20 Nov, 2017

Rafael Gil. “Faz-nos apenas falta mais experiência competitiva.”

Rodrigo ZaccaMaio 28, 201711min0

Rafael Gil. “Faz-nos apenas falta mais experiência competitiva.”

Rodrigo ZaccaMaio 28, 201711min0

Na terceira entrevista da série com nadadores de águas abertas convidamos o atual Tri-Campeão Nacional dos 10k Rafael Gil (Sport Lisboa e Benfica), que é treinado pelo Técnico Mário Madeira. Ele conversou com Rodrigo Zacca, nosso colunista de águas abertas, e contou um pouco sobre seu passado, presente e futuro no desporto.

fpRafael, o que leva um recordista nacional absoluto de natação pura à decisão de apostar na vertente de águas abertas?

RG: Antes de ser recordista nacional absoluto de NP sempre fui um “apaixonado” desta disciplina. Tudo começou com provas do circuito de mar do Algarve durante as férias. Desde sempre que adorei praticar AA. O espírito das AA e único! Os nadadores criam ligações, como família. Esta vertente tem muito mais a haver comigo. Gosto de me sentir livre a nadar, em sítios incríveis. Se me perguntassem há um ano atrás qual preferia, respondia que eram diferentes, mas que adorava as duas. Neste momento, esta é a minha disciplina, amo o que faço.

Rafael Gil, atual Tricampeão Nacional absoluto nos 10 Km | Foto: Arquivo Pessoal

fp: É possível conciliar a vertente de natação pura com as águas abertas, mantendo o nível competitivo?

RG: Todos os nadadores de AA têm que saber nadar bem em piscina. A época de AA é curta e torna-se difícil fazer apenas mar. A piscina é fundamental. O nível competitivo tem que ser forte em ambos. Como é óbvio, há alturas de piscina que servem apenas para treino. Nós procuramos ser sempre competitivos e fazer as melhores marcas pessoais mas temos que optar pela melhor preparação para a nossa disciplina. Os modelos de competição moldam os modelos de preparação.

fp: Como é ser nadador do Benfica? Estrutura, Treinos, Grupo…

RG: É tudo diferente. É o 4º clube que represento, depois de Clube MonteGes, Naval Amorense e SFUAP. A nível de estrutura acho que num ano não consegui perceber bem. É enorme. O SLB estruturalmente é gigante. É um clube que oferece condições perfeitas para o alto-rendimento.

A nível de treino, estou super satisfeito. Sinto falta de muito volume que fazia anos passados, mas não tenho tempo para o fazer. Cometi um erro ao pensar que conseguia conciliar a faculdade com os treinos, mas é muito difícil. Matriculei-me em todas as cadeiras possíveis, o que acabou por causar menos tempo para treinar.

Para o ano certamente será diferente e terei que fazer escolhas diferentes, mais equilibradas. O meu grupo de treino é óptimo. Tenho duas pessoas que me ajudam imenso no treino (João Mota Correia e João Duarte Santos). São uma mais valia para o meu trabalho e certamente os resultados que tenho obtido, devo-lhes pela ajuda. A equipa técnica está cheia de pessoas que adorei conhecer. Muito capazes e profissionais. Estou muito feliz no SLB e farei aqui o meu ciclo olímpico para 2020.

Foto: Arquivo Pessoal

fp: É conhecido que o Benfica está a desenvolver um ambicioso projecto nas modalidades, para este ciclo olímpico. Esse projecto passa pelas águas abertas?

RG: O SLB até ao final do ciclo olímpico, vai trazer novidades incríveis. O projecto 2020 é mesmo muito ambicioso, assim como os atletas que integram este projecto. Neste momento eu sou o único nadador no projecto que faz águas abertas. Espero com o tempo conseguir “arrastar” mais nadadores comigo. Mas com toda a certeza, a aposta do projecto passa pelas AA.

fp: Em relação ao mundial da Hungria, qual é o objetivo?

RG: O objetivo é Setúbal. A presença no Mundial Ainda não é certa. Depende da taça do mundo. Caso consiga o apuramento, a meta é bater a minha classificação pessoal, 41º feito em Kazan2015. Espero conseguir entrar no TOP30 nos 10km.

Foto: Arquivo Pessoal

fp: Vamos falar um pouco de treino. Qual série costumas realizar como referência para verificar seu estado de treinamento?

RG: Há várias séries que faço para “testar”. Muito diferentes do ano passado mas 2x(2×400+4×200+8×100) ou 16x(100 + 2×50) são as que mais tento baixar de mês para mês. Os registos são cada vez melhor.

fp: De maneira geral, como é organizado o teu treino em seco visando a performance em águas abertas?

RG: Neste momento faço ginásio (máquinas) 2/3x semana + 3x treino funcional (CrossFit/CORE). Nunca estive tão forte no treino seco como estou neste momento. Tento fazer treino específico de águas abertas em mar 2x semana. Para além disto, faço nado amarrado 2x semana durante 1 hora.

fp: Como organizas a tua alimentação e hidratação diária?

