20 Out, 2017

Pedro Pinotes. “Quero ir ao mundial, também nas águas abertas”

João BastosAbril 10, 201715min0

Pedro Pinotes. “Quero ir ao mundial, também nas águas abertas”

João BastosAbril 10, 201715min0

Durante os campeonatos nacionais de juvenis, juniores e absolutos, o Fair Play entrevistou o capitão do Sporting e da selecção angolana, Pedro Pinotes que nos falou como tem sido a compatibilização da carreira desportiva com a recente carreira profissional e os planos para o futuro próximo

fp: Pedro, obrigado por concederes esta entrevista ao Fair Play. Acabaste de bater mais um record nacional pela estafeta do Sporting nos 4×200 metros livres. Tu tens a particularidade de ser recordista nacional de dois países em simultâneo.

PP. Sim, é verdade. Os meus pais são portugueses mas eu nasci em Angola e, por isso, decidi representar a selecção angolana, mas as minhas origens são portuguesas. É um prazer enorme poder bater recordes nacionais por dois países.

Este foi o meu quinto record nacional absoluto português, aos 27 anos é um marco excelente, e espero que ainda venham mais. É cada vez mais difícil mas irei lutar pelos recordes e pelos meus objectivos.

fp: De Angola a Portugal o caminho não foi directo. Como foi o teu percurso de vida até vires parar ao Sporting?

PP. Até aos 3 anos estive em Angola, daí fui para Moçambique onde estive até aos 7 e daí vim para o Alentejo, a terra dos meus pais.

Comecei no Aminata aos 11 anos, passados três meses já estava a fazer competição. Era um nadador razoável, conseguia apurar-me para os nacionais, não mais do que isso. Até que aos 18 anos cheguei ao Sporting.

fp: Em representação de Angola, já participaste em 2 Jogos Olímpicos, 2 Jogos Africanos e 9 campeonatos do mundo. Para além disso, és detentor de 22 recordes nacionais angolanos. De todo este currículo, qual é o momento que consideras mais marcante?

PP. As estreias são sempre especiais. Guardo muitas e boas recordações do meu primeiro campeonato do mundo em Manchester 2008; os meus primeiros Jogos Olímpicos foram um sonho…

Mas o melhor momento da minha carreira terá sido há dois anos, nos Jogos Africanos, quando consegui a medalha de prata. Era um objectivo que perseguia há muito. Já tinha conseguido medalhas de bronze em campeonatos africanos, mas os Jogos Africanos são maiores porque envolvem todas as modalidades e consegui o meu record pessoal [nos 400 metros estilos].

Foto: Facebook Pedro Pinotes

fp: Qual é o panorama actual da natação angolana?

PP. Aos poucos, estamos a ir lá.

As grandes melhorias são sobretudo ao nível dos atletas que estão fora do país, e isso preocupa-me um bocado. A evolução deveria dar-se mais a nível interno, era sinal que as condições estavam a ser criadas e que no país estava a haver evolução.

Ainda há um longo trabalho a fazer ao nível das infra-estruturas, dos clubes, da formação de técnicos…a base ainda é pequena.

Mas temos os nadadores a nadar fora do país. Nos últimos 2/3 anos têm havido muitos nadadores a apostar numa carreira fora de Angola, onde encontram outras condições e aos poucos penso que vamos ter uma nova leva de nadadores que, espero, que de um certo modo me substitua e que a natação angolana continue a crescer.

fp: A projecção que dás à natação angolana também ajuda a esse desenvolvimento?

PP. Sim, gostaria de deixar um legado à natação angolana. É também isso que me motiva a continuar a nadar e a construir algo cada vez melhor que possa dar como referências às gerações seguintes.

Por isso, quero estar presente nas competições, dar o meu exemplo, acompanhar os jovens que estão agora a começar e incentivá-los a chegar cada vez mais longe, a um nível superior ao meu!

Espero estar a abrir um caminho para que outros cheguem mais longe.

fp: E por cá, como é ser hexacampeão nacional de clubes?

PP. Se há 10 anos, quando eu cheguei ao Sporting, me dissessem que 10 anos depois seríamos hexacampeões nacionais, eu não acreditava.

Quando entrei no Sporting o clube estava numa fase de renovação. Os poucos nadadores mais velhos estavam de saída, eu era dos poucos que frequentava o ensino universitário. Não digo que estivéssemos a começar do zero porque tínhamos muito boas referências, inclusivé da equipa feminina que era, nessa fase, também hexacampeã nacional e nós tínhamos esse objectivo.

Quando chegava aos treinos e via o placard com os seis títulos femininos do Sporting, pensava que um dia a equipa masculina também lá tinha de chegar.

