20 Out, 2017

Pascoal Mendes, “A aproximação da natação nacional ao nível internacional é um passo muito complicado”

João BastosDezembro 2, 201618min0

Pascoal Mendes, “A aproximação da natação nacional ao nível internacional é um passo muito complicado”

João BastosDezembro 2, 201618min0

O FairPlay foi falar com o Professor Pascoal Mendes – conhecido no mundo da natação por Pasca – treinador principal da equipa do Clube de Natação de Torres Novas. O mote da conversa foi a recente dupla subida de divisão, alcançada “ao lado de casa”, em Abrantes nos Campeonatos Nacionais de Clubes da 3ª e 4ª divisão.

fpComo começou a tua ligação com a natação?

PM. Comecei a nadar bastante tarde, fiz o percurso normal até à competição. Passei pela aprendizagem, pré-competição e natação. Experimentei outros desportos e tinha jeito para a ginástica mas nunca gostei da parte que não conseguia controlar, como os saltos e os aparelhos. Depois de aprender a nadar, percebi que tinha jeito.

A passagem para a carreira de treinador foi um desafio do meu antecessor, [José] Paiva. Eu desliguei-me da natação durante um ano, e na altura era preciso um treinador de cadetes no Entroncamento. Ele incentivou-me a seguir essa via, e ainda bem!

Pascoal Mendes com o Prof. José Paiva (à esquerda) | Foto: David Silva

fpHá quantos anos treinas o CNTN?

PM. Estou no CNTN desde a época 97/98.

fpComo é a estrutura técnica do CNTN?

PM. A estrutura técnica é bastante reduzida. Eu treino os infantis, juvenis, juniores e seniores. O Fábio Ferreira está com a pré-competição e cadetes e vou tendo a ajuda do Duarte Policarpo e Fábio Samouco pontualmente.

fpQuantos nadadores tem a equipa absoluta?

PM. A equipa tem neste momento 46 nadadores que treinam parcialmente separados; os infantis treinam num horário, os juvenis e juniores noutro horário. No período coincidente temos em simultâneo 5 pistas destinadas ao treino só da equipa absoluta.

Equipa Clube Natação de Torres Novas | Foto: Facebook Clube Natação Torres Novas
Equipa Clube Natação de Torres Novas | Foto: Facebook Clube Natação Torres Novas

fpComo é a rotina diária de treino?

PM. Os juvenis e juniores começam o treino às 19.15, à 2ª e 6ª feira, terminando às 21:15. De 3ª a 5ª o treino tem início às 18:30 e termina às 21:00 e pouco. Nesses dias há ginásio e/ou sessões mais de alongamentos e recuperação após a água. Ao sábado o treino é bi-diário e depois flexibilizamos os horários escolares para fazer outra sessão bi-diária sempre que possível.

fpEm 2005, também quando a equipa masculina do CNTN subiu à 2ª divisão, um conhecido blog nacional de natação apelidou o CNTN de “uma equipa diferente”. 11 anos, o CNTN achas que o CNTN continua a ser uma equipa diferente, mas essencialmente se é uma equipa diferente do CNTN de há 11 anos?

PM. Nesse ano estávamos sem piscina para treinar, por motivo de remodelação das actuais piscinas, e tínhamos um grupo de nadadores que estava a estudar fora de Torres Novas, coincidentemente em Lisboa e, por isso, conseguiam nadar juntos. O nosso atual treinador dos Cadetes fazia parte desse grupo e era o único elemento que não estava em Lisboa mas manteve-se a nadar.

O eterno capitão [Nuno Vicente] tinha perfil para liderar o grupo, quer nos treinos, quer nas provas. Era um grupo de nadadores com bastante talento que se uniram em torno do objectivo de não parar com a actividade do clube. O nacional de clubes era praticamente a única competição que fazíamos na época, mais um ou outro campeonato regional ou nacional.

Hoje a realidade é outra. Temos uma piscina nova, mas continuamos a enfrentar novos desafios: quando entrou em funcionamento a nova piscina, era o clube que liderava e ministrava as classes de aprendizagem. Posteriormente, essa responsabilidade passou para a alçada de uma empresa municipal e depois de uma empresa privada. Este ano voltou o clube a assumir a liderança do processo de ensino da natação em Torres Novas.

