25 Nov, 2017

Ukra. “Aqui na Arábia vivem muito o futebol porque também é o desporto-rei”

Ricardo LestreAbril 5, 201711min0

Ukra. “Aqui na Arábia vivem muito o futebol porque também é o desporto-rei”

Ricardo LestreAbril 5, 201711min0

Ukra Monteiro é um nome bem conhecido dos portugueses não só pelas suas qualidades dentro de campo, mas também pelas atitudes fora dele. Hoje, ao serviço do Al Fateh, equipa que disputa a primeira divisão do futebol saudita, assume um papel de destaque. Não perca as peripécias, as aventuras e os momentos vividos pelo extremo português nesta entrevista exclusiva ao Fair Play.

fpUkra, numa primeira instância gostaria de te agradecer, em nome de toda a equipa do Fair Play, por teres aceitado o nosso convite com enorme prontidão e simpatia. De Vila do Conde, Portugal, para Al-Hasa, Arábia Saudita. Depois de tantos anos a actuar em solo nacional, como se sentiu o Ukra na hora da despedida? Foi difícil a decisão de rumar a um país totalmente diferente do nosso, deixando a família, amigos e o dia-a-dia português para trás? Teve Ricardo Sá Pinto, inicialmente oficializado como treinador do Al-Fateh, grande peso na mudança?

UM. Sair do país para jogar num campeonato sem ser o português foi sempre um objetivo pessoal que tinha para a minha carreira, por isso fiquei contente com esta oportunidade! Claro que o Sá Pinto teve muito peso na minha vinda para cá. Para além de ser bom treinador e de ter feito bons trabalhos por onde passou, é português, a equipa técnica era portuguesa e isso iria ajudar na minha integração e adaptação ao clube e ao país. Assim não me sentiria “sozinho”. Também pesou o facto de saber que já estavam aqui 3 brasileiros!

O que mais me custou e ainda me custa é, claramente, a família. Posso dizer que no primeiro mês chorei quase todos os dias, não por me sentir mal aqui, mas sim pelo facto de pensar que iria ficar muito tempo sem a ver! Logicamente que sinto saudades do meu pai, mãe, irmão… Mas o que me mata o coração são mesmo as minhas filhas! Todos os dias faço facetime com elas, não é mesma coisa que estar pessoalmente mas já dá para matar as saudades… Foi difícil para elas e para mim porque de estarmos juntos praticamente todos os dias, passámos a não saber quando é que iríamos estar! Mas este pequeno esforço é, também, para o futuro delas ser melhor.

fp. Como e qual foi a primeira impressão assim que pisaste solo saudita? Os cidadãos são, na sua maioria, pessoas acolhedoras?

UM. A primeira impressão foi boa. Já vinha com uma pequena ideia de como era o país porque fui ter à Holanda com a equipa quando esta estava em estágio de pré-época e, como os treinadores já tinham estado na Arábia alguns dias antes do início, disseram-me por alto como era a cidade e para onde ia! As pessoas acolheram-me bem, sou muito bem tratado aqui… Inicialmente como viam que era estrangeiro tentavam sempre saber de onde era e o que fazia aqui, mas agora já toda a gente sabe quem sou.

fp. A adaptação, como foi? O mister Sá Pinto e os bem conhecidos do futebol português Luís Leal e Nathan Junior facilitaram esse processo? Como é a tua relação com o balneário do Al Fateh?

UM. A adaptação foi muito boa. Claro que com o Nathan, Luis Leal e o João Guilherme foi mais fácil, mas como sou uma pessoa muito divertida e gosto de brincar com todos, isso também ajudou! Não tenho as mesmas brincadeiras que tinha em Portugal devido à cultura e aos costumes deles mas eles dizem que nunca viram um “maluco” como eu (risos).

fp. Clima, costumes, cultura… tudo diferente em que medida? A gastronomia, entre outros costumes, é apenas uma questão de hábito? Conta-nos alguma peripécia que tenhas vivido.

UM. No verão cheguei a apanhar 55 graus durante o dia e 44 à noite. São temperaturas que nos impossibilitam de estar na rua, e as pessoas que estão aguentam por pouco tempo porque querem logo entrar em algum sítio com ar condicionado! As mulheres aqui não podem conduzir, não podem ir aos estádios e andam sempre tapadas. Eles dizem que são as “mulheres ninja” porque só conseguimos ver os olhos, mas algumas nem os olhos consegues ver. Até as mãos tapam! Passo por elas e não sei se são jovens ou idosas. Não consigo ter mesmo a noção de nada. Eles têm 5 rezas ao dia e na hora das rezas eles fecham tudo: lojas, restaurantes, cafés…

Das primeiras vezes que fui ao supermercado com o Nathan, íamos a caminho das caixas para pagar, só que como era hora das rezas fecharam tudo e tivemos que estar 25/30 minutos à espera que terminassem para podermos pagar as compras, mas, na verdade, não somos obrigados a esperar. Muita gente continua a fazer as compras como outros deixam os carrinhos de compras e vão rezar.

A comida aqui é muito boa. Sempre que falo com amigos ou família falo sempre da comida. É das coisas que vou sentir mais saudades!

fp. Agora com uma opinião formada, como classificas o futebol saudita na sua totalidade? Existe mais ‘vida’ para além do Al-Hilal e do Al Ahli SC?

UM. Existe sim. Há o Al-Ittihad e o Al Nasr que também são boas equipas e têm muitos adeptos! Mas o Al-Hilal é, sem dúvida, o maior clube e o clube com uma massa adepta maior. Equipa onde o Carlos Eduardo (que jogou no Porto) está.

fp. Os adeptos… Tão fervorosos como os portugueses? Ou mais reservados? O futebol é já visto como uma tradição no país?

