18 Ago, 2017

Miguel Frischknecht, “O foco da FPN deveria ser sempre os atletas”

João BastosJaneiro 28, 201718min0

Miguel Frischknecht, “O foco da FPN deveria ser sempre os atletas”

João BastosJaneiro 28, 201718min0

O Fair Play foi falar com o treinador principal do Sport Algés e Dafundo, o Professor Miguel Frischknecht. O título da 1ª divisão feminina e as críticas à política desportiva seguida pela Federação Portuguesa de Natação – consubstanciadas na carta aberta que enviou a toda a comunicação social – foram os temas abordados na entrevista exclusiva ao Fair Play

fp: O Algés é um dos clubes com maior palmarés da natação portuguesa, mas depois de vencer 14 títulos nacionais de clubes (12 em masculinos e 2 em femininos) em 14 anos consecutivos (entre 1992 e 2006), ficou em branco 10 anos, até conquistar a 1ª divisão feminina esta época. A que se deveu este hiato?

MF: Esse hiato deveu-se à interrupção que fomos forçados a fazer pela renovação das piscinas. Tivemos de reformular toda a Escola de Natação, Escalões de Formação, etc…estabelecemos que em oito anos poderíamos voltar a ter uma equipa competitiva, para fazer jus à História do clube.

Eu e as pessoas envolvidas no projecto tivemos de ter muita paciência. Não foi fácil, houve alturas que pensámos que não seria possível voltar ao nível de outros tempos, mas conseguimos e este trabalho paciente teve agora a recompensa com o título da 1ª divisão feminina.

Actualmente, penso que estamos entre as três melhores equipas portuguesas de natação.

Em suma, esse hiato deveu-se à perda de todas as classes de natação durante o ano em que não tivemos piscina.

fp: Quem observa a natação nacional via este título como algo que mais tarde ou cedo iria acontecer. Acredita que esta equipa vai marcar uma época na natação nacional e que este é apenas o 1º título colectivo de muitos que esta equipa irá conquistar?

MF: Nós vamos tentar! Não será fácil porque neste momento existe uma política nos grandes clubes que não assenta na formação. Falo concretamente do Sporting, Benfica e FC Porto, cuja estratégia assenta na contratação de nadadores formados e com um nível elevadíssimo, mas nós acreditamos que a nossa política é que está correcta e na próxima época lá estaremos a defender o título.

Pensamos que esta geração poderá estar nos próximos 10 anos sempre nos primeiros três lugares dos nacionais de clubes.

Equipa do SAD vencedora da 1ª divisão feminina | Foto: FPN

fp: Esta equipa ainda é muito jovem mas já tem excelentes perspectivas de renovação…

MF: Sim. Temos várias atletas com nível de vir a integrar a equipa já no próximo campeonato. Este ano estavam inscritas mas não chegaram a nadar efectivamente, mas no próximo ano já contaremos com um ou dois reforços internos, vindos da formação.

fp: E em relação à equipa masculina. Campeões nacionais da 2ª divisão masculina, o que podemos esperar desta equipa já na próxima época?

MF: A próxima época servirá para consolidação e para ganhar experiência. Nos rapazes é mais moroso atingir o topo porque o desenvolvimento físico é mais tardio. Só aos 18/19 anos conseguem competir em termos absolutos pelos primeiros lugares, enquanto as raparigas aos 14/15 podem conseguir classificações de relevo em termos absolutos.

Essa discrepância de idade atrasou um pouco o desenvolvimento da equipa masculina, face à feminina. No próximo ano o objectivo é a manutenção, ainda.

Equipa masculina do SAD, campeã nacional da 2ª divisão | Foto: FPN

fp: Mas nem só do CNC se escrevem os êxitos desta época do Algés. Nos Nacionais de Piscina Curta, foi o segundo clube com mais medalhas e com mais ouros, sendo que dominou o escalão de juniores, como já tinha feito o ano passado. O Algés está no “ponto rebuçado” para começar a dominar também nos seniores e absolutos?

MF: Eu penso que sim. E é esse o objectivo.

Como disse anteriormente, queremos estar entre as três melhores equipas nacionais, mas trabalhamos diariamente para sermos a melhor equipa nacional, quer no sector feminino, quer no sector masculino.