Este é, portanto, novamente o ano zero no que diz respeito à integração da aprendizagem na actividade do clube.

fpPara além de estar a formar muitos e grandes talentos, também tem havido nadadores a transitar para o CNTN. Inclusive três deles foram preponderantes no desempenho da equipa no Nacional de Clubes. Na tua opinião, o que estes nadadores vêm e valorizam no clube?

PM. Era uma pergunta que seria mais fácil se fossem eles a responder (risos). A direcção e a estrutura do clube desde sempre tiveram uma postura de “portas abertas”. Qualquer nadador sente-se livre de sair quando quiser e qualquer nadador é livre de entrar no clube. O que não fazemos é aliciar nadadores a ingressar no clube.

O facto de o clube ter 40 anos de História é um garante da estabilidade que pode oferecer aos seus nadadores. Por outro lado, a própria filosofia do clube fomenta a coesão e integração sem descorar as performances desportivas e penso que isso transparece para fora.

fpSentes um voto de confiança desses nadadores e dos encarregados de educação no teu trabalho?

PM. Sinto esse voto de confiança, sinto reconhecimento e sinto orgulho. Mas antes da entrada dos nadadores do clube também me preocupo em informar-lhes do que vão encontrar.

O grupo é bastante numeroso e é preciso transmitir-lhes essa realidade. Posso dar o exemplo extremo do Zé [Luz] que veio do Núcleo Sportinguista da Golegã, um clube que tinha apenas dois nadadores, para um clube com 46 nadadores. O trabalho realizado pelo meu colega, Luís Borga, foi muito bem feito e eu tive de informar que aquele nível de personalização do treino não era algo que eu fosse capaz de fazer numa equipa tão numerosa.

Sinto responsabilidade de informar sobre essas situações. Com essa informação presente, o Zé optou por vir nadar para Torres Novas. Também veio estudar para cá, o que facilitou em termos logísticos o ingresso no clube.

Quanto aos outros nadadores que ingressaram este ano no clube, foi também fruto de uma pré-época atípica no distrito de Santarém. Muitas mudanças de treinadores como no Náutico de Abrantes e no Clube de Natação do Tejo, clubes que acabaram como o Núcleo Sportinguista da Golegã e o Scalabiswim e por isso muitos nadadores viram-se confrontados com o facto de quererem e poderem prosseguir as suas carreiras noutros clubes.

Fomos contemplados com a vinda da Inês Duarte, do CNTejo, do João Calado do Náutico de Abrantes e do José Luz que veio da Golegã.

Mas ver clubes a fecharem portas para mim é muito preocupante. A natação perde competitividade e muitos nadadores talentosos ficam pelo caminho, até porque nem todos têm possibilidade de mudar de clube.

fpFalemos um pouco da prova do último fim-de-semana que culminou com duas subidas de divisão (equipa feminina da 4ª para a 3ª e equipa masculina da 3ª para a 2ª). Já tinham projectado como objectivo a subida das duas equipas?

PM. Eram objectivos que estavam no nosso horizonte. Não estava assumido perante a equipa que só a subida era um bom resultado, mas estava assumido que tínhamos tudo para lutar pelas subidas. Correu bem.

fpA equipa feminina era das jovens em competição (toda ela sub-15). Sentiram a pressão da responsabilidade de lutar pela subida com outras equipas mais experientes?

PM. Sinceramente, não analisei a média de idades das outras equipas, até porque a 4ª divisão caracteriza-se por ter equipas muito jovens que estão em evolução.

Penso que elas não acusaram qualquer pressão. Apesar da idade, todas elas tinham experiência em nadar provas individuais em nacionais de clubes, à excepção da Beatriz Casal (nadou a prova de 50 livres) que só tinha nadado uma estafeta no ano passado. Mas todas já sabiam como era o ambiente e isso ajudou a controlar o nervosismo e ansiedade. Nunca senti que a equipa estivesse nervosa ou ansiosa, para além do que é normal nestas provas.

fpE deram mostras dessa maturidade terminando a competição com um 3º, um 1º e um 1º.

PM. O final dos campeonatos foi muito bom. Uma das coisas que me agradou, quer na equipa feminina, quer na masculina, foi o empenho que colocaram em todas as provas, mesmo no momento em que a classificação já estava mais definida.

