21 Out, 2017

Manuel Gaivão, o Globetrotter do Rugby

Francisco IsaacAgosto 30, 201618min0

Manuel Gaivão, o Globetrotter do Rugby

Francisco IsaacAgosto 30, 201618min0

Manuel Gaivão fez de tudo no Mundo do Rugby: jogou, reportou, voluntariou, fotografou, treinou e dirigiu. Uma carreira cheia de histórias, aventuras, testemunhos e experiências com passagem por Mundiais, World Series e finais de campeonatos, onde nem a Família Real inglesa “escapou”.

fpManuel, tu conheceste e fizeste um pouco de tudo no Mundo do rugby: jogaste, treinaste, informaste e voluntariaste. Conta-nos como começou este teu “namoro” com o Mundo do Rugby?

MG. O meu namoro com o rugby começou quando eu era pequenote (não é que seja muito grande hoje). Tratava-se de um fenómeno cíclico que durava pouco mais de um mês todos os anos: o torneio das V Nações. Lembro-me bem das transmissões da RTP2 com os comentários do Cordeiro do Vale. O primeiro e  grande responsável pela minha paixão é um senhor chamando Blanco, Serge Blanco.

fpQuando começaste a jogar e aonde? Lembras-te de algum pormenor das “guerras de placagens e fugas com a oval”?

MG. O meu percurso é concerteza atípico para o habitual fanático do rugby. Muito honestamente, não posso afirmar que tenha verdadeiramente jogado, uma vez que nunca fui licenciado. Eu cresci em Portimão e naquelas paragens não existia (e continua a não existir) nenhum clube que ofereça a prática do rugby. Por isso nunca joguei nas categorias de formação. Assim como no futebol há os brinca na areia, eu limitei-me a jogar por graça ocasionalmente com os amigos na praia. Depois fui estudar para Coimbra e passei a acompanhar o rugby com outra intensidade e vontade de experimentar a sério. Contudo, o nível era muito alto e embora alguns dos meus colegas tivessem singrado na Académica ou na Agrária, eu acabei por me dedicar a outras actividades, embora tenha mantido uma relação sempre próxima com a modalidade. O tempo passou e só já com idade para ter juízo é que voltei a ter tempo para me dedicar mais à modalidade. Quando já no Luxemburgo fui parar ao hospital com costelas partidas por causa de uma spear-tackle de um pilar de 137kg que me aterrou (ou aterrorizou) em cima, achei que já era demasiado tarde para dar cabo da minha vida.

fpÉs um “apaixonado” pela Irlanda e França, em termos de selecções. A França por causa de Blanco, correcto? O que vias no nº15 dos Les Bleus?

MG. Eu admiro imenso o “fighting spirit” dos irlandeses, bem como a garra argentina, mas eu descobri o rugby graças à classe do jogo francês. Quando a França conseguir regressar àquele maravilhoso jogo à mão do passado, o rugby francês voltará a ser grande. Só não sei se isso voltará a acontecer… Quanto ao Blanco, ele era fenomenal: um jogador possante fisicamente, rápido, mas com um sentido de criação que trocava as voltas às defesas adversárias. Em termos de genialidade, era como o Maradona foi para o futebol; felizmente, as semelhanças entre ambos acabam aí…

Entre Dragões e Rugby (Foto: Facebook da Alqateia do Luxemburgo)
Entre Dragões e Rugby (Foto: Facebook da Alqateia do Luxemburgo)

fpSaíste de Portugal para ir para o Luxemburgo que estás à quantos anos? Como tens visto a evolução do rugby aí? Soubemos que Maxime Mermoz, centro da França, participou em actividades com miúdos de formação… como foi?

MG. Estou no Luxemburgo desde 2001. Quando cheguei o nível era muito fraco e a selecção não era mais do que um grupo de amigos que se juntava para curtir umas terceiras partes. Depois chegou um técnico neo-zelandês que conseguiu alterar completamente a maneira como os (poucos) jogadores existentes (o país tem cerca de 700 licenciados entre todas as categorias e géneros) encaravam a modalidade e a evolução tem sido fantástica. Ele voltou para a NZ (para treinar a Bay of Plenty) em 2015 mas deixou a herança bem entregue e o país continua a evoluir com duas subidas sucessivas no CEN e uma promoção nos Sevens. Mas há imenso trabalho a fazer ao nível da formação. O novo DTN está consciente disso e aposta forte na formação desde a mais tenra idade. O meu clube, CSCE, juntamente com uma associação criada para o efeito, organizou este ano um campo de férias exclusivo de rugby para os atletas da grande região (Luxemburgo e vizinhos) e o Maxime que é originário da região foi o padrinho. Foi um enorme sucesso e os miúdos adoraram. A participação dos craques é fundamental para a motivação e aumento do nº de praticantes. Creio que isso também será válido em Portugal.

fpJá estiveste pelo Mundo todo da Oval. Qual foi a tua melhor experiência? Como é ir aos 7’s de Hong Kong? O que há de tão especial lá?

