17 Out, 2017

Rui Carvoeira, o Professor de Gerações do Rugby

Francisco IsaacAgosto 23, 201617min0

Rui Carvoeira, o Professor de Gerações do Rugby

Francisco IsaacAgosto 23, 201617min0

Rui Carvoeira, seleccionador Nacional de rugby das camadas jovens, tem sido um dos “orientadores” das novas gerações do Mundo da oval em Portugal. Com uma medalha de bronze em 2016 e várias ideias para o futuro, Rui Carvoeira conversou com o Fair Play.

fpProfessor Rui Carvoeira está ligado ao rugby há quantos anos? Praticou a modalidade? Em caso positivo, em que clubes?

RC. Estou ligado há 37 anos. Comecei a praticar a modalidade aos 16, participando em alguns treinos no Belenenses mas de uma forma pouco comprometida, sem me federar, até porque praticava em simultâneo outros desportos.

A entrada na faculdade, ainda com a idade de júnior, coincidiu com a criação e filiação de uma equipa e a partir daí nunca mais parei, começando a levar a modalidade com o grau de seriedade que ela exige. Seguiu-se o Clube de Rugby S. Miguel. Depois vim viver para Coimbra e jogar na Associação Académica de Coimbra. Já na parte final da carreira ainda joguei um ano no Rugby Clube de Coimbra.

fpPorquê o rugby? O que é que o motivou a juntar-se a esta modalidade?

RC. Do ponto de vista desportivo a sua simplicidade, quer no gesto técnico da progressão individual com bola (correr e fintar sem restrições técnicas, evitando os adversários), quer na acessibilidade da finalização (a balizaé a largura do campo). No fundo, os factores de sucesso que estimulam a participação de quem se inicia numa modalidade colectiva.

Por outro lado aquilo que o desporto tem de mais rico: as pessoas. Senti de imediato que estava inserido em algo muito especial ao nível da identidade como grupo, e na facilidade em somar amigos, entre os companheiros de equipa, nos adversários, em todos os intervenientes do jogo.

fpO Professor está só dedicado à formação de jovens jogadores das selecções nacionais ou tem outro emprego para além desse? Qual é a sua formação?

RC. Sou Licenciado em Educação Física e Desporto pelo (antigo) Instituto Superior de Educação Física de Lisboa (actual FMH).

Sou professor de Educação Física do Quadro da Escola Secundária da Quinta da Flores, em Coimbra. Mas encontro-me requisitado na Federação Portuguesa de Rugby para as tarefas de Director Técnico Regional do Centro, formação de treinadores e nas 2 últimas épocas para acompanhamento das selecções jovens.

Não se trata propriamente de um emprego mas da dedicação profissional a tempo inteiro a uma causa que passa pela dinamização do rugby nas escolas, organização e desenvolvimento do rugby juvenil, apoio técnico aos clubes, formação de treinadores, identificação e seleção de talentos, preparação das seleções jovens no seu percurso para o alto rendimento.

Rui Carvoeira na 2ª fila do Lado esquerdo (Foto: Rui Sousa)
Rui Carvoeira na 2ª fila do Lado esquerdo (Foto: Rui Sousa)

fpComo tem visto a evolução do rugby português? Existem diferenças entre os jogadores da formação de hoje com os de há 10 anos atrás?

RC. Em relação ao talento e competência desportiva não vejo diferenças significativas. Existiam e irão continuar a existir jovens praticantes desta modalidade com condições invejáveis para o alto rendimento. A grande diferença que me parece estar a acontecer é (em minha opinião) na consistência do processo de identificação de talentos, construção e monitorização, que está a ser realizado na formação de jogadores nos clubes e nas selecções jovens. E isto está a começar a permitir uma profundidade de escolhas para os treinadores, isto é, estão a chegar mais frequentemente ao escalão sénior jogadores com respostas físicas, técnicas, tácticas e motivacionais que lhes permitem integrar de imediato as equipas de clube e selecção.

fpQual e como tem sido o papel dos clubes na formação de novos atletas e jovens para o rugby português?

