18 Ago, 2017

Pacheco, um símbolo do Santa Clara

António Pereira RibeiroSetembro 13, 20169min0

Pacheco, um símbolo do Santa Clara

António Pereira RibeiroSetembro 13, 20169min0

O excelente arranque de temporada protagonizado pelo Santa Clara é o mote perfeito para conhecer melhor o seu capitão. Internacional pelo Canadá, Pacheco assume-se como uma das figuras mais emblemáticas dos relvados da Segunda Liga, competição onde acaba de somar 250 partidas. Em conversa com o ‘Fair Play’, o médio de 32 anos confessou o seu desejo de subir de divisão com o clube do coração antes de pendurar as botas.

fp. Apesar da tua longa formação nas camadas jovens do Santa Clara, não conseguiste ingressar no plantel sénior logo à primeira tentativa.

P. Ainda nos juniores tive um pequeno percalço com o treinador, e decidi que o melhor para mim seria abandonar a formação e ingressar numa equipa de séniores. Sempre privilegiei os minutos, e por isso preferi rodar durante os anos seguintes em equipas da então II B.

fp. Consegues integrar o plantel do Santa Clara em 2007/08, e assumir de imediato a tua condição de titular indiscutível. Logo de seguida apareceu Vítor Pereira, e a temporada fantástica de 2008/09, onde o Santa Clara ficou muito perto de alcançar a subida de divisão. Que memórias guardas desse ano?

P. Foi uma época muito boa, e posso até dizer que no início éramos para as pessoas de fora (não para o nosso grupo) uma equipa que ia descer de divisão. É de valorizar o trabalho que foi feito pela equipa técnica, na altura pelo Vítor Pereira, que conseguiu formar um excelente plantel. Surpreendemos toda a gente. Conseguimos fazer uma época excelente, muito pela planificação, pela estratégia que tínhamos, e pelo bom grupo que criámos, e realmente, só não subimos naquela fase final por infortúnio. Também a dada altura a força do dinheiro prevaleceu sobre a força do trabalho.

fp. Como recordas o treinador Vítor Pereira?

P. Tenho boas memórias. É com o Vítor Pereira que começo a agarrar o meu espaço. Um treinador muito metódico e organizado. Não facilitava no trabalho. Trabalhávamos mesmo no duro. Sabíamos claramente o que tínhamos de fazer, desde bolas paradas, jogadas, combinações, era tudo trabalhado ao detalhe. Foi um treinador que me marcou.

fp. Seguiu-se uma experiência curta no Nacional da Madeira, onde somaste os teus únicos minutos até agora na primeira liga, e também em competições europeias. Como descreves esta breve passagem pela Madeira?

P. Eu fiz uma boa época com o Vítor Pereira, e depois fui um pouco iludido por alguns agentes. Na altura, eu era para rumar ao estrangeiro, mas as coisas não correram como desejado, e acabei por ir para o Nacional da Madeira já à quarta jornada. Não foi fácil entrar na equipa, até porque também tínhamos um bom plantel. Até ao Natal foi positivo, ia entrando nos jogos e tinha alguma participação. Depois surgiu um contratempo com o mister Manuel Machado, que foi substituído pelo Predrag Jokanovic, e a partir daí tive mais dificuldade. Praticamente não joguei depois de Dezembro. Tinha mais três anos de contrato com o Nacional, mas decidi dar mais importância ao tempo de jogo, e ir para uma equipa onde tivesse mais hipóteses de jogar. Foi aí que regressei ao Santa Clara.

fp. Esta é a tua sétima época consecutiva ao serviço do Santa Clara. Nunca recebeste convites tentadores de outros clubes ou a paixão pelos Açores é superior?

P. Surgiram alguns convites para o estrangeiro, mas não eram assim tão motivadores ao ponto de me fazerem perder a cabeça. Além disso, tenho o sonho de subir com o Santa Clara antes de abandonar o futebol.

fp. Fala-nos um pouco sobre as tuas raízes canadianas.

