20 Nov, 2017

Francisco G. Vieira. “Cantar o Hino faz-me sentir parte da História de Portugal “

Francisco IsaacAbril 12, 201717min1

Francisco G. Vieira. “Cantar o Hino faz-me sentir parte da História de Portugal “

Francisco IsaacAbril 12, 201717min1

Em L’Aquilla, em Itália, mora um “mini” português que tem objectivos de “gigante”. Francisco G. Vieira, jogador da Seleçcão Nacional de 7’s e XV, conta a sua história, os seus episódios mais “cómicos” e explica qual é a sua forma de estar no rugby. Uma entrevista em exclusivo do Fair Play

fp. Francisco, porquê a alcunha de Mini? E os italianos do Gran Sasso já arranjaram uma correspondência em italiano?

FGV. Mini vem de Mini-Vieirinha, que é a alcunha completa. Foi me dada por um treinador do meu irmão mais velho por achar que eu era a sua versão em miniatura. Naturalmente foi evoluindo para Mini por ser mais rápido e fácil de dizer e, apesar de já não se adequar hoje em dia (risos), ficou!

Por aqui, para já, ainda não houve correspondência e todos me chamam Franci ou simplesmente Fra, é mais fácil.

fp. Como foi chegar a Itália? Estás a gostar dos primeiros meses em L’Aquilla?

FGV. Foi difícil! Um recepção que ninguém pode esperar ou sequer imaginar, 1 semana em L’aquilla e já tinha experienciado temperaturas negativas, “preso” em casa com as ruas bloqueadas de neve e pior, terramotos, vários!! Apesar de tudo, ultimamente tem estado mais calmo e com bastante sol e nestas condições atmosféricas é de facto uma maravilha viver a paisagem inspiradora, calma e serena em que estou inserido.

fp. Para os nossos leitores explica em que divisão jogas e como se “vive” o rugby em Itália?

FGV. Jogo na série A, que é  a 2ª divisão Italiana. A 1ª fase do campeonato é constituída por 4 grupos de 6 equipas com uma distribuição de equipas por proximidade, ou seja, quase como se fosse um campeonato regional jogado a 2 mãos.

Na 2ª fase do campeonato, é mantida a estrutura dos 4 grupos contudo há uma reorganização, formando 2 grupos que vão lutar por um play-off de acesso (jogo entre os vencedores dos 2 grupos) à 1ª divisão (Campeonato Excellenza que é totalmente profissional) e outros 2 grupos que vão lutar pela manutenção.

Para a Excellenza apenas sobe uma equipa e consequentemente desce outra, enquanto que para a série B descem 4 equipas, tornando a luta pela manutenção bastante interessante. Neste momento o Gran Sasso Rugby está inserido no grupo de equipas que luta pela manutenção.

Sendo uma seleção que joga as 6 nações e é presença regular em Mundiais, penso que, comparando com Portugal, há um maior conhecimento do que é o rugby, há mais adeptos e os clubes têm uma melhor estrutura tanto física como financeira à volta da equipa. L’Aquila é uma cidade com história no rugby Italiano e pelo que vou vendo, o Rugby é Rei nesta cidade.

Os Jogadores não são vistos como superestrelas, mas sente-se um olhar de respeito e de alguma admiração pelas pessoas da cidade. Por exemplo, no ginásio que patrocina a equipa, um senhor que treinava ao mesmo tempo que eu veio-me cumprimentar e dar os parabéns pela vitória no fim-de-semana. É uma cidade com 2 clubes na série A e o principal clube (L’Aquila Rugby) tem condições que muitos clubes de Futebol da 1ª divisão em Portugal não têm, para além de que está na luta pela subida à 1ª Divisão,  onde já foi campeão algumas vezes.

fp. Tiveste de modificar algo no teu jogo para te dares melhor com a realidade italiana? Sentes uma diferença física entre os portugueses e italianos?

FGV. Felizmente não, apenas pequenos pormenores tácticos e colectivos, como já seria de esperar.

Sim, acho que o pack de avançados na sua totalidade é mais alto e mais pesado e nos 3/4s os centros é onde noto mais diferença, com centros  fisicamente poderosos em todas as equipas contra quem já joguei.