RC. Tem sido um papel estrutural e insubstituível. São os clubes que captam, ensinam e fidelizam. São os clubes que lhes apresentam a cultura e os valores da modalidade. É nos clubes que verdadeiramente se operacionaliza a máxima o rugby é uma escola de vida.

E já tive oportunidade de publicamente o afirmar, nomeadamente no último europeu de sub-18, que os jogadores estão a chegar às selecções cada vez melhor preparados para as exigências do alto rendimento.

fpQue problemas ainda existem no seio do rugby de formação? E que soluções para o mesmo?

RC. Decorrente do meu acompanhamento permanente do rugby juvenil, em treino e encontros competitivos, identifico 3 situações que não me agradam totalmente.

A primeira é algum desrespeito pelas etapas de desenvolvimento do praticante, nomeadamente até aos sub-14. E quero com isto dizer que não se pode tratar o jovem praticante como um adulto em miniatura, em que se podem replicar nos seus treinos os modelos vividos nos escalões mais avançados, nomeadamente nos séniores. O jogo tem que ser dado a conhecer à dimensão afetiva das crianças e jovens, criando situações de aprendizagem ajustadas ao respetivo escalão etário e ao nível de desempenho, com uma comunicação adequada entre treinador/educador e o jovem praticante.

A segunda é o papel que a competição deve ter no desporto de formação, e não só no rugby. O que venho verificando é que se dá mais atenção ao como fazer com que a equipa ganhe do que ao processo de crescimento e desenvolvimento individual e coletivo. É a questão de escolher entre o sucesso imediato e a construção dos alicerces. Em minha opinião, quem for construindo com calma, quem se for preocupando com a forma como individual e coletivamente se aplicam os aspetos mais trabalhados nos treinos, e que faça da competição sobretudo um exame de aferição das aprendizagens e dos progressos alcançados, estará no futuro mais perto de ganhar e com mais frequência.

A terceira decorre da segunda e prende-se com a (des)igualdade de oportunidades. Nos treinos e jogos tende-se a dar mais tempo de prática aos bons em detrimento dos maus, quando devia ser exatamente o contrário ou, pelo menos, os estímulos e as oportunidades pudessem estar mais equilibradas ou ajustadas aos objetivos de desenvolvimento individual. O anterior selecionador de Inglaterra, Stuart Lencaster (cujas ideias muito aprecio) tem esta afirmação a principal missão do treinador de jovens é assegurar que consegue adaptar e desenvolver todos.

A formação desportiva tem de ser um processo abrangente e harmonioso de múltiplas valências, tendo sempre como foco o jogador, enquanto ser humano em desenvolvimento, e não como um recurso ao serviço dos adultos para atingir objetivos desportivos ou de outra natureza qualquer.

fpQual é o impacto que os estudos deveriam/devem ter na formação de um jogador? Há um incentivo grande nas suas selecções para os jovens não descurarem os estudos?

RC. Os estudos acompanham inevitavelmente o percurso de formação desportiva. O 2º ano de sub-18 (final dos escalões de formação) coincide com o 12º ano de escolaridade (final da escolaridade obrigatória e entrada no ensino superior). Portanto, as duas situações são indissociáveis. E só faz sentido falar-se em formação desportiva se estiverem igualmente associadas de forma equilibrada as dimensões escolar, familiar e de vida social.

A mensagem que tentamos passar aos jovens atletas é que serão tão melhores quanto conseguirem juntar ambição (fazer sempre melhor), disciplina (organização e método) e tempo útil (investir tempo no que é efectivamente essencial), em todas as dimensões da vida. E o que temos vindo a verificar cada vez mais (com pequenas excepções) é que os bons atletas também são bons estudantes e pessoas de grande carácter.

No meio do "rebuliço" (Foto: Página de Facebook de Rui Carvoeira)
No meio do “rebuliço” (Foto: Página de Facebook de Rui Carvoeira)

fpUma questão mais de gosto, qual é o tipo de rugby que mais gosta de ver? Que atributos mais gosta de ver num jogador das linhas atrasadas e nos avançados?

