20 Ago, 2017

Guardiola e Mourinho, pelo olhar de Rui Lança

António Pereira RibeiroOutubro 6, 20168min0

Guardiola e Mourinho, pelo olhar de Rui Lança

António Pereira RibeiroOutubro 6, 20168min0

Que características distintivas fazem com que dois dos melhores treinadores de futebol da actualidade se destaquem dos demais? E que tendências comportamentais os separam um do outro? Rui Lança, especialista na áreas de liderança e coaching, procura dar resposta a estas questões no seu mais recente livro, ‘Guardiola + Mourinho – Mais do Que Treinadores’. O Fair Play decidiu entrevistar o autor, com o intuito de levantar a ponta do véu de uma obra essencial sobre a arte da liderança.

fp. Em ‘Guardiola + Mourinho – Mais do Que Treinadores’, exploras as diferenças existentes entre o tipo de liderança de Mourinho e de Guardiola. Como é que nos podes descrever sinteticamente as principais diferenças entre estas duas figuras?

RL. Acredito que tenham também eles muitas coisas em comum, até porque a este nível de competição e competitividade existirão muitos denominadores comuns. Diferenças: Mourinho aponta mais à cabeça dos jogadores e Guardiola ao coração. O que isto quererá dizer? Mourinho mais estratega no que diz respeito ao fazer sentido das acções colectivas, a ter uma causa que seja superar-se a alguém, enquanto Guardiola mais visionário em termos daquilo que quer superar o seu próprio desempenho e da sua equipa. Do ponto de vista comunicacional, Mourinho muito perspicaz e com isso antecipa muito o que tem de ser feito e dito para alcançar os seus objectivos, enquanto Guardiola continua a ser mais genuíno, apesar de ter alterado algumas coisas durante a sua passagem por terras alemãs.

fp. No meio de tantas diferenças, existe espaço para semelhanças? Quais são as que mais se destacam?

RL. Foco, disciplina de trabalho, exigência, colectivo sempre à frente do individual. Diriam que são estas as principais semelhanças.

fp. Qual é a metodologia de trabalho possível para quem não tem acesso privilegiado aos balneários onde estes treinadores operam? Como obtiveste o material empírico necessário para corroborar as conclusões da investigação?

RL. Esta questão agrupa duas enormes e importantes questões: O ser humano naquilo que são as ciências sociais, onde se agrupa as nossas lideranças e comportamentos individuais e colectivos é constituído pelas nossas cognições, crenças e emoções. Ou seja, o que fazemos, o que pensamos e o que sentimos durante as acções ou sobre os respectivos pensamentos. E aqui, goste-se ou não, é possível visualizar, aferir acções através de indicadores, analisar e perceber quais os padrões de acções. Crenças ou opiniões sobre determinados assuntos é possível perceber através de entrevistas e intervenções dos treinadores. As sensações são as mais complexas e difíceis de aferir. Depois, existe este lado de quem faz e existe o lado de quem está a ser liderado e por isso é possível averiguar muita informação através dos outros. Se um treinador diz que o que pensa sobre determinado assunto e os atletas corroboram é uma coisa. Se um treinador diz que numa determinada situação faz A porque acredita que é o melhor, e vinte atletas dizem que nessas situações o treinador faz B, há indicadores de incoerência comportamental. Resumindo, estar com as pessoas é sempre muito melhor. Mas não deixa de ser deturpado, porque é a nossa visão sobre o comportamento. Por isso o ideal é também fazer o cruzamento de conteúdos de intervenções e entrevistas, que juntamente com observações de jogos, acções, entrevistas, nos dá mais informação. E como deve ser fácil compreender, material sobre estes dois treinadores é o que não falta!

fp. Conta-nos alguns episódios verídicos que retratem a forma de trabalhar dos dois técnicos.

RL. Há muitos. Seria difícil escolher o melhor, até porque o livro foca as áreas da comunicação, liderança, gestão de objectivos, egos, conflitos, retóricas, motivação e equipas. E estes treinadores têm denominadores comuns mas também têm um talento enorme, que é serem flexíveis. Um mais do que o outro na minha opinião, mas existem muitos episódios. E hoje, Mourinho é menos fora da caixa do que era, surpreende-nos menos. Guardiola menos genuíno e com isso, na minha opinião, aproximou-se mais de alguma autoridade imposta e não sempre reconhecida, até porque seria difícil fora do mundo Barça ele manter aqueles estilos.mw-680

fp. Existem plantéis perfeitos para Mourinho e Guardiola? Com que tipo de personalidades encaixam melhor?

RL. Diria que o plantel perfeito para Mourinho foi o do seu 1.º Chelsea e o do Inter. Que nem foram os melhores conjuntos de jogadores que ele teve à sua disposição. Mas percebendo a questão, eram jogadores que queriam demonstrar algo ‘aos outros’, queriam provar que estavam vivos. E que acreditavam que Mourinho os ia levar a esse local sagrado. Jogadores com técnica, mas acima de tudo, com níveis de atitude elevados ao máximo. Guardiola por aquilo que são os seus ‘êxtases’ de querer reinventar-se e o que as suas equipas produzem, Barcelona só houve um. E este City que até se reforçou de um modo meio estranho, está a dar uma prova daquilo que é um dos maiores talentos do catalão: o pensamento comum nas equipas, colocar rapidamente todos a perceber o que ele quer. Se o conseguem concretizar, é outro ponto.

fp. Para além destas duas figuras incontornáveis do futebol mundial, existe algum treinador que se aproxime do nível de Guardiola e de Mourinho?

RL. A velha discussão do que é um grande treinador…a sociedade apenas os avalia pelo resultado infelizmente. No futebol existem alguns que são apaixonantes também e com diferentes estilos e perfis. O Simeone, Tuchel, Ancelotti, etc. Mas depois existem casos como o ex-treinador do Sevilha que vence muito com aquele plantel, chega ao PSG e parece que uma equipa com mais do que condições para passear em França, perde fulgor. A verdade é que se queremos avaliar pelos títulos, é uma coisa. Pelos processos existem muitos interessantes de acompanhar. Até em Portugal.

fp. Sobre a actual luta entre os dois na Premier League, quem vai levar a melhor? Por alguma razão especial?

RL. A viagem é longa e no início da Liga Mourinho disse que seria melhor eles não se preocuparem apenas um com o outro. Fevereiro e Março fazem muito estrondo naquela Liga, por isso, depende se o City vai estar em condições de atacar a Liga dos Campeões e como vai decorrer o suposto passeio do United pela Liga Europa. Não aposto em nenhum, mas apostaria que Arsenal e Tottenham podem intrometer-se.

fp. Aproveitando o mote do teu título, resolve-nos a seguinte operação matemática. Guardiola mais Mourinho é igual a…

RL. Novas descobertas e boas naquilo que é a liderança nos seres humanos e a capacidade inigualável que o desporto nos dá, que é colocar muitos egos enormes a lutarem por um objectivo comum. Guardiola e Mourinho dar-nos-ão durante alguns anos matéria interessante para se estudar e aprender.

Rui Lança é Coach e Formador nas áreas do Coaching Individual e de Equipas, Liderança de Equipas em empresas, equipas desportivas ensino universitário. Coordena formação na área dos treinadores, líderes e equipas de trabalho e desportivas. Autor de diversos livros entre eles o ‘Coach to Coach’, ‘Reservado’, ‘Como formar equipas de elevado desempenho’. Colaborações regulares na comunicação social portuguesa na área motivacional, desportiva e de equipas. Para mais informações sobre o autor, pode consultar a sua página oficial.


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