18 Dez, 2017

Rui Mota, o vimaranense à conquista da China

Ricardo LestreOutubro 15, 201612min0

Rui Mota, o vimaranense à conquista da China

Ricardo LestreOutubro 15, 201612min0

Rui Mota, jovem técnico natural da cidade de Guimarães, deixou Portugal no presente ano para rumar ao emergente futebol chinês da actualidade. Formando uma dupla de sucesso com Vítor Pontes no Sichuan Longfor F.C, clube da terceira divisão, o agora treinador adjunto da Selecção Chinesa sub-19 falou um pouco com o Fair Play sobre a sua aventura em terras asiáticas.

Perfil


Nome: Rui Emanuel Salgado da Mota Lopes
Idade: 35 anos
Nacionalidade: Portuguesa
Naturalidade: Guimarães
Histórico profissional: Moreirense F.C 2007-2011 (Escalões de Formação), U.D Polvoreira 2012/2013, Pevidém S.C 2013-2015, Pedras Salgadas 2015/2016 (Treinador Adjunto), Sichuan Longfor 2016 (Treinador Adjunto) e Selecção Chinesa sub-19 (Treinador Adjunto)


fpRui, antes de mais, gostaria de lhe agradecer pela sua disponibilidade em conceder uma entrevista exclusiva ao Fair Play e congratulá-lo não só pelo feito memorável alcançado ao serviço do Sichuan Longfor mas também pela sua entrada na Selecção Chinesa de Futebol Sub-19, tornando-se o primeiro português a alcançar tal feito. Depois de trabalhar como adjunto de Ricardo Silva no Pedras Salgadas, como surgiu o convite que viria a mudar, de certa forma, a sua vida? Qual a sua reacção ao saber que iria partir para um país totalmente diferente? Ponderou bastante a sua decisão?

RM. Quando iniciei a minha carreira, fui aos poucos definindo determinados objetivos, a dada altura defini exatamente o que pretendia. Tendo a meta a alcançar, mais simples será o caminho a percorrer, pelo que estou muito focado nos meus objetivos e, irei fazer tudo o que estiver ao meu alcance para os atingir! À medida que fui dando a conhecer o meu trabalho, os passos em frente, época após época foram dados, entreguei-me de corpo e alma em todos os momentos e por tudo isso, convites como forma de reconhecimento da qualidade do meu trabalho vão surgindo, felizmente, de modo que quando surgiu a China, apesar de todas as grandes diferenças e dificuldades, mas sendo o tal passo em frente tive de aceitar e de o dar!
A
 minha decisão foi tomada no exato momento no qual tive de dar uma resposta, como disse, apesar de todo o desconhecimento que tive e teria pela frente, estava preparado para tudo, para conseguir avançar mais um degrau nesta longa caminhada que ainda me espera.

fpA possibilidade de trabalhar com o português Vítor Pontes, técnico renomado no seio do futebol português, foi um dos factores principais que o levou a abraçar este novo desafio? Como classifica a sua relação com a restante equipa técnica?

RM. Quando vim para a China, vim sozinho, seria o único estrangeiro, por isso não só não teria nenhum português, como nenhuma outra pessoa da qual a nacionalidade não fosse chinesa. Trabalhar apenas, e só com chineses, é lógico que me tornou todo o processo mais difícil, teria de usar um tradutor, e acima de tudo saberia que iria trabalhar com uma forma de estar e uma mentalidade completamente distinta da minha. O Vítor Pontes com quem criei uma grande amizade, vem para o clube sensivelmente 2 meses depois, costumo dizer a brincar que eu servi de “cobaia”, pois as primeiras semanas foram muito difíceis no que a tudo respeita, sobretudo identificação da estrutura do clube e respetivo campeonato, gastronomia, comunicação, entre outras, e por isso quando o Vitor surge, consegui ajudar a que a sua adaptação fosse muito mais rápida e menos dolorosa, para que o trabalho a realizar fosse com a melhor qualidade possível, logo desde o inicio.

fpDescreva-nos o seu primeiro impacto assim que pisou, pela primeira vez, solo chinês. Hospitalidade, língua, cultura, tudo diferente do nosso país? Que aspecto mais lhe agradou/desagradou particularmente?