P. Os meus pais viveram no Canadá durante sete anos, e a minha mãe tem cidadania canadiana. Ao contrário da minha irmã mais velha, eu e a minha outra irmã nascemos na ilha de São Miguel. A dada altura, eu regresso ao Canadá com a minha família, sendo previsto viver lá algum tempo. É nessa altura que a minha mãe aproveita e faz os passaportes para os três filhos. No entanto, devido a contingências do dia-a-dia, mudaram-se os planos e tivemos de voltar a São Miguel.

fp. Como é que surgiu esta oportunidade de representares a selecção canadiana?

P. Estava no Nacional, e o mister Tony Fonseca ligou-me a perguntar se eu estaria interessado em representar o Canadá. Não neguei porque via uma boa oportunidade de competir a nível internacional, e não é todos os dias que isso acontece. Tenho claramente a noção que a selecção portuguesa é extremamente difícil. Surgiu essa oportunidade de jogar pelo Canadá e não hesitei em aceitar.

fp. Sentiste algum problema de adaptação ao grupo?

P. Fui muito bem recebido. Existe uma excelente camaradagem na selecção canadiana. A minha maior dificuldade era a língua. Percebo bem o inglês, mas quando é para falar tenho mais dificuldade, porque eu nunca passei mais do que dois meses seguidos no Canadá. Todos me perguntam “Então és canadiano e não consegues falar inglês?”. É por isso. De resto, o treinador-adjunto e um outro membro da equipa de observação eram luso-canadianos, o que facilitou a adaptação.

fp. Somas 18 internacionalizações pelo Canadá, mas há cerca de um ano que não és chamado pelo seleccionador Benito Floro. Aconteceu alguma coisa?

P. Houve uma situação na época passada em que o treinador perguntou-me se eu estaria disponível para representar a selecção do Canadá. Mas nós como tínhamos um jogo com o Santa Clara na mesma altura, o treinador deu-me opção de escolha, e eu preferi ficar. Não sei se foi coincidência ou não, mas a partir nunca mais fui chamado, e já passou um ano. No entanto, não tenho nada a dizer contra o Benito Floro. É um excelente treinador, e quando estive lá ajudou-me imenso. Espero que vença muitos jogos pelo Canadá.

fp. Qual é a tua opinião sobre o estado actual da selecção canadiana de futebol?

P. Julgo que a selecção do Canadá tem todas as condições a médio-longo prazo de chegar ao patamar dos Estados Unidos. As infra-estruturas são de alto nível. Agora precisam de criar bases para poder sustentar o futebol. Pelo que percebo, não existia uma grande paixão pelo futebol nas camadas jovens, e só agora é que isso está a começar a crescer. Falta também criar um espírito mais competitivo, com uma intensidade mais alta. Mas a qualidade individual dos jogadores tem vindo a crescer, e desejo que continue assim.

fp. Como explicas este arranque fantástico do Santa Clara na Segunda Liga?

P. Em primeiro lugar, a planificação do plantel. Conseguimos ficar com o núcleo duro, coisa que há alguns anos atrás era quase impossível. Tivemos também alguns regressos de jogadores que já conheciam os cantos à casa, como o Serginho. Criou-se um misto entre experiência e a juventude, aspecto muito importante. Também o trabalho desenvolvido pelo mister Daniel Ramos tem-nos ajudado, tal como a estabilidade que nos foi dada desde o início do ano.

fp. Como descreves o treinador Daniel Ramos?

P. É a minha primeira época com o Daniel Ramos, mas só tenho elogios para ele porque trabalha muito forte. Os nossos treinos são de uma intensidade elevada. É um treinador acessível, próximo dos jogadores. A porta dele está sempre aberta caso algum jogador precise. Até agora tem deixado boas referências. Espero que assim continue, e julgo que irá continuar, até porque temos todas as condições para dar seguimento a esta campanha.

fp. É mais fácil capitanear um plantel com jogadores de qualidade como Massaia, Diogo Santos ou Clemente?

P. Capitanear uma equipa é fácil quando não existem muitos problemas. É claro que num balneário existem sempre problemas, e o sucesso está em saber resolvê-los. Mas quando se trata de jogadores com personalidade, capitanear torna-se muito mais fácil. Julgo que este plantel tem jogadores desse calibre, por isso não creio que vá ter muitos problemas.

O próximo capítulo da história de Pacheco e do Santa Clara na presente temporada escreve-se em casa, contra o FC Porto B. O encontro realiza-se este Sábado, às 19h (menos uma hora nos Açores).


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter