21 Ago, 2017

Seis Nações 2017: Escócia e Irlanda – Antevisão

Francisco IsaacJaneiro 13, 201714min1

Seis Nações 2017: Escócia e Irlanda – Antevisão

Francisco IsaacJaneiro 13, 201714min1

Por entre o “fogo” das placagens, a “luz” dos ensaios, o “cintilar” das quebras de linha ou a “ameaça” das conversões, as Seis Nações estão de regresso. Irlanda e Escócia são as primeiras selecções a serem convidadas para uma check-up: o que esperar, o que temer, o que ver e quais as perspectivas. As Seis Nações no Fair Play.

As Seis Nações… aquele momento que todos nós esperamos para ver, sentir e ouvir… é o torneio entre selecções mais antigo do Mundo, já que data de 1883 a sua primeira edição. Na altura não eram seis as selecções que lutavam pelo título de Maior da Europa, mas sim quatro, designadas como as Home Nations.

Escócia, Irlanda, País de Gales e Inglaterra mediam forças num torneio caseiro que mexia com as populações locais, numa prova que ia de Dezembro a Março, sempre a uma volta.

Só que de 1883 para 2017 muito mudou com a entrada da França em 1910, marcando uma nova era no rugby europeu. Porém, esta participação foi intermitente, com a paragem forçada para a Grande Guerra (1915-1919), tendo a competição recomeçado em 1920.

A França teve sempre grandes problemas em demonstrar qualidade nesta sua primeira participação, como evidencia os 8 últimos lugares em 17 participações.

Chegando ao ano de 1932, a França recebeu ordem de “despejo” por ter “desvirtuado” as características “amadoras” do torneio, com uma tentativa de profissionalização. Voltámos ao formato das Home Nations durante mais oito edições até chegar, novamente, um confronto bélico que pôs fim aos jogos amigáveis durante seis temporadas.

O passado das Seis Nações (Foto: RBS6Nations)

A partir de 1947 as Cinco Nações regressaram, mantendo o formato até 2000, altura que a Itália conseguiu uma “vaga” modificando o torneio para as actuais Seis Nações. Sempre no formato de uma volta, os jogos passaram a realizar-se entre Fevereiro e Abril, naquilo que é um dos torneios mais “agressivos”, duros e carismáticos do desporto mundial.

Que novidades para 2017? Sistema de pontuação. Até 2016 uma vitória valia 2 pontos, um empate 1 ponto, não havendo qualquer bonificação para mais que um nº de ensaios ou por uma derrota com menos de 7 pontos. A partir de agora, passa a ser a seguinte fórmula de pontuação:

  • 4 pontos em caso de vitória;
  • 2 pontos em caso de empate;
  • 1 ponto extra em caso de uma equipa conseguir 4 ou mais ensaios;
  • 1 ponto extra no caso de uma equipa perder por 7 ou menos pontos;
  • 3 pontos para a equipa que conseguir ganhar os 5 jogos;

Isto altera por completo a estratégia de jogo dos seleccionadores, que agora terão que ter em atenção aos pontos de bónus quer na vitória ou derrota. Se isto pode alterar o rumo dos jogos? Pode, mas também pode manter-se tudo igual.

Na verdade, em 2016 estas regras podiam ter tido “zero” impacto na classificação final já que a Inglaterra ficaria sempre com 24 pontos (prova perfeita na competição), seguindo-se o País de Gales (16), Irlanda (13), Escócia (10), França (8) e Itália (1).

Esta alteração visa a que os jogos tenham mais ensaios, aumente o espectáculo e que haja outra “cor” no final do dia… infelizmente, o excessivo marketing e criação de um produto “à pressa” pode ir contra os valores, ética e história do rugby europeu. 2016 foi um ano “cheio” de grandes momentos nas Seis Nações, não tendo sido necessário existir uma legislação nova de pontos para que tivéssemos “direito” a assistir a grandes exibições da Inglaterra, País de Gales ou a Escócia.

