19 Ago, 2017

Miguel Arraiolos,“Gostava que em Portugal houvesse mais Vanessas Fernandes”

João BastosJaneiro 14, 201717min0

Miguel Arraiolos,“Gostava que em Portugal houvesse mais Vanessas Fernandes”

João BastosJaneiro 14, 201717min0

Miguel Arraiolos é um dos representantes da geração de ouro do triatlo português. Olímpico desde o Rio de Janeiro, anda há já vários anos no circuito da elite mundial. Conheça o trajecto deste super atleta na entrevista exclusiva dada ao Fair Play

Perfil


Nome: Miguel da Cunha Arraiolos
Idade: 28 anos
Clube: Sport Lisboa e Benfica
Treinador: Lino Barruncho


fp: Como iniciaste a prática do Triatlo?

MA: No desporto escolar havia as provas de corta-mato onde costumava participar. Numa dessas provas, convidaram-me para experimentar o duatlo, que é uma variante do triatlo. Na primeira prova de duatlo que fiz, o “prémio” para os primeiros classificados era um estágio com a selecção nacional de triatlo, para o qual eu consegui ser seleccionado.

Na altura praticava futebol, mas comecei-me a interessar pelo triatlo e começar a treinar as disciplinas do triatlo foi uma coisa natural, também por culpa do meu treinador da altura, Miguel Jourdan.

fp: Ou seja, tu não começaste por praticar primeiro uma das três disciplinas do triatlo e depois evoluíste para as três. Começaste logo a nadar, pedalar e correr, certo?

MA: Andei na natação em criança, mas na altura não me interessei. Só mesmo a partir dos corta-matos escolares é que nasceu o interesse numa vertente mais competitiva de praticar desporto.

fp: Já falaste do Professor Miguel Jourdan. Não só teve uma grande influência na tua decisão de abraçar o triatlo, mas também teve uma grande influência naquilo que é hoje o triatlo nacional?

MA: Toda! Apesar de eu também ter tido a influência da minha irmã que já praticava triatlo, foi ele que me levou a experimentar de forma mais séria. Foi o meu primeiro treinador (em Alpiarça), levou-me para Lisboa e ficou comigo até se iniciar o projecto do Centro de Alto Rendimento do Jamor. Como ele estava ligado à selecção nacional, continuou a estar ligado também à minha preparação.

Quanto à influência que ele teve no triatlo nacional, basta dizer que foi ele um dos treinadores da Vanessa Fernandes. Por isso, o Miguel Jourdan está na génese de uma das maiores desportistas portuguesa de todos os tempos.

fp: Para quem nos lê e não esteja tão a par da modalidade, o Professor Miguel Jourdan faleceu prematuramente aos 41 anos. O triatlo e muitos dos melhores triatletas nacionais acabam por ser um grande legado que ele deixa?

MA: Sem dúvida. O Sérgio (Santos) era o Director Técnico Nacional, mas a equipa técnica eram os dois. Foram os dois grandes pilares da primeira grande geração de triatletas portugueses, e particularmente da Vanessa Fernandes.

fp: Como é que se treina triatlo? Descreve-nos o teu dia-a-dia.

MA: No início há muitas dificuldades nas transições, ou seja, na mudança entre cada uma das disciplinas do triatlo porque em cada segmento há a utilização de diferentes grupos musculares. No início é importante treinar as transições e o atleta familiarizar-se com essa questão para não ser surpreendido em prova.

Foto: Comité Olímpico de Portugal

fp: Ou seja, numa prova composta por três segmentos com cargas aeróbias bastante exigentes, é o intervalo que dura cerca de um minuto entre cada um desses segmentos que tu destacas como o ponto mais crítico no triatlo.

MA: Não são as transições em si, é essencialmente o choque de iniciar uma nova disciplina e a activação repentina de diferentes grupos musculares que constituem um grande desafio no triatlo. Há pessoas que correm muito bem mas fazem dois, três, quatro triatlos e sentem sempre muita dificuldade em imprimir o ritmo de corrida que conseguem facilmente em treino.