Francisco G. Vieira no ar (Foto: Facebook do Próprio)

fp. E neve, já treinaste nessas condições ou mesmo jogaste? As placagens são mais “geladas”?

FGV. Já sim, o meu primeiro treino de campo (uma semana depois de ter chegado) foi num sintético “emprestado” pelo principal clube da cidade (uma vez que o nosso campo estava congelado) e a cada passo que dava conseguia enterrar as chuteiras e ficar com neve até aos tornozelos! Diariamente treinamos com temperaturas entre os -2 e os 3 graus por isso, sim! as placagens são bastante mais geladas!

Lembro-me que num dos meus primeiros treinos no nosso campo, estavamos a fazer um treino de jogo ao pé e tive de dizer ao Treinador que não sentia os pés e que não conseguia chutar de tão frio que estava. Felizmente já me fui aclimatizando e agora, já não é tão difícil enfrentar o frio como nas primeiras semanas.

fp. A mudança para Itália como foi feita? Sentiste que aos 23 anos era altura de experimentares uma transferência para o estrangeiro?

FGV. Quase de um dia para o outro! Estava em contacto com um agente para a próxima época ter um experiência profissional no estrangeiro e de um momento para o outro esse mesmo agente disse-me que havia um clube em Itália que precisava de um jogador com as minhas características, e perguntou-me se podia começar a negociar a minha vinda, após alguma consideração disse-lhe que sim e em 3 dias estava tudo tratado.

Sempre tive o bichinho de ser atleta profissional, como muitos miúdos portugueses, obviamente começou por querer ser futebolista, contudo a vida levou-me para o rugby e desde aí que sempre gostei de levar o rugby talvez um bocado mais a sério do que o “normal”, mas sem nunca esquecer os estudos (tenho uma licenciatura em Desporto e Educação Física e estava no 2º ano de Mestrado em Treino de Alto Rendimento Desportivo).

Sempre acreditei que antes de tentar um experiência profissional, deveria ter um curso superior e conseguir alguma afirmação em Portugal que passava por representar a seleção. Nunca consegui chegar às seleções jovens, mas, sem nunca desistir, fui treinando, pedindo ajuda a treinadores e pessoas ligadas ao desporto, fui aprendendo e treinando ainda mais, e assim fui dando pequenos passos e alcançando pequenas vitórias até alcançar um dos Principais objectivos: Representar a Seleção Nacional.

Todo esse processo só aliementava ainda mais o bichinho e me ia dando mais e mais vontade de ter uma experiência profissional. Depois de já ter representado a seleção e ter um curso superior, tinha a minha autorização para tentar uma experiência no estrangeiro e então começei a ver o que era preciso fazer e como fazer e neste processo inicial tive uma enorme ajuda do meu Tio que é Agente de Futebol.

fp. E o teu CDUP, sobrevive sem o Mini?

FGV. Nenhuma equipa depende de um só indivíduo e o CDUP não é diferente. Sempre foi uma equipa habituada a “perder” jogadores ou por questões de estudos ou por questões profissionais e mesmo assim nunca deixou de ser um histórico clube do rugby nacional. Sempre foi um clube que vai à luta independentemente das condições em que se apresenta e sem mim na equipa não vai ser diferente. Felizmente há muito talento no CDUP à espera de explodir, esperem para ver!

fp. A equipa da Cidade do Porto está em franco crescimento, concordas? Achas possível um apuramento para a fase final na próxima temporada?

FGV. Claro que sim, tem sido feito um óptimo trabalho alicerçado numa visão para o futuro e o ambiente jovem, positivo e ambicioso que se vive diariamente no CDUP só pode resultar em algo muito bom. Para além disso, somar alguns regressos importantes a uma geração jovem habituada a conquistas nas camadas jovens e que a cada dia se afirma mais e mais neste escalão, é uma receita muito boa para levar o CDUP a disputar novamente o campeonato nacional Sénior.

It’s 7’s time! (Foto: FPR)

fp. Qual é o vosso segredo para o espírito de União que se vive entre as “tropas” do CDUP?

FGV. A incessante luta que enfrentamos diariamente para conseguir jogar rugby ano após ano. Isso faz com que tenhamos uma causa comum dentro e fora do campo dando real valor à citação de shakespeare “for he today who sheds his blood with me shall be my brother”, sentimos uma grande irmandade dentro da equipa desde muito cedo.

fp. Episódio mais caricato que viveste na equipa portuense?