RG: Há dias que são complicados com a alimentação. Faço refeições ricas em Carbohidratos (cerca de 40% da ingestão diária). Tenho experimentado vários métodos, varias dietas, vários tipos de refeição. A que notei uma diferença enorme e que controlei muito bem foi a Super Compensação de carbohidratos. 3 dias antes da competição principal, subo aquele valor de 40% para 70%. As minhas reservas tornam-se maiores. O que para 10km me ajuda bastante. Hidratação é muito fácil. Eu bebo muita água diariamente. Quer no treino quer no dia a dia. Uma garrafa de 1.5l de água fresca, faz parte do meu dia.

fp: Quem são os nadadores e nadadoras do futuro das águas abertas de Portugal? Alguma aposta?

RG: Há grandes nadadores que vão dando os seus primeiros grandes passos. Admiro o Diogo Marques do Cantanhede. Acho que ele tem o perfil para nadador de AA. Gosto do trabalho dele, gosto da forma como ele pratica a disciplina. Tem muita margem de progressão e um futuro brilhante. Espero poder vir a partilhar grandes momentos com ele. Vejo-me certamente no futuro das AA com mais duas meninas, as duas referências nacionais. (Vânia Neves e Angélica André). Tiago Campos começa a dar uns passos interessantes e o futuro vai passar por ele também.

fpÉs sem dúvida uma referência dentro e fora de água para estes jovens. Como trabalhas isto na tua rotina diária?

RG: Eu trabalho para ser uma referencia. Assim como já tive as minhas e sou o que sou hoje devido a essas pessoas. Arseniy, Vasco Gaspar e Mario Bonança ensinaram-me muito desta disciplina. Devo-lhes muito tudo o que conquistei até hoje. Eles passaram-me o legado das AA, assim como eu espero vir um dia a passar. As AA transmite-nos energias positivas. Espero conseguir passar essas energias e ensinamentos para dentro da disciplina e do meu clube sempre. Todos os nadadores nacionais de águas abertas vêm-se como família. Eu tento passar para o clube.

Foto: Arquivo Pessoal

fpNa tua opinião, como vês a atenção dedicada por clubes e treinadores portugueses para as águas abertas?

RG: Vejo poucos clubes a investir nas AA, também por falta de atletas com interesse em experimentar a disciplina. Poucos clubes = poucos treinadores. Há 3 grandes potências nacionais nas AA que realmente apostam. (Cantanhede, Fluvial Portuense e SFUAP). É difícil conseguir exposição Social nas AA. Em Portugal temos grandes técnicos de AA, com vontade e motivação de saber mais e procurar mais. Mas falta muito para se tornar uma disciplina respeitada e valorizada.

fp: Mesmo sem ter conquistado a vaga para RIO2016, o que funcionou durante a tua preparação? E o que precisa funcionar para carimbar o passaporte para Tokyo2020?

RG: Houve muitas coisas que funcionaram bem, mas também houve coisas que não funcionaram tão bem. O passaporte para Tokyo pode ser garantido ao melhorar tudo o que funcionou menos bem. Tenho muito ainda que aprender, evoluir e treinar. As AA estão a evoluir muito. Preciso de mais experiência.

fp: Conta-nos um pouco de como é treinar em alto nível, estudar e se for o caso, trabalhar… Tens patrocinadores e/ou apoios?

RG: É difícil. O ano passado foi fácil treinar. Eu apenas treinava. Parei de estudar durante dois anos para tentar os jogos olímpicos. Este ano está a ser muito difícil. Estudar e treinar é compatível. Temos o exemplo do Vasco Gaspar. Dos melhores internacionais de sempre e um médico com um futuro brilhante. Apenas o tempo é diferente. Em vez de 4 horas para treinar só tenho 2. Faz toda a diferença na preparação. Tenho um patrocinador no momento, a MyProtein. Sem este apoio não conseguia estar a competir ao nível que estou. A MyProtein tem garantido tudo o que preciso a nível de nutrição e suplementação. É sem duvida outra equipa que adoro representar e de que tenho um orgulho imenso de poder fazer parte.

fp: O que é necessário para Portugal se tornar uma referência mundial nas águas abertas?

RG: Muita coisa tem que mudar nas AA. Mas como dizia uma grande pessoa com quem tive o prazer de treinar, o David Ferro, “há dois anos nadávamos no fim do grupo. O ano passado nadávamos no meio da tabela. Este ano lutamos no segundo grupo. Para o ano, quem sabe, podemos nadar nos primeiros lugares”. Nós temos as condições perfeitas para avançar na corrida. Técnicos excelentes. Faz-nos apenas falta mais experiência competitiva. Nós fazemos 3-5 competições internacionais durante uma época. Outros países fazem o dobro ou o triplo. A nível de experiência conta muito. Mas a evolução é notória. Cada vez nadamos mais rápido, em distâncias maiores, com os melhores do mundo.

Foto: Arquivo Pessoal

fp: Há Fair Play nas águas abertas?

RG: Claro que sim! As águas abertas é uma disciplina em que o contacto físico é permitido. Mas não é por isso que tem que haver medo. É normal o contacto físico. Para além disto, é uma disciplina muito tática e estratégica. Todos os nadadores fazem o possível para assegurar e fazer valer a tática escolhida. O FairPlay existe. Mais presente em alguns nadadores do que em outros. Mas sem duvida que é uma disciplina que devia ter mais exposição. É um desporto bonito, em sítios lindos. E por todas estas razões que eu amo AA e cada vez faz mais parte de mim.

Muito obrigado e votos de sucesso Rafael!

Twitter oficial Rafael Gil


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS




Posts recentes



Newsletter


Categorias


newsletter