RC. Sou um defensor da descomplicação do jogo. Preconizo um jogo simples, baseado nos princípios e formas, onde coexistam com equilíbrio e eficácia as condutas de execução e as condutas de decisão.

No essencial gosto de um jogo dinâmico, de identificação da linha da vantagem e procura permanente do espaço livre, com várias opções/soluções ao portador da bola que garantam a continuidade das ações de acordo com as zonas do campo e canais de ataque. Tudo isto assente em 3 pilares fundamentais, domínio dos skills básicos, condição física e livre expressão das capacidades individuais ao serviço de uma ideia coletiva.

Tendo a afirmar que, com exceção das técnicas específicas associadas às fases de lançamento de jogo (formação ordenada e alinhamento), não devem existir diferenças nos atributos técnicos requeridos para os jogadores das linhas atrasadas e dos avançados. Uns e outros deverão desenvolver a CORAGEM, para aceitar o confronto e superar o contacto com o adversário, a INTELIGÊNCIA, para melhor compreender a lógica do jogo e ser capaz de optar convenientemente face às diferentes situações, e a POLIVALÊNCIA, para saber utilizar todas as técnicas adaptadas às situações de jogo.

fpAlgum jogador que tenha como exemplo a seguir para os jovens jogadores? E existiu/existe algum treinador que tome como um modelo?

RC. Tantos…

Correndo o risco de ser injusto e de estar a provocar alguma suscetibilidade, destaco dois:

O Joaquim Ferreira, do CDUP, um dos 3 mais internacionais da nossa história, atleta de eleição, capitão de clube e seleção. Um exemplo de olimpismo e resiliência, conjugando mérito desportivo, vida escolar e profissional e vida familiar, tudo isto vivendo a mais de 300 km dos centros de decisão.

O Adérito Esteves, pela sua humildade e educação, apesar da sua elevada competência desportiva, das qualidades físicas naturais de excelência para a prática desta modalidade e da expressão mediática internacional.

Entre os treinadores destaco 4 nomes, de modalidades fora do rugby,

Fábio Capello no futebol, John Wooden no basquetebol, Bernardo Resende no voleibol e Mário Moniz Pereira no atletismo,

que me influenciaram pelas suas ideias muito particulares sobre o treino e competição, pelo estilo de liderança, pela crença nos seus objetivos desportivos, mas principalmente porque em comum acreditam que o treino desportivo não se resume a um mero exercício de instrução técnico-tática, que é fundamentalmente um processo de construção humana assente nas especificidades da modalidade.

Correndo novamente o risco de estar a ser injusto para outros, destaco os meus colegas de trabalho na FPR, Prof. Tomaz Morais e Prof. Henrique Garcia, pela simplicidade de processos, clareza de ideias e capacidade de trabalho, como treinadores que têm marcado positivamente a minha forma de estar na modalidade.

Rui Carvoeira (Foto: Fernando Soares)
Rui Carvoeira (Foto: Fernando Soares)

fpEstá o rugby em Portugal a regressar ao “poder” das elites ou estamos a caminhar para uma modalidade feita por todos e para todos?

RC. Acho que a modalidade sempre foi das elites e assim deverá continuar. Não de uma elite de nascimento ou fortuna, mas de coração e espírito, de robustez física e mental, de princípios e valores formativos. É aqui que me revejo.

Mas percebo o alcance da questão. Não consigo claramente fazer um ponto de situação mas objetivamente poderei afirmar que a modalidade será tanto mais forte quanto maior for a sua abrangência cultural. Quando for possível ser conhecida e praticada por todo o tipo de públicos. No essencial, interessa muito mais para onde queremos ir do que de onde viemos.

fpEm Março de 2016 tivemos a oportunidade de seguir a nossa selecção sub-18 para aquilo que foi uma conquista histórica… um 3º lugar no Campeonato da Europa de rugby. Quais foram as razões para o sucesso?

