18 Fev, 2018

O Baú de “Mister’s”: Oleg Romantsev e o “re-acordar” da Rússia

Francisco IsaacFevereiro 12, 201813min0

O Baú de “Mister’s”: Oleg Romantsev e o “re-acordar” da Rússia

Francisco IsaacFevereiro 12, 201813min0
Na 2ª edição do Baú de Mister's visitamos o frio gélido da Rússia para descobrir o "Czar" Oleg Romantsev. Descobre o refundador do futebol russo connosco

Poucas pessoas têm paciência para perceber o que significou o fim da URSS no desporto soviético/russo, em especial no futebol… poucos sabem que isso afectou a qualidade de jogo de gerações brilhantes, mas que por falta de direcção, coesão e liderança levou a que esses jogadores talentosos ficassem num “vazio” futebolístico.

Todavia, graças a um treinador “duro”, de ideias feitas, com princípios inabaláveis (e que resultaram, em certos momentos, dissabores e confrontos com atletas) e com um sentido de futebol imenso que deu anos de Glória ao Spartak de Moscovo, o futebol russo ganhou outra dimensão.

Oleg Romantsev é esse Homem que tanto passou de Herói da nova Rússia como de Vilão com acessos de fúria para com os seus jogadores, levando a que um dos mais geniais médios produzidos em solo russo não saísse por… medo. Yegor Titov (sim, lembram-se daqueles pés de veludo e aquela visão de jogo como se fosse um falcão?) conta o porquê de nunca ter aceitado o convite para assinar pelo Bayern de Munique,

“Honestamente? Porque tinha medo de ir até ao gabinete do Oleg Romantsev e dizer-lhe que ia-me embora. (…). Após uma fase em que o Spartak desenvolvia e vendia as suas estrelas, o Romantsev queria atingir a glória não só na Rússia mas também na Liga dos Campeões e isso implicava ficar com a mesma equipa. (…) Olhem o caso de Alenichev, que só disse ao Romantsev que se ia embora quando já tinha o contrato com a Roma assinado… não gostou nada de saber que o Dmitri ia-se embora e acabaram por ter uma “zanga” complicada que os afastou durante anos.”.

A verdade é que Romantsev tornou o Spartak de Moscovo uma equipa temível no contexto internacional devido a este super proteccionismo, criando uma das melhores equipas de sempre do futebol russo. Os Narodnaya Komanda (signifca, A Equipa do Povo) somaram títulos atrás de títulos durante a década de 90, marcando, desta forma, o futebol russo. Mas quem era Oleg Romantsev?

OLEG ROMANTSEV… O HOMEM DA ORGANIZAÇÃO E CULTURA DESPORTIVA

Como Fatih Terim, Oleg Romantsev foi um treinador que ficou altamente enraizado na herança de dois clubes apenas: o FC Yenisey Krasnoyarsk (na altura era conhecido como Avtomobilist Krasnoyarsk, sofrendo diversas alterações na sua longa-vida) e o FC Spartak de Moscovo. Ostentando 1,78 de altura, uma altura algo “baixa” para um lateral (com Mourinho talvez não tinha jogado), num país que costuma ter atletas “gigantes”, Romantsev ficou nos “almanaques” lembrado pela enorme paixão que evidenciava dentro de campo.

Para a sua história fica o facto de ter começado como um striker de categoria, coleccionando golos durante as suas primeiras épocas como juvenil. A sua promoção ao Yenisey, levou a que fosse alterando o seu posicionamento em campo passando do ataque para a defesa. Isso não beliscou a sua qualidade como poderemos ver.

O facto de ler o jogo como poucos, a sua agressividade no contacto físico mas com um olhar “cuidado” e carregado de visão, elevou-o a um patamar alto do futebol soviético. Romantsev desde cedo procurava “profissionalismo” nas estruturas, colegas e afins, não aceitando climas de desorganização e confusão.