RM. Quando vim, não pude vir diretamente, primeiro fui para Hong Kong para tratar do visto, então de seguida para a China.
Acho que é a primeira vez que conto esta história, mas pensei que não ia chegar, quase 3 horas de viagem separavam Hong Kong de Chengdu, cidade chinesa para a qual iria, 5 minutos após descolarmos, entramos no meio de uma tempestade, tudo ficou negro, os flash’s brancos dos relâmpagos surgiam, dentro do avião as pessoas gritavam, choravam, outras como que congeladas, e eu revendo toda a minha vida, cheguei a “despedir-me” em pensamento das pessoas mais próximas e pensei, se pisar solo chinês, tudo irei fazer para alcançar o sucesso no país, independentemente de tudo o que tenha de passar, irei sentir orgulho em mim e tentarei elevar o nome de Guimarães e de todos os portugueses bem alto…. Cheguei à noite, pessoas do clube esperavam-me, e seguimos para o centro de treinos, a comunicação pelo tradutor que tinha grandes dificuldades no português foi desde logo uma grande barreira, a comida, mas acima de tudo todos os grandes momentos de solidão, pois apesar de as pessoas serem cordiais e prestadias no que necessitasse, as conversas na primeira pessoa era algo impossível de acontecer, a falta de internet na zona que estávamos localizados, tudo fez com que passasse, um pouco à imagem do que hoje acontece, muito isolado, e muitas vezes não estando só fisicamente mas sentindo-me sozinho como é óbvio…

fpEm termos de infraestruturas, as condições que o Sichuan Longfor apresenta são, de facto, as ideais? Alguma semelhança com as de clubes portugueses?

RM. A realidade chinesa é completamente diferente da portuguesa, a China é um país rico, está e tem vindo a realizar um enorme investimento no futebol, todas as condições e infraestruturas que apresenta são de altíssimo nível.
Uns clubes tem mais do que outros, contudo comparar com os clubes portugueses, é algo que não é possível fazer, pois ainda existe uma larga distância na falta que existe em Portugal para o exagero existente na China.

fpRelativamente à acção dentro das quatro linhas, quão árduo foi transmitir os princípios de jogo aos atletas devido à barreira linguística? É difícil estabelecer uma ligação quando se tem apenas um tradutor como intermediário?

RM. As primeiras semanas foram muito duras, não só pela barreira linguística mas acima de tudo pela mentalidade.
O jogador chinês no geral, e dependendo do nível claro está, mas pensam que tudo o que fazem já é muito, quando comparando com a Europa se verifica que estão ainda aquém da qualidade e intensidade de treino aplicada, nomeadamente em Portugal que é a minha realidade. Através do gesto, do tom de voz, das imagens e acima de tudo de muita paciência e imaginação, tenho de encontrar caminhos que me façam superar, pois só assim o trabalho pode ter qualidade, eficiência e a mensagem que se pretende transmitir passa.

Foto: @Facebook Rui Mota Football Coach
Foto: @Facebook Rui Mota Football Coach

fpAcha que, agora numa fase adiantada dos playoffs de acesso à China League One, os seus jogadores já adquiriram uma identidade própria, futebolísticamente falando? A palavra sucesso pode ser considerada como um dado adquirido até ao momento?

RM. Quando num campeonato, todos os clubes estão de igual para igual, são todos poderosos, pretendem todos atingir o mesmo objetivo, o trabalho a ser realizado tem de ser mais preciso e com um detalhe ainda maior.
A equipa já tem seu modelo de jogo, e apesar de todas as guerras internas que fomos tendo, devido à tal mentalidade diferente, sentir que o objetivo de subida está a um passo, é lógico que nos satisfaz e independentemente do que se passe, sucesso é algo que já se pode associar ao trabalho realizado, que pretendemos que não passe apenas pela subida se o conseguirmos, mas elevando mais a fasquia querendo ser campeão em solo chinês logo na minha época de estreia!

fpPerante toda a sua estrutura profissional, poderemos ver, brevemente, o Sichuan Longfor na elite do futebol chinês?

