18 Fev, 2018

Vasco Uva. “Fiz alguns sacrifícios, mas todos valeram a pena.”

Francisco IsaacNovembro 30, 201710min0

Vasco Uva. “Fiz alguns sacrifícios, mas todos valeram a pena.”

Francisco IsaacNovembro 30, 201710min0
Uma lenda do rugby português, Vasco Uva explica como atingiu os seus "sonhos" e que é possível conciliar tudo. Entrevista em exclusivo com o Centurion
Vasco, Mundial em 2007, várias vezes campeão Nacional, 100 internacionalizações por Portugal e, agora, és membro dos Centurion. Como conseguiste atingir este patamar? Que sacrifícios fizeste na tua carreira?

VU. Desde muito novo que oiço duas frase que o meu pai gosta de dizer: “As batatas não nascem na mercearia” e “o tempo dos artistas acabou”. São boas analogias para tudo na vida.  Sem trabalho não vamos a lado nenhum. Aquilo que consegui é fruto do gosto de trabalhar para cumprir objectivos a que me propunha. Fiz alguns sacrifícios, mas todos valeram a pena. O maior sacrifício foi sem dúvida estar longe da família. Mas tenho a sorte de ter contado com o apoio de todos ao longo dos anos.

Sentes-te realizado com tudo o que conquistaste? Ou faltou algo que gostavas de ter no palmarés ou no baú de memórias ?

VU. Sinto-me muito realizado. Consegui cumprir muitos dos objectivos que fixei enquanto jogador. A nível individual, claro que gostava de ter chegado mais longe e de ter jogado mais, quando estive ao serviço do Montpellier mas não se proporcionou. A nível colectivo, gostava de ter chegado ao segundo mundial com a Seleção de XV ou aos Jogos Olímpicos com os Sevens, mas não foi possível. Terei de ir como adepto número 1.

Foste sempre fiel ao GD Direito, correcto? Como explicas o que é ser “advogado” e vestir a mesma camisola todos os fins-de-semana?

VU. Sou da opinião que quando se muda, deve-se sempre mudar para melhor. Dificilmente estaria tão bem noutro clube como sempre estive no Direito. Tenho grandes amigos, identifico-me com os valores que o clube procura transmitir e ainda por cima vivi o clube uma fase em que ganhámos muito. O João Batista, meu antigo capitão de equipa, dizia que ser do Direito é ser diferente. É querer sempre ganhar, é fazer esforços em prol da equipa e do clube, é viver o clube como se fosse uma família. Aprendi muito com ele e tento passar a mesma mensagem para os jogadores mais novos.

Entre a altura que começaste a jogar rugby (e já agora foi que idade) até hoje, viste uma evolução no Direito e no rugby português? Onde é que notas uma maior evolução?

VU. Comecei no Direito com 16 anos, depois de uma passagem de um dia (aos 14 anos) pelo Técnico que não correu bem. Nesse primeiro treino parti o nariz e só dois anos depois ingressei no Grupo Desportivo do Direito.

Entrei no Direito, numa fase muito boa do Clube, onde tinha uma equipa fantástica e que queria marcar uma época do rugby português. Desde cedo me identifiquei com os valores e ambição do clube, pelo que foi fácil vestir sempre a mesma camisola. Esta ambição permitiu uma grande evolução no clube em termos desportivos, mas não só. Passamos a ser o clube com mais títulos nacionais nos últimos 20 anos e a ser uma referencia na Península Ibérica com 4 Taças Ibéricas conquistados. Somos também um dos clubes com maior numero de jogadores inscritos em todos os escalões.

Por outro lado, quisemos crescer internamente e estamos neste momento a construir um segundo campo de rugby, que permitirá que o clube se torne autónomo em termos financeiros. Gostamos de pensar no futuro e de deixar o clube numa situação melhor do que aquela que encontramos quando chegamos. É a nossa ajuda para que o rugby português continue a evoluir.

Momento mais difícil enquanto jogador, quando foi? E como o superaste?

VU. A lesão no jogo contra a Itália no Mundial de 2007, deixou-me fora do jogo contra a Roménia que era o jogo onde à partida tínhamos mais hipóteses de ganhar. Tive muita pena de não jogar, porque gosto de acreditar que era capaz de ajudar a equipa a cumprir o objectivo. Essa lesão, tirou-me também a hipótese de jogar pelo Castres Olympique em França com quem já tinha um contrato em perspetiva. Depois de superada a lesão comecei logo a pensar noutro objectivo e foi mais fácil dar a volta por cima.

Uma das imagens que ficou “colada” a ti para sempre, é aquela placagem enorme contra as Fij. Lembras-te bem desse jogo? E gostavas de o repetir?

VU. Lembro-me muito bem desse jogo, porque foi na minha opinião um dos melhores jogos que a Selecção fez. As Fiji, vinham de um jogo muito bom contra o Pais de Gales, onde tinham conseguido empatar 10-10 em Cardiff. Nós olhamos para esse resultado e vimos que no rugby apesar de ser mais difícil também podem haver surpresas. Trabalhámos muito bem durante essa semana, convictos que era possível ganhar. Todos fizemos um grande jogo e estivemos a ganhar até bem perto do fim. A minha placagem foi apenas mais uma dentro de muitas outras que fizemos naquele jogo. Tive sorte foi do fotografo ter carregado no botão da maquina no momento certo…

Uma placagem marcante de Vasco Uva (Foto: Publico)

Como foi chegar pela primeira vez a um treino dos Lobos? Ainda te recordas dos primeiros “passos” na Selecção portuguesa?