Depois de seis anos a jogar pelo Yenisey, a transferência para o Spartak deu-se e aí as coisas foram de um agri-doce total, que poderá ter marcado a carreira do jogador. Os seus primeiros passos no clube moscovita não correram da melhor forma possível, já que logo no ano de estreia, 1976, o Spartak de Moscovo acabou na 2ª divisão da URSS.

Crítico, Romantsev abandonou Moscovo e voltou para o “seu” Yenisey. Os seus biógrafos afirmam que Romantsev considerou que em Moscovo “o ambiente pouco profissional” fez-lo querer sair do Spartak… não conseguia coadunar com estes comportamentos, ia contra o que acreditava e a sua forma de estar no futebol e na vida.

E chega o ano de 1977, com o lendário Konstantin Beskov a assumir não só o controlo técnico do Spartak mas também da URSS. Beskov começou a criar uma boa relação com Romantsev, convocando-o para a selecção soviética, onde tentou ajudar o seu país apurar-se para o Mundial de Futebol (não o iriam conseguir, mas Beskov teria a sua vingança ao classificar a selecção para o Mundial de 82).

O regresso de Romantsev ao Spartak só se deu em 78′, numa estrutura muito diferente da que encontrou em 76′, com Beskov a conferir um alto sentido de responsabilidade, onde existia uma estrutura séria e completa. O regresso foi “feliz” já que coincidiu com os melhores anos da Equipa do Povo, conquistando o título de campeões soviéticos em 1979.

A história de jogador de futebol de Oleg Romantsev terminou, infelizmente, em 1983, com a “tenra” idade de 29 anos… os joelhos estavam desfeitos com lesões atrás de lesões a agravarem o estado de saúde do defesa. Fica para a memória as 9 internacionalizações pela URSS, em que se inclui uma ida ao Mundial de 1982 e a medalha de bronze dos jogos olímpicos de 80′.

O seu intervalo entre a carreira de jogador e treinador só teve a duracção de uma temporada só, já que em 1984 voltou aos campos mas agora no papel que iria marcar profundamente o Desporto-Rei: treinador. O primeiro clube pode não ter sido o mais prestigiante, mas deu para conhecer e formar uma ligação com uma futura estrela do futebol russo: Aleksandr Mostovoi.

Ao serviço da URSS (Foto: Alamy Images)

CUIDADO EUROPA… AÍ VEM O “DITADOR” DE MOSCOVO

O mágico nº10 tinha só 16 anos, mas já espalhava magia com uma capacidade total, com aquele toca de bola vertiginoso que levou a La Liga a loucura quando se transferiu em 1996 para o Celta de Vigo. Mas voltando a esse momento da história de Romantsev, o conhecer de Mostovoi foi o início da formação daquele elenco formidável do Spartak.

No Krasnaya Presnya (mais uma vez, após o fim da URSS alterou de nome para FC Asmaral Moscow) esteve três anos – mais um ano no Spartak Ordzhonikidze – até receber a oportunidade para ingressar como técnico do Spartak de Moscovo… em 1988/89. Seria aí que o futebol Russo iria ter uma reviravolta formidável, já que 1988 seria o último grande momento do futebol soviético com o vice-campeonato no Campeonato da Europa de Republica Federal da Alemanha.

A chegada ao clube foi, nas palavras de Mostovoi (que tinha sido contratado em 1986), inesperada, já que Romantsev veio para substituir o “mito” Beskov. A frase Rei Morto, Rei Posto adequa-se na perfeição ao que aconteceu nessa época, com o antigo defesa a não só “dominar” a juventude que se verificava naquele Spartak, como levou-os ao título nacional de 1989 numa das últimas edições da Высшая лига, ou seja, a Divisão de Honra do futebol russo.

