23 Out, 2017

Orlando Brinca, “O rigor e honestidade no jornalismo são para mim qualidades muito importantes.”

Francisco IsaacFevereiro 6, 201711min0

Orlando Brinca, “O rigor e honestidade no jornalismo são para mim qualidades muito importantes.”

Francisco IsaacFevereiro 6, 201711min0

Orlando Brinca, antigo jogador, dirigente e jornalista de Coimbra fala sobre as suas experiências, memórias e conselhos. Autor da coluna de rugby no Diário de Coimbra, o conimbricense é a demonstração do verdadeiro espírito de paixão, companheirismo e evolução do Rugby nacional

fp: Orlando, ao fim de quase 30 anos como jornalista desportivo (secção de rugby) do Diário de Coimbra, ainda há uma grande vontade em escrever as crónicas e resumos?

OB: Sim, faço-o por gosto e serviço ao rugby. Atualmente com menos abrangência pois apenas escrevo sobre os jogos em Coimbra, ao contrário dos primeiros anos, cerca de 15, em que me deslocava para relatar também os jogos que a Académica fazia fora de casa.

fp: Como se deu esta ligação entre o Orlando e o Diário de Coimbra?

OB: Deu-se por me ter deparado, quando cheguei a diretor da secção de rugby, com a ausência de notícias da modalidade na imprensa regional. Antes de mim escreveu o também ex-jogador da secção Santos Costa que por motivos de ordem profissional tinha deixado de escrever. Como sempre considerei muito importante a imagem na comunicação social para divulgação e promoção da modalidade, decidi, enquanto diretor da secção de rugby, enviar para o Diário de Coimbra as notícias mais significativas do rugby da Académica, o que criou o hábito no próprio jornal de manter um espaço dedicado à modalidade nas suas páginas.

Quando deixei de ser diretor da secção, deixei igualmente de escrever nessa qualidade de mensageiro. É então que o chefe de departamento de desporto do D.C.,  Jorge Sales, me convida para continuar a escrever em nome próprio as notícias do rugby. E é assim que começa a minha colaboração (sempre gratuita) com o jornal. Colaboração que se prolonga durante os anos 90 e vai até ao ano 2004 com a crónica do último jogo do campeonato, Agronomia – Académica, em que a equipa de Coimbra vence o jogo e trás o troféu para a sua cidade. Interrompi aqui a colaboração, que durou até 2014, altura em que o meu amigo Ricardo Sousa, do departamento de desporto do D.C. me convida imperativamente para voltar a escrever as crónicas dos jogos.

Não era possível recusar o pedido e assim voltei a colaborar com o jornal, mas desta vez apenas nos jogos em Coimbra.

fp: Para uma pessoa que não se formou em Comunicação Social ou Jornalismo, quais foram as maiores dificuldades e virtudes de começar a escrever para um jornal?

OB: Desde muito jovem, nos anos 60 e apesar de crescer numa aldeia rural, comecei a ler jornais, o Século, e ouvir na rádio(em onda curta) a secção portuguesa da BBC, em casa do meu tio que era professor primário, o que me despertou o interesse por tudo que seja comunicação. O facto de começar a escrever para os jornais (cheguei a escrever também para o jornal As Beiras em simultâneo com o D.C.), levou-me a ser um pouco de autodidata e foi então que estudei melhor o livro (que já  tinha em meu poder), Manual de Jornalismo, de Ricardo Cardet e editado em 1979 pela editorial Caminho.

Orlando Brinca e a “sua” Académica – 2º a contar da direita para a esquerda na fila de joelho (Foto: Facebook do Próprio)

Fiquei melhor preparado com a compreensão dos princípios de composição da notícia e seu desenvolvimento. Mas no início da colaboração a principal dificuldade era, no fim do jogo, chegar a casa, escrever a crónica e levá-la ao jornal em papel para lá ser transcrita no departamento de desporto. Mais tarde, com a chegada da internet, a missão ficou simplificada. Com tudo isto, também aprendi, Tive de adquirir competências que de outra forma não me despertariam interesse, e relacionei-me com pessoas interessantes que me acrescentaram conhecimento. Fiquei outro cidadão.

fp: Como vê o jornalismo digital e os diferentes blogs/sites que estão a despontar na Internet? E quais são os problemas e vantagens inerentes aos mesmos?

OB: O jornalismo digital é já uma realidade, eu próprio deixei de comprar  o EXPRESSO em papel e assino agora o  digital. Também visito diariamente alguns sites de outros jornais para me manter o melhor informado possível. Já os blogs parece-me terem um público mais restrito e servem muito para recolha de opinião por outros meios de comunicação que depois a usam nas suas publicações. Mas a digitalização da informação é imparável e progride à medida que o público se vai “alfabetizando” informaticamente.

fp: Que conselhos daria aos jovens que estão a tentar se lançar nesta área?

OB: O que eu diria  aos jovens, é que adquiram o mais possível competências diversificadas, no conteúdo e na forma, porque a polivalência hoje é uma necessidade para responder a qualquer oportunidade de trabalho. A par disso, naturalmente o rigor e honestidade no jornalismo são para mim qualidades muito importantes.

fp: E em termos da Imprensa Tradicional, há espaço para a mesma não só continuar a existir mas para  crescer?

OB: Eu sou do tempo em que saiam edições em papel dos jornais de manhã e à tarde. As edições da tarde já não se publicam, o que significa que o seu mercado se reduziu, pelo que os jornais se viram na necessidade de enveredar para simultaneamente terem a publicação em papel e digital. Se as edições em papel vão acabar? Creio que não porque haverá sempre público para isso, mas crescer não me parece muito previsível. Penso que a imprensa em papel poderá ainda ter um bom futuro em publicações locais, próxima dos seus leitores e dos seus problemas.

fp: Porquê o rugby? Começou a jogar com 20 anos, o que o atraiu na modalidade para que ingressasse com essa idade?