MG. A minha experiência mais extraordinária foi a participação como voluntário no campeonato do Mundo de 2015. Aquela que mais me marcou foi ter sido oficial de ligação da França durante o Algarve Sevens, que me permitiu estar por dentro de uma equipa de alta-competição e sentir-me parte dela graças à fantástica atitude dos técnicos e jogadores gauleses (com quem continuo a manter contacto regular). Estive em vários torneios de Sevens (adoro) e Hong Kong é uma verdadeira loucura, com metade do estádio apenas concentrado na festa. Adorei o Dubai porque, num ambiente similar, há mais gente a ver os jogos. HK tem a seu favor o facto de haver muitos outros torneios em simultâneo na cidade, ser o highlight do rugby em todo o continente e de ter uma comunidade de expatriados enorme. Depois, foi lá que os Sevens tiveram o seu “boom”, pela mão da Beth Coalter, pessoa extraordinária que tive a honra de conhecer e que sempre demonstrou uma abertura e disponibilidade para aturar as minhas mensagens, comentários e sugestões, nunca me deixando sem uma resposta. É uma pessoa que merece ser lembrada pelo actual sucesso da modalidade e muito me satisfez ter lido que o Ben Ryan se lembrou dela logo após à vitória das Fiji nos JO.

fpAlgum episódio mais caricato? As bancadas dos jogos de 7’s são algo mais divertidas que as de XV correcto? Já te mascaraste de alguma coisa?

MG. Eu não tenho muito feitio para as máscaras, porque gosto muito de ver os jogos e absorver as diferentes acções. Assisti a muitos episódios engraçados, mas não posso deixar de me lembrar de um certo Elvis Presley português que conseguiu pôr uma bancada de Twickenham a torcer por Portugal enquanto “culpava” a arbitragem por cada placagem ou passe falhados pelos nossos jogadores.Toda a gente se ria e até o camarote de honra foi vítima do nosso Elvis. Tenho a certeza de que ele e os outros portugueses que estavam nessa bancada se vão rir ao ler estas linhas (se o fizerem, claro).

Voluntário no Mundial (Foto: Facebook da Alqateia do Luxemburgo)
Voluntário no Mundial (Foto: Facebook da Alqateia do Luxemburgo)

fpQuantos mundiais já tiveste a “sorte” de ir ver?

MG. Ao vivo, vi 2007 e 2015. Já tenho um plano para 2019. Para 2011, tinha uma acordo com a minha chefia para ir à Nova Zelândia. Só havia um requisito a cumprir: que Portugal se apurasse. Devo dizer que a contrastar com a minha decepção, havia uma grande sorriso na face do meu chefe francês quando o requisito não se cumpriu. Os dois que vi ao vivo (desde 1995 que vejo pela tv) foram fantásticos. Só tenho um desgosto: em 2007 tinha dois bilhetes para ir ver o Portugal – NZ, mas tive de ir em trabalho para a Guiné Bissau e acabei a ver o jogo na tv num café de Bissau enquanto dois compinchas assistiam ao jogo ao vivo.

No de 2015 foste como voluntariado da World Rugby, participando em várias e determinadas acções. Explica-nos como era o teu dia quando havia jogos?

MG. A minha equipa (city content) era de apenas 6 pessoas e, para além de fazer algum trabalho técnico de actualização do site, 4 pessoas tinham como função obter conteúdos para o site e twitter. Iamos cedo para Twickenham, passávamos uma parte do dia nas fan zones e voltávamos para o estádio perto da hora do jogo. Durante esse tempo, entrevistávamos e fotografávamos pessoas, e gravávamos alguns videos que foram utilizados nos estádios e em canis de divulgação institucionais. Falei com centenas de adeptos de várias equipas durante o Mundial. Foi uma experiência muito enriquecedora. Os adeptos de rugby são os melhores do mundo. Depois era muito satisfatório ver o nosso trabalho ser publicado.Mas também teve os seus episódios caricatos e histórias para a vida, como a participação na cerimónia de abertura (chegada da taça) como porta-bandeira da Argentina.

fpSabemos que conheceste a Rainha… e o Richie McCaw. Qual dos dois gostaste mais de conversar com? O McCaw tentou cometer alguma ilegalidade sem que ninguém visse?

MG. Isso foi outro episódio inesquecível. Desde as sessões de formação que eu tinha sido adoptado pela direcção da comunicação do Campeonato do Mundo por ser “o português maluco que vinha todas as semanas do Luxemburgo para ser voluntário”. A certa altura, estava eu em Gloucester para ver o Escócia – Japão quando recebi um email do Palácio a perguntar se eu estava disponível para ir a uma recepção oficial. Claro que pensei que era uma partida da malta da organização e fui confirmar. Quando tudo ficou esclarecido e confirmado, vi-me no meio dos craques e da Família Real em pleno Palácio de Buckingham. Depois fui quase forçado a ir para a linha da frente e, surpreendentemente, a Raínha dirigiu-se-me e acabámos por falar durante cerca de um minuto. Ela é formidável e super profissional. Uma senhora admirável. Nessa ocasião falei com vários jogadores (passei um bom bocado com os nossos amigos argentinos), entre eles o Richie, a quem disse que tinha de ter cuidado com a as habituais surpresas francesas. Nunca me envergonhei tanto de um “conselho” tão inútil, poucos dias depois… Todos aqueles com quem falei foram muito acessíveis e simpáticos, mas para além dos argentinos, gostei muito de falar com os galeses (Alun Wyn Jones e Gethin Jenkins).

Por Portugal (Foto: Facebook da Alqateia do Luxemburgo)
Por Portugal (Foto: Facebook da Alqateia do Luxemburgo)

fpÉ um ambiente muito tenso estar no meio daquele trabalho todo? Ou há um espírito de “alegria” ao jeito do rugby? Ficaste com contacto de algum colega?

MG. O ambiente foi fabuloso; nunca houve tensão e existiu sempre uma enorme entreajuda, incluíndo entre equipas com funções diferentes (lembro-me de a certa altura, no dia do NZ – França em Cardiff me terem pedido para traduzir as mensagens que iriam ser mostradas no ecrã gigante do Millennium Stadium). Nós tinhamos de ter o site e o twitter sempre actualizados e actuais. Havia sempre muito gozo e partidas, mas também partilha de refeições a correr e havia sempre alguém disponível para dar um conselho. No dia da final apareci com uma caixa de 30 pastéis de nata da melhor pastelaria portuguesa de Londres e até o Brett Gosper foi presenteado com a nossa especialidade.Fiquei com os contactos de muita gente e mantenho contacto regular com a equipa com quem trabalhei directamente tendo já estado com alguns deles durante o London Sevens deste ano.

fpDos vários jogos que viste (que deverão ser múltiplos) na tua vida inteira, algum ou alguns ficaram na tua memória?

MG. Vi muitos jogos, de clubes e selecções, de XV e sevens, mas há um jogo que eu jamais esquecerei (mais do que a final do Campeonato do Mundo): o Portugal – Escócia do Mundial de 2007. Foi um fim-de-semana de sensações fantásticas, um orgulho extraordinário de ser português e a forma como disputámos aquele jogo, o ensaio (mal) negado ao Kiki, o primeiro hino num Mundial, são momentos que perdurarão para sempre na minha memória. Fico com pele de galinha e emocionado só de pensar nisso.

fpPela proximidade que o Luxemburgo tem de França, adivinhamos que já foste até lá para assistir alguns encontros. Conviveste com jogadores pós-jogo? Como são os atletas do «Top14»

MG. Curiosamente, nem por isso. Mas quando fui, não tive muito tempo para ficar porque há sempre alguma pressa em voltar ao Luxemburgo. Mas lembro-me bem de quando fui a Montpellier ver um jogo com o Bayonne com uma ajuda do Gonçalo Uva no que respeita aos bilhetes (mais uma vez, obrigado). No final do jogo, toda a gente ia para a “bodega”, (leia-se bar) e os jogadores vinham falar com os adeptos e beber um copo. Um ambiente super saudável. Pelo que sei, esta experiência é comum em vários estádios.

fpE o que achaste dos Jogos Olímpicos? Valeu a pena esta “reunião” ao fim de 88 anos?

MG. Os Jogos foram fantásticos. Só lá faltaram as equipas portuguesas para ser perfeito. Creio que foi uma aposta claramente ganha e funcionou muito bem quer para o Comité Olímpico, quer para a World Rugby. A qualidade de jogo nem sempre foi extraordinária, mas a emoção e empenho dos/das jogadores/as fizeram o torneio sobressair e tenho a certeza de que o rugby conquistou novos adeptos. Espero que o desempenho da equipa japonesa garanta a manutenção do torneio nos Jogos de Tóquio 2020. Até porque me faria voltar a candidatar para ser voluntário nuns JO.

