20 Out, 2017

Vânia Neves: “Quero mesmo ser capaz de fazer uma prova destas (25K) para provar a mim mesma as minhas capacidades”

Rodrigo ZaccaMaio 2, 201711min0

Vânia Neves: “Quero mesmo ser capaz de fazer uma prova destas (25K) para provar a mim mesma as minhas capacidades”

Rodrigo ZaccaMaio 2, 201711min0

Para dar início à uma série de entrevistas com nadadores de águas abertas, nada mais justo o Fair Play com a nadadora Olímpica Vânia Neves (Clube Fluvial Portuense). Treinada pelo Técnico Rui Borges, ela teve um bate papo com nosso colunista de águas abertas Rodrigo Zacca, e contou um pouco sobre Treinos, Clube, Rio2016, Mundial, Tokyo2020.

 fp: Vânia, como descreverias a tua transição da natação pura para as águas abertas?

VN. No meu ponto de vista foi uma transição natural, pois sendo uma nadadora de fundo e gostando bastante desse tipo de distâncias, o mais natural era mesmo passar por uma experiência em águas abertas que acabou por se tornar bem mais que uma experiência.

fp: Hoje ainda te vemos competindo nas piscinas, mas obviamente tua preparação é focada na época de águas abertas. O que as competições em piscina agregam para seu foco principal, as águas abertas?

VN. Neste momento as competições em piscina têm tido dois objetivos: analisar o estado de forma e a preparação que está a ser feita, mas também servem como treinos com intensidades mais elevadas.

fp: E como se prepara um nadador de águas abertas? Fazes muitos treinos em mar?

VN. O mais correto e aquilo que seria esperado era um nadador de águas abertas associar os treinos de piscina a treinos de mar, mas, infelizmente não é o que acontece na minha realidade. 99% da minha preparação é feita em piscina e sinto que isso é uma desvantagem depois em competição, pois adversárias que diariamente estão perante situações de ondulação, correntes, água salgada etc. estão muito mais preparadas para todas as adversidades que nos vão aparecendo em competição.

fp: Como é a tua preparação em seco?

VN. Neste momento estou a fazer 4 treinos em seco, dois treinos com carga e dois treinos mais focados em prevenção de lesões e trabalho de core. Temos tido imenso cuidado no que toca à prevenção de lesões pois devido à agressividade das nossas provas e o desgaste a que estamos sujeitos isso é essencial para evitar surpresas desagradáveis em fases cruciais da época.

fpE em piscina, diz-nos uma série de referência que seja habitual fazeres?

VN. Uma série que fazemos habitualmente antes das competições em natação pura (piscina) é 8×100 + 8×50 a ritmo de prova de 800. Antes de uma prova de águas abertas o ritual é um treino de reconhecimento do percurso e retirar as máximas referências possíveis no mar e uma séria de 30×50 em piscina progredindo a cada 10.

fpNa época passada transitaste para o Clube Fluvial Portuense onde reencontraste uma antiga companheira de treino e, simultaneamente, a tua maior adversária em Portugal, a Angélica André. Quais as vantagens de ter uma companheira de treino como ela? Existem desvantagens?

VN. Uma das principais vantagens é a competitividade em treino, penso que isso foi uma mais valia não só para mim como para ela. Claro que em algum momento uma estar muito melhor que a outra poderia trazer aspetos menos bons, mas tal não se verificou pois sempre houve muita entreajuda entre as duas.

fp: E em relação ao CFP, um clube de referência no treino das águas abertas em Portugal, é de facto um clube vocacionado para esta vertente? O que se faz diferente no clube para alcançar estes resultados?

VN. O CFP não é um clube só vocacionado para as águas abertas pois tem também excelentes nadadores de natação pura, com resultados bastante interessantes. Mas penso que o facto de ter duas referências da disciplina a treinar incentiva os mais novos a quererem experimentar e a olhar com outros olhos para a mesma. E o número elevado de nadadores que praticam águas abertas ajuda a que se possa fazer um treino mais diferenciado, pois evita estarem apenas 2 ou 3 nadadores a fazerem um treino diferente da restante equipa. As condições da infraestrutura também facilitam bastante esta gestão, pois como existe imenso espaço até treino de contorno de boias nos é possível fazer.

Foto: Arquivo Pessoal

fp: Quem são os nadadores e nadadoras do futuro das águas abertas de Portugal?

VN. Essa é uma pergunta difícil. Penso que existem muitos talentos em Portugal para a disciplina, mas infelizmente, esta não é tão apoiada quanto deveria o que acaba por levar a que os nadadores optem pelo caminho com mais apoio, ou seja, a natação pura.

fp: Na tua opinião, como vês a atenção dedicada por clubes e treinadores portugueses para as águas abertas?

