14 Dez, 2017

Patrick de Carvalho, “A palavra ‘impossível’ não faz parte do dicionário da equipa que tenho a honra de liderar.”

Francisco IsaacJaneiro 23, 201715min0

Patrick de Carvalho, “A palavra ‘impossível’ não faz parte do dicionário da equipa que tenho a honra de liderar.”

Francisco IsaacJaneiro 23, 201715min0

Patrick Morais de Carvalho, o Presidente do Clube Futebol “Os Belenenses”, abriu o “jogo” com o Fair Play e falou da sua Paixão pelo Clube da Cruz de Cristo, dos ídolos do Passado, da presidência e do futuro do Belenenses. Uma entrevista exclusiva do Fair Play

fp: Presidente Patrick Morais de Carvalho, ao fim de três anos como máximo representante do Clube Futebol “Os Belenenses”, qual é o balanço?

PMC: Apesar das muitas dificuldades encontradas, o balanço é muito positivo e a maior parte daquilo que propusemos aos sócios no final de 2014 foi concretizado ou está em desenvolvimento acelerado. Recordo em linhas gerais que o PIP foi finalmente aprovado na Câmara Municipal de Lisboa por unanimidade, o que permite colocar em marcha a requalificação de todo o complexo do Restelo; que o Belenenses regressou às Salésias num processo que pretende um contínuo melhoramento daquele espaço que – recordo – se encontrava há décadas ao abandono; que hoje o Clube tem tudo em dia para com o Estado e os seus empregados e colaboradores, além de cumprir escrupulosamente com o PER; que conseguimos assegurar a manutenção da sala de Bingo, algo que quase todos davam como perdido; que lançámos a BlueBox que tem vindo a permitir um aumento do numero de sócios concedendo-lhes vantagens efectivas junto de várias empresas parceiras do Clube; que dinamizámos a Loja Azul, a Comunicação e as relações com os nossos Núcleos e Filiais, alguns dos quais há anos que não tinham notícia do Belenenses… e é com muita alegria que verificamos que o futebol de formação do Belenenses é hoje uma reconhecida referência para todo o país desportivo, para além da aposta que vimos fazendo nas modalidades, procurando aumentar os recursos disponibilizados por forma a assegurar melhores resultados desportivos mas sempre de uma forma sustentada.

fp: Sempre foi um Belenenses? Quando é que começou esta paixão pelo clube do Restelo?

PMC: Eu cresci na cidade do Porto, longe do Restelo e no seio de uma família maioritariamente portista pelo que não me é muito fácil precisar com rigor o início desta paixão. Sei que o Paco Gonzalez chegou ao Belenenses quando eu tinha 6 anos de idade e já frequentava a escola primária e que rapidamente se tornou no meu ídolo de infância, era um jogador fabuloso de que sempre gostei muito e que também era muito apreciado pelo meu avô. O Paco foi o click para eu ser Belenenses e agora que privo muitas vezes com ele e vejo o seu carácter e a sua simplicidade tenho a certeza de que não podia ter tido melhor ídolo de infância.

fp: Recorda-se de algum jogo de futebol ou de outra modalidade, que lhe tenha marcado na sua juventude?

PMC: Claro, tantos… aquele que mais me está marcado na memória terá sido um Sesimbra-Belenenses que marcou o regresso do Belenenses ao seu lugar natural após a primeira descida de divisão do Clube. Não vi esse jogo, mas acompanhei pela rádio vibrando como se lá tivesse estado. Ao vivo, talvez referisse as duas finais da Taça de Portugal dos anos 80, ambas contra o Benfica, em que perdemos a primeira mas ganhámos a segunda com aquele pontapé fabuloso do Juanico de que todos os belenenses ainda hoje se lembram e a final da Taça de Portugal de 2007 que assisti com o meu filho mais novo ao colo debaixo de chuva ambos embrulhados nos plásticos da Fúria Azul, perdemos esse jogo com aquele golo do Liedson “mesmo ao cair do pano” mas foi uma tarde memorável em que o Vítor Domingos levou um porco no espeto e fizemos um piquenique monumental no Jamor.

Patrick de Carvalho com as Lendas do Restelo (Foto: CFB)

fp: Marcou presença na Final da Taça de Portugal em 1988/1989? Acha possível termos o Belenenses a regressar a uma final nos próximos anos?

PMC: Sim, como referi antes. Mas recordo que, como também já disse, depois disso voltámos ao Jamor no consulado do presidente Cabral Ferreira em 2007. O Belenenses é demasiado grande para que não ambicione esses momentos, é evidente que em breve pode e deve voltar ao Jamor. Espero que ainda connosco, quando o Clube resgatar para o seu seio o futebol profissional e apostar numa política desportiva com lógica para o seu futebol.

fp: Maior símbolo do CF “Os Belenenses” em toda a sua História? E nos últimos 30 anos?