Porém, reforço o alerta que fiz na carta aberta que escrevi: sentimos que podemos não passar daqui, face a todas as situações que lá referi e que considero que limitam o desenvolvimento da natação. E não falo apenas do nosso clube, porque há outros clubes que se deparam com as mesmas dificuldades, com certeza.

fp: Há uma prova em Portugal que tem a assinatura do Algés que são os 200 costas femininos. Em piscina curta o recorde absoluto pertence a nadadoras do Algés há 31 anos e em piscina longa, nos últimos 29 anos, só entre Fevereiro de 2014 e Abril de 2015 o record não foi do Algés. Há algum segredo?

MF: Não, não há segredo. Nós, aqui na piscina, temos um quadro de recordes, que serve de motivação diária a todos os nossos nadadores e, como era o único record absoluto que nós ainda tínhamos, se calhar é esse o significado que tem.

Mas é um acaso, podia ser noutra prova qualquer.

Francisca Azevedo, recordista nacional dos 200 costas em piscina longa e Rita Frischknecht, recordista nacional dos 200 costas em piscina curta | Foto: FPN

fp: Quais são os objectivos para Tóquio2020?

MF: Os atletas que chegam à selecção nacional têm sempre a ambição de chegar a uns Jogos Olímpicos e eu, enquanto treinador, tenho a ambição de ter atletas em Jogos Olímpicos, sempre.

Nos últimos 20, 24 anos estes foram os primeiros Jogos Olímpicos em que o Algés não esteve representado. Coincidiu com um período que voltamos a ter atletas de topo, mas queremos ter atletas nos Jogos de 2020.

E eu, enquanto treinador, quero ter atletas a obter bons desempenhos nos Jogos. Primeiro estar lá e depois obter bons resultados, seguindo o exemplo do Alexis Santos.

fp: Na sua carta aberta enuncia a entrada da faculdade como o factor crítico no abandono da modalidade. Em Portugal já houve um debate sério entre os agentes desportivos, a tutela do Ensino Superior e as Associações Académicas e de Estudantes sobre esta problemática?

MF: Que eu tenha conhecimento, não.

Sei que pontualmente é feita essa discussão. Sempre de quatro em quatro anos, depois de uns Jogos Olímpicos. Mas não envolve as pessoas que devia envolver e depois acaba por ser abandonado o assunto durante três anos.

A questão da entrada na faculdade não é a falta de tempo para treinar. Se os atletas forem metódicos e organizados, conseguem ter tempo para treinar. A questão é a aposta na natação. É o facto dos nadadores sentirem que não vale a pena apostar na natação face às circunstâncias do desporto.

Em 90% dos casos optam por se dedicar em exclusivo à carreira académica.

fp: É essa falta de diálogo que faz com que – e concretamente na natação – tenhamos vários títulos no escalão de juniores, a nível europeu, mas em absolutos nem por isso?

MF: Exacto. Essa é uma das razões. Quando os atletas têm disponibilidade mental para trabalhar, conseguem ter resultados. A partir do momento em que têm de tomar uma opção, as coisas ficam mais difíceis.

fp: Também na sua carta, escreve que o problema do desporto nacional não é falta de financiamento estatal às federações mas a aplicação desse financiamento pelas mesmas, e particularmente sobre a FPN, afirma que “o dinheiro é gasto em tudo menos no que deve ser”. Na sua opinião, quais deveriam ser as prioridades de investimento da FPN?

MF: O foco da FPN deveria ser sempre os atletas e os clubes deveriam ser entendidos como os alicerces da carreira dos atletas e como os próprios alicerces da natação portuguesa, conforme ela está organizada.

Os clubes deveriam ser mais apoiados nesse sentido.

O alerta que deixo, e que já venho deixando há 4 anos, é que tem de se apostar em quem investe nos atletas, tem de se apostar na base da formação dos atletas, porque se vamos reduzindo o apoio à base de formação e se retiramos o valor dos clubes e dos treinadores no processo de formação, a natação esvazia-se.

O que defendo é que a Federação seja uma parceira dos clubes e vice-versa, para alcançar o objectivo comum que é termos uma natação forte em termos absolutos.