Porém, é necessário que haja uma “novidade” nas edições, acompanhando a necessidade dos tempos. Para lerem alguns artigos sobre o facto aconselhamos: goo.gl/r0Dq80 (Rugby Magazine) ou goo.gl/By8ncU (Rugby World Magazine).

O calendário das Seis Nações vai de 4 de Fevereiro até 18 de Março, com 5 jogos por equipa, diferentes troféus em cada jogo (no jogo entre França e Itália discute-se o Troféu Garibaldi ou entre Inglaterra e Escócia a Calcutta Cup) e todo um espectáculo quase único no Mundo da Oval. Passemos à análise da Irlanda e Escócia, as selecções mais a norte do rugby europeu.

2016 (Foto: RBS6nations)

ESCÓCIA

Estrela: Stuart Hogg (Defesa);
Jovem promessa: Zander Fagerson (Pilar);
Jogador a seguir: Tim Visser (Escócia);
Capitão: Greig Laidlaw (Formação);
Posição final em 2016: 4º Lugar (2 vitórias e 3 derrotas);
Momento de 2016: Vitória frente à França nas Seis Nações;
Provável posição final em 2017: 3º lugar;
Ponto positivo a destacar: velocidade do trio de trás;
Ponto negativo a destacar: capacidade física de resistir 80 minutos;

Escócia, aquela selecção que vive intensamente o seu rugby como uma paixão de um sentido, onde mesmo o sabor amargo da derrota não beliscam o carinho, a devoção e a entrega quer dos adeptos ou dos jogadores.

2016 foi um ano que provou que a Escócia está a caminhar para o sentido correcto, com vitórias frente à França (29-18, com um passe soberbo de Hogg no ensaio de Tim Visser), Argentina (19-16) e Geórgia (43-16). Vern Cotter, o seleccionador oriundo da Nova Zelândia, é um dos responsáveis por este crescimento auspicioso da selecção do Thistle (a flor representativa da Escócia).

Cotter é um “maníaco” pelo rugby de domínio e da eficácia constante, onde cada ataque tem de corresponder a uma boa situação de perigo, tendo uma atenção redobrada aos detalhes e pormenores. Nos seus 4 anos como seleccionador os sucessos “não bateram” tanto à porta como era seu desejo, mas a falta de títulos tem levado à construção de umas novas gerações de alto quilate.

É deste ponto que vamos explorar a capacidade ofensiva e a reacção defensiva dos escoceses já que a gerações de 92′ a 94′ têm dado outra “alma” ao rugby dos Highlanders: Finn Russell, Ali Price, Huw Jones, Mark Bennett, Rory Hughes (uma atenção especial ao jogador dos Glasgow Warriors, que tem despontado esta temporada), Jonny Gray, Zander Fagerson (o pilar tem estado em alta evidência, com a exibição frente aos Leicester Tigers na European Champions a captar a nossa atenção), Alex Allan e Stuart Hogg.

Comecemos por este último, um jogador de excelência que muito provavelmente marcará presença nos British&Irish Lions (tour à Nova Zelândia em Junho de 2017). Rápido e veloz, Hogg consegue criar “Universos” de jogo rápido com as suas fintas mirabolantes que metem a defesa adversária em “pânico” total.

Para além disso, é um organizador de jogo fora de série, ao nível de Ben Smith e que facilmente irá ganhar direito a ter um lugar entre as Lendas do Mundo do rugby. Com 24 anos, Hogg já conta com 48 jogos, 74 pontos marcados e uma dose de protagonismo dentro da equipa.

Hogg já passou! (Foto: The Guardian)

Na última edição das Seis Nações, Hogg conquistou o título de melhor jogador da competição.