PMC: É tão difícil quanto injusto escolher um nome. Artur José Pereira desde logo e por razões óbvias, mas também as célebres Torres de Belém, o Matateu e o Vicente, Acácio Rosa, Francisco Mega e todos quantos deram muito do seu tempo ao longo dos anos em funções directivas e nas mais diversas modaliddaes. Nos últimos 30 anos, o Mladenov marcou muito a minha geração, bem como os elementos das equipas de 1990 e de 2007.

fp: Voltando ao presente, porque é que sentiu a “necessidade” para pegar no “leme” do CF “Os Belenenses”?

PMC: Em 2013 comecei a sentir que o Belenenses estava a precipitar-se para um precipício muito perigoso, que poderia levar à hipoteca dos seus terrenos e à entrega a terceiros de todas as suas actividades. Em 2014 essa convicção reforçou-se e felizmente avançámos, foi possível assim travar aquele rumo no qual não nos revíamos.

fp: Qual é o futuro do rugby, andebol, futsal e restantes modalidades no Universo do Belenenses? Há um apoio sério e forte no desenvolvimento dessas secções?

PMC: Ao contrário do que alguns pensam e dizem, o Belenenses apoia hoje todas as suas modalidades. Naturalmente, os recursos são por definição limitados e não nos é possível apoiar todas as equipas com o mesmo nível de recursos. Pensamos que o caminho de uma aposta firme na formação é relevante – os resultados do rugby e do futsal, por exemplo, falam por si quanto a isso – e acreditamos que com a política que levamos a cabo será possível aumentar todos os anos os apoios e os orçamentos desportivos, mas isso não é algo que se consiga de um dia para o outro. Por outro lado, todos sabemos que há modalidades que por razões históricas, de palmarés, de visibilidade pública ou de troféus recentes, são mais importantes para o coração dos belenenses. Tudo isso tem que ser gerido e é sempre necessário fazer opções em função disso. Acredito que num dia não muito distante os sócios terão que ponderar o que faz ou não faz sentido no âmbito de um ecletismo que queremos preservar o mais possível.

fp: Quais são os seus objectivos para os próximos quatro anos?

PMC: São os objectivos que devem ser de todos os Belenenses: assegurar o desenvolvimento transparente da requalificação do Restelo, garantir que o Centenário do Clube seja motivo de orgulho e de união para todos os sócios e adeptos, e vencer competições. Disse em 2014 que o meu sonho seria ser campeão numa modalidade, penso que com o trabalho de sustentabilidade que temos desenvolvido esse sonho pode deixar de ser um sonho para se tornar uma ambição concretizável. Não faço promessas vãs neste capítulo dada a brutal disparidade de recursos existente no desporto em Portugal, mas acredito que mais cedo ou mais tarde vamos voltar a chegar lá. A palavra “impossível” não faz parte do dicionário da equipa que tenho a honra de liderar.

Patrick de Carvalho (Foto: CFB)

fp: E no futebol, como vê o progresso da equipa? Há uma real evolução que caminha para termos um Belenenses como candidato à primeira metade da tabela?

PMC: Como é do conhecimento público, o Clube entende que tem em 2017 o direito de resgatar a maioria do capital social da SAD, que neste momento pertence a uma empresa privada cujo racional de actividade e planeamento desportivo muitas vezes não entendemos. Acreditamos que fazendo regressar a maioria do capital da SAD para o seio do Clube teremos mais assistências, mais união entre os adeptos, mais marketing, melhor comunicação e mais atletas da formação a seguir o seu caminho natural na equipa sénior. E tendo tudo isso, teremos evidentemente um Belenenses com mais condições para andar sempre nos lugares de cima da Liga NOS e que mostre mais ambição nas provas a eliminar.

fp: Numa dualidade que nem sempre é fácil, como tem sido o convívio com a SAD do CF “os Belenenses”?

PMC: Tentámos tudo, sobretudo ao longo de 2015, para normalizar uma relação que, sendo positiva, poderia ter dado mais valias a ambas as partes. Infelizmente, a empresa que gere a maioria do capital social da SAD nunca esteve disponível para isso, e a situação que hoje se vive é insustentável no tempo. O Clube tem o direito legal de recomprar a maioria do capital, e esse resgate vai ser feito. Por outras palavras não existe nenhum grande clube em Portugal que não controle o seu futebol profissional porque isso é contra-natura. Seria impensável e cairia o Carmo e a Trindade se os nossos três principais rivais, Porto, Benfica e Sporting, não controlassem o seu futebol profissional. E mesmo em clubes que não têm a nossa história, nem a nossa dimensão, como Boavista, Braga, Guimarães, Setúbal ou Marítimo, por exemplo, isso seria impensável. Um clube com a dimensão histórica do Belenenses tem que ter uma comunicação e uma identidade única, não pode falar a duas vozes, temos que ser unos. E acredito que esse dia vai voltar e que o Clube e os seus dirigentes saberão gerir a SAD com o rigor e a transparência que se tem aplicado no Clube nos últimos anos, com orçamentos rigorosos e muita ambição desportiva e com um tipo de liderança diferente, muito mais agregadora e mobilizadora da família azul.

fp: A Liga NOS e os investidores respeitam todos os clubes da mesma forma ou sente que há uma diferenciaçãoo entre símbolos?