Andámos pela 2ª divisão, tivemos alguns altos e baixos, mas aos poucos a equipa foi-se formando, até que chegou o primeiro título.

Claro que estamos na posição onde as outras equipas querem chegar, mas não nos temos deixado apanhar por eles. A equipa tem crescido e nos últimos dois anos, melhoramos imenso e neste momento temos uma equipa de sonho!

Foto: Luís Filipe Nunes

fp: Como já referiste, nesses seis anos tiveram sempre grandes adversários. O segredo do Sporting foi saber ser sempre mais equipa?

PP. Sem dúvida. Acredito que temos um espírito de equipa mais consolidado do que os outros clubes que se têm vindo a formar. 

Nestes seis anos tivemos equipas diferentes a lutar connosco pelo primeiro lugar: começamos com a Amadora, depois foi o FC Porto, depois o Estrelas e agora o Benfica. Todas elas tiveram e têm grandes argumentos para nos ganhar, mas nós felizmente temos conseguido sobreviver [risos], também porque temos conseguido ser cada vez mais competitivos.

Porém, tenho que lamentar que com a equipa que temos, não consigamos dar a todos as condições ideais de treino. O objectivo tem de ser criar mais condições para que a equipa continue a crescer.

fp: De alguma forma já me respondeste à próxima pergunta, mas este não é o resultado isolado de uma geração muito talentosa. Já há jovens nadadores a serem preparados para substituir os mais velhos?

PP. Este é um processo muito continuado. Os mais velhos mantém-se para dar incentivo aos mais novos. 

Hoje, ser estudante universitário e nadar no Sporting já é uma situação perfeitamente normal e todos gerem isso de uma maneira muito positiva com o alto rendimento.

fp: Esse já é um cenário muito diferente do que encontraste há 10 anos.

PP. Sem dúvida. É esse o nosso contributo. Meu, do Mário Bonança e dos outros que foram passando…

fp: És capitão de equipa de Sporting e recebeste recentemente o Prémio “Rugido de Leão”, um prémio que, para além da performance desportiva, premeia o sportinguismo. Que importância teve esta distinção?

PP. A minha família é sportinguista, eu sou um grande sportinguista e foi um grande orgulho receber esta distinção da parte do meu clube, de me sentir uma referência dentro do meu clube e de ver o reconhecimento do meu trabalho.

É um incentivo para continuar a ser essa referência durante mais anos.

Foto: Facebook Pedro Pinotes

fp: Ainda te vamos ver como dirigente do Sporting ou da Federação Angolana de Natação?

PP. Quem sabe? Eu estou cá para dar o meu contributo. Para já dou-o como atleta, mas se virem que eu sou uma mais valia para a natação do Sporting ou para o desporto em Angola, estou cá para isso. 

Continuo a aprender e cada dia tento ser melhor para cada vez dar mais pela equipa e pela selecção que represento.

fp: Foste nomeado capitão de equipa muito pouco tempo depois de chegar ao Sporting, não foi?

PP. Sim, passado um ano. Lá está, fruto da renovação que falei anteriormente, eu era dos mais velhos e isso levou-me a ter a responsabilidade de ser capitão de equipa logo no meu segundo ano de Sporting.

Isso fez-me crescer, fez-me ter responsabilidade, fez-me perceber que para além da minha prestação individual, eu tinha de dar esse contributo à equipa e pela equipa, ajudando os meus colegas dentro e fora da piscina.

fp: Voltando às tuas conquistas pessoais, no Rio participaste nos teus segundos JO. A representar Angola, com uma relação muito próxima da selecção portuguesa e num país que fala português. Sentiste-te a nadar em casa?

PP. Sim,claro. O Brasil tem tanta ou mais ligação a Portugal como Angola, são países irmãos. 

Sempre que [os brasileiros] nos ouviam a falar português as portas abriam-se e era como se fôssemos da casa. Não havia quaisquer limitações e isso fez-nos sentir muito bem.

fp: Ainda para mais, nadaste logo no primeiro dia.

PP. No primeiro dia, na primeira prova e na primeira série [risos].

Desta vez fiz questão de ir à cerimónia de abertura. É sempre um momento marcante para quem participa nos Jogos Olímpicos. Em Londres preferi não ir por ser muito próximo da prova, mas no Rio achei que tinha de ir e partilhar ainda mais do espírito olímpico e isso acabou por me dar mais motivação para a minha prova.

São momentos que ficam para a vida. Nunca sabemos se lá estaremos de novo e por isso fiquei muito contente de lá ter ido.

fp: E este ano vamos ver-te nos teus décimos mundiais. Quais são os objectivos?