Para além do defesa, deverão tomar em atenção a Finn Russell, um médio de abertura que faz bem a “mistura” do clássico com o moderno; Mark Bennett, um centro de raça, espírito de trabalho e capricho físico; Jonny Gray, o bom gigante que galga metros e conquista fases, para além de ser um placador exímio (62 placagens em 4 jogos, uma média de 15,5 por jogo); WP Nel, o pilar que “revolucionou” ou, pelo menos, ajudou a revolucionar a 1ª linha escocesa; Josh Strauss, um autêntico “monstro” a nº8 que derruba barreiras e adversários, tendo somado 100 jogos pelos Warriors aos 30 anos; e o capitão Greig Laidlaw.

Formidável formação, o nº9 do Gloucester (vai ingressar no Clermont em 2017/2018) é um jogador que mexe com o ritmo e dinâmicos de jogo. É um agitador por natureza, procura manter um trabalho constante nos avançados, com fases consecutivas e curtas, procurando depois explorar o canal externo do nº12 para que jogadores como Stuart Hogg, Tim Visser ou Sean Maitland consigam sair directo para uma situação de ensaio.

Para além disso, o trabalho exímio na formação ordenada ou nos rucks só está ao alcance dos grandes e Laidlaw ultrapassa esse nível com facilidade.

A Escócia vai apresentar-se como uma das candidatas ao 3º lugar, com um rugby que tem crescido a cada ano que passa. A evolução deu-se, sobretudo, no melhorar das fases estáticas conseguindo sair a jogar dos seus alinhamentos ou não perder nas formações ordenadas. Com isto a Escócia passou a ter mais posse de bola, obrigando a sua equipa a ganhar outro estofo físico e conseguir seguir de perto o portador da mesma.

Estas condicionantes foram apuradas ao ponto que agora temos uma Escócia ameaçadora e que pensa em sair para ensaios e garantir pontos em penalidades, ao invés do que se passava até 2014.

Será uma prova de força, raça e querer nestas Seis Nações… é a altura dos Highlanders revoltarem-se e procurarem ser uma das forças da Europa.

Provável XV Titular: WP Nel; Ross Ford; Zander Fagerson; Richie e Jonny Gray; John Barclay, Hamish Watson e Ryan Wilson; Greig Laidlaw; Finn Russell; Alex Dunbar e Mark Bennett; Tim Visser, Sean Maitland e Stuart Hogg.

A nova vaga Highlander (Foto: ScotlandRugby)

IRLANDA

Estrela: Jonathan Sexton (Abertura);
Jovem promessa: Garry Ringrose (Centro);
Jogador a seguir: CJ Stander (Asa);
Capitão: Rory Best (Talonador);
Posição final em 2016: 3º Lugar (2 vitórias, 1 empate e 2 derrotas);
Momento de 2016: Vitória frente à Nova Zelândia em Chicago por 40-29;
Provável posição final em 2017: 2º lugar;
Ponto positivo a destacar: execução de fases rápidas e sequência de jogo;
Ponto negativo a destacar: falta de eficácia nos últimos 5 metros;

Ireland, Ireland,Together standing tall!Shoulder to shoulder,We’ll answer Ireland’s call!

É com esta frase que começamos esta breve análise sobre a Irlanda, selecção que entre 2014 e 2015 somou dois campeonatos da Europa de rugby. Treinada pelo eterno Joe Schmidt (seleccionador desde 2013), a selecção do Trevo teve uma queda abrupta a seguir às Seis Nações de 2015 e só neste Inverno de 2016 conseguiu se reerguer.

Mais fresca, mais alegre e mais motivada, a Irlanda tem agora todos os “dados” necessários para se lançar na luta pelo título em 2017, já que o seu rugby está ágil e extremamente dinâmico (veja-se o jogo com a Nova Zelândia a forma como aguentaram o mesmo timbre e qualidade de jogo), procurando ter mais a oval nas mãos do que metê-la na “caixa”.

O excessivo uso do pontapé prejudicou o fluir de jogo irlandês, que queria jogar mais no erro do adversário que tentar encontrar o caminho do ensaio pelas suas próprias mãos. Schmidt “refez” esta ideia de jogo, optando por dar mais espaço aos portadores de bola de correrem, de arriscarem numa entrada e de seguir a jogar.