É por conta dessa complexidade que o triatlo é um desporto e não a soma de três.

fp: Treinas no CAR do Jamor integrado na Selecção Nacional de Triatlo. Que importância dás ao grupo de treino na tua preparação?

MA: Eu faço alta competição há 12 anos e posso afirmar que é impossível treinar triatlo sozinho. Treinamos sempre em altas intensidades, há momentos da época em que temos de treinar muito e se o fizermos sozinhos, vamos abaixo física e mentalmente. Se tivermos um grupo, há uma motivação extra mesmo nos piores momentos. Há muita solidariedade e ajudamo-nos uns aos outros a evoluir e a continuar a treinar, mesmo quando a vontade é parar.

Depois houve um aspecto fundamental na minha formação que foi, no início, poder aprender com os mais velhos e mais fortes. Quando integrei o grupo da selecção nacional, existia a Vanessa Fernandes e o Bruno Pais que já eram atletas de grande experiência e de grande estatuto a nível mundial. Eles ensinaram-me o que é estar num grupo e o que é a superação diária.

Foto: Facebook Miguel Arraiolos – Triatleta

fp: Foste campeão europeu sub-23 de duatlo em 2011, vice-campeão sub-23 de triatlo em 2008, terceiro classificado na Taça Pan-Americana de Triatlo em 2013, para além dos vários títulos nacionais. Há alguma prova que te tenha ficado marcada de maneira especial na tua memória?

MA: Os nossos melhores resultados ficam sempre mais marcados. Mas eu destaco as minhas primeiras provas da qualificação olímpica porque foi quando percebi que era possível alcançar uma coisa que até então não passava de um sonho.

Sempre achei possível a qualificação, mas quando iniciei esse período tinha a consciência que ia ser muito, muito difícil, mas os resultados que obtive no primeiro ano da qualificação olímpica (2014) fizeram-me acreditar, não só que era possível, mas que os Jogos estavam perfeitamente ao meu alcance.

E essas provas marcaram-me muito. Fiz top-12 na etapa da Taça do Mundo de Chicago em 2014 e fui 5º classificado na etapa de Alicante. Foi um excelente arranque do período de qualificação que me motivou para o resto.

fp: 2016 é um ano que certamente fica marcado na tua carreira: fizeste a tua estreia olímpica. Antes de falarmos dessa participação, conta-nos como se processa a qualificação para essa prova?

MA: A qualificação é feita em dois anos. Decorreu de Maio de 2014 a Maio de 2016. O apuramento é pelo ranking mundial e são apurados os 55 melhores do mundo, havendo um limite de vagas por país.

Portugal é um dos oito países que apura 3 triatletas no sector masculino, fomos precisamente o oitavo país do ranking.

Para me apurar contavam as 7 melhores provas na época 2014/2015 e as 7 melhores provas em 2015/2016, o que leva a que se tenha de se competir muitas vezes nos anos de qualificação.

João Silva, Miguel Arraiolos, João Pereira e o director técnico nacional Lino Barruncho de partida para o Rio de Janeiro | Foto: Facebook Miguel Arraiolos – Triatleta

fp: Ou seja, chegaste aos JO já com muitos km de competição nas pernas. Conseguiste chegar ao Rio de Janeiro na tua melhor forma?

MA: Entrei no ano de 2016 sem a qualificação assegurada. Tinha duas provas onde tinha de fazer pontos e mais duas onde iria tentar melhorar o conjunto das 7 melhores, “limpando” as duas piores.

Assim, fiz uma pausa muito curta entre as épocas 14/15 e 15/16 para estar no meu melhor o mais rapidamente possível.

Fui para a Austrália, onde fiz 4 provas, voltei, fui à África do Sul,…percorri quatro continentes nos meses de Maio e Junho.

Consegui, mas fiquei muito desgastado e por isso tive de tirar uns dias de férias mesmo antes dos Jogos porque o corpo já não respondia como devia à carga dos treinos.

A prova (nos Jogos) não correu bem, mas não vou atribuir nenhuma razão. Simplesmente não correu. Pode ter sido por desgaste de outras provas, mas eu prefiro olhar mais para os factos e menos para as desculpas.

fp: Independentemente da forma como a prova correu, a sensação ao chegar à meta foi diferente de outras provas?