O que pretendo alertar na carta é isso mesmo. Que o apoio é cada vez menor e ameaça de extinção vários clubes. Isso terá consequências no topo da nossa natação e se as coisas continuarem assim, temo que daqui a quatro anos voltemos a ter a mesma conversa.

Miguel Frischknecht com as internacionais Raquel Pereira e Rita Frischknecht | Foto: Facebook Algés – Natação

fp: Mas não considera que o projecto do Centro de Alto Rendimento em Rio Maior é uma espécie de “tubo de ensaio” da FPN de forma a assumir directamente a alta competição, minorando o papel dos clubes que não têm os recursos necessários para assegurar essa vertente?

MF: Sim, eu julgo que sim. Os Centros de Alto Rendimento são fundamentais. Em todos os países onde a natação está mais desenvolvida há Centros de Alto Rendimento.

Agora, a questão é que a existência de Centros de Alto Rendimento não pode impedir que existam clubes em paralelo na formação. O que assistimos é a aposta total em Centros de Alto Rendimento, mas os atletas precisam de chegar lá e para isso é preciso que existam clubes que formem os nadadores. Se não existirem clubes, não existirão Centros de Alto Rendimento porque não há atletas a chegar lá.

Tem de haver uma articulação entre os clubes e os CAR. Os treinadores que fornecem atletas à selecção deveriam ser ouvidos sobre a estratégia desportiva desenvolvida nos CAR. As posições unilaterais prejudicam a natação e nesta questão as posições da FPN são tomadas unilateralmente.

fp: Na sua entrevista à “A Bola” considerou que não é um conjunto de atletas que está a chegar ao topo, mas devia ser, mas o que é facto é que voltamos a uma meia-final olímpica, 28 anos depois de Alexandre Yokochi, voltamos a pódios europeus 11 anos depois de José Couto e voltamos a ter uma campeã da Europa de Juniores, 11 anos depois da Diana Gomes. Acha que estes resultados são isolados e não consequência da política desportiva da FPN?

MF: Não podemos dissociar os resultados da política da Federação. Aquilo que eu acho é que são excepções porque se olharmos para os restantes resultados e se olharmos para o nível médio da natação portuguesa, estamos a andar para trás.

Nós não podemos ter só um ou dois atletas a aparecer de 4 em 4 anos, se não a tendência será a mesma de sempre, um atleta de topo de 20 em 20 anos, e tem de haver mais.

Para isso, tem de haver apoio a quem forma os atletas.

Para além disso, nos Jogos Olímpicos o Alexis teve resultados excelentes, mas para os restantes atletas as coisas não correram assim tão bem. Nem sequer fizeram as melhores marcas da época.

Nem consegui ler nenhuma análise da FPN aos resultados dos Jogos. Normalmente há um relatório, nessa ocasião não o consegui encontrar em lado nenhum.

fp: Na sua carta, considera que há opacidade no modelo de apoio da FPN. O enquadramento desse apoio (presenças em competições) não está perfeitamente definido? Ou está dependente do orçamento disponível?

MF: Neste momento temos um leque de 19 atletas que poderão competir ou estagiar a nível internacional. São os únicos que poderão estagiar em altitude com equipas mais fortes, por exemplo.

Ao mesmo tempo reduz-se o apoio aos clubes para participação em competições internacionais.

Nós fomos um dos países organizadores do Multinations, quer juvenil, quer júnior e actualmente nem participamos nessa competição que foi uma competição chave no desenvolvimento da nossa natação. Foi onde despontaram nadadores como o José Couto, o Nuno Laurentino, etc…

Agora, ao reduzir o número de atletas que poderão competir a nível internacional, ainda vamos ter mais dificuldade em chegar a patamares de topo. Por isso, devíamos alargar a base de apoio para conseguirmos ter mais nadadores no topo.

fp: Em relação ao funcionamento dos clubes, estes estão a funcionar quase em exclusivo à base de mecenato (leia-se dos pais dos atletas)?

MF: Só!

Há o apoio da direcção, como é óbvio, mas o grande investimento é dos pais. Ainda agora fizemos um estágio em Rio Maior, entre o Natal e o Ano Novo e foram os pais que pagaram.

Por isso, é nessa base que funcionamos.