PP. Ainda não estão bem definidos. Em primeiro lugar, tinha de me apurar. Consegui fazer aqui [nos nacionais de Coimbra] o mínimo A aos 200 mariposa, o que me deu muita força para estes quatro meses, mas eu há um ano que exerço a profissão de engenheiro civil e tem sido uma etapa ainda mais difícil de conciliar, mas acho que estou num bom caminho.

Ainda não me quero focar muito nos mundiais porque depende como corre o trabalho até lá, mas gostava muito de me estrear nas águas abertas, uma vertente que eu também gosto muito e nos últimos dois anos coloquei um pouco de parte, mas quem sabe se agora posso voltar a dedicar-me, para além da piscina, às águas abertas.

fp: E como é que consegues conciliar a tua carreira desportiva com a carreira profissional?

PP. É um pouco difícil, tem de ser com muita vontade. Eu quero trabalhar bem, quero ser um bom engenheiro, e ao mesmo tempo quero continuar a ser um bom nadador e a única maneira de o fazer é esforçar-me todos os dias para fazer as duas coisas.

Neste momento treino 6/7 vezes por semana, anteriormente treinava 10. Reduzi o meu nível de treino, uma vez que trabalho 8/9 horas por dia.

Tenho de fazer uma gestão muito criteriosa do meu dia-a-dia. Dá para treinar, trabalhar e pouco mais. Mesmo em casa não dá para fazer muita coisa, só mesmo para descansar porque no dia seguinte acordo cedo para ir para o treino.

Com ambição é possível. Eu estou a mostrar a mim mesmo que é possível, porque nem eu acreditava que podia conciliar os dois mundos e continuar a competir a alto nível.

fp: Relativamente às águas abertas, e tendo em conta a hipótese de tentares os mundiais, vamos ver-te mais vezes no circuito nacional, este ano?

PP. Ainda não consigo assumir, mas vou fazer por isso. Sempre gostei das águas abertas, nas minhas férias sempre fiz provas de águas abertas e espero que, depois de 2 anos mais afastado, volte a competir com regularidade nessa vertente.

Procurarei nos fins-de-semana trabalhar um pouco na adaptação da piscina às águas abertas e um dos meus objectivos é nadar os 10 km, coisa que nunca fiz. Se correr bem, quero ir ao mundial e cumprir mais um objectivo de carreira.

Muitas vezes também aproveito a complementaridade do calendário da piscina com as águas abertas para me preparar para as provas de piscina. No Sporting fazemos treinos vocacionados para a longa distância e comecei a aproveitar para as travessias.

Durante alguns anos fiz provas de 400 e 1500 metros, também para me servir de base para as minhas melhores provas que são provas muito exigentes, como os 200 mariposa ou os 400 estilos.

Como comecei a nadar tarde, não tenho grande técnica, e a base dos meus resultados são o trabalho e o treino e essas provas ajudam-me bastante.

fp: E mais a longo prazo. Já pensas em Tóquio?

PP. Isso é um objectivo que eu nem posso equacionar, porque se não os meus pais ficam muito chateados comigo, uma vez que eles querem que eu passe mais tempo com eles [risos].

Vamos aos poucos. Mas como disse, depois do Rio iria-me focar muito no meu trabalho porque aos 26 anos era esse o foco que tencionava e que tinha de manter.

Mas tenho vindo a surpreender-me com o facto de estar a conseguir conciliar com a natação. Se tudo correr bem, vou fazer uns mundiais competitivos, mas são etapas que se têm de superar, uma de cada vez.

Se tudo correr bem, daqui a três anos, se tiver a disponibilidade e a vontade, estarei cá para tentar estar nos meus terceiros Jogos.

fp: Estamos a terminar e faço-te a pergunta da praxe: Há Fair Play na natação?

PP. A natação é uma família. As características da modalidade propiciam que assim seja, é um desporto muito isolado a nível de treino e quando estamos a nadar estamos só connosco. Isso faz com que quem está ao nosso lado seja quem melhor nos conhece e num mundo um bocado isolado há, ao mesmo tempo, um espírito de partilha e um espírito de amizade muito grande.

Isso leva a que muitas vezes ponhamos os objectivos colectivos à frente dos nossos objectivos pessoais e quem está neste meio sente-se bem aqui.

Já agora deixo uma mensagem aos mais novos, para que olhem para os bons exemplos e que, acima de tudo, aproveitem a natação para fazer amigos. A natação é um desporto individual, mas se não for o colectivo não se atingem os objectivos pessoais.

Se não for o Fair Play e a amizade não se conseguem bons resultados.

Muito obrigado, Pedro e sucesso para o futuro!

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