RC. Aponto sempre 3 razões para quando as coisas correm bem, e por grau de importância inversa à que vou mencionar:

  • Competência, motivação e profissionalismo do staff (administração, direção de equipa, treinadores, departamento médico); acrescento aqui os treinadores dos respetivos clubes e os treinadores que desde os sub-16 os foram orientando e estimulando nos diversos estágios nacionais e regionais.
  • Talento e competência desportiva dos jogadores;
  • Seriedade, caráter, motivação, empenhamento, superação e união do grupo de jogadores no processo de preparação e de representação do país na competição.

Não posso deixar de referir no entanto que entendemos a participação no Campeonato da Europa como uma etapa no percurso para o alto rendimento. Uma etapa muito importante, talvez a mais relevante e a que produz indicadores mais fidedignos, em que procuramos atingir sempre patamares de resposta competitiva cada vez mais elevados, mas que não se encerra num resultado, seja ele bom ou mau.

É neste sentido que já iniciámos na época que terminou o processo de preparação com a geração de 1999 (que representará o país no próximo Campeonato) e o processo de identificação e diagnóstico técnico e de entendimento geral do jogo com a geração de 2000.

Com um olhar atento (Foto: Fernando Soares)
Com um olhar atento (Foto: Fernando Soares)

fpSentiu uma grande empatia e comunhão entre todos os jogadores? O grupo tem futuro para os anos que aí vêm?

RC. Sentimos e sentiu-se, creio. E deve ser entendido com um sinal de sucesso.

Em minha opinião existem 2 fatores (principais) que contribuem para isso. O facto de trabalharmos sempre com um grupo alargado de jogadores (aproximadamente 45), com igualdade de oportunidades e estimulação, que só se vai reduzindo já bem próximo da competição, vai retirando (em parte) o foco do processo de seleção para o colocar no processo de treino, melhoria de competências e integração no grupo. Por outro lado, a metodologia de trabalho tem em conta não apenas a dimensão técnico-tática mas o jogador e o seu desenvolvimento como centro do processo de transformação, respeitando e compreendendo as suas evoluções e retrocessos.

Trabalhamos para o jogador, e isto tem que ser claro e inegociável!

Este grupo (tal como o anterior e os próximos) vai permitir um futuro melhor para o rugby português. É a minha convicção. Mas alerto para que o processo evolutivo não termina aqui e continuo a identificar as 3 áreas deficitárias que, em minha opinião, poderão consolidar a qualidade já apresentada até à 1ª internacionalização sénior e à consistência como jogador sénior de clube:

  • Desenvolvimento físico individual (treino muscular, nutrição, hidratação, suplementação e repouso);
  • Consolidação das técnicas específicas por posição;
  • Existência de momentos regulares de competição com equipas/seleções de nível superior.

fpPara um jovem treinador, que conselho daria para o início de carreira?

RC. Ver, ouvir, registar, depois ir sintetizando tudo num conceito próprio, experimentá-lo e melhorá-lo permanentemente.

Não copiar!

Ter ambição, disciplina e fazer de cada treino uma oportunidade de provocar transformações positivas nos jogadores.

Com aquilo que sabe, procurar fazer dos jogadores melhores jogadores e das equipas melhores equipas, ao invés de andar permanentemente a fazer exposiçõesde auto sapiência aos jogadores.

fpO rugby como escola de vida… concorda com esta expressão? Em Portugal temos feito por manter essa ideia?

RC. Não posso discordar dessa expressão. O que o jogo nos ensina tem muitas semelhanças com o que encontramos na vida diária. O jogo é duro, porque foi desenvolvido assim e é assim que gostamos dele, e é com talento e competência individual mas principalmente com o apoio e a entreajuda de quem nos é próximo que poderemos ultrapassar os problemas que eles (o jogo e a vida) nos colocam.

Se é assim para quem o pratica não poderá ser diferente para que o administra, coordena, treina e arbitra.

Em Portugal no entanto, penso que temos apregoado essa ideia, mais pela palavra do que pelo exemplo.

O Homem do Leme (Foto: João Peleteiro)
O Homem do Leme (Foto: João Peleteiro)


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