VU. Eram os primeiros treinos da selecção depois da qualificação falhada para o Mundial de 2003. Eram também os primeiros do Tomaz como Seleccionador principal e lembro-me que ele no primeiro treino estabeleceu 3 prioridades para chegarmos ao Mundial de 2007. Compromisso de treinar mais e melhor, ter ambição de acreditar que era possível chegar ao Mundial e sacrifício de Nunca Desistir. Eu era um dos mais novos da equipa e fiquei cheio de vontade de alinhar nestas prioridades e ver onde chegávamos.

10 anos passaram daquele Mundial que Portugal passou… qual é a tua melhor recordação dessa “viagem”?

VU. Foi um mês inesquecível, mas a chegada ao Estádio de St. Etiene para jogar com a Escócia, marcou-me muito. Pela primeira vez, sentimos o Mundial e como era ter um país a apoiar-nos.

Achas que estamos muito longe de voltar a fazer uma “façanha” como o fizeram no passado? Na tua opinião o que nos falta para voltar a um Mundial?

VU. Eu acredito sempre que é possível. O resultado deste fim de semana contra a Republica Checa deixou a selecção um pouco mais perto. Agora é trabalhar para que no jogo em Maio contra o 3º classificado do European Nations Cup possamos dar mais um passo em frente. Mas temos de começar a trabalhar já. Não pode ser só em Março ou Abril. Jogadores, treinadores e Federação devem começar já a organizar e manter as coisas positivas que fizemos agora e a tentar antecipar problemas que possam surgir nessa altura.

Tens saudades de jogar com algum jogador em particular, que entretanto já deixou a modalidade? E que adversário gostavas de “apanhar pela frente” outra vez?

VU. Tenho muitas saudades de jogar com todos os jogadores do Mundial de 2007. O espírito e a amizade que tínhamos deixam-me muito boas lembranças. Por isso e para não ferir susceptibilidades… não vou individualizar ninguém dessa equipa. Fica o nome do Federico Todeschini, com quem joguei em Montpellier e que fazia o rugby parecer muito fácil. Como adversários, um dos mais duros que apanhei foi o meu primo João Uva, pelo que gostava de o apanhar outra vez.

Treinador que te influenciou mais? E há algum pensamento que repitas na tua cabeça antes dos jogos e treinos?

VU. Aprendi com todos os treinadores e tento sempre levar para os jogos as coisas boas que me ensinaram. Os que mais marcaram foram sem duvida, o Tomaz Morais e o Daniel Hourcade. O Tomaz pela capacidade que tem de tirar o que há de melhor em cada um nós e pela forma como dava o exemplo nos treinos físicos. O Daniel pelo seu conhecimento e gosto pelo rugby.

Que conselhos podes dar aos jovens atletas que tentam conjugar estudos com rugby ?

VU. Que não optem pela via mais fácil de dizer que é impossível conciliar. Que vão à procura de soluções e que lutem para as conseguir. Na minha opinião e por experiência própria uma nota de 12 ou 13 valores num exame feito à segunda feira depois de uma semana de rugby no Dubai, sabe muito melhor que um 16 depois de uma semana a estudar fechado numa biblioteca. E mais cedo ou mais tarde todas as empresas vão perceber que esta capacidade de conciliação é uma mais valia.

O que se segue… gostavas de ser treinador ou manter-te como speaker sobre a modalidade e os seus valores?

VU. Não sei se dava um bom treinador. Acho que o nível de exigência que ia obrigar os jogadores a ter poderia ser contraproducente num desporto que ainda é amador em Portugal. Tinham de estar dispostos aos mesmos sacrifícios que os jogadores do Mundial de 2007 fizeram e considero que isso hoje em dia é mais difícil de conseguir. Mas gostava de ajudar… Nos últimos anos tenho feito, algumas apresentações em empresas sobre Motivação, Liderança e Espírito de Equipa tentando mostrar os aspectos comuns entre o rugby e o mundo empresarial e procurando que existam mais pessoas a gostar de rugby. Para já vou continuar por este caminho.

Melhor selecção que viste a jogar? E melhor jogador de sempre na tua opinião?

VU. A actual equipa Nova Zelândia. E o Richie McCaw.

Um colega de equipa que se fez jogador mas que pensaste que nunca o iria conseguir?

VU. Prefiro não responder. (Mas que fique escrito que não era o Pipas…)

Valores e princípios mais importantes para ti no rugby?

VU. Espírito e trabalho em equipa. Compromisso. Ambição.

Na tua carreira quem foram as pessoas mais importantes para ti ?

VU. Toda a minha família. Em especial a minha mulher Sofia, e os meus três filhos, a Luísa, a Isabel e o Vasco.

Queres deixar uma mensagem aos adeptos do GD Direito, Selecção Nacional e do rugby em geral?

VU. Em primeiro lugar, agradecer todo o apoio que me têm dado através de telefonemas, mensagens, redes sociais, principalmente nos últimos dias depois da noticia dos Centurions. Gostava também que todos continuassem a acreditar que é possível voltar a colocar o rugby como referencia do desporto nacional.  

Sacrifício e trabalho em prol de algo mais (Foto: João Peleteiro Fotografia)


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS




Newsletter


Categorias


newsletter