RM. É complicado responder a esta pergunta pelo seguinte, praticamente todos os clubes chineses são recentes, não tem direção, mas sim um dono, um investidor, é prática corrente os clubes fecharem ou mudarem de cidade porque o investidor se chateou, ou cansou com uma determinada situação. Os adeptos quando os há, não são tidos em consideração, felizmente no Sichuan temos uma boa massa adepta, parecem vitorianos (risos), temos sempre uns 8 mil adeptos presentes, apoiam-nos incondicionalmente e acima de tudo por eles, queremos ter sucesso e almejamos bem mais para o clube mesmo que o futuro possa não passar por lá.

fpQual a sua opinião face ao forte investimento do país no futebol? Será a Super Liga Chinesa, nos próximos anos, um dos mais fortes campeonatos a nível mundial? Como vive a população em torno do desporto-rei?

RM. O presidente chinês pretende renovar e vitalizar todo o futebol, o que é certo é que nos últimos 3-4 anos o futebol na China evoluiu significativamente.
Entrar na Super Liga Chinesa é atualmente muito difícil, alguns treinadores já são de classe mundial, ainda há pouco tive a felicidade de estar e conversar com o Manuel Pellegrini que chegou recentemente, grandes nomes de jogadores e transferências avultadas são realizadas por cá, pelo que o caminho está traçado, se poderá ser um campeonato forte a nível mundial vamos a ver, o certo é que as pedras já foram lançadas.

fpA sua recente aventura na Seleção Chinesa sub-19 é um grande exemplo de como a dedicação, a perseverança e o trabalho recebem a sua recompensa. Agora que lida com algumas e hipotéticas estrelas, o que reserva o destino, num futuro próximo, ao futebol chinês? Terá a China capacidade para ombrear com outras Selecções em provas internacionais?

RM. Estar na seleção chinesa é ter o privilégio de trabalhar com o mais alto nível, infraestruturas, organização, competições.
Tem sido muito duro o caminho, cheguei à seleção, vamos avançar para o campeonato asiático no Bahrain 2016, pelo que o meu crescimento profissional tem vindo a aumentar significativamente. A China tem vindo a diminuir a distância que a separa de país fortes no futebol asiático, como o Japão, a Austrália, a Coreia, pelo que vamos ver qual o patamar em que se encontram os sub-19 neste momento e se num futuro próximo podem rivalizar com outras potências, ou se essa meta ainda está distante.

fpEm que medida é que esta experiência enriqueceu a sua formação pessoal/profissional?

RM. Como mencionei anteriormente, trabalhar com a seleção, significa trabalhar a nível mundial, realizar torneios contra seleções como a do México considerada a melhor do mundo neste escalão, ou participar num Asian Cup equivalente ao Europeu, é muito enriquecedor, torna-me ainda mais profissional e sem dúvida que me leva a querer aspirar a mais no futebol.

fpPor fim, tem algo mais que pretenda partilhar connosco?

RM. Deixar apenas uma mensagem a todos os que possam ler esta entrevista, independentemente da área em que estejam inseridos, queiram fazer acontecer na vossa vida, seja ela pessoal ou profissional, há quem me diga que sou um exemplo de vida, não me considero mais do que ninguém e também já tive momentos de desânimo também, contudo pensem positivo, procurem quem vos quer bem e lutem, lutem muito para serem felizes!

Grande abraço e o meu muito obrigado pelo vosso convite com votos de enorme sucesso para todos!!!

RM.

Foto: @Facebook Rui Mota Football Coach
Foto: @Facebook Rui Mota Football Coach


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS




Posts recentes



Newsletter


Categorias


newsletter