parece meia preocupada com a melle.

O Stade Rennais tinha «desfeito» o Stade de Toulousain e nós tínhamos pagado caro contra a equipa de Toulouse… e sem algumas jogadoras importantes da primeira linha, o 5 da frente tinha de se preparar para uma grande batalha.

E que batalha dura! O pack do Rennes vinha com tudo! E nas melles recuávamos… a primeira linha tentou encontrar soluções para conseguir parar a máquina Rennaise. E para piorar, o estado do tempo não ajudava.

0 graus, muita chuva e campo feito em lama. Entre a falha na melle e algumas falhas de placagem da nossa linha de ¾, a equipa da casa regalava-se. Fim do jogo. Uma derrota dura para nós!

Voltámos a casa num ambiente meio pesado, depois de duas derrotas duras precisávamos de voltar a encontrar as «putains de nanas» (o nome da equipa apesar de parecer um pouco ofensivo, não é. Um dia os treinadores emocionados e orgulhosos com uma vitória acabaram por dizer ao grupo Vous êtes des putains de nanas!).

Tínhamos uma semana dura e o grande jogo pela frente. O Saint-Orens, que tinha acabado de subir para o primeiro lugar do campeonato, vinha visitar-nos. Se ganhássemos este jogo éramos a primeira equipa a garantir a classificação para a fase final e voltávamos ao primeiro lugar do campeonato.

Uma entrega enorme de todas as jogadoras ao longo de toda a semana e um espírito renovado. Será que os treinadores tinham reencontrado as suas putains de nanas?

Como o nosso campo ainda estava gelado, tivemos de pedir ao clube de Dunquerque para nos ceder o seu campo sintético.

Como costume, sexta-feira os treinadores anunciam o grupo. Ia jogar a titular, talonadora. Estava nervosa porque há muito tempo que não treinava as touches. Aliás, treinava, mas a levantar ou a saltar, e não a pôr a bola…

Domingo de manhã encontramos-nos no clube para apanharmos o autocarro que nos ia levar até ao campo. A equipa estava confiante e com muita vontade de jogar.

Quando chegamos ao campo, o sintético estava congelado… será que o árbitro vai autorizar o jogo? Era a pergunta que mais se punha.

Duas horas mais tarde saímos para o aquecimento, cada uma tinha arranjado algumas estratégias para se aquecer, entre sacos de plásticos nas meias, leggins, licras e impermeáveis por baixo das camisolas de jogo, cremes de aquecimento no corpo todo…e o campo começava agora a descongelar.

Exigência ao mais alto nível (Foto: Eric Photos)

Mas a verdade é que nunca tinha vivido assim tão dificilmente um início de jogo. As primeiras quedas e as primeiras placagens foram muito duras. Depois o corpo começou a habituar-se.

Aos 5 minutos de jogo, sofremos um ensaio e em vez de baixarmos a cabeça a equipa foi toda à luta e como resposta, dois minutos depois, um ensaio nosso.

Um jogo muito vivo, como mostra o resultado final 33-26. No final os treinadores estavam muito orgulhosos, tinham encontrado a equipa!

Temos agora pela frente dois meses de pausa no nosso campeonato por causa do torneio das 6 nações.

No fim-de-semana passado, como não tínhamos jogo, pedi aos treinadores por jogar pela equipa reserva. Depois de alguma insistência, lá me autorizaram a jogar.

A equipa B do nosso clube treina duas vezes por semana e disputa o campeonato federal XV 2 que é disputado numa primeira fase regional e depois as melhores equipas de cada região encontram-se para a disputa da fase final.

Este campeonato corresponde a uma quarta divisão. As grandes diferenças, durante o jogo face à divisão de elite são a nível de melle, que não pode andar mais de 1,5 metros; de limpeza de rucks, o jogador que limpa o ruck não pode «projectar» o adversário; e não há squeeze ball.

Sempre que os treinadores me autorizam, é um prazer jogar pela equipa B. É um momento em que aproveito para jogar pelo prazer do jogo e em que não há aquela pressão que existe na equipa principal, que é perfeitamente justificável pela diferença de interesses das duas equipas.

Se bem que temos a sorte da maior parte das jogadoras da equipa de reservas terem como objectivo a subida à equipa principal.

É uma formação muito jovem que já tem algumas jogadoras tecnicamente evoluídas e que este ano têm uma dupla de treinadores invejável que estão em contacto constante com os treinadores da equipa principal.

Para terminar bem o mês, uma boa vitória com as «putains de nanas à dévenir» de 38-5 contra a segunda classificada do grupo. Afirmando assim, o primeiro lugar do grupo com direito a ponto bónus e tudo!

Heitor na contenda (Foto: Eric Photos)


One comment

  • Carlos Carta

    Fevereiro 8, 2017 at 2:13 pm

    Grande crónica… que bom é fazer o que se gosta…
    Parabéns Maria, e ao Francisco também.
    Aquele abraço.

    Reply

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