Estafeta vencedora dos 4x100 livres | Foto: Facebook Lfnunes
Estafeta vencedora dos 4×100 livres | Foto: Facebook Lfnunes

fpA equipa masculina teve na homogeneidade de resultados o seu grande trunfo e teve as operações sempre controladas. A partir de que momento perceberam que a subida já não fugia?

PM. Nunca (risos)! Explico porquê: o Zé era uma incógnita porque esteve 3 meses parado. Parou de nadar no mês de Junho, e só retomou os treinos na terceira semana de Setembro, de uma pausa provocada por um estiramento no ombro por carga de ginásio. Esteve algum tempo a fazer exclusivamente treino de pernas. Não sabia o que ele estava a valer.

O Afonso [Rosa] tem estado a treinar condicionado com problemas respiratórios. O Marco [Miguel] está com uma contratura, mas eu sabia que ele ia estar ao nível dele nos 100 mariposa, mas os 200 eram um tiro no escuro e o [Miguel] Frade estava em grande forma e demonstrou-o nos 100 bruços, mas no domingo teve problemas gástricos e depois de almoço esteve constantemente a vomitar. Estava até receoso se depois dos 200 bruços, ele seria capaz de nadar os 200 estilos. Felizmente, depois dos 200 bruços voltou a vomitar e ficou bem-disposto. (risos)

Por isso, nunca dei a subida como um facto consumado. Os próprios nadadores nunca tiveram essa postura de tomar a subida por garantida, tentaram sempre lutar pela melhor classificação possível e isso passava por ficar em primeiro, mas não foi possível.

Para mim foi gratificante ver a atitude que eles tiveram de lutar pelo objectivo.

O Bernardo Simões foi o elemento mais novo da equipa masculina, participou na estafeta de 4×100 livres. É juvenil-B (nascido em 2002) e deu muito boa conta do recado. Ele sim, evidenciou algum nervosismo, é normal dado que foi a primeira vez que nadou o nacional de clubes, mas sinal que interiorizou bem a importância do momento.

Equipa vice-campeã nacional da 3ª divisão | Foto: CNTN
Equipa vice-campeã nacional da 3ª divisão | Foto: CNTN

fpVoltando novamente atrás 11 anos, lembro-me de teres dito no dia seguinte à subida à 2ª divisão que nesse dia iam começar os trabalhos para garantir a manutenção no ano seguinte. Este ano já começaram a trabalhar nesse sentido ou deste-lhes pelo menos um dia de descanso?

PM. Não houve descanso nenhum. Na 2ª feira fomos logo treinar, o treino dos juniores até teve algum volume a baixa intensidade. Os juvenis têm torneio zonal já neste fim-de-semana e os juniores têm campeonato nacional no outro. Foi preciso recuperar alguma coisa em termos aeróbios.

Foto: Facebook Lfnunes
Foto: Facebook Lfnunes

fpEm relação aos planos futuros, quais os objectivos a curto (há zonais e nacionais ainda este mês e a época ainda vai no início), médio (nomeadamente nacionais de clubes do próximo ano) e longo prazo (com uma equipa toda ela do escalão júnior para baixo)?

PM. Começo pelo fim. É difícil fazer planos a longo prazo pela instabilidade que falei no início sobre o projecto de coordenação das classes de aprendizagem. Essa é a base de trabalho para a competição e sem ter esse aspecto controlado, não é possível fazer projectos a longo prazo.

Se tivermos essa questão garantida, fazemos projectos, se não tivermos, temos de fazer adaptações.

A médio prazo é possível fazer algumas projecções. Falando concretamente do nacional de clubes, tenho boas perspectivas de manter o núcleo da equipa, e também tenho boas perspectivas em relação à evolução de nadadores mais novos que possam assumir um papel de maior destaque nas equipas que competirão no nacional de clubes do próximo ano.

Para esta época, é continuar a melhorar as prestações, quer a nível regional, mas essencialmente a nível nacional. Melhorar classificações, consolidar as entradas em finais e dos lugares de pódio Nacional e nalguns casos, olhar para os tempos que constam dos planos de alto rendimento como um objetivo.