Conor Murray está mais “calmo”, Sexton voltou aos melhores tempos e as soluções para as linhas atrasadas são mais completas e experientes. Como exemplo disso há alguns jogadores a destacar: Paddy Jackson (revelação durante os jogos de Verão, sendo um abertura mais “mágico” do que Sexton); Gary Ringrose (tem feito uma época de qualidade no Leinster, o centro pode ser uma das novas estrelas do Universo do Trevo); Luke McGrath (formação tem estado em evidência na equipa do Leinster); Ian Henderson (só com 24 anos, o gigante de 2,00 metros tem sido uma das grandes caras dos últimos três anos da Irlanda); e Josh Van der Flier.

O asa é aquele tipo de jogador que deixa qualquer “obcecado” em segui-lo nos jogos, já que é um “rochedo” autêntico a defender (50 placagens em 4 jogos da European Champions Cup), inteligente a ajudar a ganhar metros (zero penalidades ofensivas ou erros ao transportar a oval) e um jogador com a alma similar à de Sean O’Brien, um dos maiores jogadores irlandeses dos últimos 5 anos.

Fly with Van der Flier (Foto: The Telegraph)

Tiernan O’Halloran, é outro jogador a ter em atenção, já que o defesa de 25 anos tem começado a despontar na selecção, após ter ajudado o Connacht conquistar um campeonato inédito em 2015/2016.

É um atleta total, com uma capacidade de perfurar a linha, galgar metros (já praticamente ganhou 1Km com a oval nas mãos na PRO12) e dar outro “sabor” ao trio de trás irlandês. Mas, essa posição será ocupada por Rob Kearney ou Jared Payne nas próximas Seis Nações.

Por isso que esperar da Irlanda? “Agressividade” física, domínio territorial claro especialmente nos 10 metros em redor do seu ruck, ataque que procura envolver um dos pontas com um dos centros para apostar numa pensada e bem articulada para o ataque.

Contra a Austrália, Nova Zelândia (1º jogo) ou Argentina, sentiu-se uma Irlanda muito móvel, mais capaz de acreditar nas suas melhores qualidades e com uma capacidade para criar pontos quando mais precisava.

Em termos defensivos a postura na placagem é sempre uma Ode ao rugby por parte dos irlandeses, onde Van der Flier, CJ Stander, Rory Best (um capitão avant la lettre que dá tudo pela equipa) ou Jared Payne são instrumentos fundamentais para manter a linha de defesa imaculada.

Os irlandeses aguentam bem a pressão ofensiva de equipas como a França ou Escócia, mas sucumbem, por vezes, aos desígnios físicos de equipas como a Inglaterra.

Em suma, a Irlanda é uma das favoritas ao título seja pelo seu passado recente ou pela congeminar de um grupo unido, forte e capaz de fazer valer as suas qualidades. Os problemas podem advir da formação ordenada, da falta de soluções após um pontapé ou da desconcentração em momentos chave (vejam o ensaio de Beauden Barrett no jogo nº2 neste Novembro que passou), três factores a “limar”.

Provável XV Titular: Jack McGrath, Rory Best e Tadahg Furlong; Iain Henderson e Devin Toner; CJ Stander, Sean O’Brien e Jamie Heaslip; Connor Murray; Jonny Sexton; Robbie Henshaw e Jared Payne; Keith Earls, Andrew Trimble e Rob Kearney.

Esta é a parte 1 de uma análise de três segmentos, sendo que para a semana seguinte falaremos de DragõesInvictos.

Ireland’s Call (Foto: RBS 6nations)


One comment

  • Carlos Carta

    Janeiro 17, 2017 at 10:40 am

    Tenho gostado muito da Escócia 🙂
    E aquele Tartan Army…
    Força Escócia!!!

    Reply

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