FGV. Talvez quando era treinador dos sub-16, ainda muito jovem e inexperiente. Lembro-me que quis reprimir alguma acção ou atitude de um dos miúdos e a meio quando me calei e fiquei só com uma cara muito séria a olhar para eles, comecei a aperceber-me da expressão que tinha na cara e de que estavam todos, em silêncio, muito focados em mim.

Não consegui manter a postura e saiu-me um sorriso que imediatamente passou a riso incontrolável e que contagiou os miúdos e os outros treinadores que igualmente se começaram a rir! Foi um momento bastante engraçado!

fp. Como foi chegar à Selecção Nacional? Há mesmo aquele sentimento de orgulho, paixão e raça quando toca o Hino Nacional?

FGV. Lembro-me como se fosse hoje quando recebi a chamada a perguntar se estava disponível para ir a Hong Kong e para avisar em casa que ia estar do outro lado do mundo durante 2 semanas. Calmamente respondi que sim, claro que estaria disponível, agradeci a oportunidade e desliguei o telemóvel.

Mal desliguei o telemóvel saltei e berrei de alegria, como se estivesse num estádio de futebol e tivesse acabado de marcar um golo decisivo num derby que dava o campeonato à minha equipa. Acho que se ouviu no prédio todo “VAMOS!!!”. Liguei imediatamente às pessoas mais próximas com as notícias que sempre quis dar “Fui convocado para a seleção!!”.

Apesar deste momento de êxtase, a minha chegada à seleção e ao ambiente do CAR Jamor não foi de um dia para o outro. Tudo começou com uns treinos em Aveiro para a Seleção Nacional  de Sevens Universitários no início de 2013, uma seleção que acabou por cair por terra, depois, no Outono de 2014 fui convocado para a Seleção regional de Sevens que, depois de alguns treinos, informaram-me que ia começar a treinar em Lisboa com Seleção Nacional de Sevens(SNS), azar dos azares no jogo imediatamente a seguir a receber essa notícia fracturei um osso no punho.

Contudo fui na mesma a Lisboa com uma tala na mão e fiz os testes físicos, falei com o Professor Tomaz Morais que me disse para não me preocupar que estavam atentos ao meu trabalho e quando recuperasse da lesão voltaria a treinar com a SNS. Assim foi. Recuperei o mais rápido que pude e voltei a treinar. No fim da época de 2014/2015 fui convocado para o GPS Lyon. Na época seguinte comecei a treinar com a Seleção Nacional de XV e em Novembro estreei-me em Hong Kong no 2º  de 3 jogos.

A primeira vez que cantei o Hino em Hong Kong, estava constantemente a começar em falso porque a minha vontade era tanta que só queria começar a cantar. Mas sem dúvida que nunca hei de esquecer a primeira vez que cantei o Hino em Portugal, os arrepios pelo corpo inteiro! Falando por mim, cantar o Hino faz me sentir parte da história de Portugal e ao mesmo tempo é como uma justificação para todo o esforço que foi preciso para chegar ali, uma confirmação de que todo o sacrifício não foi em vão e valeu bem a pena.

fp. Gostaste mais de jogar no Campeonato da Europa ou preferiste estar no World Series dos 7’s?

FGV. É diferente, nos sevens pude jogar contra estrelas que só via na televisão, em cidades paradisíacas e em frente a 50 000 espectadores, e ter uma vida de jogador profissional, enquanto que no XV pude ter essa mesma vida, ou parecida, em Portugal, representar Portugal em Portugal, sentir o apoio dos adeptos português e cantar o Hino.

Em ambos tive a oportunidade de jogar lado a lado com grandes referências nacionais como o Vasco Uva, Diogo Miranda, Gonçalo Foro, Adérito Esteves, David e Diogo Mateus, Pedro Leal e por isso não posso dizer que preferi estar mais num sitio do que no outro, ambos foram experiências inesquecíveis e marcantes, pelas quais tudo vou fazer para repetir.

Três pontos para o Mini (Foto: Luís Bandeira Fotografia)

fp. Quando chegaste às selecções tiveste de conviver com algum colega de equipa que tinhas uma relação, diguemos, menos simpática no Campeonato Nacional?

FGV. Nunca fui pessoa de ter inimigos e muito menos de criar inimigos, dou-me bem com toda a gente!

fp. Chegaste a defrontar a Nova Zelândia, correcto? O que é a equipa pensa quando defronta uma equipa de topo dos World Series?

FGV. Acho que a magia dos Sevens está ai mesmo, apesar de haver equipas que geralemente tendem a ser mais fortes, num dia qualquer podem perfeitamente ser batidas, e  em todos os torneios há uma “surpresa”, e isso é algo que está sempre presente no nosso pensamento, bem como a forma de jogar e os processos da equipa, o aproveitar a oportunidade ao máximo e representar Portugal o melhor possível.

fp. Achas que teremos a oportunidade de regressar a essas andanças? O que é nos falta para voltar a disputar as World Series?

FGV. A oportunidade estará sempre lá! Cabe-nos a nós, e só a nós, agarrá-la! Temos de ter essa fome de querer voltar! E temos de ter essa fome bem presente em tudo o que fazemos! Seja, no ginásio, na pista, no campo ou fora do campo! Temos de criar um projecto a médio longo prazo e nos orientar para esse objectivo, trabalhar nele diariamente, torná-lo uma obsessão.

fp. Saudades do Porto? Se pudesses escolher três coisas da Invicta para trazer para Itália o que seriam?

FGV. Sempre! Sou um Tripeiro muito orgulhoso!

Da cidade em si, trazia sem dúvida o Mar e o Parque da cidade e talvez o estádio do Dragão (risos)!

fp. A quem deves o teu “carinho” pelo rugby? Tens algum episódio marcante com a modalidade?

FGV. Acho que o meu “carinho” pelo rugby deve-se, aos grandes treinadores que foram passando pelo meu percurso formativo, por toda a dedicação, conhecimento, amizade e valores que foram transmitindo, aos amigos que fui criando em todas as equipas e ao tão característico espírito do rugby. Sempre senti que a minha personalidade se encaixa perfeitamente com aquilo que é este desporto.

Episódios marcantes tenho vários! Bons e maus! Felizmente são tantos que não consigo ter só um,  como o primeiro treino no CDUP, as tantas e inoportunas lesões, as viagens de camioneta pelo CDUP, os campeonatos e taças conquistadas, os jantares de equipa, o primeiro jogo nos séniores, a primeira vez que fui capitão nos sub-16 e a única vez que capitaneei os séniores do CDUP num jogo de sevens, a primeira internacionalização e o primeiro ensaio por Portugal, o primeiro torneio com a SNS, os 2 primeiros torneios nas World Rugby Seven Series, o Safari Sevens onde tive a honra e o orgulho de ser capitão, inúmeras memórias marcantes que só uma família como a do Rugby me poderia passar. No fundo o rugby teve um grande impacto em mim e se me pedirem para escolher um episódio marcante, não consigo, felizmente, são demasiados!

fp. Ficas por Itália mais quantos meses ou tencionas voltar para Portugal em Junho? Foste só “desportivamente” ou também houve uma motivação profissional?

FGV. O meu contrato com a Gran Sasso Rugby acaba no fim desta época mas a minha experiência profissional é para continuar.

fp. Que mensagem queres deixar aos nossos leitores do Fair Play, à tua família, amigos e comunidade do rugby Nacional?

FGV. A principal mensagem é de agradecimento a todos aqueles que apoiam o Rugby e são fulcrais no desenvolvimento da nossa modalidade!

Continuem a apoiar e viver intensamente o nosso Rugby e façam-no chegar ao maior número de pessoas possível! Dentro ou fora de campo, todos temos um papel a desempenhar no desenvolvimento da modalidade em Portugal.

Quero especialmente agradecer a todos aqueles que me são mais próximos, nomeadamente Família, Namorada e amigos por todo o apoio, motivação e acima de tudo paciência e compreensão!

A família do CDUP (Foto: Facebook do Próprio)


One comment

  • Carlos Carta

    Abril 13, 2017 at 7:34 am

    Parabéns por viver o Sonho. Um abraço.

    Reply

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