PMC: A Liga não trata todos os clubes da mesma forma, claramente. No caso da Liga de Clubes isso é tanto mais evidente quando olhamos para o regulamento da Taça CTT, que parece uma encenação montada de forma a atingir um determinado fim. E julgo que os clubes que se sentem prejudicados deveriam assumir uma posição conjunta e de força no sentido de não permitir este tipo de situações. Provavelmente ainda não se aperceberam da força que, juntos, poderiam ter. Algo similar é visível na comunicação social, especialmente nos programas desportivos das televisões, que na sua maioria e salvo honrosas excepções são uma espécie de Assembleias Gerais cuja ordem de trabalhos é debater os penaltis de três clubes. Nos países europeus com ligas mais fortes, obviamente que nada disto seria aceitável.  

fp: Agora, voltando à sua perspectiva pessoal, qual foi o melhor jogador que viu jogar com e sem a camisola do CF “Os Belenenses”?

PMC: Com a camisola do Belenenses coloco Paco Gonzalez no topo, inesquecíveis os seus livres e o seu virtuosismo técnico acompanhados de uma velocidade estonteante. Que não tenha tido a felicidade de vestir a camisola do Belenenses, o Zidane.

Patrick de Carvalho com Fernando Gomes (Foto: CFB)

fp: Houve algum Mundial ou Europeu (fora o de França 2016) que recorde com saudade?

PMC: Lembro-me muito do Mundial de Espanha em 1982. Vibrei com esse campeonato, era miúdo, via os jogos todos, foi uma prova emocionante com um Brasil sensacional, com grandes jogos de desfecho imprevisível. E depois o Europeu de 1984 com aquele percurso fantástico de Portugal atraiçoado pela França de Platini, Giresse e Tigana.

fp: Melhor equipa do futebol mundial até hoje?

PMC: Não consigo dizer uma, houve várias grandes equipas, desde logo o Belenenses de 1973 com João Cardoso, Godinho e Gonzalez, que me acompanhou durante a escola primária;  o Brasil de 1982 com Falcão, Zico e Sócrates e depois aquele Barcelona do Johan Cruyff nos anos 90.

fp: Na sua juventude chegou a praticar algum desporto ou sempre foi adepto?

PMC: Pratiquei karaté e natação no Sport Clube do Porto, e joguei futebol na formação do FC Porto, onde cheguei, muito novo, depois de não se ter proporcionado uma ida para o Salgueiros. Fui companheiro de equipa do Domingos, do Vítor Baía, do Paulo Soares (filho da grande referência do futebol de formação Costa Soares que foi alguém muito importante para mim), do Bizarro, do Toninho Cruz ( que jogou no Belenenses), do Pedro Miguel Dias (que é actualmente o Director da FPF responsável pelo Futsal) e de muitos outros, o futebol está-me no sangue desde tenra idade e foi fundamental na minha formação humana.

fp: Acha que deveria existir uma maior cooperação entre as Unidades de Ensino (Secundárias, Universidades, Politécnicos) e os desportos profissionais? Os atletas deveriam poder preparar-se para a retirada desde cedo?

PMC: Começo por dizer em casa ao meu filho e digo sempre aos atletas da formação que nunca devem deixar de estudar por muito que gostem da ideia de virem a ser futebolistas. Muito poucos miúdos chegam ao futebol sénior com possibilidade para seguir a carreira e é fundamental que nunca descurem os estudos. Todos têm que lutar pelos seus sonhos mas todos têm igualmente que ter um plano B devidamente firme.

fp: O Belenenses é um clube que trata bem os seus atletas. Qual é o vosso “segredo” para tal?

PMC: Nós gostamos de ter atletas que se dirijam para o Restelo satisfeitos e motivados, que sintam que o Restelo é a sua segunda casa, onde estão os seus companheiros mas onde estão também pessoas que sintam como amigas e em quem podem confiar. Como que uma segunda família. Talvez isso explique que grande parte dos que por uma razão ou outra mudem para outras paragens chorem imenso no momento da despedida e levem o Belenenses no coração. Gostamos que seja assim.

fp: Gostaria de deixar uma mensagem para todos os adeptos, sócios e simpatizantes do Belenenses?

PMC: Quero lembrar-lhes mais uma vez que 2017 será um ano muito importante para o Belenenses, para o seu futuro, para o seu futebol e para a unidade da massa associativa e de toda a massa crítica do Clube. Quanto mais juntos e unidos estivermos, mais fortes seremos. E quando os belenenses se mostram unidos e determinados em objectivos comuns, são praticamente imbatíveis, a História já o demonstrou várias vezes.

Patrick de Carvalho com Fernando Medina (Foto: CFB)


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS




Newsletter


Categorias


newsletter