UM. Os adeptos aqui na Arábia vivem muito o futebol porque também é o desporto-rei. Vibram muito e cantam durante todo o jogo! Contra equipas grandes o ambiente é muito bom.

Sá Pinto, até então treinador do Al Fateh, com Ukra no dia da sua apresentação. (Foto: Facebook @UkraMonteiro)

fp. O arranque do Al Fateh no campeonato não foi o desejado, com a equipa a acumular derrotas e empates de forma consecutiva. O que falhou nesse período inicial? O afastamento de Sá Pinto esteve relacionado com os maus resultados?

UM. O início do nosso calendário foi complicado porque quer na primeira quer na segunda defrontámos equipas grandes e tivemos logo duas derrotas! Nos primeiros 4 jogos tivemos 1 jogo em casa e 3 fora. Jogávamos bem, mas não ganhávamos e aqui os árabes querem resultados imediatos, ou seja, vitórias, pois é isso que os deixa felizes. O Sá Pinto pôs a equipa a jogar um futebol diferente do que as equipas jogam aqui, mas os resultados não apareceram.

fp. De Ukra para… André. Esta ‘troca’ de nome foi difícil de assimilar ou é apenas uma questão temporária? A alcunha ‘Ukra’ não se tornou famosa na Arábia Saudita por alguma razão específica?

UM. Eu queria por ‘Ukra’ na camisola porque toda a gente me conhece por esse nome, mas eles disseram-me que na camisola os jogadores têm que usar o nome ou os nomes que estão no passaporte… Não podem por alcunhas! Tenho André na camisola, mas toda a gente me trata por Ukra à mesma.

fp. O regresso de Fathi Al-Jabab ao comando técnico do Al-Fateh deu um outro alento à equipa que se libertou do fundo da tabela e garantiu um apuramento histórico para a fase de grupos da Liga dos Campeões Asiáticos 2017 com um golaço de… Ukra. Sendo um dos mais utilizados e um dos melhores marcadores da equipa, como descreves o teu momento futebolístico actual? Há espaço para melhorar? Quais são os objectivos do clube para esta época?

UM. A nível individual tenho feito uma época muito boa, com golos, assistências e bons jogos. Os jogadores árabes dizem que sou muito bem falado aqui, o que me deixa super feliz e motivado para continuar o meu trabalho! Sim, claro que há espaço para melhorar. Treino diariamente para que isso aconteça! O objectivo do clube esta época passa por garantir a manutenção e fazer uma boa fase de grupos na Liga dos Campeões Asiática.

fp. É certo e sabido que o Ukra é um autêntico fenómeno das redes sociais em Portugal. Mas como são as redes sociais na Arábia Saudita? É mais difícil criar hype com as tuas acções habituais? Qual a importância de ser um jogador acessível ao público como foste, sobretudo, no Rio Ave?

UM. Aqui não posso publicar certas brincadeiras que fazia em Portugal. Quando vim para cá, tive de apagar algumas fotos do meu Instagram porque não iriam cair bem na cultura e na religião do país.

Eu sempre fui uma pessoa divertida, com um sorriso desde miúdo, só que nunca publicava nada. Então, no Rio Ave disseram-me para começar a publicar algumas coisas porque as pessoas mereciam saber como era o verdadeiro Ukra! Aos poucos fui-me dando a conhecer fora do balneário. Fui sempre assim em todos o sítios por onde passei. No Porto e no Braga já o era, só que não publicava nada.

‘Praxado’ no estágio de pré-época em solo holandês. (Foto: Facebook @UkraMonteiro)

fp. Depois de vários anos no campeonato português sempre com um nível assinalável e agora brilhando no continente asiático… guardas alguma mágoa por não te terem dado uma verdadeira oportunidade no FC Porto?

UM. Mágoa!? Nenhuma mesmo. Sinto-me um privilegiado por ter feito a minha formação e por ter feito parte do plantel principal do Porto! Numa equipa que deixa saudades com um grande treinador, André Villas-Boas, e com grandes jogadores como Hulk, Falcao, James, Moutinho, Fernando, Guarín, Belluschi, Álvaro Pereira e por aí fora… Aprendi muito nos 6 meses que estive no plantel principal. Foi um ano inesquecível para todos os portistas!

fp. Em jeito de curiosidade, qual foi o segredo do FC Porto versão 2010/2011? O que injectou André Villas-Boas na equipa para que se tivesse tornado tão forte?

UM. O Porto vinha de um ano menos bom e André Villas-Boas injectou no grupo ambição, confiança, trabalho de qualidade fazendo com que todos nós evoluíssemos diariamente! Lembro-me que ia feliz para todos os treinos, porque sabia que ia sair melhor jogador do que quando entrei.

fp. Por fim, pretendes, no futuro, estender a tua carreira além-fronteiras? Ou tens em mente um breve regresso a Portugal?

UM. O meu objectivo é ficar por estes mercados mais 4 ou 5 anos e depois regressar a Portugal porque quero acabar a minha carreira no clube da minha terra que é o Famalicão.

Foto: Facebook @UkraMonteiro

A equipa do Fair Play vem, por este meio, agradecer ao Ukra pela disponibilidade e gentileza demonstradas no decorrer da entrevista. Aproveitamos, do mesmo modo, para lhe desejar as maiores felicidades na sua vida pessoal e profissional.


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