MA: Claramente. Nós competimos muito e, como competimos num circuito mundial, os nossos adversários dos Jogos são os mesmos de todas as provas, mas o espírito e o ambiente envolvente daquela competição tornam-na diferente.

Até à prova não cheguei a estar com a comitiva olímpica, mas enquanto competia consegui sentir o tal “espírito olímpico”.

E isso ajudou-me porque a meio da prova, mesmo quando já percebia que ela me estava a correr mal, o sentimento que tinha era de dever cumprido. O meu objectivo era estar ali a competir e isso só por si era suficientemente recompensador. Estava satisfeito e feliz por ali estar!

Antes do tiro de partida, o meu treinador apenas me pediu que desse o meu melhor, que não pensasse em resultados e que fizesse a prova com a felicidade de estar a competir no maior palco desportivo do mundo. Foi nessas palavras que eu pensei durante a prova e foi esse sentimento que eu tive quando cruzei a meta.

Arraiolos a cruzar a meta do Rio | Foto: Facebook Miguel Arraiolos – Triatleta

fp: Com certeza que reviste a prova, agora achas que se cumpriu a máxima do triatlo que “não se ganham provas na natação, mas podem-se perder provas na natação”?

MA: Sem dúvida. Veja-se como foi a prova do João Pereira, saiu bastante atrás da água e ainda conseguiu acabar em 5º lugar. O normal no triatlo é que no segmento de ciclismo os atletas se agrupem e formem um grande grupo que acaba a discutir a vitória na corrida. Tenho a certeza que se isso tivesse acontecido na prova do Rio, tínhamos conseguido uma medalha pelo João Pereira.

No meu caso, a natação já é o segmento mais fraco, mas perdi demasiado tempo porque houve um grupo que desde o início teve interesse em fazer com que a natação fosse rápida para impedir a criação de um grande grupo no ciclismo. No primeiro km do ciclismo já estava completamente fora de prova.

fp: Os JO é uma prova diferente de todas as outras em termos de exposição mediática. Sentiste que essa exposição te motivou, pelas mensagens de apoio que foste recebendo ou, pelo contrário, transmitiu-te maior pressão?

MA: Eu sou um atleta muito relaxado, por vezes até de mais (risos) e não costumo sentir pressão antes das provas. E senti aquela como “mais uma prova”. Não tinha de provar nada a ninguém. O que tinha de provar era a mim mesmo e já o tinha feito: que conseguia estar nos Jogos Olímpicos.

O que senti muito foi o apoio…mais do que esperava. A quantidade de mensagens que recebi e a quantidade de pessoas que nos apoiaram durante a prova foi surpreendente porque não esperava tanto e isso fez-me ficar ainda mais feliz por estar lá.

Miguel Arraiolos e o Presidente da Câmara Municipal de Alpiarça, Mário Pereira | Fonte: noticiasdealpiarca.blogspot.com

fp: Depois do memorável ano de 2016, começaste 2017 a renovar com o teu clube – Benfica – até 2020. Colocava-te duas perguntas: em primeiro lugar, o que significa para ti esse voto de confiança e em segundo lugar que importância tem esta estabilidade na tua preparação para Tóquio?

MA: Tenho de fazer um esclarecimento. Eu renovei contrato até 2018, com mais 2 de opção. Saíram várias notícias que davam conta da renovação até 2020, mas o que é certo é que o contrato é válido até 2018 e depois poder-se-ão rever as cláusulas e, então prolongar até 2020.

O Benfica é o clube com o melhor projecto olímpico para o triatlo. Tem um grupo de elite e de jovens promessas muito bom e a aposta é muito forte.

No Benfica tenho tudo o que preciso para me preparar devidamente. Tenho gabinete médico, fisioterapia, piscinas, etc…tudo o que preciso do Benfica, eu tenho de um dia para o outro e isso é muito importante na minha preparação.