Foto: Facebook Clube Natação Torres Novas
Foto: Facebook Clube Natação Torres Novas

fpA selecção nacional é uma hipótese real para o CNTN?

PM. Sim, é bastante real. O ano passado fomos contemplados com a chamada de dois nadadores para a concentração da selecção nacional juvenil. Ainda não aconteceu a chamada a provas, mas já podia ter acontecido. A Carolina Neves é vice-campeã nacional dos 100 livres, por isso podemos esperar que isso aconteça.

Mas o nosso foco é melhorar dia-a-dia. Se acontecer, ainda bem. Se não acontecer, não cai o mundo por isso, porque continuaremos sempre a trabalhar.

fpComo é que tens visto a evolução da natação portuguesa nos anos em que estás ligado à modalidade?

PM. A aproximação da natação nacional ao nível internacional é um passo muito complicado. Na minha opinião, a natação é uma modalidade extremamente competitiva.

Estar no topo mundial implica um apoio ao nadador muito forte. Não falo apenas de apoio financeiro, mas de condições de treino. Implica que um nadador da alta roda internacional tenha um treinador dedicado a si quase em exclusivo ou, pelo menos, que um treinador se dedique a um grupo de elite restrito.

Vejo com bons olhos o trabalho que está a ser desenvolvido no Centro de Alto Rendimento de Rio Maior e os resultados que têm sido obtidos nos últimos 2/3 anos. Parece-me um excelente ponto de partida para a necessária evolução da natação portuguesa. Não estou a 100% a par da realidade do CAR, mas este ano foi para lá mais um treinador, o que é importante para optimizar o trabalho realizado com o grupo. Penso que um dos problemas era o facto de nadadores mais novos não estarem tão bem enquadrados e essa lacuna pode ser agora debelada.

Acredito muito que esta é uma estratégia que nos levará mais perto do topo da natação mundial.

fpE em relação à capacidade de articulação entre estudos e competição?

PM. Outro factor importante é a articulação entre as actividades lectivas ou académicas com a actividade física. Se no caso dos estudantes universitários há legislação que protege os atletas, no caso de estudantes do ensino secundário, ela não existe.

É acima de tudo uma questão cultural. A dificuldade para alterar a data de um teste quando um nadador tem prova a uma 6ª feira, que é um caso que acontece duas, três vezes num ano, faz-me muita confusão. Noto que não há interesse em perceber a realidade de um atleta.

Também no caso dos estudantes do ensino superior, há legislação mas em muitos casos não é aplicada. Alguma coisa tem de ser mudada, mas é um trabalho de base. Se calhar só quando todos praticarmos desporto nalgum ponto da nossa vida e os agentes decisores tiverem noção por experiência própria da realidade de um atleta, possamos ultrapassar estas questões.

fpEstamos a terminar a entrevista. Deixa-nos uma mensagem aos leitores do FairPlay, e particularmente aos que estão a pensar iniciar-se na prática da natação.

PM. Conheci o FairPlay há relativamente pouco tempo e, em relação ao trabalho que tem sido desenvolvido na natação, dou os meus sinceros parabéns porque prima pela diferença. A informação é assertiva, assume-se o risco de especificar os assuntos. Não é fácil, mas tem sido conseguido. Tenho falado com colegas que me transmitem a mesma opinião e gostam do que tem sido feito no âmbito da natação.

Para quem quer praticar natação, nem me dirijo enquanto agente deste desporto, mas enquanto pai. As minhas duas filhas praticam natação, não é com o objectivo de serem campeãs, mas se forem ainda melhor. O objectivo de qualquer actividade competitiva é a excelência, mas a mensagem que posso deixar é que o desporto é uma escola de virtudes como não se encontra em mais nenhuma actividade.

O compromisso e a organização são lições que se aprendem no desporto de uma forma que não se aprende em mais lado nenhum.

Não faz muito sentido ter durante horas as crianças sentadas na escola e complementar essa actividade com outras em que elas voltam a estar sentadas. Para objectivos de saúde mental e física, o desporto é fundamental.

Obrigado por conversares com o FairPlay. Muitos parabéns pelo trabalho e continuação do sucesso.

Foto: Federação Portuguesa de Natação
Foto: Federação Portuguesa de Natação


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