Na sua primeira estada no Spartak de Moscovo (iria voltar em 1997), o técnico conquistou a Liga russa entre 1992 e 1994, para além da “dobradinha” em 94, mais a “esquecida” a Taça CEI (Comunidade dos Estados Independentes) por duas ocasiões. O Spartak ascendia assim ao “trono” como o maior clube dentro de portas, com um poderio total que “esmagava” qualquer opositor.

Veja-se em 1992 que no Campeonato russo só somou uma única derrota, com 71 golos marcados e 19 sofridos. Quem despontava na formação moscovita? Dmitri Radchenko (a sua qualidade em frente da baliza possibilitou-lhe a ida para Espanha em 1993), Stanislav Cherchesov (guardião com um “coração” enorme, defendendo bolas impossíveis apesar de só possuir 1,83 de altura!), Viktor Onopko, Valery Karpin, Aleksandr Mostovoi, entre outros.

A formação de 1991-93 conseguiu “assustar” a Europa, já que atingiram as meias-finais tanto da Liga dos Campeões Europeus como da Taça das Taças em 1990-1991 e 1992-1993, respectivamente. Vale a pena irmos até 1990 e perceber o porquê essa campanha ter sido “lendária” e inesquecível para aquele Spartak. A chegada da década de 90 foi atroz com a URSS a tremer por completo, já que as antigas instituições lançadas por Estaline estavam a ruir sem perdão.

No comando dos seus moscovitas (Foto: Getty Images))

O SONHO DOS CAMPEÕES EUROPEUS

A antiga potência mundial estava prestes a implodir, já que a Alemanha viria a reunificar-se a 3 de Junho desse mesmo ano, pondo em cheque a União Soviética. Mas a Taça dos Campeões Europeus continuava, o futebol não podia parar mesmo que a situação política europeia-soviética estivesse num frenesim total. A formação de Romantsev encontrou na primeira-ronda o Sparta de Praga, que despachou com 4-0.

O futebol fácil, simples, rápido e eficaz encaixava que nem uma luva numa equipa que tinha Karpin, Mostovoi, Shalimov, Popov e Kulkov como as grandes estrelas, que assumiam entre si a responsabilidade de elevar o futebol do Spartak a um patamar mais alto. Karpin e Mostovoi eram puramente geniais no ataque, com uma série de combinações “fáceis” que destrancavam jogos impossíveis a seu favor.

Seguiu-se o Nápoles… aquele Nápoles de Maradona (no jogo da 2ª mão começou no banco), Ferrara, Baroni ou Alemão. Um duplo-encontro nada fácil, contra os campeões italianos… como parar Diego Armando Maradona? Romantsev lá o conseguiu já que o astro não fez as redes balouçar nem na 1ª ou 2ª mão.

Nos quartos-de-final o sorteio não foi nada simpático… Real Madrid. Depois de enfrentarem o Melhor do Mundo, seguiu-se, talvez, a Melhor Equipa de Sempre… pelo menos a nível de títulos internacionais. A verdade é que o Real de Di Stéfano (sim, era o treinador dos madrilenhos) estava em queda-livre na La Liga, ocupando o 5º lugar no campeonato, algo que contrastava com a crise a nível administrativo (falta de consenso administrativo, maus investimentos, entre outros).

Mas sempre era o Real Madrid e facilmente destruíam qualquer equipa, quando “engatavam”. Será que Karpin e os moscovitas do Spartak iriam derrapar? Na 1ª mão, perante um frio gélido no Estádio Central de Lenin (hoje em dia é conhecido por o Estádio de Luzhniki) a formação espanhola aguentou um empate a zeros perante uma exibição de classe da formação liderada por Romantsev.

A maioria dos adeptos da altura e dos leitores poderiam pensar que um jogo em Madrid era símbolo de derrota, mas foi o contrário, já que aquele Super Spartak não só foi ganhar, como deu um show de futebol, impondo uma vitória por 3-1. Nem Hugo Sanchez, Emilio Butragueño ou Michel conseguiram dar a volta ao jogo, para o pânico dos adeptos do Real.