Eu treino campeões nacionais e recordistas absolutos, mas se lhes quiser dar experiência internacional, terão de ser os pais a apoiar.

fp: Sobre o Plano de Alto Rendimento 2017, referiu que o Director-Técnico Nacional constituiu uma comissão técnica para analisar a proposta da FPN, que na prática não funcionou. Por outro lado, a primeira versão do PAR foi alterada depois das reclamações apresentadas pelo Diogo Carvalho e pelo Alexis Santos. A comissão técnica apresentou alguma reclamação depois da publicação da primeira versão do PAR?

MF: Sim, apresentou. Alguns elementos dessa comissão enviaram por e-mail as suas observações ao DTN. Eu falei telefonicamente e também pessoalmente com o DTN e apresentei-lhe as minhas questões.

Pelos vistos, algumas coisas já foram mudadas também no que respeita aos apoios aos treinadores. Saiu uma circular há pouco tempo notificando que cada treinador que tivesse atletas seus nas competições mais importantes receberia um incentivo de 500€.

Estas alterações seriam todas evitáveis se a Comissão fosse ouvida antes de emanado o PAR. A primeira versão foi publicada há dois meses e já vamos na 2ª alteração…e não ficará por aqui.

fp: Quem acompanha os fóruns da natação nacional, percebe que há mais agentes desportivos que se revêm nas suas críticas à direcção da FPN, mas em Outubro houve eleições e para a direcção apenas concorreu a lista de continuidade, encabeçada pelo Professor António José Silva. Apesar das críticas, não há alternativas?

MF: Chegou a haver, mas por razões pessoais deixou de existir. Não há alternativa mas também não é isso que está em discussão. As eleições foram agora, mas nada impede que os assuntos não sejam colocados e discutidos de forma aberta, que foi o que tentei fazer, para que todos os envolvidos – Federação, Clubes, Dirigentes – possam discutir a natação e levá-la a um nível elevado.

Que fique claro que não encaro isto como guerra, nem questões pessoais. Quero apenas transmitir as minhas ideias nos locais onde as posso transmitir, já que pessoalmente não tenho muitas oportunidades de falar com o Presidente [da FPN] sobre estes assuntos.

Quero que trabalhemos todos juntos em prol da natação e que as minhas críticas não sejam entendidas como ataques pessoais, como muitas vezes é veiculado da parte da FPN.

fp: Diz não ter dúvidas que existirão represálias à sua entrevista à “A Bola”. O Professor ou o Algés já sofreram consequências da sua postura crítica em relação a esta direcção da FPN?

MF: Já. Foi-me instaurado um processo disciplinar que decorreu durante 6 meses. Creio que sou o único treinador de natação em Portugal que fui alvo de um processo disciplinar. Foi-me instaurado por causa de uma declaração crítica à política da Federação.

Tive conhecimento desse processo através de um comunicado. Nunca fui ouvido nesse processo.

Coincidiu com um período de competições internacionais – Jogos Europeus e Campeonatos da Europa de Juniores – no qual não pude acompanhar os atletas do Algés nessas competições.

Já tive essa represália que prejudicou sobretudo os atletas que se viram privados do acompanhamento do seu treinador.

Por isso é provável que agora volte a sofrer as mesmas consequências.

Notícia sobre os Jogos Europeus, que decorreram durante o processo disciplinar a Miguel Frischknecht | Foto: Arquivo Pessoal

fp: Há FairPlay na natação?

MF: Sem dúvida que há Fair Play na natação!

fp: Deixe uma mensagem aos leitores do FP, e nomeadamente aos mais jovens que estão a pensar começar a praticar natação (eventualmente até no Algés).

MF: A natação, como qualquer desporto, são importantíssimos na formação de qualquer pessoa. Não é só o alto rendimento. É lógico que quando alguém pratica um desporto e começa a ter resultados, o alto rendimento surge com naturalidade.

Mas a prática desportiva vai muito para além dos resultados desportivos e eu tento sempre transmitir isso aos meus atletas.

Eu sempre fiz natação e tudo o que tenho foi a natação que me deu, inclusive os amigos que conservo desde jovem. O desporto é um factor de desenvolvimento em todas as áreas da formação pessoal e por isso é importantíssimo praticá-lo e, na minha opinião, a natação é o melhor desporto que poderão praticar.


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