E depois é o Benfica, o maior clube de Portugal e do mundo, como sempre ouvi dizer (risos). Mesmo para obtenção de patrocínios, é muito vantajoso estar associado ao Benfica e a relação é muito boa.

E já que falo em patrocinadores, aproveito para agradecer à PROZIS, Under Armour e Zone3 a confiança que também eles depositaram em mim, continuando a apoiar-me.

Miguel Arraiolos renovou com o Benfica a 4 de Janeiro de 2017 | Foto: SL Benfica

fp: Percebendo já, claramente, quais são os teus objectivos daqui a 3 anos e meio. Quais são os teus objectivos mais imediatos, nessa tua caminhada para Tóquio?

MA: Um passo de cada vez. Primeiro há que garantir a qualificação olímpica, mas desta vez de forma mais confortável, se possível.

Não gostava de voltar a entrar no ano dos JO ainda com a qualificação em dúvida e ter de voltar a fazer muitas provas. Espero que em 2020 o meu foco seja única e exclusivamente a prova nos JO.

Depois há a participação em mundiais e europeus e atingir os meus melhores resultados em Taças do Mundo e ir subindo consistentemente nos rankings mundiais.

fp: Tu já referiste a Vanessa Fernandes, uma triatleta que é também uma grande referência do desporto nacional. Sentes que os sucessos dela abriram portas para ti e todos os que surgiram na cena internacional depois dela? E sobretudo, se a nível nacional ajudou a atrair mais praticantes para o triatlo (o número quase que quadriplicou nos últimos 10 anos)?

MA: Claramente! A maior parte das pessoas que hoje praticam triatlo, começaram por causa dela. Ela fez do triatlo uma modalidade conhecida em Portugal. O triatlo tem um antes e um depois da Vanessa.

Ela não é só uma referência para os jovens triatletas que estão agora a começar a competir no triatlo. Há muita gente que experimenta a modalidade de forma amadora por causa da Vanessa Fernandes.

E depois os sucessos da Vanessa também beneficiaram financeiramente a Federação. As suas vitórias fizeram aumentar bastante o número de federados, fazendo aumentar o financiamento da Federação via Instituto Português do Desporto e Juventude e via Comité Olímpico de Portugal.

fp: E tu, gostavas que daqui a uns anos os novos campeões de triatlo dissessem que escolheram o triatlo por causa do Miguel Arraiolos?

MA: Na minha rua já toda a gente pratica triatlo por causa de mim (risos).

O que eu gostava mesmo é que em Portugal houvesse pelo menos mais uma Vanessa Fernandes. A modalidade precisa de outra Vanessa para a ajudar a crescer ainda mais. O objectivo de todos os que estão envolvidos no triatlo é precisamente esse: contribuir, um bocadinho que seja, para o prestígio da modalidade.

fp: Há FairPlay no Triatlo?

MA: Há atletas um bocado malandros! Na natação em águas abertas há muito contacto e muitas vezes há um ou outro murro que aparece sem se perceber de onde veio, mas tudo isso é normal quando há muitos atletas à procura da melhor posição.

No final acaba por haver fairplay, porque sem adversários não havia competições. Eu gosto de chegar à meta e cumprimentar os adversários e sinto que toda a gente gosta de comunicar e partilhar os momentos, muitas vezes comuns, que se têm durante uma prova.

fp: Deixa-nos uma mensagem para os leitores do Fair Play e particularmente para os mais novos que te estão a ler e a ficar com vontade de começar a praticar triatlo.

MA: Quando se pensa em começar a praticar um desporto, por vezes há a indecisão se se vai experimentar o atletismo, a natação ou o ciclismo. No triatlo não é preciso decidir porque praticam as três. Por isso, venham para o triatlo que não se vão arrepender!

O triatlo é uma modalidade muito desafiante e quem experimenta gosta. Até pode não gostar muito de uma das disciplinas, mas em conjunto acaba por se divertir porque é um desafio terminar essa disciplina e iniciar a próxima. É como uma corrida de obstáculos.

Para a equipa do FairPlay, espero que venham todos experimentar o triatlo, pelo menos já têm quem faça a parte da natação (risos).


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