VN. As águas abertas continuam a ser um campo cinzento para muita gente no nosso país. Já temos alguns treinadores a fazerem um trabalho interessante, clubes que até apoiam, mas no geral ainda há muito a melhorar.

fp: Logo no primeiro ano a treinar no CFP chegaste aos Jogos Olímpicos. Estava no teu horizonte conseguires essa participação? Se sim, quando percebeste que a vaga era possível?

VN. Sendo o mais sincera possível eu sabia que iria nadar a qualificação Olímpica e que logo aí teria uma hipótese, mas para mim era apenas isso. Eu estava a nadar para 1 hipótese contra 1 milhão de contrariedades. Encarei a prova da melhor forma possível, mas sem grandes pressões ou ansiedades. E só me apercebi verdadeiramente que a vaga estava mesmo ali quando terminei a prova e vi a posição em que tinha ficado.

fp: Uma prova de águas abertas tem sempre muita história, como nos relatarias a história da prova realizada no RIO2016?

VN. Por mais que tente expressar tudo que senti e vivi durante aquelas duas horas penso que nunca o conseguirei fazer. Foi uma experiência única! O mar estava com uma temperatura ótima (23º), ondulação dentro dos padrões que eu me sinto confortável e o ambiente na praia era surreal. Centenas de pessoas a ver a prova, bandeiras de todos os pais entre a multidão… e a prova em si foi única. Ritmos bons onde me senti confortável (sabia que estava bem preparada) e depois de ter sofrido um “confronto” onde descolei do grupo e fiquei sozinha continuei a sentir-me bem, feliz. Resumidamente essa é a palavra que descreve tudo… eu fui muito FELIZ.

Fotos: Arquivo Pessoal

fp: Esse apuramento surgiu no seguimento da prova praticamente perfeita que fizeste em Setúbal no ano passado, onde ficaste à frente de nomes como Mireia Belmonte e Kristel Kobrich, mas ainda tiveste de esperar pela confirmação. Como viveste esse mês entre a prova de Setúbal e a certeza que ias estar no Rio?

VN. Foi um mês tranquilo. Como sabia que era uma decisão que não iria depender de mim em parte alguma foquei-me na minha preparação para o Europeu e deixei o destino tomar conta dessa decisão.

fpE quais são os objectivos para a Hungria?

VN. Será o meu primeiro Campeonato do Mundo pelo que não dá para traçar objetivos muito concretos. Mas claro que meus objectivos passam por uma prova de 10Km feita no grupo da frente e ainda estamos a analisar uma possível loucura e participar na prova de 25km. Quero mesmo ser capaz de fazer uma prova destas para provar a mim mesma as minhas capacidades. É uma prova onde mais que a preparação física o psicológico manda e acredito que depois de ultrapassar uma barreira como esta serei uma nadadora mais completa e mais forte psicologicamente.

fpO que funcionou na preparação para RIO2016 e o que precisa funcionar para Tokyo2020?

VN. Não se pode dizer que tenha tido propriamente uma preparação focada nos Jogos do Rio pois não tive qualquer tipo de apoio a nível federativo nesse aspeto. A minha “preparação” foi feita sem competições internacionais e sem estágios em ano olímpico. Para Tokyo 2020 há ainda muita coisa a melhorar: preparação mais especifica em águas abertas com treinos de mar mais frequentes e estágios em que isso nos seja possível; apoios a um leque mais alargado de nadadores pois as surpresas acontecem sempre. Enfim, os erros que se verificaram em preparações olímpicas anteriores continuam presentes nos dias de hoje.

fpTens os anéis olímpicos no currículo e tatuados na pele… Mas afinal, o que estes anéis lhe trouxeram de bom do ponto de vista financeiro? O que significa para um atleta ter estes anéis olímpicos em Portugal? Consegues dedicar-se aos treinos para tokyo com uma certa tranquilidade ou segues na luta para conciliar treinos, estudo e trabalho?

VN. Pergunta muito pertinente. Do ponto de vista financeiro NADA mudou, continuo sem apoios por parte de Federação, clube ou qualquer entidade. O único apoio que tenho tido é por parte da Aqualoja que me tem fornecido material de treino e procura ajudar em tudo que é possível. Ter estes anéis no currículo de pouco ou nada me tem servido o que é triste pois depois de ter conseguido atingir o lugar onde muitos querem estar sem qualquer apoio merecia um pouco mais de respeito. Ou seja, para Tokyo neste momento continuo na luta “sozinha” (tendo sempre apoio da família como é obvio) e procurando conciliar a vida académica, com o trabalho e com os estudos pois quero continuar a fazer aquilo que gosto, mas infelizmente as contas não se pagam sozinhas.

fp: Há Fair Play nas águas abertas?

VN. Mais do que na natação pura, mas há muita coisa a ser trabalhada ainda.

Muito obrigado Vânia Neves e votos de sucesso para o futuro!

Twitter oficial de Vânia Neves: @VniaNeves

 

 


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter