17 Ago, 2017

Tomaz Morais, “Não podemos desistir da Essência do Rugby”

Francisco IsaacNovembro 7, 201617min0

Tomaz Morais, “Não podemos desistir da Essência do Rugby”

Francisco IsaacNovembro 7, 201617min0

Um líder, uma lenda, um símbolo e um treinador de renome nacional e internacional: Tomaz Morais. O antigo seleccionador Nacional e, agora, treinador do GDS Cascais revela-nos algumas ideias, confidências e propostas para e do rugby português. Uma entrevista do Fair Play

fp. Desde já queremos agradecer ao Professor Tomaz Morais por conversar com o Fair Play. Pegando no “nosso” nome, os valores do fairplay e desportivismo no desporto, estão em franco crescimento ou estamos a deparar-nos com um retrocesso nesses “campos”?

TMQuero acreditar que existe, apesar de se terem tornado comuns alguns comportamentos que vão contra esses princípios e valores nos últimos tempos, com algumas situações caricatas nos diferentes escalões, envolvendo jogadores, treinadores, juízes de linha, dirigentes, etc. Não podemos tolerar, aceitar nem desistir da essência do rugby, não podemos “educar” só os jogadores para os aspectos técnico-tácticos… para uma necessidade permanente de ganhar a todo o custo… há que fazer valer e prevalecer os valores e princípios da modalidade e do desporto em geral. O respeito, a competitividade saudável e amizade marcam o rugby. Jamais poderemos desistir deles!

fp. Em Portugal como estamos em termos dos valores do rugby? Os atletas, treinadores, dirigentes e, mais importante de todos, os adeptos entre os anos 80 até aos dias de hoje estão mais dentro do código de honra da modalidade?

TMMuito sinceramente acho que temos a má percepção do passado. Tratamos esses anos (80-90) como algo antiquado, fora de moda e que já não reúne a importância devida. Repara que eu próprio gosto de rever jogos, análises e ideias desses anos, para usá-los novamente nos dias de hoje. O desporto é cíclico, o que foi útil um dia pode vir a ser outra vez. Sinto que houve um retrocesso na questão do compromisso, postura e na paixão pelo treino. Estamos pior na entrega… Por outro lado, evoluímos nas condições estruturais e nas metodologias de treino, as estruturas estão mais “profissionais” e especializadas, há um acesso à informação muito maior. O trabalho dos treinadores da actualidade passa muito por interpretar, estudar, processando toda essa essa informação existente e que esta muito acessível, para conseguir por em prática nos treinos tudo o que pretendem passar física, técnica e taticamente.

Sempre no meio da luta (Foto: Miguel do Carmo)
Sempre no meio da luta (Foto: Miguel do Carmo)

fpApesar de já não estar em funções na Federação Portuguesa de Rugby, mantem uma ligação com a nova geração de treinadores nos cursos da ARS. O entusiasmo de ensinar é o mesmo? E sente alguma diferença nos conhecimentos básicos entre a nova geração e as mais antigas, por assim dizer?

TMUma das coisas fundamentais para o treinador é o respeito que tem de ter pelos jogadores. Há dois factores importantes: as questões técnico-tácticas, ou seja, o conhecimento, compreensão de jogo e a competência para delinear a estratégia a seguir; e o factor humano. Há que saber lidar com os jogadores, conversar com eles, compreendendo as suas dificuldades e necessidades, estabelecendo o desejável equilíbrio emocional para que se possam satisfazer a jogar rugby. Nota que a geração de treinadores do tempo do João Paulo Bessa, José Mendes, Minhoto, Sérgio Franco, José Ricardo, entre outros, era uma geração de homens, que trabalharam por todos os escalões dos clubes por onde passaram, lidando com vários jogadores, enfrentando as “guerras” diárias, reagindo perante situações adversas permanentemente. Para transpores isto tudo e conseguires o melhor de ti, tens de ter uma relação pedagógica e didáctica com os atletas, saber que tipo de treino se adequada para cada escalão. Infelizmente, ainda vemos alguns treinadores de escalões de formação a quererem impor modelos e tipologias de treino de seniores nos seus atletas e equipas. É um erro brutal! Temos de respeitar as etapas de crescimento e desenvolvimento motor, cognitivo e afectivo das crianças e jovens, há que existir sustentabilidade física e emocional!

fpSente saudades de jogar? Este regresso ao GDS Cascais, é um quase retornar ao passado?

TMSempre! Eu sou só treinador porque o meu corpo não me deixou jogar mais. É o melhor que podemos dar ao rugby. Em relação ao regresso ao Dramático, não é um retornar ao passado, mas sim o início de uma nova etapa! A experiência de vida diz-nos que nunca voltamos ao passado. A minha ideia, e da minha equipa técnica, passa por tentar implementar uma filosofia de jogo assente em princípios básicos de verticalidade, que seja transversal a todo o club, dando prazer a quem joga e a quem vê, mantendo as bases de dinamismo que foram edificadas nos últimos anos, recuperando a identidade dos anos 90, altura em que o Cascais melhor jogava, tendo chegado a impor um domínio a nível nacional através de um rugby técnico muito bonito, veloz e eficaz.

fpLembra-se do seu melhor jogo como atleta? E qual é a melhor lembrança que tem desses tempos?

TMBem… tenho várias boas memórias dessas épocas. Lembro-me de um jogo no Estádio da Luz, numa jornada final que decidia o campeão nacional de então. Começámos a perder, com alguns pontos entregues de “bandeja”, mas no final acabámos por ganhar o encontro, numa jogada que começou na nossa área de validação e terminou na do Benfica… melhor que tudo é que foi na bola de jogo. Nesse dia o SL Benfica tinha encurtado o campo para limitar o jogo do Cascais, que gostava de fazer uso de movimentações mais rápidas (risos)… foi um combate único entre grandes jogadores, que fora do campo mantinham grandes amizades. Depois lembro-me de um jogo contra o CDUL no pelado do antigo Guilherme Salgado… eu era ainda júnior mais fui promovido à equipa titular sénior… nesse jogo como primeiro centro fui incumbido de parar ass arrancadas de formação ordenada do Bernardo Marques Pinto e do Xico Lupi Belo… para um miúdo de 18 anos era uma missão titânica. Houve ainda as “Super “Taças Ibéricas que ficaram para sempre na memória! Se me perguntarem qual era a competição que eu ficava mais ansioso por ver chegar, seria sem dúvida os Lisboa Sevens, um torneio espectacular que chegou a ver o Eric Rush e outras lendas do desporto em Portugal (o GDS Cascais perdeu uma final para a equipa de Rush, que era a equipa internacional de convites Bahrein Warblers).

Tomaz Morais com a oval (Foto: Facebook do Próprio)
Tomaz Morais com a oval (Foto: Facebook do Próprio)

fpEntre 1990 e 2016, quais foram as posições que mais evoluíram? Os pilares correm mais agora? E os médios de abertura estão mais “duros” ou ainda tentam “fugir” ao contacto?

TMHouve uma evolução em várias posições! Os pilares são mais móveis e gostam de fazer a diferença no jogo ao largo, os aberturas estão mais dispostos à prática defensiva, os formações agora limpam “corpos” no ruck e os pontas aparecem por todo o campo, de forma a fazer a diferença no ataque à linha de vantagem como penetradores. Os jogadores de agora querem fazer coisas novas, trabalhar outros skills e participar em outras funções… por outro lado, há alguma tendência a não irem ao limite das suas capacidades físicas, o que é um aspecto negativo… temos de ir além do 100%, há que bater os limites físicos de cada um. O Rugby atual é um jogo de uma dimensão técnica, tática, física e mental infinita!

fpAntes de viver o Mundial 2007 como seleccionador, teve a oportunidade de ir a outros mundiais? Chegou a ver Jonah Lomu a jogar?

TMNão, curiosamente nunca fui a um Mundial de XV antes do 2007 ou depois desse. Em relação à 2ª pergunta, sim tive a oportunidade de conhecer o Jonah Lomu. Nos anos de 1993/1994, Portugal tinha ido ao Hong Kong Sevens e decidimos fazer um treino contra a Nova Zelândia uns dias antes do Torneio. Quem estava do outro lado? Jonah Lomu. Sozinho fez uma série de “estragos” à nossa linha de jogadores… chegámos até a perder um dos nossos jogadores para o torneio (risos)! Era/É o jogador mais marcante da modalidade, por várias razões. Primeiro pela forma como ele jogava rugby, a paixão que metia dentro de campo e a qualidade física e técnica que possuía. Isso possibilitou que o rugby ganhasse outra dimensão, com uma campanha de marketing e publicidade à volta dele que catapultou a modalidade para outros patamares. Voltei a estar com ele em 2015, num jantar de gala do Hong Kong Sevens, antes da participação da selecção portuguesa nesse torneio. Ele lembrou-se dessa altura e confidenciou que seguia a selecção portuguesa de 7’s, dizendo que tínhamos grandes qualidades e uma capacidade para “chocar” o Mundo. O Pedro Netto (treinador da Selecção na altura) e eu passámos esta mensagem aos nossos jogadores… que no fim-de-semana conseguiram conquistar um empate frente aos All Blacks dos 7’s. Lomu voltou a falar connosco e estava incrivelmente radiante com a nossa prestação. Momento demasiado que nunca esquecerei!

Uma mito entre lendas (Foto: Luís Cabelo Fotografia)
Uma mito entre lendas (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

fpAgora um desafio à memória: equipa que mais gostou de jogar contra? E que equipa mais gostou de ver a jogar?

TMComeço pelo final… há duas equipas que me marcaram: a Nova Zelândia de 2011-2016, com o seu estilo de jogo impressionante, com um rugby magnífico, com um core de trabalho de ponta. E a selecção sul-africana de 1995, que marcou a modalidade pela forma como conquistou aquele mundial, unindo toda uma nação. Também há a França da altura do Serge Blanco, que era um primor a ver jogar. Agora equipas que joguei contra devo dizer que todos os jogos contra a Geórgia são as minhas memórias favoritas… a batalha entre o rugby semiprofissional/profissional e o rugby amador, com duas equipas que sentiam a paixão e o fervor de lutar dentro das linhas de jogo, era sempre inesquecível. Alguns jogos da caminhada para o Mundial vão resistir às “forças do tempo”, como o jogo fora contra a Rússia, Georgia, Roménia e Uruguai.

fpApós ter abandonado, por lesão, a vida de atleta, como foi saltar para o banco de suplentes como treinador? 

TMPara mim foi um dilema não poder jogar… muito complicado. Estava habituado à rotina de chegar ao final do dia e calçar as botas para seguir para o treino. Estava a começar o estágio de Professor de educação física e houve a oportunidade de ir treinar os juniores do GD Direito (pela mão e convite do António Mota). Meti toda a minha energia nos treinos, fiz uma evolução do rugby lúdico juntando o treino físico, metendo os jogadores num sítio que era raro tê-los: o ginásio. Naquela(s) equipa(s) do Direito houve uma preocupação em trabalhar todos os aspectos físicos, elevando o nosso compromisso, tendo chegado a treinar 4x por semana.

fpAlguma grande recordação do início da carreira?

TM1978… no primeiro treino que fui e que tive a bola nas mãos. Só queria fugir com ela! Dei-me bem desde o início com a modalidade. Eram outros tempos, atenção… repara, nós saíamos de Cascais todos equipados, botas incluídas, metíamos no comboio e íamos até Lisboa para jogar no Estádio Universitário de Lisboa. No primeiro jogo que joguei, marquei logo um ensaio e deixou-me uma boa recordação do meu início. Agarrou-me ao jogo até hoje!

fpCom tantos anos de relação com o rugby, faltou uma experiência no estrangeiro? Qual teria sido o país de eleição para continuar a carreira de treinador?

TMÉ verdade. Faltou a tal ida para fora… não faltaram oportunidades. A seguir aos Hong Kong Sevens recebi um convite para ir para Escócia, mas como estava a começar a minha vida profissional recusei. Há pouco anos atrás, o Brasil convidou-me para ser o seleccionador e DTN deles, mas como estava com obrigações e funções na Federação Portuguesa optei por ficar por cá.