OB: O que mais me atraiu para a modalidade foi ver na RTP2, nos anos 60 e 70, os  jogos da Taça das 5 Nações (hoje 6 Nações). Nestes jogos causava-me admiração a forma dura mas muito leal como eram disputados por todos os intervenientes. Nesse tempo o respeito pelo adversário era exemplar de tal forma que os  ensaios não eram exuberantemente festejados por quem os marcava, ao contrário do que  se vê hoje. E o comportamento do público misturado nas bancadas sem conflitualidade mas sempre em festa era outro tónico para gostar da modalidade. Até que um colega de estudo, o Alcides, que já era jogador da Académica me disse para ir com ele treinar, pois haveria de jogar nem que fosse na equipa de reservas, onde de vez em quando faltava um para completar o “15”.

A reportagem ao Mundial 1995 por Orlando Brinca (Foto: Diário de Coimbra)

Nesse tempo os clubes tinham 2 equipas, a principal e a de reservas, que jogavam no mesmo dia. Num belo domingo, ainda treinava há pouco tempo e não tinha ainda entrado em jogo, resolvi ir com a Académica para Lisboa só para fazer a viagem e apreciar o grupo em deslocação à capital, no  caso a Belém para jogo com o Belenenses. Na hora de iniciar o jogo de reservas, lá aconteceu o que não era grande surpresa, principalmente nos jogos fora de Coimbra, só havia 14. Tive que me equipar e entrar em campo e apesar do campo ser “pelado” e ter saído de lá com algumas mazelas, foi um dia inesquecível para mim. E continuei a jogar enquanto sénior, uma ou duas vezes na 1ª equipa, e depois nos veteranos até aos 60 anos.

fp: Ao fim de 40 anos de relação como jogador, jornalista e pai de um antigo atleta, como vê o rugby português na actualidade?

OB: O rugby português teve grande expansão nos anos 60 e 70 devido às transmissões em canal aberto na RTP2 dos jogos da Taça das 5 Nações e atinge o seu auge, anos mais tarde, com a conquista da presença no mundial de 2007. Essa bela aventura do nosso rugby proporcionou uma grande visibilidade e a queda do mito de modalidade radical, passando os pais a vê-la com um bom exemplo de prática desportiva e foi possível entrar no desporto escolar. A televisão passou a dedicar-lhe espaço, mesmo que em canal codificado, e chegaram meios de financiamento provenientes de mais publicidade.

Tudo isso não foi convenientemente aproveitado e hoje o declínio é visível com a descida de escalão das seleções nacionais de “15” e “sevens”. Começam também os clubes a ter dificuldades na constituição das suas equipas, principalmente na província, por dificuldades no recrutamento, o que não é explicável apenas com a baixa de natalidade dos últimos 20 anos. Para inverter esta situação a FPR terá de apoiar o desenvolvimento da prática da modalidade na totalidade do território e não apenas na zona metropolitana de Lisboa. Somos uma população de apenas 10 milhões e por isso nenhuma região pode ficar de fora. As associações regionais têm aqui um papel muito importante e devem ser apoiadas.

fp: Em termos de comunicação, o que poderíamos melhorar para conseguir ganhar outra visibilidade?

OB: Eu continuo com dificuldade em compreender porque razão os jornais de Lisboa, principalmente os desportivos com distribuição nacional, não fazem crónicas dos jogos, pelo menos dos mais importantes que se realizam na capital. Vejo apenas alguns reduzidos relatos genéricos das respetivas  jornadas. Quem está em Lisboa, os clubes e a FPR, poderão auscultar junto dos intervenientes sobre o que poderá ser feito para inverter esta situação. Como sabemos, o dinheiro domina atualmente a nossa sociedade e a sobrevivência dos meios de comunicação social não é fácil.

Penso que reservando os clubes e a FPR uma parte, mesmo que pequena, para colocar publicidade dos jogos nos jornais, estes pudessem mostrar mais disponibilidade para acompanhar o rugby nas suas páginas. E porque não a FPR promover/financiar ações de formação sobre a regras do jogo destinadas a jornalistas desportivos?

fp: Em jeito mais de memória, qual foi o melhor jogo que assistiu?

OB: Pela surpresa do crescimento do Japão e um final empolgante com a inesperada vitória final dos nipónicos por 34-32, guardo uma excelente memória do jogo África do Sul – Japão do último mundial .

fp: Melhor jogador português de sempre? E internacional?

OB: Tenho 3 nomes que me saltam de imediato à memória e o mais difícil é escolher um. Entre João Queimado (Benfica), Joaquim Ferreira (CDUP) e Vasco Uva (Direito), vou escolher este último, Vasco Uva.

fp: Para finalizar… acha possível a Académica de Coimbra voltar aos títulos nacionais no futuro?

OB: A Académica tem uma boa formação, elemento fundamental para se obterem resultados nas equipas seniores. Mas para isso acontecer é necessário que os jovens da formação se mantenham no clube quando passam a seniores, o que em Coimbra é difícil por ser uma cidade essencialmente de serviços e indústria pouco significativa. Isto implica que não abundem os empregos e quando os jogadores terminam os seus cursos e entram no mercado de trabalho, acabam por sair de Coimbra. Mesmo assim, com estas dificuldades, acredito que a Académica voltará a trazer o título para a sua cidade e esta crença é baseada nos bons técnicos e capacidade diretiva que existe em Coimbra.

Membro da Direcção do CRRC -No canto superior direito (Foto: CRRC)


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