Nas alturas com Jonny Gray (Foto: Facebook da Alqateia do Luxemburgo)
Nas alturas com Jonny Gray (Foto: Facebook da Alqateia do Luxemburgo)

fpUma opinião pessoal… melhor jogador português que tiveste o prazer de conhecer? E treinador?

MG. Essa pergunta é difícil por diversos motivos. Portugal teve excelentes jogadores e muitos deles não conheci pessoalmente (outros são de gerações anteriores à minha e só ouvi falar deles). Dos que conheço, podia falar-te de nomes mais ou menos óbvios como o Pipoca ou o Vasco Uva, mas aquele que me enchia verdadeiramente as medidas quando jogava (e jogava numa posição que adoro) era o Diogo Mateus. Extraordinário dentro do campo com uma raça fantástica, um sentido de jogo notável, mas uma serenidade, uma humildade e uma disponibilidade fora dele: é a imagem de marca daquilo que eu gostaria de ver em cada jogador português. Treinadores conheço poucos, mas creio que o Tomaz terá sempre um lugar especial no coração daqueles que seguem o rugby português com a paixão, a emoção e o único objectivo de ver o nome de Portugal lá em cima.

fpJá fizeste, também, parte de comissões anti-doping, para além dos outros vários tipos de voluntariado… como foi a experiência? Complicado?

MG. Bem, já tive a oportunidade de fazer várias coisas diferentes e todas elas foram bastante interessantes. A experiência do anti-doping foi uma delas, onde conheci pessoas excepcionais, com uma enorme capacidade de partilha e nada egoístas. Fiz, inclusivamente, parte da equipa de chaperones do anti-doping de uma etapa do Circuito Mundial de Sevens, após ter surgido um convite que permitia conciliar as férias já planeadas nesse local com a minha mulher (que sempre tem apoiado estas maluquices todas). Adorei, porque é uma forma de estar nos corredores do estádio, nos balneários e no próprio relvado. Uma forma de me sentir parte do jogo, sabendo que os meus skills nunca dariam para colocar um pé naqueles palcos enquanto jogador.Toda a gente sabe que o controlo existe e há, por vezes, alguma tensão e algumas “bocas” mas a idade e a experiência prodfissional ajudaram-me a lidar com naturalidade e sem stress com isso. E depois, há os episódios trágico-cómicos…

fpCasado e com três filhos, é intenso entrares nestas “aventuras” rugbistas todas… os teus filhos já acompanham-te nestas “vidas”?

MG. Sim, claro. Para além de uma enorme paixão por Portugal (aprenderam a cantar o hino com muito tenra idade graças aos jogos dos Lobos na tv), dois já jogam e o mais velho é um verdadeiro apaixonado pelo jogo. Muito cedo foram habituados a ver jogos ao vivo e a sua primeira experiência a acompanhar Portugal ao vivo foi no London Sevens de 2010 (os mais velhos nasceram em 2007 e 2009). O mais pequeno ainda não consegue manter a atenção por muito tempo mas também já foi ao VI Nations, ao Circuito Mundial de Sevens e já viu Portugal jogar em XV. A minha mulher tem sido sempre um enorme apoio e também ela é uma aficionada do jogo. Já estão viciados…

fp. O que te falta para completar o  teu Mundo de “aventuras” pelo Universo do Rugby?

MG. Muita coisa, porque eu sou um eterno insatisfeito e estou sempre a fazer planos: só vivemos uma vez e há que aproveitar a vida que temos ao máximo. Na nova época vou continuar a ajudar o meu clube mas juntarei as funções de treinador dos U8 à de tesoureiro. Continuarei a colaborar com a FLR e a acompanhar o mais possível as equipas portuguesas que joguem fora de Portugal. Como disse, planos para o futuro tenho sempre muitos: na nova época queria muito ir a Vegas ver Portugal nos Sevens, mas esse projecto caiu; agora quero ir ver o Mundial de Sevens em São Francisco em 2018. A verdade é que gostaria de poder dedicar-me em exclusivo ao rugby (evidentemente não como espectador) mas a minha situação pessoal e profissional não permitem pensar nisso a curto prazo. Adorava trabalhar na área do desenvolvimento e implementação deste maravilhoso desporto. Mas há sempre outras vias a seguir. Entretanto, vou coleccionando objectos para o meu utópico projecto para a reforma: o Museu do rugby português. Mas o sonho comanda a vida…

Na rota da Oval (Foto: Facebook da Alqateia do Luxemburgo)
Na rota da Oval (Foto: Facebook da Alqateia do Luxemburgo)


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