Uma geração de mentalidades (Foto: Facebook do próprio)
Uma geração de mentalidades (Foto: Facebook do próprio)

fpO regresso ao GDS Cascais foi sempre um desejo?

TMSim, com certeza que foi sempre um desejo meu voltar à casa onde fui muito feliz. Queria fazer parte de uma nova era do Cascais… acredito muito nestes jogadores, nesta equipa, sentem o Dramático com uma intensidade alta.  São uma verdadeira família. Chegar ao treino pela primeira vez foi um prazer indiscritível. Sabes depois de vários anos a treinar nas seleções nacionais e a fazer parte da estrutura do rugby português, obriga-nos a ter certas barreiras impostas… treinar um clube é diferente. A minha grande preocupação é saber se tenho o material para o treino em dia e se os jogadores não faltam (risos)!

fp. Sente uma grande diferença entre o Cascais de 90’s e o Cascais de 2016? A parceria com a Groundlink tem sido positiva?

TM. É uma ligação e relação bastante positiva. Estamos numa fase de redefinição, já que vários dos jogadores que estão a trabalhar na estrutura da Ground Link estão com bastante trabalho e não têm tanto tempo para marcar presença nos treinos, mas após esta fase de expansão da empresa tudo voltará ao normal ou melhor! Este GDS Cascais pode fazer jus ao Dramático dos anos 90, com um rugby de alta qualidade, uma entrega em prol do colectivo sem esquecer os detalhes técnicos. Acredito que o trabalho começado nas últimas temporadas vai surtir grandes efeitos nos próximos anos.

fp. Acha que o rugby português tem futuro? Há uma consciência colectiva de termos que evoluir ou ainda estamos dedicados aos nossos “cantinhos”?

TM. Temos que continuar a repensar, de levar a discussão para o espaço público, de trabalharmos todos em conjunto e com sentido de colectivo. O rugby português tem de estar sempre acima de todos nós, para que todos possam sair beneficiados. Ou seja, há que criar um “caminho” que todos consigam percorrer e retirar vantagens disso mesmo. O nosso valor ou imagem mais importante são os Lobos e a Alcateia, não podemos deixá-los cair. Temos que voltar a colocar Portugal no lugar que lhe pertence e onde estava há pouco tempo tanto em sevens, como no no XV.

fpÉ da opinião que devia de existir uma colaboração e cooperação maior entre o Mundo Universitário e o desporto de Alto Rendimento? Viu muitos atletas a sacrificarem a sua vida pessoal para conseguir equilibrar os estudos com as exigências da modalidade?

TM. Sem dúvida que deve existir uma ligação melhor e maior entre a FPR e clubes e FADU e Universidades. O rugby português nasceu no meio universitário, não podemos esquecer esse passado. É importante que ambas as federações se juntem e comecem a realizar um trabalho com “olhos” para o futuro. As sinergias têm de ser iguais, sem nunca esperar que o rugby universitário vá “engordar” as equipas/clubes nacionais e, também, que não devem ser só os jogadores desses mesmos clubes a representarem as equipas da Universidade.

fp. Voltará Portugal a pisar os relvados de um Mundial?

TM. Penso que sim. A História tem tido a capacidade de nos proporcionar grandes feitos… e o rugby português o fará outra vez. Sem pressão excessivas, sem promessas e sonhos com data limite, os Lobos voltarão a ir a um Mundial. Temos de ter consciência que precisamos de raça, alma e atitude com um sistema de jogo forte baseado num modelo nosso, criado e desenvolvido por nós, em que a nossa “marca” fique bem patenteada! Já o tivemos e com sucesso, precisamos de o ter novamente!

fp. Uma última questão… voltará o GDS Cascais a inscrever o seu nome na Placa de Campeões Nacionais?

TM. Estamos a trabalhar para isso… agora poderá ser um erro tremendo tornar isso uma obsessão imediata. Temos de consolidar a estrutura, ter uma equipa estável, com várias soluções, auto motivada e ter meios próprios que possibilitem que o colectivo consiga criar algo diferente. Mas claro que gostava de ser campeão com o Dramático… de forma consistente e equilibrada! 

O desafio do Cascais (Foto: Facebook do próprio)
O desafio do Cascais (Foto: Facebook do próprio)


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