Oleg Romantsev estava nas bocas do “Mundo”, com os seus protegidos a encantarem a Europa com o tal futebol organizado, minucioso e detalhado. Conhecer o adversário, saber as suas fraquezas, como atacar, como não defender, eram algumas das fundações do Spartak de Romantsev, para além da dureza dos seus treinos, com um controlo total do peso e condição física dos seus jogadores…. o treinador russo não deixava nada entregue ao acaso.

Voltando à Taça dos Campeões Europeus, no sorteio das meias-finais os russos calharam com o Marselha que, na altura, era uma formação altamente temível, com um misto de futebol anárquico mas com um sentido de união de elevada capacidade. Mas Romantsev conseguia parar… não conseguia? Infelizmente para os russos, o mestre não teve forma de parar Abedi “Pelé”.

O ganês era um fantasioso com a bola nos pés, irrompendo qualquer estratégia defensiva, encontrando sempre espaço para criar boas situações ofensivas. Jean-Pierre Papin só tinha de concluir e a sua equipa de gerir. O Spartak de Moscovo nunca encontrou rumo nessas meias-finais perdendo em casa por 3-1 e 2-1 fora.

Mas ficou para a memória a chegada às meias-finais, algo quase impensável para a época. Lembrem-se que equipas só do território russo nunca conseguiram atingir qualquer final de competição da Taça dos Campeões Europeus ou Taça UEFA… a Geórgia pode dar-se ao luxo de ter um campeão com o Dinamo Tbilisi a conquistar uma Taça das Taças em 85-86 ou Dinamo de Kiev.

O LEGADO DE UM PROFESSOR, LUTADOR E DO DURO OLEG ROMANTSEV

Durante 15 anos, Romantsev ocupou-se de colocar o Spartak de Moscovo no topo da Rússia, conquistando 8 campeonatos, 5 dos quais na sua segunda passagem entre 1997 e 2003. O futebol autoritário, temível, de toque e toque, com um excelente trabalho de comunicação e apoio, para além de uma extrema eficiência dentro da grande-área, permitiu a que Romansev colocasse não só o “seu” Spartak no ponto mais alto do futebol europeu, como a Rússia.

Os russos conseguiram, sob o seu comando, o apuramento para o Campeonato da Europa de 1996 e o Mundial de 2002, realizando provas um pouco sem sabor, não chegando a ultrapassar as fases de grupos de ambas as competições. Lidar com o Spartak era uma coisa, mas tentar meter todos os jogadores “russos” baixo a sua ordem de ideias e que respeitassem a sua forma de estar foi impossível.

Romantsev entrou em declínio total a partir de 2002, com alguns problemas pessoais e físicos a tirarem-lhe o foco… nunca mais conseguiu guiar uma equipa com a mesma exactidão e consistência.

O legado de Romantsev passou para os seus mais fiéis jogadores como Stanislav Cherchesov (é o actual seleccionador da Rússia), Dmitri Alenichev (chegou a liderar o Spartk de Moscovo mas não acabou bem essa experiência, estando agora, coincidentemente, ao leme do Yenisey, a primeira equipa de Romantsev enquanto jogador), Yegor Titov (adjunto de Alenichev), Viktor Onopko (adjunto no CSKA), Igor Shalimov (é o técnico do FC Krasnodar) ou Valeri Karpin (actual timoneiro do Rostov), algo que prova que o técnico deixou uma marca profunda nos atletas.

Como nota final, Oleg Romantsev reconciliou-se com Alenichev e todos aqueles que ele antes retirou da sua “memória” porque o tinham traído com a saída em busca de outra glória que não a do Spartak. Um homem que que voltou a dar um sentido ao futebol russo, com uma forma de viver e estar própria que marcou, profundamente, a Rússia com o seu carisma, paixão e trabalho.

Alenichev, um dos “filhos” de Romantsev (Foto: Getty Images)


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